Tolkien pelo olhar de Borgo

Cristina Casagrande

Um dos sócios-fundadores do site de entretenimento Omelete e da Comic Con Experience (CCXP), Érico Borgo,  cansou de se sentir refém do algoritmo. Não antes de tirar o melhor dele a ponto de poder abdicar um pouco das urgências do mercado e poder se dedicar, com mais tempo, criatividade e deleite a atividades que lhe trouxessem mais satisfação e sentido.

E foi assim que ele buscou refúgio na Terra-média e decidiu fazer o documentário Uma Odisseia Criativa: em Busca de Tolkien (até pouco tempo, com o nome invertido: Em busca de Tolkien: Uma Odisseia Criativa — título esse dado ao livro, recentemente lançado pela HarperCollins, escrito por Érico, enquanto fazia o roteiro do documentário). Para realizar o filme, chamou Laís Almeida, que já trabalhava com ele havia quase dez anos em outros projetos, para assumir a direção.

Érico Borgo
Laís Almeida

Érico e Laís foram ousados e escolheram, logo de cara, como tema da produção dois pilares bastante desafiadores: o próprio Tolkien e, nada mais, nada menos do que a criatividade do pai da literatura de fantasia contemporânea. Foi justamente com o intuito de investigar a mente inventiva de Tolkien que Érico decidiu seguir os passos do autor, a fim de descobrir quais paisagens serviram de inspiração — conscientemente ou não — para sua obra. Assim, buscou os lugares por onde ele esteve — especialmente na Inglaterra —, desde a infância, quando se tornou órfão de pai (e depois de mãe) em Birmingham, passando pela universidade de Oxford, onde foi professor, até o cemitério de Wolvercote, onde seu corpo está enterrado ao lado de sua esposa, Edith.

O documentário também percorre regiões que despertaram dor e sofrimento, como as trincheiras da batalha do Somme, na França, ou que envolveram aventura e entretenimento como Lauterbrunnen, na Suíça, onde Tolkien fez uma excursão na juventude e que serviu de inspiração para a criação do reino élfico Valfenda.

A expedição geográfica pelas rotas tolkienianas foi palco para muita discussão de temas presentes na mente do autor: a filologia e a linguagem, os clubes literários, as amizades — sobretudo com C.S. Lewis —, a vida universitária, a relação com a mãe, com os filhos, o catolicismo, a história de amor com Edith, a guerra, a mitologia, os contos de fadas e a própria Inglaterra. Todos esses elementos foram ingredientes da sopa mítico-literária preparada por Tolkien para a construção de seu legendário, o qual o documentário explorou de forma leve e descontraída, mas, ao mesmo tempo, com muita seriedade.

A estratégia de conhecer os lugares por onde Tolkien passou para conhecer mais sobre o autor não é exatamente original. Em 2020, John Garth, tolkienista consagrado por Tolkien e a Grande Guerra (2003) lançou o livro, ainda não traduzido para o português, The Worlds of J.R.R. Tolkien: the Places that Inspired Middle-earth [Os Mundos de J.R.R. Tolkien: os Lugares que Inspiraram a Terra-média], que traz uma proposta bem parecida, porém com um viés mais acadêmico do que a abordagem da produção audiovisual.

O tom do documentário inicia confidencial e um tanto pitoresco, mostrando Borgo decidido abandonar a obrigação de seguir o algoritmo e a buscar mais profundidade e prazer em sua ocupação profissional. O roteirista e apresentador do documentário quebra a quarta parede com bastante frequência, num exercício metalinguístico de revelar a si mesmo, ora desajeitado, ora decidido — e, muitas vezes, embasbacado —, dentro do mundo que está explorando.

Dessa forma, o filme não mostra apenas Tolkien, mas também o próprio Borgo se descobrindo e se revelando naquela jornada com a ambição de um épico digno de uma “odisseia”. O humor é a tônica constante durante o documentário, como se o idealizador pedisse licença ao espectador por ter tido uma ideia tão ambiciosa. A escolha é acertada se o intuito é trazer leveza a documentário, fazer com que nos identifiquemos com ele e sintamos o que ele sente, além de render boas risadas. Por outro lado, o estilo cômico eventualmente quebra um pouco a grandeza de alguns momentos, além de, em certas ocasiões, dar mais ênfase à figura de Borgo do que ao próprio Tolkien.

Por outro lado, vale dizer que não faltaram seriedade nem profundidade para explorar os temas abordados, mostrando que o roteirista fez muito bem sua lição de casa para equilibrar as expectativas de um público quase tão exigente quanto o próprio autor.

A duração do documentário pode ser também, ao mesmo tempo, um deleite e um entrave. Com cerca de duas horas de película, a impressão é que alguns comentários poderiam ser cortados, enquanto outros momentos despertam um forte desejo de saber mais.

As referências aos filmes de Peter Jackson quase ficam de fora, a não ser por momentos de descontração como quando Borgo aparece cantando, sobre a montanha, a fala de Legolas “they’re taking the hobbits to Isengard”. O centro ali é a biografia de Tolkien, ou melhor, o olhar de Borgo sobre os passos do autor de O Senhor dos Anéis.

A estética do documentário revela também a assinatura da diretora. Laís já declarou, em suas redes sociais, sua deferência a organização e planejamento, e post-its, mapas e planilhas não faltam nas telas para nos ajudar a nos localizarmos em cada paisagem na viagem dos dois. Apesar de ficar mais em off, por vezes, ela aparece em cena, revelando sua autoridade de diretora metódica, ao mesmo tempo em que demonstra uma intimidade —  no estilo “provocação ranzinza” — com o parceiro de jornada que vai além dos negócios.

Os desenhos dos personagens em papel branco-amarelado com lápis grafite, além dos pins nos mapas desenhados, dão um charme especial na dinâmica do documentário. Além disso, as imagens de arquivo de entrevistas na BBC e fotografias do autor se intercalam muito bem com os lugares explorados.

O ritmo do documentário nasce como um primeiro capítulo dos romances tolkienianos: improvisado, alegre — e até mesmo um tanto quanto infantil — e, aos poucos, vai crescendo em gravidade e profundidade, chegando a comover o espectador, assim como o realizador, em alguns momentos. A produção culmina na valorização do legado de Tolkien e da busca completada. O retorno da jornada, seja à Ítaca, seja ao Condado, traz ares de um fim em continuidade: depois da busca, o que está por vir?

Uma Odisseia Criativa: em Busca de Tolkien estreia na rede Cinemark em 21 de setembro.


Cristina Casagrande é administradora do Tolkienista


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