Por Fernanda Correia
No dia 30 de outubro de 2003, estreou na Broadway Wicked – The untold story of the Witches of Oz (em português, Wicked – A história não contada das Bruxas de Oz). Os direitos de adaptação do livro de Gregory Maguire estavam com a Disney quando Stephen Schwartz ouviu de um amigo a trama de um livro que ele havia acabado de ler.
O livro era Wicked, porém o amigo de Schwartz estava bêbado e não lembrava os detalhes da história com precisão. Schwartz foi imediatamente depois procurar como estavam os direitos de adaptação do livro e os descobriu com a Disney. No entanto, o estúdio estava encontrando dificuldade para realizar uma adaptação coerente com as produções da Disney, uma vez que a trama era demasiado política para eles.
Como Schwartz já havia trabalhado com eles anteriormente, conseguiu que eles cedessem os direitos de adaptação para que pudesse trabalhar no musical que já imaginava em sua mente. No entanto, a história confusa que o amigo havia lhe contado oferecia uma possibilidade melhor para sua peça que começava a ser escrita.
Assim, o pai de Elphaba e Nessarose deixa de ser um pastor e passa a ser o governador da Terra dos Munchkins e não há um terceiro filho. Elphaba e Glinda se tornam colegas de quarto, enquanto Nessa apenas não anda. Fyero é um príncipe bon vivant que encanta a todos e não tem cristais espalhados pelo seu corpo. A trama política e a filiação de Elphaba são mantidas, mas ganham contornos de meros panos de fundo. O que ganha destaque na história é como as duas bruxas foram de rivais para melhores amigas e, finalmente, inimigas. Toda a peça é acompanhada como uma grande lembrança de Glinda após a morte de Elphaba com o balde d’água de Dorothy.
A mudança se deu por conta dos primeiros ensaios. As atrizes que faziam Elphaba e Glinda apresentaram muita química em cena e Schwartz decidiu reescrever o musical em torno daquela amizade. A escrita e produção do musical durou cerca de três anos e meio até a estreia pré-Broadway em São Francisco. Os musicais geralmente passam por algumas sessões teste em cidades mais baratas para realizar as produções antes de estrearem oficialmente em Nova York.
Visualmente, o musical dialoga diretamente com o filme de 1939, ainda que algumas coisas tenham sido mudadas, como os sapatos de brilhante da Bruxa Má do Leste e a cor do vestido de Glinda, a Boa. O vestido rosa e os sapatos de rubi são propriedade intelectual da MGM e não tiveram sua imagem liberada para a peça. Por isso, os sapatos voltam para a cor original dos livros, prateados, e o vestido vira azul.

Além disso, Elphaba é verde, as roupas dos munchkins e as meias listradas de Nessa remetem ao filme. Também nas músicas é possível reconhecer a obra cinematográfica. O primeiro solo de Elphaba, The wizard and I, apresenta acordes de Somewhere over the rainbow, música cantada por Judy Garland ao final de O mágico de Oz.
O musical abre com No one mourns the wicked, canção tradicional nos modelos de musicais, fazendo uma espécie de resumo e organizando tudo o que a audiência precisa saber antes de começar. Há alguns acordes vindos diretamente de Ding Dong (the Witch is Dead), canção que os munchkins cantam quando Dorothy sai de sua casa no filme. Kristin Chenoweth, a Glinda original da Broadway, já disse em algumas entrevistas que pediu para que seu soprano fosse utilizado na canção e, sempre que Glinda está cantando muito agudo, ela está mentindo.
As músicas do primeiro ato apresentam a estratégia de foreshadowing, ou seja, narram nas letras das canções detalhes e situações que fazem referência ao que acontecerá no segundo ato com os personagens. É preciso conhecer a história completa para poder compreender tudo o que foi adiantado.
O primeiro ato é composto por “No one mourns the wicked”, “Dear old Shiz”, “What is this feeling”, “Something Bad”, “Dancing through life”, “Popular”, “I’m not that girl”, “One short Day”, “A sentimental man” e a música que encerra o ato e que se tornou o símbolo da peça, “Defying gravity”. Os musicistas da peça explicam a canção como “uma série de notas simples que soam como uma força, vindo de você mesmo, o sentimento de poder que vem de baixo, do seu pé e vai se espalhando pelo corpo.
Durante o primeiro ato, começamos do final de O mágico de Oz e retrocedemos até o momento em que Glinda e Elphaba se conheceram e se detestaram, ao serem obrigadas a dividir um quarto na escola. Após uma reconciliação, as duas se tornam amigas e apaixonadas pelo mesmo rapaz, Fyero, que acaba escolhendo Glinda. Elphaba então ganha a chance de conhecer o mágico e descobre que ele não possui poderes mágicos e gostaria de usá-la, o que a revolta e separa o caminho das duas amigas.
O segundo ato apresenta “Thank, Goodness!”, “Wonderful”, “I’m not that girl (reprise)”, “As long as you’re mine”, “No good deed”, “March of witch hunters”, “For good” e “Finale”. Com um salto temporal, vemos os personagens agora adultos. Glinda é a figura pública que fala a favor do mágico e vai se casar com Fyero. Elphaba luta pelos animais e decide confrontar o mágico, mas o tornado acontece e dá início aos eventos conhecidos em O mágico de Oz.
A canção For good é a despedida de Elphaba e Glinda enquanto elas relembram o quanto a amizade delas foi importante para cada uma delas. O refrão diz: “Because I knew you, I have been changed for good”. Há um duplo sentido no uso de “for good”. A expressão geralmente é entendida, e traduzida, como “para o bem”, mostrando que as duas não são totalmente boas ou más, mas que a amizade delas fez com que cada um escolhesse o bem. No entanto, também pode ser entendido como “definitivamente”, marcando que a amizade das duas fez com que elas mudassem permanentemente.
Mudados “For good” é como muitos dos fãs do musical se sentem após assistirem a ele. É essa sensação, possibilitada pela experiência individual que permite o espectador a se aproximar das duas bruxas, que fez com que Wicked se tornasse um fenômeno, o qual vamos ver a seguir.
Apoie o Tolkienista comprando pelos links:
Geral: https://tolkienista.com/apoie-o-site-tolkienista/
Box – A mágica Terra de Oz – vol. I: https://amzn.to/3LknyQA
Box – A mágica Terra de Oz – vol. II: https://amzn.to/43NjVJd
O Mágico de Oz: edição comentada e ilustrada (Zahar): https://amzn.to/3Lf52sZ
O Mágico de Oz: First Edition (Darkside): https://amzn.to/4oqxero
The Wonderful Wizard of Oz (Illustrated): Classic Edition with Original Illustrations: https://amzn.to/4hEZgN8
Wicked (livro): https://amzn.to/4hKEfRt
Elfie: Uma História de Wicked: https://amzn.to/43Nk7bp



One thought on “Uma versão muito peculiar de Wicked chega à Broadway”