Tom Bombadil: vale a pena saber tudo sobre ele?

por Eduardo Boheme

Parece que até hoje quase nenhum site sobre Tolkien se eximiu de falar sobre este personagem dissonante e inquirir, mais uma vez, “quem é Tom Bombadil?”

Tom Bombadil e Fruta D’Ouro, por Pauline Baynes

Essa pergunta, já se sabe, tem uma resposta muito precisa dada por Fruta D’Ouro no próprio O Senhor dos Anéis (Tolkien, 2000: 130): “Ele é”. Temos de nos contentar com a afirmação bem tautológica de que Tom Bombadil simplesmente é. E o livro nos dá outras respostas: Tom é “um bom camarada” e também é o “Senhor da floresta, das águas e das colinas”. Nada muito esclarecedor.

Agora, quando perguntamos “Quem é Tom Bombadil?” estamos incorrendo no mesmo engano de Frodo, apontado por Tolkien em carta: perguntamos “quem” querendo saber “o quê” Tom Bombadil é (Carpenter, 2006: 192).

Com essa outra questão em mente (“o quê” em vez de “quem”), várias suposições foram feitas e nenhuma conclusão foi tirada, e as ambiguidades nas escassas descrições sobre Bombadil servem de combustível para as especulações. Voltamo-nos sem muito sucesso para a série de livros The History of Middle-earth, que muitos têm a impressão de ser o poço de todas as respostas para a Terra-média. Lá, duas constatações são interessantes do ponto de vista da gênese do livro.

A primeira é uma nota trazendo uma antiga intenção do autor de tornar o fazendeiro Magote e Bombadil mais próximos: à época, Tolkien propôs que Magote não seria um hobbit, “mas algum outro tipo de criatura — não um anão, mas aparentado de Tom Bombadil” (Tolkien, 2002: 117). A ideia, contudo, não foi para frente, embora no texto publicado d’O Senhor dos Anéis e em As Aventuras de Tom Bombadil haja uma relação amistosa entre Tom e Magote.

Rascunho (1938) em que Bombadil aparece pela primeira vez, na última linha, como parte do futuro enredo de O Senhor dos Anéis (McIlwaine, 2018: 333)

A outra informação também aparece na primeira fase do nascimento d’O Senhor dos Anéis. Bingo Baggins (futuro Frodo) pergunta “quem é você?” para Bombadil, ao que ele responde “Eu sou um Aborígene, é isso o que sou, o Aborígene desta terra” (Tolkien, 2002: 121). “Aborígene” é usado aqui em seu sentido etimológico: ab (desde) origine (o princípio). Apenas um jeito diferente de falar o que já sabemos: que Tom estava em Arda desde o início. Então, apesar de interessantes, essas informações não nos levam muito adiante na demanda pela identidade de Bombadil. Estudiosos da obra também tentaram interpretar essa enigmática criatura.

Olhando o compêndio de Robert Foster, The Complete Guide to Middle-earth, vemos que ele descreve Bombadil como um “ser”, talvez para não se comprometer demais. Contudo, ele também supõe, como muitos, que Tom seja um Maia “nativizado” em sua própria terra (Foster, 2003: 404). Isso, claro, é apenas uma suposição do autor.

Já a explicação de John D. Rateliff em seu The History of the Hobbit começa com a diferença entre ‘fairy’ e ‘fay’, ambas palavras traduzíveis por ‘fada’ em português.* Diz Rateliff que Tolkien frequentemente usou a palavra ‘fairy’ para se referir aos Elfos, mas que, em seu mundo, ‘fairy’ é diferente de ‘fay’. Esta última era a palavra usada para

os seres criados antes do mundo, isto é, anjos, espíritos e elementais reunidos sob o nome genérico de ‘Maiar’. Assim, Melian é uma ‘fay’ (tal como muito provavelmente o são Fruta D’Ouro e Bombadil, ela uma ninfa e ele um genius loci).

(Rateliff, 2013: 59)

Tom Bombadil, por WilliWeissfuss

‘Genius Loci’ é uma expressão que identifica o espírito protetor de um lugar, conforme a crença dos antigos romanos. Bombadil, no caso, seria o espírito que guarda um fragmento da Terra-média, a Floresta Velha.

O grande estudioso Tom Shippey, no livro The Road to Middle-earth, também descreve seu xará como ‘Genius Loci’, e acrescenta-lhe a qualidade de ‘Lusus Naturæ’ (2005: 122–3). Nesse contexto, essa expressão descreve um ser “anormal” que a natureza pôs no mundo. Anormal porque Tom escapa a definições, tem “poderes” estranhos, fala de modo peculiarmente cantado, parece indiferente a quase tudo que se passa fora de seu locus e assim por diante. Mas essas são apenas tentativas de explicação por parte de gente bastante entendida, e são definições “exógenas”, isto é, partem de conceitos externos ao livro. Além disso, duvido que tenham a intenção de descortinar a Verdade, com maiúscula, sobre Tom Bombadil.

Se recorrermos a Tolkien como autoridade nos assuntos da Terra-média, vemos quão instigantes são as considerações que ele mesmo faz sobre esse personagem. Algumas são as seguintes (ênfases nossas):

Como história, penso que deva haver muitas coisas sem explicação […] mesmo numa Era mítica deve haver alguns enigmas, como sempre há. Tom Bombadil é um deles (intencionalmente). [… Ele] não é uma pessoa importante — para a narrativa. Suponho que tenha alguma importância como “comentário” […] e representa algo que me é importante […].

(Carpenter, 2006: 174; 178)

O que seria esse “algo” importante? Talvez seja o que Tolkien sugere em outra carta: “o espírito do (evanescente) interior de Oxford e Berkshire” (Carpenter, 2006: 26). De novo, uma resposta pouco elucidativa.

A advertência principal do autor, porém, é: Não acho que se deva filosofar sobre Tom, e fazer isso não contribui [para o personagem]” (Carpenter, 2006: 192). É mais ou menos o que Tolkien reafirma em uma carta publicada por Hammond e Scull aqui:

Tom Bombadil é tão-somente o que ele é. Um “fato” estranho desse mundo. Ele não se explica, porque enquanto você estiver (como nesta história você precisa estar) concentrado no Anel, ele é inexplicável. Mas está lá — lembrando da verdade (na minha visão) de que o mundo é tão grande e diverso que se você tomar apenas uma faceta e fixar sua mente e seu coração nela, sempre haverá algo que não se ajusta a essa história/argumentação/abordagem e que parece pertencer a uma história mais ampla.

Com tudo isso, chegamos a uma resposta para a pergunta “O que é Tom Bombadil?”: ele é a representação de algo que Tolkien achava importante. Mas a frustração que muitos podem ter com essa resposta evasiva nos leva a descobrir que, de novo, a pergunta está errada. Não queremos saber “o que” ele é, mas sim “de que raça” ele é. Fixamos nossa mente e coração nessa única faceta do personagem, sem uma única esperança de resposta.

Acredito (mas admito a possibilidade de engano) que uma obra monumental como O Senhor dos Anéis não seja como um jogo a ser zerado: não se passa da fase do Tom Bombadil, nem a das asas do Balrog, nem a da origem dos orques, para eventualmente chegar ao fim e, se quiser, voltar a ler o livro tendo resolvido todos os mistérios e sabendo os códigos para passar mais facilmente de capítulo. Dando razão a Ítalo Calvino (1993: 11), confirmamos que O Senhor dos Anéis é um clássico porque cada releitura é “uma leitura de descoberta como a primeira”: o assombro e o mistério se renovam sempre.

Mas, caso a dúvida ainda esteja tirando seu sono, uma frase do professor numa carta da coleção de Wayne G. Hammond e Christina Scull (2008: 134) pode ajudar. Diz Tolkien: “Não sei a origem [de Tom Bombadil], embora eu possa teorizar. É melhor deixá-lo como está, um mistério […]”.

Em suma, podemos saber como Tom surgiu na cabeça de Tolkien (a conhecida história do boneco dos filhos), ou quem ele é, e o que ele é; em que obras aparece e o papel desempenhado por ele. Mas é possível que nunca saibamos se Tom é maia ou qualquer outra coisa, porque o próprio Tolkien não sabia. E o melhor de tudo é a libertadora certeza de que nenhum de nós precisa realmente saber.


Notas

* Em sua tradução de Beren e Lúthien, Ronald Kyrmse cunhou a palavra “fata” para traduzir “fay”, uma escolha etimologicamente adequada e interessante. Para uma explicação sucinta dos meandros linguísticos que ligam as palavras “fairy”, “fay”, “fātā” e “Faërie”, cf. Anderson e Flieger, 2014: 85-6.


Obras Citadas

Anderson, Douglas A. e Verlyn Flieger (eds.). 2014. Tolkien On Fairy-stories – Expanded edition, with commentary and notes (London: HarperCollins)

Calvino, Ítalo. 1993. Por que ler os clássicos? trad. Nilson Moulin, 2ed (São Paulo: Companhia das Letras)

Carpenter, Humphrey (ed.). 2006. The Letters of J.R.R. Tolkien (London: HarperCollins)

Foster, Robert. 2003. The Complete Guide to Middle-earth (London: HarperCollins)

Hammond, Wayne G. e Christina Scull. 2008. The Lord of the Rings: a Reader’s Companion (London: HarperCollins)

McIlwaine, Catherine. 2018. Tolkien: Maker of Middle-earth (Oxford: Bodleian Library)

Rateliff, John D. (ed.). 2013. J.R.R. Tolkien: The History of the Hobbit (London: HarperCollins)

Shippey, Tom. 2005. The Road to Middle-earth, Revised Edition (London: HarperCollins)

Tolkien, J.R.R. 2000. O Senhor dos Anéis: a Sociedade do Anel. trad. L.M.R. Esteves e A. Pisetta, 2ed (São Paulo: Martins Fontes)

_______. 2002. The Return of the Shadow (London: HarperCollins)


Eduardo Boheme é mestre em Tradução Literária pela Universidade de Dublin e ultimamente tem se sentido fino e esticado, como manteiga espalhada num pedaço muito grande de pão.


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