Tolkien e a Tradução de Poesia [1]

Eduardo Boheme

O grande amor de Tolkien por poesia não é novidade, como atestam os inúmeros versos espalhados em O Senhor dos Anéis, O Hobbit, As Aventuras de Tom Bombadil, vários volumes da História da Terra-média, The Collected Poems of J.R.R. Tolkien e outros livros. Parte relevante do cancioneiro tolkieniano é formada por traduções de poemas medievais com os quais ele trabalhou por décadas. Às vezes (como A Batalha de Maldon e o Êxodo) vertia esses poemas para prosa em inglês moderno, principalmente com fins didáticos; noutras (a exemplo de Sir Gawain e o Cavaleiro Verde) traduzia poesia para poesia. É esse último caso que me interessa aqui.

Se você não sabe, pelo menos desconfia que nem tudo o que Tolkien escreveu já foi publicado, e Os Fragmentos de Bovadium são apenas o mais recente exemplo disso. Em uma das duzentas caixas de material tolkieniano em Oxford, existe um manuscrito intitulado “Some thoughts on the translation of poetry — especially Old English as aroused by reading ‘Poems from the Old English, translated by Burton Raffel’ and his Introduction” [Algumas reflexões sobre a tradução de poesia, especialmente do inglês antigo, provocadas pelo livro ‘Poemas do Inglês Antigo, traduzidos por Burton Raffel’ e sua Introdução”]. Esse texto não foi escrito com vistas à publicação, mas alguns trechos aparecem na fortuna crítica e no site da Tolkien Estate (aqui), sendo uma das principais fontes para sabermos o que o autor pensava da arte de traduzir versos. Mas, antes de chegar nisso, preciso falar da relação ambígua de Burton Raffel com a obra de Tolkien.

Burton Raffel (1928–2015) foi um professor universitário e poeta norte-americano que, nos anos 60, publicou sua antologia de poesia anglo-saxônica e a enviou para Tolkien com uma mensagem: “Recriações [isto é, “traduções”] do inglês antigo para um recriador muito superior, cujo saber hobbitesco encantou toda a minha família”. Enviou também o artigo “On Translating Beowulf” (que não deve ser confundido com o artigo homônimo do próprio Tolkien), no qual comenta que gostaria de ter escrito a “magnífica trilogia O Senhor dos Anéis”. Mas esse apreço não durou para sempre. Em outro artigo, “The Lord of the Rings as Literature”,2 Raffel não poupou críticas e, entre uma saraivada de outros achincalhes, afirmou que julgava quase toda a poesia de Tolkien embaraçosamente ruim e que não considerava O Senhor dos Anéis como literatura (pelos seus critérios). Só posso especular o que provocou a mudança de opinião, mas as “Reflexões sobre tradução de poesia” de Tolkien não ficam atrás nas invectivas: para ele, as traduções de Raffel eram “besteiras pretensiosas” e sua abordagem tradutológica, “frequentemente uma máscara para a incompetência e a ignorância do idioma original”.

*

Dentre as tarefas de um tradutor literário, a tradução de poesia é talvez a mais difícil, especialmente quando o original tem um metro rígido, rima, aliteração etc. Pode-se optar por seguir o texto-fonte à risca e reproduzir na tradução esses mecanismos formais, além do conteúdo; pode-se manter apenas o conteúdo do poema e simplesmente ignorar a sua forma, ou mesmo alterá-la, deixando-a mais familiar aos leitores da tradução… as opções são variadas, todas defensáveis de algum modo. Em suas reflexões, contudo, Tolkien defendeu aguerridamente uma “aliança absoluta à coisa traduzida: ao sentido, ao estilo, à técnica, à forma”. Por outro lado, os escritos teóricos de Burton Raffel (que não são poucos) mostram que ele favorecia certa liberdade tradutória. No livro que enviou a Tolkien, Poems from the Old English, diz:

É uma questão irrespondível: quão perto do original a tradução precisa estar? Não tanto na forma externa, no metro e na rima, nem mesmo no comprimento do verso, pois uma liberdade razoável é evidentemente necessária nesses aspectos. Mas na fidelidade ao conteúdo preciso e ao tom do original, na elaboração exata das imagens, na sucessão de ideias.

Parece ser essa liberdade advogada por Raffel que incomodava Tolkien, para quem a manutenção da “forma externa” era essencial à boa tradução poética. Certa vez, John Leyerle, da Universidade de Toronto, sugeriu que essa abordagem tradutológica mais conservadora “macaqueava características que são anacrônicas hoje em dia”, ao que Tolkien respondeu: “Se formos usar como critério os gostos e as afinidades do presente, então para que nos darmos ao trabalho de apresentar às pessoas modernas coisas que são anacrônicas no sentimento e na maneira de pensar?”. Em suma, Tolkien buscava alcançar uma “equivalência tradutória” absoluta, não apenas no conteúdo da tradução, como também na forma e na dicção. Já para Raffel, a “equivalência” na tradução poderia se limitar ao conteúdo, e a forma poderia ser tratada de maneira mais livre.

Neste texto que já se alonga, não me compete exaurir o volitante conceito de “Equivalência” — a noção de que algo num idioma pode ser traduzido por algo equivalente em outro, em um ou vários níveis: semântico, fonológico, rítmico, cultural etc. — nem da sua irmã mais nova, a “Correspondência”, filhas da famosa e controversa “Fidelidade”. Mas cito dois impactantes versos de A Batalha de Maldon como ilustração:

Hiᵹe sceal þe heardra, heorte þe cenre,
mod sceal þe mare þe ure mæᵹen lytlað

A tradução poética de Tolkien aparece em O Regresso de Beorhtnoth na voz de Torhthelm:3

Heart shall be bolder, harder be purpose,
more proud the spirit as our power lessens!

Já Raffel traduz assim:

Our minds must be stronger, our hearts
Braver, our courage higher, as our numbers
Shrink.

O conteúdo de ambos é parecido, exceto que Tolkien interpretou a palavra mæᵹen como “power”, a força física, e Raffel traduziu-a como “numbers”, ou seja, o número de combatentes que vai diminuindo. Ambas são interpretações possíveis. A grande diferença está na forma: a poesia anglo-saxônica tem na aliteração uma de suas principais características; ela é o “cimento” que gruda as metades dos versos. Tolkien optou, como era de se esperar, por colocar sons aliterantes na tradução; assim, “harder” alitera com “heart” e “power” com “proud”. Isso para não falar de outros recursos do inglês antigo que ele reproduzia com frequência, como variação e compostos. Já Raffel, fazendo valer a liberdade tradutória, não deixou nem um fiapo de aliteração. E mais: quebrou em dois a segunda metade de cada verso, de modo que a palavra “shrink” acabou se esparramando numa terceira linha. O efeito que isso gera varia de leitor para leitor, mas, para mim, os dois versos, antes compactos, parecem solavancar e perdem a força de provérbio que têm no original. A diferença de abordagem é perceptível em outros poemas que ambos traduziram, como Beowulf e Sir Gawain: Raffel se vale de uma certa frouxidão formal nos versos, enquanto Tolkien prefere o rigor. Até mesmo a dicção muda: Tolkien costumava favorecer um tom mais arcaizante, enquanto Raffel usava palavras mais cotidianas.

Eu tenho minhas preferências, mas não acredito que uma abordagem seja necessariamente melhor do que a outra; ou seja, Raffel não é menos competente só porque dava ao seu método mais liberdade, e o fato de que Tolkien era mais rigoroso com a forma não o torna necessariamente mais habilidoso. Mas acredito que os critérios de Tolkien dão uma base melhor para avaliarmos as traduções poéticas dele e de outras pessoas.

De fato, se um dia você tiver de opinar sobre uma tradução, tente identificar a intenção do tradutor e verificar se o resultado faz jus a essa intenção, seja ela explícita ou apenas dedutível. Não é muito produtivo chegarmos ao texto munidos somente dos nossos próprios gostos e castigarmos o tradutor por não fazer o que nós gostaríamos que tivesse sido feito. Também não é ideal usarmos expressões como “a tradução não captura a essência/o espírito do original”, pois “essência” e “espírito” são conceitos fugidios demais e úteis de menos para embasar uma análise séria.

Quando me sugeriram uma versão pocket do artigo original, pensei que seria útil terminar convidando você a refletir sobre o crescente corpus de poesia tolkieniana traduzida no Brasil. Será que algum personagem de Tolkien cantou melhor em português do que em inglês (e em inglês melhor do que em westron, e em westron melhor do que em élfico)? Que critérios emergem da tradução de certo poema? O que se perdeu do sentido quando uma mastodôntica palavra do português tomou o espaço de dois monossílabos do inglês? O que uma tradução pode ou não fazer por nós quando o assunto é poesia? Como eu e você não somos do tipo que pula os poemas do legendário, ao examinarmos as traduções detidamente, compreenderemos melhor por que Tolkien afirmava que “um tradutor não é livre” (carta 238) — reconhecendo a dificuldade imposta pelo simples fato de os idiomas serem diferentes — mas, simultaneamente, enaltecia a beleza que vem da própria variedade dos idiomas, exclamando, no artigo “English and Welsh”, O felix peccatum Babel!


Notas

1. Este texto é inspirado em parte do artigo “The Allegiant Translator: J.R.R. Tolkien, Burton Raffel, and Verse Translation”, publicado no periódico Tolkien Studies n. 21. Ali estão as referências completas da maioria das citações que faço ao longo deste texto.
2. O artigo é parte do livro Tolkien and the Critics: Essays on J.R.R. Tolkien’s The Lord of the Rings,editado por Neil D. Isaacs e Rose A. Zimbardo.
3. A tradução em português, de Reinaldo José Lopes, diz “Coração mais ousado, mais aceso propósito, / Mais fero o espírito se a força fenece!”


Eduardo Boheme é mestre em Tradução Literária pela Universidade de Dublin.


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