A magnanimidade de Frodo

Por Cristina Casagrande

Quem me conhece bem sabe que o meu personagem predileto de todo o legendário de J.R.R. Tolkien, entre fortes guerreiros, sábios magos e poderosas princesas élficas, é o simples, humilde e, às vezes, irritante hobbit Samwise Gamgi. Mas não é dele que vamos falar hoje. Fã raiz do Sam gosta do Frodo. E muito. Digo isso porque, você sabe, quando uma obra da dimensão de O Senhor dos Anéis atinge um espectro muito grande de leitores, entusiastas e, bem, fãs, as coisas tendem a pender para divisão.     

Discussões acirradas, piadas e memes convergem ao mesmo ponto: Sam fez todo o trabalho e Frodo, fracassado, levou a fama. Não é bem assim, não é nada assim. Quem argumenta isso de forma contundente é o leitor mais especializado do livro: seu próprio autor. Ele escreve em uma carta para Michael Straight, editor do New Republic, respondendo à sua pergunta sobre o fracasso moral de Frodo:

A ideia, nos termos da minha história, é de que embora cada evento ou situação possua (pelo menos) dois aspectos — a história e o desenvolvimento do indivíduo (é algo do qual ele pode obter o bem, o bem último, para si mesmo ou falhar em sua obtenção) e a história do mundo (que depende das ações do indivíduo para seu próprio bem) —, há ainda situações anormais nas quais é possível ser colocado. Eu as chamaria de situações “sacrificiais”: isto é, posições nas quais o “bem” do mundo depende do comportamento de um indivíduo em circunstâncias que exigem dele sofrimento e resistência muito além do normal — até mesmo, pode acontecer (ou parecer, humanamente falando), demandam uma força de corpo e mente que ele não possui: ele está, de certa forma, fadado a falhar, fadado a cair em tentação ou a ser destruído pela pressão contra sua “vontade”: isto é, contra qualquer escolha que ele poderia fazer ou faria desimpedido, não sob a coerção.
Frodo estava em tal posição: uma armadilha aparentemente completa; uma pessoa de maior poder inato provavelmente jamais poderia ter resistido à atração pelo poder do Anel por tanto tempo; uma pessoa de menos poder não poderia ter esperanças de resistir a ele na decisão final. […] A Busca estava fadada a falhar como uma parte do plano mundial e também estava destinada a terminar em desastre como a história do desenvolvimento do humilde Frodo ao “nobre”, sua santificação. Falhar ela iria e falhou no que dizia respeito a Frodo levado em consideração sozinho. [Grifos nossos]

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Frodo, Gabriele Dell’otto

Nesse trecho da carta, Tolkien discorre sobre a oração do Pai-Nosso, especialmente no que diz respeito à tentação. Frodo, enquanto indivíduo, passa por uma provação acima de suas forças. O hobbit, na figura de agente libertador do mundo que o cerca, não pode se assumir como um Salvador. Seu sacrifício é justamente enfrentar esse terror sabendo disso. Tomado pelo Anel, qual sujeito embriagado, ele encara o pavor de assumir a condição de todos nós: a impotência do homem diante do Mal.

Frodo falha, porque o Homem falhou. E é por isso que o coro expressivo de seus críticos se enfurece: diante do espelho, preferem o escárnio à piedade. Não suportamos ver que, depois das mais dolorosas provações — a separação dos amigos da Sociedade, a morte de Boromir, Théoden e outros, as batalhas sanguinárias, a fome, a sede, o frio gélido de Mordor e o calor insuportável da Montanha —, ele simplesmente dissesse diante das Fendas da Perdição: “— Cheguei […]. Mas agora minha escolha é não fazer o que vim aqui para fazer. Não vou realizar este feito. O Anel é meu!”.

Ele desaparece diante de Sam e é tomado pelo poder do Anel de Sauron, já não é mais dono de si, perdeu até mesmo a sua liberdade interior. Sua demanda pessoal estava fadada a falhar, mas era justamente em sua fraqueza que a Força se fez valer. Sua primeira vitória foi justamente esta: a confiança, a mesma que o levou a dizer “Levarei o Anel […]. — Embora não conheça o caminho”.  

O herdeiro de Bilbo havia falhado naquilo que se pode considerar um herói romântico, mas não em uma heroicidade ao alcance do homem comum, contemporâneo, mais próximo da realidade cotidiana. Sua verdadeira batalha era a interior, da virtude, sobretudo do amor e, para que se tornasse um grande herói, ou atingisse a sua santificação, era preciso que se esquecesse de si mesmo, que desse a vida por seus amigos e não por sua vaidade.

Nosso leitor especializado nos traz um elemento ainda maior para cair no crédito no nosso amigo Bolseiro na mesma carta para Straight:

a “salvação” do mundo e a própria “salvação” de Frodo é alcançada por sua piedade prévia e seu perdão aos ferimentos. Em qualquer momento qualquer pessoa prudente teria dito a Frodo que Gollum certamente o trairia e poderia roubá-lo no final. Ter “pena” dele, abster-se de matá-lo, foi uma insensatez, ou uma crença mística no valor-por-si-só fundamental da piedade e da generosidade ainda que desastrosas no mundo temporal. Ele o roubou e o feriu no final — mas, por uma “graça”, essa última traição ocorreu em uma junção precisa, quando a última má ação foi a coisa mais benéfica que alguém poderia ter feito por Frodo! Por uma situação criada por seu “perdão”, ele próprio foi salvo e aliviado de seu fardo. [Grifos nossos]

Além da confiança, Frodo apresenta um trunfo ainda maior: a misericórdia diante daquele que erra. A mesma que ele aprendera com Gandalf, meses antes, quando ainda estava no Condado. Nem mesmo Sam teria esse domínio, ao menos não no momento em que foi necessário — esse dom refinado o filho do Feitor adquiriria apenas tempos mais tarde, em Mordor, depois de ter passado pela sua breve experiência com a posse do Anel, quando Frodo fora apreendido pela Laracna.

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The choices of Master Samwise, Francesco Amadio

Bolseiro tinha todos os elementos mínimos necessários para um “herói comum” ideal (mas não perfeito) daquela missão: a grandeza dos sábios e a humildade dos pequenos, nas palavras do próprio autor: “uma pessoa de maior poder inato provavelmente jamais poderia ter resistido à atração pelo poder do Anel por tanto tempo; uma pessoa de menos poder não poderia ter esperanças de resistir a ele na decisão final”.

Essa justa medida, das virtudes dos grandes e dos pequenos, presentes em Frodo revelam um dom precioso de seu próprio caráter: a magnanimidade. Em outra carta, em 1944, dessa vez ao seu filho Christopher, J.R.R. Tolkien confere essa alcunha ao personagem:  

Frodo não é tão interessante porque ele tem de ser magnânimo e possui (por assim dizer) uma vocação. O livro provavelmente terminará com Sam. Frodo naturalmente irá se tornar enobrecido e ilustre demais pela realização da grande Demanda e passará para o Oeste com todas as grandes figuras; mas S. irá se dedicar ao Condado, aos jardins e às estalagens. [Grifo nosso]

O temperamento fleumático com toques de melancolia de Frodo contrasta com o sanguíneo de Sam. O Hobbit é silencioso, reflexivo, ponderado, mais age do que fala — o oposto de Sam —, pouco reclama e, muitas vezes, parece alguém sem brilho ou força. Mas ao contrário, seu caráter é fruto de uma virtude incomum no indivíduo médio: a magnanimidade. O pensador grego Aristóteles discorre sobre essa virtude em seu livro Ética a Nicômaco:

Pensa-se que é magnânimo aquele que se julga digno de grandes coisas e que é realmente digno delas […]. Assim, o homem magnânimo, por um lado, é um extremo em relação à grandeza e, por outro lado, um meio-termo no que diz respeito à justa medida, onde ele se mantém, já que ele não se julga digno do que é efetivamente digno, enquanto os outros caem no excesso ou deficiência. […]
A magnanimidade parece ser assim um tipo de ornamento das virtudes, pois ela as faz maiores e não existe sem elas. É por isso que é difícil ser verdadeiramente um homem magnânimo, pois isso não é possível sem um caráter bom e nobre.

Frodo é digno de grandeza, e os sábios como Elrond e, especialmente, Gandalf sabem disso. Mas ele não se julga assim. Ele está sempre na justa medida de suas capacidades, por isso, sua evolução como personagem é posta de maneira silenciosa. O herdeiro de Bilbo concentra em seu caráter hobbitesco a convergência daquilo que coroa O Senhor dos Anéis: “sem o elevado e o nobre, o simples e vulgar é totalmente vil; e sem o simples e ordinário, o nobre e heroico não possui significado”, diz o autor em sua fabulosa carta para Milton Waldman.

Sabemos que após a fraqueza de Frodo, a loucura de Gollum permitiu que o Anel fosse destruído — e isso reforça a importância da misericórdia exercida, não exclusivamente, mas especialmente por Frodo. Em sua pequenez, o hobbit fez tudo o que podia, e a Providência fez o resto.

Na volta ao Condado, depois do Expurgo, Frodo foi, porém basicamente esquecido por seu povo, e as dores no ombro devido a ferida que levou pelo cavaleiro negro insistiam em voltar. O coração de Sam ficará dolorido por conta de tudo isso. Merry, Pippin e o próprio Sam seriam exaltados, menos o seu mestre. Assim, para o cumprimento final de sua Demanda, Frodo precisaria passar pôr uma prova ainda maior: a do esquecimento próprio.

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Grey Havens, Matt Stewart

Como prêmio por sua coragem e voluntariedade, recebeu a chance de passar o resto de seus dias em Tol Eressëa, a Ilha Solitária, nas Terras Imortais, na companhia de Bilbo. Frodo não poderia receber as láureas por seus feitos, pois sua santificação já não pertencia mais à Terra-média, mas tinha uma ligação com a vida sobrenatural, embora ainda material, próximo aos Valar.

ele então pensou que havia dado sua vida em sacrifício: ele esperava morrer muito em breve. […] Lentamente ele “sai de cena”, dizendo e fazendo cada vez menos. […] não eram apenas pesadelos de lembranças de horrores passados que o afligiam, mas também uma autocensura despropositada: ele via a si mesmo e tudo o que havia feito como um fracasso retumbante. […] Essa na realidade foi uma tentação do Escuro, uma última centelha de orgulho: desejo de ter retornado como um “herói”, não satisfeito em ser um mero instrumento do bem. […]
Frodo foi enviado ou teve permissão para passar por sobre o Mar para curar-se — se pudesse ser feito, antes que morresse. Eventualmente ele iria “falecer”: mortal algum podia, ou pode, residir para sempre na terra ou dentro do Tempo. De modo que ele partiu tanto para um purgatório como para uma recompensa por algum tempo: um período de reflexão e paz e a aquisição de uma compreensão mais verdadeira de sua posição em pequenez e grandeza, passado ainda no Tempo no meio da beleza natural da “Arda Não Desfigurada”, a Terra não maculada pelo mal.

Nesse trecho da carta enviada à Sra Eileen Elgar em 1963, Tolkien nos revela mais uma das possíveis birras geradas em relação a Bolseiro: no espelho da verdade, não encaramos o fato de que temos de nos desfazer de nossas vaidades, queremos ser corados como heróis diante de todo o nosso sacrifício. Frodo traz consigo esse caráter especular, da grandeza e da pequeneza humanas, e terá seu fim triunfal ciente de sua insuficiência: revela-se assim a sua nobreza. Magnânimo.


Este texto é uma parte editada e modificada do livro A Amizade em O Senhor dos Anéis.


Cristina Casagrande é autora do livro A Amizade em O Senhor dos Anéis

9 thoughts on “A magnanimidade de Frodo

  1. Gostei muito do seu ponto de vista, sempre pensei dessa mesma forma. Tenho a impressão que as pessoas queriam que ele fosse perfeito. Chegar simplesmente na montanha jogaram anel e volta para casa. E mesmo se ele fizesse isso, seria taxado como competente. Eu vejo o conforte ele foi por não ter se entregado facilmente o anel, de como foi penoso para ele carregar aquele peso e mesmo assim completar meio que indiretamente objetivo final. Fico feliz por pessoas como você poderia explicar tão bem um personagem e a sua jornada para muitos que só sabem criticar e ofender.
    Parabéns pelo seu texto e me deixou muito feliz.

  2. Parabéns pelo texto Cristina nunca havia pensado por esse ponto de vista, ao menos não nesse nível de análise. Ética a Nicomaco é um dos livros que pretendo ler ainda.
    Continue com esse trabalho de escrever sobre as obras de Tolkien

  3. Minha opinião é: Frodo venceu. Veja bem. Frodo é um herói incomum em tudo. E foi uma grandeza do heroi que Frodo tinha diferente de todos os outros que permitiu que o anel fosse destruido. Outro no lugar de Frodo não teria conseguido destruir o anel. Não teria conseguido nem chegar a Montanha da Perdição. Teria sucumbido ao poder do anel antes. Tolkien disse que a demanda teria falhado e estava destinado a falhar. Mas Frodo não é um herói como os dos tempos antigos que vencia pela força e vontade. Frodo tinha uma vontade descomunal, pois conseguiu chegar a beira das lavas quentes sem ser possuido pelo anel. E tinha uma força, não fisica, mas moral por ter resistido ao anel por um tempo que nenhum outro conseguiu. Mas Frodo tinha outra coisa que permitiu que o anel fosse destruido e fez dele vencedor. Frodo tinha amor e compaixão. Frodo poderia ter matado Gollum várias vezes, mas por amor e compaixão não o fez. Qualquer outro teria matado Gollum, incluindo Sam. E isso fez com que Gollum tivesse vivo até o fim e subjugasse a unica e derradeira fraqueza de Frodo no fim. É como se Tolkien tivesse dizendo que Frodo(através de Gollum) venceu a si mesmo para destruir o anel.

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