Jorge de Oliveira
Em seus escritos, J.R.R. Tolkien concedeu aos dragões uma dimensão que transcende a mera física, situando-os no limiar entre o natural e o lendário, entre a zoologia e a mitopoese. No ensaio e palestra intitulada “Dragons”, proferida originalmente em 1º de janeiro de 1938 no Museu da Universidade de Oxford [1], o professor oxfordiano desenvolve uma taxonomia imaginativa na qual o tamanho dessas criaturas opera como uma variável narrativa e simbólica, nunca como um dado fixo ou mensurável no sentido positivista. É, portanto, com certa ironia erudita que observamos, no âmbito da recepção popular contemporânea, a fixação hiperbólica no tamanho de Ancalagon, o Negro, frequentemente descrito por entusiastas como uma entidade de escala continental, capaz de cobrir montanhas com suas asas e escurecer o céu de toda a Terra-média.
Tolkien, no entanto, em sua palestra, brinca com a relatividade das medidas: ele observa que um dragão “respeitável” poderia ter vinte pés (aproximadamente seis metros), enquanto outros, na “História Lendária”, poderiam ser vastos o suficiente para circundar o Oceano Atlântico [1]. Essa flexibilidade não é um descuido, mas um artifício literário deliberado. A grandeza do dragão serve ao seu papel na história: encarnar um desafio quase insuperável, mas nunca completamente fora do alcance simbólico da coragem heroica. Ancalagon, citado brevemente em O Silmarillion como “o maior dos dragões alados” [2], é descrito em função de seu impacto dramático — sua queda destrói as torres de Thangorodrim —, não por suas dimensões cartográficas precisas. Reduzi-lo a um exercício de cálculo astronômico é, de certo modo, negar a poética da sugestão que Tolkien tão cuidadosamente cultivou.
A proporção de Smaug: entre a arte e a escala
A discussão sobre a escala torna-se ainda mais fascinante quando analisamos Smaug, o Dourado. Para compreender sua magnitude, devemos considerar a estatura de Bilbo Bolseiro, que, segundo as descrições de Tolkien, possuía entre 90 cm e 1 metro de altura (três pés e seis polegadas) [3]. Na famosa ilustração de autoria do próprio Tolkien, “Conversation with Smaug”, observamos o encontro entre o hobbit e o dragão sobre o vasto tesouro de Erebor. Contudo, o próprio autor admitiu, em sua correspondência, que a representação visual não era perfeitamente fiel à escala pretendida. Na Carta 27, Tolkien observa explicitamente que “o hobbit no desenho do tesouro… deveria ser menor” [4].
Estudos de proporção baseados nesta obra de arte revelam uma discrepância interessante que corrobora a natureza elástica da grandeza tolkieniana. Se tomarmos o Bilbo desenhado como referência absoluta, Smaug teria entre 15 e 18 metros de comprimento. Entretanto, se ajustarmos a escala conforme a correção sugerida pelo autor — reduzindo Bilbo para sua estatura canônica em relação ao ambiente —, as estimativas para Smaug saltam para uma média de 25 metros. Tais estudos fundamentam-se na comparação meticulosa entre o tamanho dos crânios espalhados pelo chão da câmara e o diâmetro das moedas de ouro que compõem o leito do dragão, demonstrando que a majestade de Smaug reside tanto na sua massa física quanto na sua presença opressora [5].
| Dragão | Classificação | Referência de Escala | Impacto Narrativo |
| Glaurung | Rastejante (Pai dos Dragões) | Vasto, mas terrestre | A ruína de Nargothrond e o destino de Túrin. |
| Smaug | Alado (Urulóki) | ~25 metros (estimado) | A desolação de Erebor e o teste de Bilbo. |
| Ancalagon | Alado (O Maior) | Escala “Montanhosa” | O ápice da Guerra da Ira e a vitória de Eärendil. |
O fascínio pela escala descomunal revela, talvez, uma leitura ainda ingênua do mito tolkieniano, que substitui a profundidade alegórica pela fascinação pelo espetacular numérico. Na palestra de 1938, Tolkien adverte: o verdadeiro terror do dragão não reside em suas dimensões, mas em seu espírito maligno, sua astúcia e sua avareza personificada [1]. Ancalagon não é temível apenas porque cobre o sol — uma metáfora potente de opressão —, mas porque representa o ápice da corrupção melkoriana, uma força de destruição que exige um sacrifício cósmico para ser derrotada.
Assim, analisar a obsessão pelo tamanho de Ancalagon não é desmerecer o entusiasmo dos leitores, mas convidá-los a um regresso à fonte: à lição tolkieniana de que o dragão, como todo grande símbolo, não se deixa aprisionar pela medição. Sua grandeza é, antes de tudo, qualitativa, não quantitativa. É a grandeza do mal que desafia a esperança, da escuridão que exige uma estrela — Eärendil — para vencê-la. Como o próprio Tolkien gracejou, falar de dragões é viajar na “História Lendária”, onde as medidas são elásticas e o significado, infinito.
Que fique, então, a lição: em Tolkien, o colossal não se mede em léguas ou quilômetros, mas em ressonância ética e poética. Ancalagon é imenso não porque suas asas sombreiam continentes, mas porque sua sombra paira sobre a imaginação — e é aí, no reino da interpretação, que sua verdadeira magnitude reside.
Referências Bibliográficas
- TOLKIEN, J.R.R. Palestra “Dragons” (1938). Disponível no Booklet integrante de The Hobbit Facsimile Gift Set Edition. Londres: HarperCollins, 2017.
- TOLKIEN, J.R.R. O Silmarillion. Editado por Christopher Tolkien. Tradução de Waldemar Ferreira Neto. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2019.
- TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit. Tradução de Reinaldo José Lopes. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2019.
- TOLKIEN, J.R.R. As Cartas de J.R.R. Tolkien. Editado por Humphrey Carpenter e Christopher Tolkien. Carta nº 27, para a Houghton Mifflin Co. (março de 1938).
- HAMMOND, Wayne G.; SCULL, Christina. J.R.R. Tolkien: Artist and Illustrator. Londres: HarperCollins, 1995. (Análise das proporções em “Conversation with Smaug”).



