Por trás da cortina: os musicais da Broadway e Wicked

Por Fernanda Correia

Para podermos entender o fenômeno Wicked, precisamos entender uma parte essencial do sucesso dessa história: a Broadway.

A Broadway é uma rua de Nova York que ficou famosa por ter diversos teatros em seu endereço. Aos poucos, tais teatros foram ocupados por musicais. A primeira peça a ser apresentada no endereço foi em 12 de setembro de 1866, inaugurando uma período de comédias musicais. Os espetáculos eram diversos quadros de comédia, intercalados por dançarinas em roupas sensuais que animavam o público enquanto as atrações se preparavam.

Aos poucos, os produtores perceberam que os números musicais faziam sucesso e as dançarinas queriam mais do que simplesmente entreter enquanto os números não estavam prontos. Por isso, começou-se a pensar em um tipo de peça que integrasse tudo: canto, dança, figurino e cenário para contar a história.

O primeiro musical foi Snow Boat (1927), uma comédia musical que utilizava as canções para dar continuidade à narrativa. À época, os musicais eram mal vistos por serem muito populares, no sentido de serem baratos e de mais fácil entendimento do que as óperas.

Nos anos 1930 houve o estabelecimento do tipo de peça, tendo em Anything goes (1931) o estabelecimento de como seriam as produções e da Broadway como o local das peças musicais. Anything goes acompanha a história de personagens malandros que conseguem um trabalho em um cruzeiro. O musical é conhecido por grandes números de sapateado vinculado ao canto.

Nas décadas de 1940 a 1960, é a chamada Golden Age da Broadway. Os musicais geralmente são repaginações de histórias clássicas, como West side srtory que reimagina Romeu e Julieta ou My fair lady que reimagina Pigmalião. São musicais em que quase não há falas, sendo as canções que realmente contam as histórias. Muitos dos musicais desse período também foram adaptados para Hollywood, tendo versões cinematográficas mais famosas do que suas versões de palco, como é o caso de My fair lady que ganhou versão para os cinemas com Audrey Hepburn.

Os anos 1970 e 1980 são os dos blockbusters, musicais que são grandes produções e que ficaram anos em cartaz. O mais famoso talvez seja O fantasma da ópera que, ao fechar as portas em 2023 chocou a todos por ser o musical mais longevo em cartaz, uma vez que estreou em 1985. É desse período alguns dos títulos mais conhecidos dos musicais, como o já citado Fantasma, mas também Les Mis, Hair, Chicago e The wizard of Oz.

Nos anos 1990, Jonathan Larson começa uma grande mudança. Com Rent, ele introduz instrumentos como guitarra e bateria e traz a música pop e o rock para os palcos. Com isso, inaugura o período das pop operas e na sequência dos mega musicals. São peças que exigem uma produção gigantesca, com cenários imensos e efeitos especiais.

Além de Wicked, Hamilton também deu novo fôlego à Broadway tornando-se fenômenos mundiais e com ingressos esgotados com até dois anos de antecedência. Lin-Manuel Miranda surge com In the Heights e traz o hip hop e a cultura latina para a Broadway.

Stephen Schwartz é o nome responsável por Wicked. Na Broadway, ele assina os espetáculos Godspell (1971), Pippin (1972), The Hunchback of Notre Dame (1999 Berlin), Wicked (2003), The Prince of Egypt (2017). No cinema, Schwartz trabalhou majoritariamente com a Disney, sendo responsável pelas letras de Pocahontas, O corcunda de Notre Dame, Encantada e Desencantada

Wicked adapta o livro de Gregory Maguire que imagina a infância e juventude da Bruxa Má do Oeste, Schwartz faz diversas modificações ao livro, tornando a história sobre a amizade entre as Bruxas do Oeste e do Norte, mas principalmente sobre como a Bruxa Má foi sendo levada para a revolta e à não conformação por conta do preconceito sofrido devido à sua pele verde.

Da mesma forma que O mágico de Oz, história que acabou abraçada pela comunidade queer, Wicked foi abraçado por minorias que se viram no lugar da Bruxa verde, nunca ouvida e sempre tratada como uma aberração. Quando ela finalmente se posiciona e se coloca contra a pressão da sociedade, é vista como má e perigosa.

As diferentes interpretações possíveis, com o isolamento da Bruxa verde podendo ser lido como diferentes tipos de preconceitos que existem no mundo real, fizeram com que Wicked ganhasse proporções imensas, tornando-se um sucesso não apenas na Broadway, mas também mundial.

Gregory Maguire já se pronunciou sobre as diferentes leituras que o público faz de sua história e acredita que faz sentido e cada um consegue ter empatia pela Bruxa por diferentes razões. Antes de olharmos para a peça, precisamos olhar para a obra que deu origem.


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Fernanda Correia é doutora em literatura tolkieniana no Mackenzie-SP e a maior fã de Wicked possível


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