Gollum: das linhas às telas

Por Cristina Casagrande

A representação de Gollum na adaptação cinematográfica de O Senhor dos Anéis, dirigida por Peter Jackson, mais especificamente, nos dois últimos filmes As Duas Torres (2002) e o Retorno do Rei (2003), merece um destaque especial em inúmeras instâncias. Ressaltamos aqui a caracterização desse complexo personagem em uma nova linguagem além-literária, tendo em vista o eu, o duplo e o relacionamento com o outro[1]. Para isso, não podemos deixar de mencionar a caracterização física do personagem. O cinema se baseou na própria descrição do narrador literário:

Descendo a face de um precipício, íngreme e quase lisa ao que parecia no luar pálido, uma pequena figura negra vinha com suas finas pernas abertas. Talvez suas mãos e pés moles e pegajosos estivessem encontrando fendas e apoios que um hobbit jamais poderia ter visto ou usado, mas parecia que ele estava simplesmente descendo com patas viscosas, como algum bicho grande à espreita, semelhante a um inseto. (…) De vez em quando erguia a cabeça devagar, jogando-a para trás sobre seu pescoço longo e fino, e os hobbits viram de relance duas pequenas luzes brilhantes, os olhos dele, que piscavam à luz da lua por um instante, e em seguida eram rapidamente cobertos pelas pálpebras outra vez.

Com base nessa descrição, a direção de arte do filme passou a estudar como seria apresentado o personagem. Segundo o documentário dos bastidores da equipe de filmagem, lançado com a versão estendida dos filmes, a concepção de Gollum para o cinema passou por muitas etapas entre o roteiro e as telas.

The Taming of Sméagol/Alan Lee

Para chegar à representação fílmica de Gollum, toda a equipe de arte fez diversas esculturas da criatura fantasiosa, com base nas suas descrições no livro e nos artistas reconhecidos por representarem o mundo de Tolkien por meio de imagens. Os dois ilustradores que basearam toda a direção de arte foram o inglês Alan Lee e o canadense John Howe, notórios por seus desenhos na temática tolkieniana. Ambos foram os artistas conceituais consultados para a produção dos filmes O Senhor dos Anéis.  

Esquete de Gollum/John Howe

A princípio, Gollum seria feito exclusivamente por computação gráfica, pela empresa Weta Workshop. Mas, ao escalar o ator Andy Serkis para fazer a dublagem do personagem, todos se surpreenderam com tamanha entrega em sua performance, levando toda a equipe a perceber que Gollum não poderia ser feito exclusivamente por computação gráfica, embora ela ainda fosse bastante necessária, visto que a forma e performance físicas de Gollum — suas articulações, postura, agilidade etc. — não eram compatíveis com a de uma pessoa comum.

Serkis ficou então responsável por trazer boa parte da carga dramática e expressiva do personagem, e a Weta Workshop entrou com a parte tecnológica — mas sem deixar de lado também a performance do personagem, visto que os artistas digitais frequentemente tinham de se colocar na posição de atores para poder desenhar a expressividade de Gollum em seus computadores.

O ator passou a acompanhar as filmagens com os outros intérpretes, com cujos personagens Gollum interagia. Além disso, ele gravava em estúdio também, para que, com base em sua atuação, a equipe digital construísse o personagem na versão final, utilizando a técnica chamada motion capture, em que pontos sensores são colocados no corpo do ator, para transmitir ao computador os movimentos no personagem de forma digitalizada — uma versão mais modernizada do antigo método chamado rotoscopia. A isso, a produção somou a técnica da animação, para conferir mais veracidade às cenas, dando a essa prática o apelido de “rotoanimação”.

Andy Serkis como Gollum/New Line Cinema

O resultado foi uma construção audiovisual ao mesmo tempo humana e animalesca, instigante e repulsiva — justamente como sugere o personagem. A computação gráfica realista e a performance envolvente de Andy Serkis trouxeram ao Gollum do cinema veracidade e também empatia com o público espectador.

Confira parte do documentário Creating Gollum:

Creating Gollum

Planos e contraplanos

Os diálogos internos de Gollum, na adaptação de Jackson, estão inseridos em ambientes mais escuros e sombrios ou em caminhos tortuosos, cheios de pedras, subidas e descidas, em ambientes misteriosos e desconcertantes. A dinâmica dos diálogos acompanha o movimento do personagem bem como a luz e o cenário em que ele está inserido.

Os conflitos internos entre os diálogos são, muitas vezes, acentuados pelos planos fechados e a montagem com o jogo de plano e contraplano (também conhecidos como campo e contracampo). Segundo Marcel Martin em A Linguagem Cinematográfica, “A maior parte dos tipos de planos não tem outra finalidade senão a comodidade da percepção e a clareza da narrativa. Apenas o close ou o primeiríssimo plano (e o primeiro plano, que do ponto de vista psicológico praticamente se confunde com ele) e o plano geral têm na maioria das vezes um significado psicológico preciso e não apenas um papel descritivo”.

Sobre os planos fechados, muito utilizados nos diálogos internos de Gollum e Sméagol, Martin acrescenta que o cinema nos traz “intimidade porque a imagem (de novo através do primeiro plano) nos faz literalmente penetrar nos seres (por intermédio dos rostos, livros abertos das almas) e nas coisas”.

Gollum em Primeiro Plano (PP)/New Line Cinema
Primeiríssimo Primeiro Plano (PPP)/New Line Cinema
Close Up ou Plano Detalhe/New Line Cinema

Sméagol x Gollum

Para analisarmos os diálogos internos representados nos filmes, recordamos tal como é descrito no livro:

Gollum estava conversando consigo mesmo. Sméagol travava um debate com algum outro pensamento que usava a mesma voz, mas a fazia guinchar e chiar. Uma luz opaca e uma luz verde alternavam em seus olhos, conforme falava.
— Sméagol prometeu — disse o primeiro pensamento.
— Sim, sim, meu precioso — veio a resposta. — Nós prometemos: salvar nosso precioso, não deixar que Ele o tenha — nunca. Mas está indo para Ele, sim, mais próximo a cada passo. O que o hobbit vai fazer com Ele? Nós fica pensando, sim, nós fica.
— Não sei. Não posso fazer nada. O mestre está com Ele. Sméagol prometeu ajudar o mestre. […]
— Não, não este Bolseiro.
— Sim, qualquer Bolseiro. Todas as pessoas que têm o Precioso. Precisamos tomar ele.
— Mas Ele vai ver, Ele vai saber. Vai tirá-lo de nós!
— Ele vê. Ele sabe. Ele nos escutou fazendo promessas bobas, contra as ordens d’Ele, sim. Precisamos ter ele. Os Espectros estão procurando. Precisamos pegá-lo.
— Não para Ele!
— Não, minha doçura. Veja bem, meu precioso: se nós o tivermos, então poderemos escapar, até mesmo d’Ele, hein? Talvez nós fique muito forte, mais forte que os Espectros. Senhor Sméagol? Gollum, o Grande? O Gollum! Comer peixe todo dia, três vezes por dia, peixes frescos do mar. Preciosíssimo Gollum! Nós quer ele, nós quer ele, nós quer ele!
— Mas tem eles dois. Eles vão acordar rápido demais e nos matar — choramingou Sméagol num último esforço. — Não agora. Ainda não.
— Nós quer ele! Mas — e aqui houve uma longa pausa, como se um novo pensamento tivesse acordado — Não, ainda não, é? Ela pode ajudar. Ela pode, sim.
— Não, não! Desse jeito não! — gemeu Sméagol.
— Sim, nós quer ele! Nós quer ele

Confira o diálogo adaptado em As Duas Torres:

Sabe-se que a cena desse diálogo interno, chamada de “cena de esquizofrenia” pela equipe de filmagem, foi inteiramente montada em cima da atuação de Andy Serkis, o que nem sempre ocorria. É uma cena com forte carga dramática e que também se apoia na força das linguagens do cinema. O recurso que os produtores audiovisuais utilizaram para pontuar a diferença nos olhos de cada um foram as pupilas dilatadas para Sméagol e contraídas para Gollum, configurando um semblante de ingenuidade e maldade respectivamente.

O cenário é sempre sombrio e a iluminação escura, sugerindo o estado emocional de Gollum: confuso, misterioso, pesado. Sméagol sempre está com o olhar baixo, a não ser no momento final, quando expulsa Gollum e olha para ele (como se ele estivesse à sua frente). As tomadas de Sméagol estão em planos mais abertos do que Gollum, com quem, no avançar do diálogo, o uso dos primeiros planos (PPs) e primeiríssimos primeiros planos (PPPs) se tornam mais recorrentes, mostrando a tensão psicológica do personagem e de sua imposição frente ao seu outro eu, o Sméagol.

Com base no jogo do plano e contraplano (Sméagol na câmera direita e Gollum na esquerda), a montagem sugere que o espectador compreenda uma mensagem ou conceito. Nós, espectadores, sabemos que não se trata de dois personagens, mas de um único; no entanto, o diálogo interno é tão intenso que opera uma cisão expressiva no personagem, de modo a nos levar a pensar que ali existem, de fato, dois “eus” em uma única criatura (ou nenhum, pois ser vários significa não ser ninguém). Nesse caso, “a aproximação dos planos não se baseia numa relação material explicável direta e cientificamente: a ligação é feita na mente do espectador, podendo, no limite, ser recusada por ele; depende do diretor se fazer suficientemente persuasivo”, aponta Martin.

No livro, depois dessa passagem, os diálogos internos permanecem, mas não de forma tão marcada. Nos filmes, esse diálogo bem determinado é desdobrado em quatro: três em As Duas Torres (sendo uma delas bem sutil, que ocorre quando Faramir captura Gollum) e um em O Retorno do Rei. O fato é que a cena fílmica correspondente a esse trecho do livro foi tão forte e fez tamanho sucesso em As Duas Torres, que esse fenômeno do duplo foi explorado também em O Retorno do Rei.

Note-se que, no livro, o diálogo interno dá, de pronto, a vitória a Gollum — ávido por enviar Frodo às garras da Laracna. Já no filme, Jackson abranda o primeiro diálogo, dando vitória ao Sméagol “bonzinho”, criando mais simpatia entre o personagem e o público. Somente no filme O Retorno do Rei, o diálogo entre as duas personalidades dá o poder do cheque-mate à maldade Gollum contra o inseguro Sméagol.

A escolha dos roteiristas em colocar a derrota de Gollum no primeiro diálogo permite mostrar a necessidade de Sméagol se livrar de seu duplo, que o perturba e o escraviza. “Esta recusa do único, aliás, é apenas uma das formas mais gerais da recusa da vida. Eis por que a eliminação do duplo anuncia, ao contrário, o retorno com força do real e confunde-se com a alegria de uma manhã inteiramente nova”, afirma Clément Rosset em O Real e seu Duplo.

Em O Retorno do Rei, como é um filme independente dos demais, embora faça parte de uma trilogia coesa, a cena tem também uma função de retomada das ideias já expostas em As Duas Torres e de dar maior destaque ao plano diabólico do confuso Gollum. Desta vez, a direção e a montagem optaram por um paralelismo em dois planos que vão à esfera da metáfora: Sméagol dialoga com sua imagem, o Gollum, no rio.

Confira o diálogo adaptado em O Retorno do Rei:

Sméagol vendo seu reflexo na água (Gollum) simboliza o seu eu diante do espelho, objeto comumente presente em representações do duplo, além de nos remeter de forma mais clara ao mito de Narciso, que encontrou sua triste sina diante do seu reflexo nas águas. Sem fazer o uso das palavras, apenas mostrando com imagens, o filme apresenta a angústia do eu de cada um, que nunca se conhece por completo. A esse respeito, Clément Rosset afirma: “Conheço bem a unicidade de todas as coisas que me cercam (…). Não acontece o mesmo com o eu, que nunca vi nem verei jamais, nem mesmo em um espelho. Porque o espelho é enganador e constitui uma ‘falsa evidência’, quer dizer, a ilusão de uma visão, ele me mostra não eu, mas um inverso, um outro”.

A montagem deixa para o espectador interpretar a cena, mostrando, no outro plano (o reflexo no rio), o que o personagem procura ver, mas também para aquilo que a força mítica do Anel o faz ver. Pela riqueza e complexidade e também competência dos realizadores dos filmes, a produção cinematográfica ganhou um status de qualidade muito grande com cenas como essas dos diálogos interiores. Apoiamo-nos nas observações de Martin:

Ora, existem filmes — muito poucos na verdade — que revelam uma curiosa subversão dos valores e um flagrante desconhecimento da natureza realista do cinema. Esses filmes transformam a aparência diretamente legível da ação (primeiro grau de inteligibilidade de um filme) num simples suporte, artificialmente criado para que fique subentendido um sentido simbólico (segundo grau de inteligibilidade), que assume um lugar de primeira importância. Tais filmes infringem a “regra do jogo” cinematográfica, que pretende que a imagem seja primeiro uma peça de realidade diretamente significativa, e depois, acessória e facultativamente, a mediadora de uma significação mais profunda e geral.

Referências bibliográficas

MARTIN, M. A Linguagem Cinematográfica. São Paulo: Brasiliense, 2011.

RANK, O. O Duplo: um estudo psicanalítico [E-book]. Porto Alegre: Dublinense, 2013. Disponível em: <http://www.travessa.com.br/eBook_O_DUPLO/eBook/02483c44-5eea-42ed-a448-c442f0779f88>. Acesso em: 12 nov. 2015.

ROSSET, C. O Real e seu Duplo – ensaio sobre a ilusão. São Paulo: LP&M, 1988.

TOLKIEN, J.R.R. ______. O Senhor dos Anéis – As Duas Torres. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

___. O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

Referências audiovisuais

O SENHOR dos Anéis: As Duas Torres. Direção: Peter Jackson. Produção: Barrie M. Osborne, Peter Jackson, Tim Sanders. Intérpretes: Andy Serkis, Cate Blanchett, Christopher Lee, Elijah Wood, Ian McKellen, Sean Astin e outros. Roteiro: Frances Walsh, Peter Jackson, Philippa Boyens, Stephen Sinclair. Estúdio: New Line Cinema/The Saul Zaentz Company. Estados Unidos/Nova Zelândia, 2002.

O SENHOR dos Anéis: O Retorno do Rei. Direção: Peter Jackson. Produção: Barrie M. Osborne, Peter Jackson, Tim Sanders. Intérpretes: Andy Serkis, Cate Blanchett, Christopher Lee, Elijah Wood, Ian McKellen, Sean Astin e outros. Roteiro: Frances Walsh, Peter Jackson, Philippa Boyens. Estúdio: New Line Cinema/The Saul Zaentz Company/WingNut Films. Estados Unidos/Nova Zelândia, 2003.


[1] Esta é a uma forma editada e modificada do texto presente no livro A Amizade em O Senhor dos Anéis.


Cristina Casagrande é autora do livro A amizade em O Senhor dos Anéis

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s