A Dama Branca da Floresta Dourada: as representações de Galadriel

Por Fernanda Correia

Galadriel é uma das personagens mais intrigantes do universo de O Senhor dos Anéis. Nós somos apresentados à sua majestosa figura juntamente com a Comitiva do Anel quando eles, depois de grandes dificuldades e perdas nas minas dos anãos, chegam à floresta de Lothlórien. O local parece intocado pelo tempo do mundo e pela magia negra de Sauron, o que ocorre principalmente por conta da magia da senhora do lugar. Ali eles se curam, descansam e recebem presentes para continuar em sua jornada.

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Galadriel, Veronika-Art

A história da dama élfica remonta ao início dos tempos, aparecendo também, ainda que de forma periférica, em O Silmarillion. Galadriel é a última habitante da Terra-média a lembrar dos tempos antigos, quando Valinor ainda fazia parte do mundo, e os Valar conviviam com os elfos, porque testemunhara tais eventos. A elfa esteva presente quando seu tio Fëanor fez o juramento que trouxe desgraça a todos e cometeu fratricídio, partindo com outros elfos da Terra Abençoada e, por conta disso, estava em exílio na Terra-média. Ela representa o presente e o passado, juntos em sua pessoa.

Sua história é mais desenvolvida em Contos inacabados, ainda que melhor não seja a melhor maneira de descrever o relato. Tolkien ficara intrigado pela personagem tanto quanto os seus leitores e se dedicara a trabalhar melhor a construção da personagem no final de sua vida. De fato, os últimos escritos do autor, datados do último mês de sua vida, dão conta de detalhes da história de Galadriel. Como não pôde terminá-los, muitos dos escritos são incongruentes e, até mesmo contraditórios.

Galadriel nasceu na Era das Árvores, antes do tempo ser contado como o conhecemos e antes do Sol e da Lua, quando Valinor vivia seu esplendor e sua fase mais frutífera, enquanto o mal tramava nas sombras o seu ocaso. A elfa era a filha mais nova de Finarfin, nobre noldo que decidira não deixar o Reino Abençoado e reina sobre os elfos que lá ficaram ou resolveram voltar. Segundo os eldar, seus cabelos possuíam o brilho das duas árvores, uma vez que eram dourados, mas apresentavam um brilho prateado. Algumas das versões dos textos dão a entender que Fëanor tirara da visão de seus cabelos a ideia de prender o brilho das árvores em joias, fazendo assim as Silmarils.

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Galadriel, Ulla Thynell

Em sua juventude fora discípula de Aulë e Yavanna, o que explica sua tolerância para com os anãos, seu apreço pelo trabalho de artífices e a grande floresta que governava quando os eventos de O Senhor dos Anéis ocorrem. Sua mãe lhe dera o nome de Nerwen, que significava “donzela homem”, e, contam alguns rascunhos, que ela era atlética e competitiva na juventude. Galadriel é constantemente descrita nesses textos como orgulhosa, forte e voluntariosa ou como forte de corpo, mente e vontade. Aqui pode-se recuperar um espírito guerreiro que a aproximaria das valquírias da mitologia nórdica. Assim como Éowyn, Galadriel se parece com as guerreiras da mitologia nórdica que recebiam os mortos em combate com morte honrosa ao serem associadas com beleza, força e luz.

O Dicionário de mitologia nórdica define as valquírias: “Em síntese, temos quatro aspectos essenciais relacionados com estas personagens: atendentes (servindo no Valhala), amantes/esposas, lutadoras (escolhendo e protegendo os heróis e reis), profetisas (em conexão com o destino)”. (LANGER, 2015, p. 539) Assim, podemos reconhecer algumas das características vistas em Galadriel, incluindo seu espelho que revela detalhes do futuro para aquele que se arrisca a olhá-lo.

Valkyrie, Jesus Careaga

Por conta disso, de seu temperamento e de sua disposição, é dito que sonhava com as terras longínquas da Terra-média para governá-las como quisesse e moldá-las ao seu gosto. Foi somente por isso que seguira Fëanor em sua rebelião. Galadriel apresentava uma estatura imponente já em Valinor e rivalizava com Fëanor, eram equivalentes em estatura, mas diversos em dons. Fëanor implorara por um dos cachos da elfa, mas nunca recebera um fio sequer, o que denota ainda mais a honra concedida a Gimli quando a Comitiva parte de Lothlórien. A elfa não gostava do tio artífice em Valinor e alguns dos rascunhos dizem que por ser capaz de penetrar as mentes, ainda que julgasse os outros com compaixão e compreensão, se opunha a Fëanor (TOLKIEN, 2002, p. 258). Ela compreendia sua disposição belicosa e o afastava. É apenas por conta de seu orgulho e ambição próprios que não ouve os Valar quando estes pedem o retorno dos rebeldes que decidem ir para a Terra-média. Com isso, acaba ficando sob a Condenação de Mandos que impede estes elfos de retornarem ao Reino Abençoado.

Mesmo quando Morgoth é derrotado e os elfos são chamados de volta à Valinor, uma vez que esta se retirará da esfera do mundo, e receberem o perdão, Galadriel não aceita voltar. Aqui encontra-se algumas das inconsistências, além da discrição de disposição em sua juventude que não condizem com a personagem em O Senhor dos Anéis. Não fica claro se Galadriel não retorna por ainda alimentar seu sonho de poder e o desejo de ter um reino para chamar de seu, ou se a elfa percebe que o mal não foi totalmente eliminado e ainda há trabalho a fazer. Quando Sauron apresenta-se como uma figura regenerada e se junta aos artífices elfos, os quais irá enganar e corromper fazendo com que criem os anéis de poder, não engana a Galadriel. Ela o desprezava porque percebia sua predisposição maligna, e Sauron percebe que ela seria sua principal adversária e obstáculo a seus planos.

É esta figura que conhecemos juntamente com os hobbits e seus companheiros. A Dama Branca da Floresta Dourada, rainha de uma região que serve tanto de ponto de defesa contra Mordor quanto como refúgio daqueles que fogem de suas sombras. Sua luta contra o mal não é direta, a disposição guerreira da juventude não aparece mais. Sua principal arma é a resistência, mantendo-se como um ponto de luz às portas das terras de Sauron. Sua luta é uma luta indireta contra o mal.

[…] Então o Olho começou a se movimentar, procurando algo de um lado e de outro, e Frodo percebeu, com medo e certeza, que ele próprio era uma das muitas coisas que estavam sendo procuradas. Mas também percebeu que não podia ser visto — por enquanto, a não ser que o desejasse. O Anel que estava pendurado na corrente em seu pescoço ficou pesado, mais pesado que uma pedra, fazendo a cabeça pender para baixo. O Espelho parecia estar ficando quente, e nuvens de vapor subiam da água. Frodo estava escorregando para frente.
— Não toque na água! — disse a Senhora Galadriel num tom suave.
A visão desvaneceu-se e Frodo se viu olhando para as estrelas que piscavam na bacia de prata.
— Sei o que você viu por último — disse ela —, pois está também em minha mente. Não tenha medo! Mas não pense que é apenas cantando por entre as árvores, ou só por meio de flechas frágeis e arcos élficos que nós da terra de Lothlórien nos defendemos e nos guardamos do Inimigo. Digo a você, Frodo, que neste exato momento em que conversamos eu percebo o Senhor do Escuro e sei o que se passa na mente dele, ou pelo menos tudo que se relaciona aos elfos. E ele sempre se insinua para me ver e ler meus Pensamentos. Mas a porta ainda está fechada. (TOLKIEN, 2000, p. 387).

É curioso perceber que uma das questões que fizeram de Tolkien uma pessoa muito próxima de sua fé foi o fato de sua mãe Mabel ter sido isolada por sua família ao se converter ao catolicismo e, por conta desse distanciamento, ela e os filhos acabaram passando necessidades. Em uma carta ao seu filho Michael (CARPENTER, 2006, p. 323), Tolkien descreve os “sofrimentos heroicos” pelos quais sua mãe passara. Ele considera que a resiliência, a convicção e o amor incondicional de sua mãe para com seus filhos fora um ato heroico. Uma espécie de resistência aos contratempos da vida, tal como grande parte da força e da luta de Galadriel está em resistir ao poder de Sauron e ao seu próprio orgulho.

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Mabel Tolkien

Além de receber a Comitiva em seus domínios, oferece descanso, conforto e cura aos membros do grupo, como uma mãe amorosa. Ali eles podem sofrer por conta da perda de um dos membros, recuperar-se da dura caminhada e curar o corpo e o espírito. Quando esses partem recebem presentes que, a princípio, parecem simples, mas vão se mostrar essenciais para que continuem seu trabalho para derrotar Sauron. Mais uma vez, Galadriel luta indiretamente contra o mal permitindo que o Portador do Anel continue e termine a sua demanda. A luz de Elbereth que oferece a Frodo é uma espécie de ponte entre o hobbit e os tempos antigos, capaz de afastar a maldade da aranha que o prende e o fortalece nas terras de Mordor.

— E você, Portador do Anel — disse ela voltando-se para Frodo. — Dirijo-me a você por último, embora não seja o último em meus pensamentos. Para você, preparei isto. — Ergueu um pequeno frasco de cristal: brilhava quando ela o virava em sua mão, e raios de luz branca emanavam dele. — Este frasco — disse ela — contém a luz da estrela de Eärendil engastada nas águas de minha fonte. Brilhará ainda mais quando a noite cair ao seu redor. Que essa luz ilumine os lugares escuros por onde passar, quando todas as outras luzes se apagarem. Lembre-se de Galadriel e de seu Espelho!
Frodo pegou o frasco, e por um momento, enquanto ele brilhava entre eles, viu a Senhora novamente como uma rainha, grandiosa e bela, mas não terrível. Fez uma reverência e não soube o que dizer (TOLKIEN, 2000, p. 401).

Como muitos elementos na literatura de Tolkien, Galadriel mescla-se com tradições antigas mitológicos e com a tradição cristã. O escritor colocou em diversas cartas direcionadas a leitores, críticos, entre outros o quanto não gostava de alegorias.

[…] ‘I cordially dislike allegory in all its manifestations, and always have done so since I grew old and wary enough to detect its presence. I much prefer history, true or feigned, with its varied applicability to the thought and experience of readers. I think that many confuse “applicability” with “allegory”; but the one resides in the freedom of the reader, and the other in the purposed domination of the author.’[1] […] (CARPENTER, 1977, p. 253).
[1] Eu cordialmente não gosto de alegorias em todas as suas manifestações, e sempre o fiz desde que eu cresci e me tornei cauteloso o suficiente para detectar a sua presença. Eu prefiro história, real ou fictícia, com suas possíveis adequações ao que pensam e à experiência dos leitores. Eu acredito que muitos podem confundir “adequações” com “alegoria”, mas em um reside a liberdade do leitor e na outra está a dominação proposital do autor (Tradução nossa).

Há cristianismo em suas obras, pois esta era sua fé, mas para Tolkien era preferível que se emulasse a ação dessas civilizações, principalmente porque o homem, que nada mais é do que um subcriador, não seria capaz de imitar a Deus. Faz parte da natureza humana criar histórias e elas não precisam ser claramente ligadas a Deus, pois este dom vem dele. Tolkien não negava o caráter cristão de seus textos, como deixa claro em suas cartas e reconhece as semelhanças entre Galadriel e a Virgem Maria.

Para Robert Murray, SJ. – 2 de dezembro de 1953
Acredito que sei exatamente o que você quer dizer com ordem da Graça; e, é claro, com suas referências à Nossa Senhora, sobre a qual toda a minha própria pequena percepção da beleza, tanto em majestade como em simplicidade, é fundamentada. O Senhor dos Anéis é obviamente uma obra fundamentalmente religiosa e católica; inconscientemente no início, mas conscientemente na revisão. É por isso que não introduzi, ou suprimi, praticamente todas as referências a qualquer coisa como “religião”, a cultos ou práticas, no mundo imaginário. Pois o elemento religioso é absorvido na história e no simbolismo. (CARPENTER, 2006, p. 167).

 

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Galadriel Mural, Jay Johnstone

Assim sendo, podemos caracterizar Galadriel como uma união das figuras da rainha das fadas com a Virgem Maria. Lakowski, em seu artigo “The fall and repentance of Galadriel”, faz esta analogia com as duas figuras:

Galadriel is paradoxically exulted because she is willing to be humbled. If there is any truth to Tolkien’s own later claim that figure of Galadriel was modeled on the Virgin Mary (though she is clearly, as Tolkien does not say, also modeled on the traditional figure of the ‘Fairy Queen’), the parallel is to be precisely found in this paradoxical mixture of power with humility and renunciation[1] (CROFT e DONOVAN, 2015, p. 3456).
[1] Galadriel é paradoxalmente exaltada porque está disposta a ser humilde. Se há alguma verdade na alegação posterior de Tolkien de que a figura de Galadriel foi modelada na Virgem Maria (embora ela seja claramente também modelada na figura tradicional da ‘Rainha das Fadas’, ainda que Tolkien não o diga), o paralelo é precisamente encontrado na mistura paradoxal de poder com humildade e renúncia. (Tradução nossa)

 Da primeira, a personagem apresenta a beleza, a presença que encanta e enfeitiça, quase uma Mãe-Terra, que cria e nutre, uma vez que as fadas também estão ligadas aos elementos e a Floresta na qual reina, cresce e floresce sem que o mal a toque e aqueles que adentram seus domínios, se de bom coração, recebem cura e morada. Se a figura se apresenta como esta figura das lendas, seu comportamento é o da Virgem, da mãe, apresentando compaixão e sabedoria. Ela cuida e oferece ajuda para quando for necessário, conforta os corações daqueles que a procuram. Mas antes de tudo, Galadriel é uma penitente.

Sua contínua estadia na Terra-média está relacionada, além da resistência ao poder de Sauron, ao fato de que Galadriel precisa ser testada. Não fica claro se o teste é autoimposto, mas a questão é que a elfa só decide voltar às terras nas quais nascera após ser exposta à tentação do Anel e resistir. A Dama tem consciência do poder terrível que teria se caísse em tentação e resiste a ele, mesmo que isso possibilitasse a derrota de Sauron:

— A Senhora Galadriel é sábia, destemida e bela — disse Frodo. — Dar-lhe-ei o Um Anel se assim o desejar. Esse peso é demais para mim.
— Sábia, a Senhora Galadriel pode ser — disse ela —, mas aqui ela encontrou alguém que está à sua altura em cortesia. De um modo gentil, você se vingou do teste que apliquei ao seu coração em nosso primeiro encontro. Agora começa a enxergar com olhos agudos. Não vou negar que meu coração desejou muito pedir o que está oferecendo. Por muitos longos anos, pensei o que faria, caso o Grande Anel me chegasse às mãos, e veja! Ele está agora ao meu alcance. O mal que foi concebido há muito tempo continua agindo de muitas maneiras, quer o próprio Sauron seja ou não derrotado. Não teria sido uma ação nobre a ser creditada ao Anel dele, se eu o tivesse tomado à força ou ameaçando meu hóspede? E agora finalmente ele chega. Você me oferece o Anel livremente! No lugar do Senhor do Escuro, você coloca uma Rainha. E não serei escura, mas bela e terrível como a Manhã e a Noite! Bela como o Mar e o Sol e a Neve sobre a Montanha! Aterrorizante como a Tempestade e o Trovão! Mais forte que os fundamentos da terra. Todos deverão me amar e se desesperar!
Levantou a mão e do anel que usava emanou uma grande luz que iluminou a ela somente, deixando todo o resto escuro. Ficou diante de Frodo e parecia agora de uma altura incalculável, e de uma beleza insuportável, terrível e digna de adoração. Depois deixou a mão cair, e a luz se apagou; e de repente ela riu de novo e eis então que se encolheu: era uma mulher élfica frágil, vestida num traje simples e branco, cuja voz gentil era suave e triste.
— Passei pelo teste — disse ela. — Vou diminuir e me dirigir para o Oeste, continuando a ser Galadriel (TOLKIEN, 2000, p. 389).

Assim, como acontece com outros elementos das histórias e da mitologia de Tolkien, observamos a mistura tradições mitológicas e cristãs para criar um terceiro elemento, o personagem original das histórias. Sua literatura seria consumida por diversas pessoas em diversos tempos e lugares, além de principalmente diferentes gostos e crenças. Uma aceitação explicada por Northrop Frye (2004, p. 20): “Em nossa sociedade a literatura dá continuidade à tradição de se criarem mitos. A criação de mitos tem, por sua vez, uma qualidade a que Lévi-Strauss chama de bricolagem, um ajuntar de partes e pedaços de tudo aquilo a que chegue à mão.”

Urang (1971, p. 129) comenta outra questão importante para a narrativa de Tolkien: suas histórias, principalmente seus romances publicados em vida, são experiências mais livres de significado, sendo possível encontrar pistas que levam tanto à fé de Tolkien quanto aos textos que o inspiraram, mas que não são simples de serem encontradas.

Galadriel é uma guerreira, a valquíria nórdica de disposição bélica e orgulhosa, ao mesmo tempo que é a Maria, a mãe acolhedora que conforta e cura. Algumas das críticas recebidas pelo autor a respeito das suas personagens femininas questionavam o fato delas terem como principal característica a beleza e não participarem, de maneira geral, dos grandes eventos da narrativa. No entanto, assim como sua mãe Mabel apresentou uma disposição heroica frente às dificuldades enfrentadas em vida, Galadriel oferece resistência a Sauron e ao seu maligno poder. O Senhor do Escuro a teme e sabe que tem na Dama Dourada uma rival à sua altura. O embate da elfa é mental, exige que sua disposição seja sempre contra a maldade e não descanse do olho que a procura e a seu anel do poder.

Além disso, como acontece com outros personagens, são as pequenas ações que fazem com que os grandes eventos aconteçam. Podemos especular que sem os presentes, conselhos e cura ocorridos em Lothlórien, a demanda do Anel poderia não ter sido bem-sucedida. Seu poder e suas ações são sutis e, muitas vezes, pouco considerados quando colocados lado a lado às grandes batalhas.

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Lo Specchio di Galadriel, Paolo Barbieri

Referências bibliográficas

CARPENTER, H. J.R.R. Tolkien: a biography. London: HarperCollins, 1977.

CARPENTER, H. (org.) As cartas de J.R.R. Tolkien. Tradução Gabriel Oliva Brum. Curitiba: Arte e Letra, 2006.

CHANCE, Faur (org.). Tolkien the medievalist. London: Taylor & Francis, 2003.

COUTRAS, Lisa. Tolkien’s Theology of Beauty – Majesty, Splendor, and Transcendence in Middle-earth. London: Macmillan, 2016.

CROFT, Janet Brennan e DONOVAN, Leslie A. Perilous and Fair: Women in the Works and Life of J. R. R. Tolkien. Altadena: Mythopoeic Press, 2015.

FAUR, Mirella. ­Ragnarök: O crepúsculo dos deuses: Uma introdução à mitologia nórdica. São Paulo: Cultrix, 2011.

FRYE, Northrop. O código dos códigos: A Bíblia e a literatura. Tradução Flávio Aguiar. São Paulo: Boitempo, 2004.

LANGER, John (org.). Dicionário de mitologia nórdica: Símbolos, mitos e ritos. São Paulo: Hedra, 2015.

LOPES, Reinaldo José. Mitologia nórdica. São Paulo: Abril, 2017.

URANG, Gunnar. Shadows of Heaven – Religion and fantasy in the fiction of C.S. Lewis, Charles Williams and J.R.R. Tolkien. London: United Church, 1971.

TOLKIEN, J.R.R. Contos inacabados. Tradução Ronald Eduard Kyrmse. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

______________. O senhor dos anéis – A sociedade do Anel. Tradução Lenita Maria Rimoli Esteves e Almiro Pisetta.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                São Paulo: Martins Fontes, 2000.

______________. O Silmarillion. Tradução Waldéa Barcelos. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

 


Foto Fe Correia

Fernanda Correia é jornalista, leitora de Tolkien desde os 14 anos e ficou ofendida que Gandalf não apareceu no seu aniversário de 33.
 

 


3 thoughts on “A Dama Branca da Floresta Dourada: as representações de Galadriel

  1. Belo texto!
    Sugiro outro texto de Leslie A. Donovan, chamado ·The valkyrie reflex in J.R.R. Tolkien’s The Lord of the Rings: Galadriel, Shelob, Éowyn, and Arwen·, no livro “Tolkien the Medievalist”.
    No mesmo, tem um outro texto bacana, de Michael W. Maher, “”A land without stain”: medieval images of Mary and their use in the characterization of Galadriel”. 🙂

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