Resenha de Wicked – Parte 1

Por Fernanda Correia

Em 2024 chegou aos cinemas a primeira parte da aguardada adaptação cinematográfica de Wicked. Dirigido por Jon M. Chu e estrelado por Cynthia Erivo, Ariana Grande, Jonathan Bayle, Michelle Yeoh e Jeff Goldblum. Contrariando o que normalmente acontece com os musicais que foram adaptados para o cinema recentemente, Wicked não teve sua trama encurtada ou músicas cortadas, o filme na verdade aumenta e amplia o tempo de história narrada e aprofunda subtramas que não tem tempo de desenvolvimento nos palcos. A adaptação inclusive foi dividida em duas partes, respeitando a divisão em dois atos da peça de teatro, tendo o primeiro filme encerrado no mesmo momento em que o primeiro ato termina.

ATENÇÃO, A PARTIR DE AGORA A TRAMA DO FILME SERÁ DETALHADA. CUIDADO COM SPOILERS.

Jon M. Chu é um grande fã de musicais, especialmente Wicked. O que fica claro desde o letreiro da Universal, o qual está em tom de sépia, tal qual o início do filme de 1939. O longa começa exatamente como a peça, após o derretimento da Bruxa Má do Oeste, Glinda anuncia que as notícias são verdadeiras e que a Bruxa está morta. Vemos a destruição da torre onde a Bruxa mantinha Dorothy prisioneira, seguido dos campos de papoula, plantados especialmente para as filmagens, com crianças correndo para celebrar a morte da Bruxa com o restante dos Munchkins. 

A canção e a coreografia remetem diretamente à canção cantada pelos Munchkins quando Dorothy chega a Oz, comemorando a morte da Bruxa Má do Leste. Os mesmos acordes de Ding dong the witch is dead podem ser ouvidos. Glinda chega então em sua bolha e narra o nascimento da Bruxa.

A partir da pergunta de uma menina, “Por que existe maldade?”, Glinda vai apresentar a história da Bruxa Má do Oeste e como ela nasceu em uma família aparentemente feliz, mas que escondia segredos, como o fato de que sua mãe possuía um amante, o verdadeiro pai da Bruxa.Desde que nasceu ela era verde, sendo rejeitada pela própria família e sofrendo com piadas e perseguições de outras crianças.

Ao final da canção de abertura, Glinda se prepara para organizar Oz, uma vez que o mágico “inesperadamente” partiu, mas é interrompida pelo questionamento de se era verdade que ela e a Bruxa eram amigas. Glinda confirma, mas ressalta que na verdade eram apenas conhecidas que estudaram juntas.

Inicia-se então uma volta no tempo para que saibamos o que houve entre as duas, apresentando os créditos e o título Wicked – Part 1 surge na tela, com a mesma fonte do título de O mágico de Oz de 1937. Chegamos à Universidade Shiz, na qual as duas protagonistas irão estudar e se conhecer. Glinda chega com sua bagagem e seus pais, a pequena ponta é feita pelos atores que viviam Fyero e Elphaba na Broadway no momento da filmagem.

Imediatamente somos apresentados a Elphaba, aquela que vai se tornar a Bruxa Má do Oeste. A primeira reação que a sua presença causa nos outros alunos é de repulsa, fazendo com que ela os confronte a respeito de sua cor e dos pré julgamentos deles. Alguns personagens secundários reforçam a questão do preconceito, especialmente o racial, ao, logo após o discurso de Elphaba, dizerem “Eu não vejo cores”. A cena é levemente modificada, fazendo de Nessarose, a irmã de Elphaba, menos dependente e Elphaba sempre buscando defender e deixar sua irmã assumir a própria vida.

O primeiro solo de Elphaba, The wizard and I, deixa clara a referência a Somewhere over the rainbow, e reforça a questão do preconceito sofrido por Elphaba. Cynthia Erivo foi a primeira atriz negra a dar vida à Elphaba, deixando a mensagem sobre preconceito e segregação ainda mais contundentes. Durante a canção, a luz passa por um móbile de vidros coloridos, fazendo com que Elphaba assuma diversos tons de pele, inclusive o tom natural de Cynthia. 

Já o primeiro dueto de Elphaba e Glinda é apresentado com uma sequência de disputas entre as duas e uma coreografia claramente pensada para tempos de viralização em Tik Tok. Na sequência, a questão animal é ampliada e melhor explicada do que na peça. Em Oz, os animais podiam falar e faziam parte da sociedade desde muito antes, mas recentemente estão perdendo a fala e têm desaparecido, deixando seus postos. Dr. Dilamond é um dos poucos animais que ainda leciona em Shiz e o vemos com um grupo de animais que pretende fugir, enquanto ainda podem. Outra questão ampliada são as aulas de feitiçaria, nas quais as sombras dão forma assustadora a Elphaba, parecidas com o que será visto depois.

Quem também fala é o cavalo de Fyero, que chega na sequência seguinte e atropela Elphaba. Ele tenta encantá-la com seu charme, mas não obtém muito sucesso, o que claramente o deixa muito intrigado e interessado pela estranha garota verde que ele encontrou. Fyero, o príncipe do país dos Winkies, é apresentado a partir da música Dancing through life, em uma cena com efeitos práticos e coreografias elaboradas para a peculiar arquitetura da biblioteca. A canção culmina no baile no qual Elphaba é humilhada por conta de Glinda, ao mesmo tempo que é resgatada pela garota, fazendo com que as duas iniciem a sua amizade.

A sequência traz possivelmente a segunda música mais conhecida de Wicked, Popular, inclusive já sampleada e cantada por Ariana Grande no início de sua carreira. Na canção, Glinda fortalece sua amizade com Elphaba e procura explicar à nova amiga que, diferente do que ela pensa, não é conhecimento e sabedoria que vão fazê-la conquistar o que deseja, mas ser admirada, ser popular. Durante a produção, o estúdio gostaria que a canção fosse alterada para algo mais R&B, mais próximo do que Ariana canta em sua carreira musical. Foi a própria que negou a mudança, dizendo que era Ariana cantando a música de Glinda e não Glinda cantando a música de Ariana.

A cena possui uma série de referências, desde Glinda apresentando os sapatos de rubi e batendo os saltos dos sapatos juntos três vezes, até uma maleta e bolas que lembram as de quadribol de Harry Potter, passando por Glinda fazendo a pose de Evita ao falar de figuras públicas. A canção, bastante animada e grudenta, parece boba e superficial, mas a letra reflete parte do que o enredo vai apresentar no terço final do ato.

L to R: Ariana Grande is Glinda and Cynthia Erivo is Elphaba in WICKED, directed by Jon M. Chu

Já encaminhando para o desenrolar final da história, Dr. Dillamond é levado e proibido de dar aulas, fazendo com que Elphaba se revolte e enfeitice toda a turma. O feitiço acontece com ela espalhando sementes de papoula por toda a classe, fazendo com que os colegas durmam, exatamente como Dorothy e os companheiros quando estão prestes a chegar na Cidade das Esmeraldas. Depois de resgatar o filhote de leão com Fyero e levá-lo em uma bicicleta, a cena nos remete a Dorothy e seu cachorrinho cesta, enquanto a outra bicicleta parece a de sua vizinha.

O grande número musical que antecipa o desfecho do primeiro ato, One short day, traz a chegada de Elphaba e Glinda à Cidade das Esmeraldas e mais um apanhado de referências. Entre as atrações visitadas pelas duas estão um salão de beleza, o que remete ao filme de 1939, quando Dorothy e os companheiros se arrumaram para estarem apresentáveis para o Mágico. Além disso, diversos cidadãos de Oz que compõem o coro são Elphabas, Glindas e Fyeros de diferentes montagens do musical. 

Por fim, as participações especiais mais importantes estão na versão estendida da canção que é apresentada. Os versos adicionados são para apresentar as antigas sábias que narram a chegada do Mágico a Oz. As duas são Kristin Chenoweth e Idina Menzel, respectivamente Glinda e Elphaba da montagem original. A forma de cantarem e a coreografia remete a momentos icônicos da peça e que também aparecem no filme, como o riff de Defying gravity.

Na sequência, Glinda e Elphaba interagem com as duas, em uma espécie de passagem de coroa, ainda que Kristin impeça Ariana de realizar seu belting, e a música segue como era. Por fim, ao serem admitidas no palácio do Mágico, o guarda que permite a sua entrada é interpretado por Stephen Schwartz, o autor do musical.

A primeira interação com o Mágico de Oz também é ampliada em uma belíssima sequência de sapateado, na qual o Mágico inclusive vai para de trás da cortina e faz suas ilusões, e vemos o projeto da construção da estrada de tijolos amarelos. Tal complemento reforça o momento mais dramático do primeiro ato, a descoberta de que o Mágico não é Mágico, apenas um charlatão de circo e todas as suas engenhocas que parecem magia aos cidadãos de Oz. Há inclusive a presença do balão e do material de Oscar Diggs escondido em uma torre do palácio.

Michelle Yeoh faz sua revelação de vilã de forma elegante e assustadora, convencendo que ela é realmente capaz de qualquer coisa, ameaçando os macacos que estão sofrendo após sofrerem a mutação do feitiço de Elphaba e se tornarem voadores. Seu discurso, no qual estabelece Elphaba como a Bruxa Má, está presente na peça, mas a sua interpretação dá o tom exato de uma propaganda racista e totalitária.

O filme chega então ao seu ápice, com Elphaba colocando-se contra o Mágico e desafiando a gravidade. A música mantém a força e a sensação que foi pensada para ela na peça, mas a poderosa voz de Cynthia Erivo faz com que a canção se torne ainda mais poderosa e emocione conforme Elphaba se afasta da sociedade que a condenou desde que ela nasceu.

Todas as canções foram capturadas ao vivo, com os atores cantando como se estivessem no palco, o que inclusive obrigou Cynthia a mudar sua forma de cantar, uma vez que os efeitos práticos do voo de Elphaba fizeram com que ela precisasse reencontrar seu centro de gravidade.

Wicked – parte 1 encerra com todos os personagens precisando lidar com as consequências de seus atos e suas decisões. O momento que Elphaba assume a sua magia também é o momento em que a magia se quebra para ela, com suas ilusões de juventude se rompendo diante de seus olhos. Assim o filme deixa pequenas pontas para o salto temporal e a continuação que teremos no segundo ato, Wicked: For Good.


Apoie o Tolkienista comprando pelos links:
Geral: https://tolkienista.com/apoie-o-site-tolkienista/
Box – A mágica Terra de Oz – vol. I: https://amzn.to/3LknyQA
Box – A mágica Terra de Oz – vol. II: https://amzn.to/43NjVJd
O Mágico de Oz: edição comentada e ilustrada (Zahar): https://amzn.to/3Lf52sZ
O Mágico de Oz: First Edition (Darkside): https://amzn.to/4oqxero
The Wonderful Wizard of Oz (Illustrated): Classic Edition with Original Illustrations: https://amzn.to/4hEZgN8
Wicked (livro): https://amzn.to/4hKEfRt
Elfie: Uma História de Wicked: https://amzn.to/43Nk7bp


Fernanda Correia é doutora em literatura tolkieniana no Mackenzie-SP e a maior fã de Wicked possível

One thought on “Resenha de Wicked – Parte 1

Deixe um comentário