“Sol e Tormenta” | Continuação de “Sombra e Ossos” é melhor, mas repete erros

Lorena S. Ávila

A julgar por Sombra e Ossos, começar o livro dois da saga de Leigh Bardugo, Sol e Tormenta, parece um esforço descomunal, haja vista que o livro é bem maior e o leitor espera se deparar com a mesma narrativa problemática. Contudo, a história pode surpreender aqueles que decidem dar uma segunda chance para a obra.

Sol e Tormenta apresenta uma continuação da trama muito mais interessante. A narrativa começa exatamente do ponto onde parou; a garota Alina está fugindo das garras do Darkling após o grande conflito na Dobra, levando o seu amigo Maly a tiracolo; disfarçados de camponeses, eles vagam por terras distantes. Mas Bardugo não perde tempo alimentando a caçada, e a trama oficialmente “começa” quando ambos são capturados.

Daí em diante, os acontecimentos ficam mais instigantes para o leitor, não só porque a escritora se permite explorar um pouco mais seu próprio universo, trazendo um pedacinho da mitologia, mas também porque as novas personagens que entram na história deixam tudo melhor; Stormhond, Nikolai, Tolia e Tamar foram cruciais no livro e na trajetória de Alina.

Enquanto é louvada como uma Grisha salvadora, a missão de Alina é tentar ocupar o espaço do Darkling, num reino completamente omisso à situação grave de guerra, abandonado à própria sorte sem o comando do rei ou de seu filho mais velho, o príncipe Vasily. É nesse cenário de crise que Alina precisa organizar o exército e trabalhar junto ao único líder que resta: Nikolai.

Nikolai é um personagem muito bem construído e carismático, não à toa ganhou uma saga spin-off que está entra as favoritas dos fãs do Grishaverso, as obras King of Scars e Crooked Kingdom (ainda sem tradução no Brasil). Ele tem uma dualidade interessante, está sempre cheio de cartas na manga e consegue ser enigmático mesmo quando achamos, assim como Alina, que sabemos tudo sobre ele.

Seguindo a mesma linha de trabalhar personagens e situações misteriosas, Bardugo arrisca uns plot twists bem mais legais e empolgantes do que em Sombra e Ossos, apresentando reviravoltas mais ousadas e muito positivas para a história. Ainda que em raros momentos, em Sol e Tormenta é possível ser impactado.

A escrita da autora também parece evoluir, ela é mais direta em momentos que isso é necessário e não se demora tanto tentando justificar o que não precisa. Há descrições e situações que brincam mais com a imaginação e nos permite vislumbrar um conto com riquezas. Porém, conforme avançamos na narrativa, esses momentos vão se perdendo.

Apesar de melhor, a história como um todo tem problemas estruturais muito difíceis de corrigir, sendo o principal deles o protagonismo de Alina e Maly, que segue fraco. O romance entre eles é, a grosso modo, extremamente chato, mas não suficiente, nesse livro tudo piora com as briguinhas inseridas na trama. Para um par romântico protagonista, Maly não cativa o leitor em absolutamente nenhum momento, nem quando a escritora quer nos fazer comprar sua ideia de heroísmo.

Alina tem seus momentos positivos, mas como personagem ela não aflora, continua sendo excessivamente humilde, seus conflitos de personalidade não são profundos e é fácil notar uma superficialidade no modo como ela é construída. Você espera mais dela durante toda a leitura, mas mais uma vez Bardugo não entrega.

Fazendo um comparativo, Morgana das fadas, em Brumas de Avalon, é a segunda narradora da história junto com a escritora, Marion Zimmer Bradley; como protagonista Morgana é imprevisível, repleta de sentimentos controversos, ela tramita entre o bem e o mal — como todo ser humano — e falha tentando acertar. Já Alina, está sempre na dúvida do que fazer e ela literalmente só fica na dúvida até finalmente tomar uma decisão que, obviamente, é a certa.   

Esse é apenas um dos detalhes base que drena o potencial da história. Alina faz o tipo “apaixonadinha”, fica tentando resolver seu caso amoroso, enquanto concilia isso com os problemas políticos e seu papel de governança. A fantasia perde substância e se torna secundária. Como escrever uma aventura e se esquecer dela no meio do caminho? A falta de amplitude é realmente decepcionante.

A ausência de Baghra e também de Genya não foi uma decisão acertada para o enredo; Bardugo poderia e deveria ter explorado muito mais essas personagens, não apenas porque são boas, mas porque oferecem para a protagonista dois pontos de apoio fundamentais na jornada do herói; o amigo e o mestre.  Sem elas, Alina fica completamente desamparada.

O ponto de conflito mais inteligente é a relação dos Grishas com sua própria ordem, o limiar entre a religião e a política, apesar de apresentado como um debate superficial, traz algumas provocações importantes para a saga como um todo. Embora, o caráter infanto-juvenil impeça Bardugo de adentrar questões mais densas.

O final de Sol e Tormenta encerra de modo avassalador esta parte, deixando um espaço intrigante para a continuação, Ruína e Ascensão (editora Planeta). Bardugo não teve medo de trabalhar um pouco mais a brutalidade dos acontecimentos, ela foi certeira trazendo ação, violência e magia. Os últimos capítulos são realmente impactantes, evocando uma emoção praticamente inédita. Lamentável que a escritora tenha deixado toda a potência da narrativa para o fim.

Diante dessa nova leitura, fica difícil especular sobre a segunda temporada de Sombra e Ossos, série da Netflix baseada nos livros. Pode ser que os roteiristas consigam equilibrar a trama, porém com as novas personagens, ficará difícil explorar devidamente cada núcleo dando espaço suficiente para a trajetória de Alina. Eles terão um desafio e tanto para abrigar tudo em dez episódios, a tendência é que muita coisa seja cortada.

Já renovada para a segunda temporada, Sombra e Ossos deve retornar apenas no meio de 2022 — isso se a pandemia melhorar nesse meio tempo. Para aqueles que não aguentam esperar, a dica é ler os livros recém publicados em belíssimas edições pela editora Planeta, por meio do selo Planeta Minotauro. A novidade é o box da trilogia, que vem com poster e outros brindes.


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Lorena é jornalista, formada pela Universidade Metodista de São Paulo. Tolkienista de coração, ama a arte de contar histórias e acredita no poder das narrativas.


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