50 anos de Tolkien Society e a jornada de uma tolkienista

Por Cristina Casagrande

Há cerca de três anos, quando eu ainda era mestranda em estudos tolkienianos, coloquei no grupo do Facebook da Tolkien Society minhas preocupações em se estudar Tolkien no Brasil, já que o ambiente universitário em solo tupiniquim se divide entre os amigáveis — e até entusiasmados — aos estudos da obra de Tolkien, e os hostis — por sorte, indiferentes — a tamanha ousadia (ou melhor, loucura).

Como resposta, ouvi muitas pessoas solidárias no grupo, muitas vezes em tom de identificação. Uma em especial me chamou a atenção: Dimitra Fimi, uma jovem tolkienista, mas já bastante prestigiada, me respondeu que era compreensível aquela inquietação, mas que não deveríamos dar atenção às vozes negativas e sim trabalhar duro e aproveitar a doçura e o amargor dessa jornada. Provavelmente não foram exatamente essas as palavras, mas foi assim que o meu coração as concebeu e guardou .

Dimitra Fimi, Cristina Casagrande e Erick Carvalho

Nesse meio-tempo, a professora Dimitra conseguiu uma vaga em literatura infantil e juvenil na Universidade de Glasgow, na Escócia, e pude conhecê-la pessoalmente no evento Tolkien 2019, em comemoração aos 50 anos da Tolkien Society, no qual ela foi a voz da palestra de encerramento. Já no primeiro dia, quis o acaso — se você chama isso de acaso — que ela se sentasse ao meu lado na palestra de abertura com Tom Shippey. E coincidências assim foram sucessivas para quem estava por lá: convivíamos diariamente com personalidades queridas e admiráveis como Alan Lee, Jenny Dolfen, John Garth, Christina Scull, Wayne G. Hammond, entre outros.

Não só as pessoas conhecidas faziam o ambiente se tornar entusiasmante, mas todos que estavam ali reforçavam o grande sentimento de identificação e amizade, aquele de que C.S. Lewis fala em Os Quatro Amores: “você também vê a mesma verdade que eu?”. Uma organizadora do evento chegou a dizer que tudo aquilo era maravilhoso, mas ao mesmo tempo exaustivo, pois exigia de nós muito esforço intelectual, com dezenas de palestras diárias, painéis artísticos, livros para comprar; entretenimento como peça, orquestra e festas. Mas o sentimento de amizade fraternal sempre pairava no ar.

Talvez você queira saber como foram as palestras antes de continuar acompanhando as minhas reflexões. Os vídeos principais se encontram, na íntegra, no canal da Tolkien Society e também de forma ordenada no post do Tolkien Guide.

A programação era sempre cheia, seria impossível acompanhar tudo. A fala de abertura de Tom Shippey, “Heirs of Tolkien? The Major Contenders”, nos entusiasmou com a capacidade que Tolkien tem de inspirar novas obras, hoje a mais popular delas são As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R. Martin. No mesmo dia, pudemos acompanhar a fala de Ted Nasmith com suas impressionantes ilustrações — ou como diria Ronald Kyrmse, fotografias da Terra-média. À noite, a performance Leaf by Niggle, conduzida por Richard Medrington, do The Puppet State Theatre Company, impressionou a todos — e ouso dizer que impressionaria a qualquer um, entusiastas ou não de J.R.R. Tolkien.

Tom Shippey
Peça Leaf by Niggle

Na quinta-feira, minhas escolhas logo cedo se voltaram para Tolkien na Itália. Oronzo Cilli pode dissertar sobre as iniciativas tolkienianas em seu país e, na sequência, mostrou orgulhoso seu mais novo filho, o livro Tolkien’s Library, endossado e prefaciado por Tom Shippey que teceu elogios à pesquisa do italiano. Depois, pudemos acompanhar ao vivo um episódio do divertido The Prancing Pony Podcast, cujos convidados eram o ator da peça do Niggle, Richard Medrington, e o autor de Tolkien and the Great War, John Garth. O autor teria a oportunidade de falar dos lugares que inspiraram as obras de J.R.R. Tolkien em sua fala “The Two Towers of Birmingham, and other follies”, já prenunciando seu futuro lançamento, o livro Tolkien’s Worlds, previsto para fevereiro do ano que vem.

Outras atrações importantes foram a fala de Alan Lee e a mesa de debates sobre a série que tangencia O Senhor dos Anéis da Amazon Prime, mediada pelo atual diretor da Tolkien Society, Shaun Gunner, que contou com a participação de Dimitra Fimi, Anke Eißmann, Marcel Aubron-Bülles e Brian Sibley. Ao final do dia, quem estava lá pôde contar com a belíssima apresentação do The People’s Orchestra.

Marcel Aubron-Bülles, the Tolkienist
Erick Carvalho, Toca-RJ

No dia seguinte, a minha manhã já iniciou no mundo medieval com Jane Chance dissertando sobre a mãe de Grendel. Na sequência, Jay Johnstone fez uma belíssima homenagem a Pauline Baynes em sua fala. A próxima atividade era participar de um café e bate-papo com Tom Shippey, que eu voltarei a falar aqui. À tarde, nosso amigo Erick Carvalho falou das iniciativas sobre Tolkien no Brasil, que você pode acompanhar no IGTV @tolkienista e também está disponível aqui. Christina Scull trouxe, em sua palestra, um panorama da genética e do desenvolvimento da narrativa de O Senhor dos Anéis. Para finalizar, pudemos ouvir a fala bem-humorada de Marcel Aubron-Bülles, conhecido como The Tolkienist, que nos alertou sobre as diversas citações fakes de J.R.R. Tolkien que correm pela internet e outras mídias.

O evento ainda ofereceu na sexta-feira um banquete seguido de um cèilidh, uma festa permeada de danças gaélicas. (É claro que eu me aventurei a dançar, porque na dúvida, apenas dance)

No sábado, eu resolvi dar uma trégua a mim mesma e ir a uma atividade menos intelectual, já que eu havia perdido os workshops de coroas élficas. Foi assim que eu assisti a uma apresentação de luta de espadas medievais. Na sequência, eu resolvi recuperar o juízo e assistir a palestras sobre semiótica nos contos de fadas, as demandas malsucedidas nas histórias tolkienianas e sobre esperança e desespero nos contos de Arwen e Aragorn.  Ainda sobrou tempo para conhecer os estudos de Claudio A. Testi sobre Tolkien e Tomás de Aquino, ouvir as histórias sobre possíveis amizades femininas de Tolkien, com o eloquente Jason Lepöjarvi, e prestigiar a fala de Wayne Hammond sobre a saga da publicação de O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Para finalizar, pudemos acompanhar uma agradável mesa com os ilustradores Jenny Dolfen, que fez a ilustração da camiseta do evento, Alan Lee, Anke Eißmann, Ted Nasmith e Jay Johnstone.

À noite, os convidados puderam acompanhar uma divertida masquerade com concursos de cosplay e uma festa temática com painéis de Edoras, o Portão de Mória, o Condado e a Floresta de Lothlórien.

Festa Tolkien Society 50 anos

Em meio a tantos pensamentos e sensações — e bom lembrar que eu ainda tinha um esforço extra ao enfrentar uma cultura e uma língua que não eram as minhas — aquela pergunta feita há três anos ainda me perturbava. Afinal, o que eu estava fazendo ali? Como acadêmica, esse era o meu primeiro evento internacional e havia muitas notas de inquietação reverberando em mim.

Quando tive a oportunidade de participar de um bate-papo com Tom Shippey, no momento das perguntas, fiz logo aquela mesma de três anos atrás, no grupo virtual da Tolkien Society, sobre estudar Tolkien no Brasil. É claro que eu esperava uma resposta consoladora, do tipo “vá em frente, que logo tudo se transforma num paraíso, como é aqui”. Mas não foi assim, todos responderam quase em coro, inclusive o professor Shippey: “aqui também é assim”. Então, eu havia percorrido milhas de distância para o oráculo me dizer que não havia resposta. É claro que a minha mente inquieta não sossegou até perguntar: mas por quê? E lá estava a aranha Ungoliant da Modernidade e da Supremacia da Razão mostrando suas patas como resposta. Mas, nem tudo parecia tão nebuloso: segundo Shippey, nos Estados Unidos, em que as correntes de gênero parecem ter mais voz, existe abertura para Tolkien em seu cânone.

Os dias se seguiram em plena festa, como tentei descrever brevemente, então tratei de deixar essas inquietações dormentes. No domingo, deixei para assistir apenas a duas palestras, a começar sobre a explanação de Shaun Gunner sobre a complexa visão política de J.R.R. Tolkien. O evento fechou com Dimitra Fimi, em que ela entoou algumas canções, como a hobbitesca Troll sat alone on his seat of stone, na tradicional melodia The Fox Went Out, e mostrou que a raposa é ser de caráter ambivalente — do diabólico ao amigável — no folclore e nos mitos. Não por acaso, ela consegue nos deixar com a pulga atrás da orelha, mesmo tendo uma passagem muito breve em A Sociedade do Anel.

Deve haver alguma coisa muito estranha e, ao mesmo tempo, familiar por trás disso, pois, enquanto a professora Dimitra Fimi nos encantava com sua palestra, o ambiente me trazia o mesmo os sentimentos de alegria e gratidão, mas também de dúvida e inquietação dos tempos em que a minha pesquisa ainda engatinhava. As indagações sobre os estudos sobre Tolkien no Brasil ainda permanecem, mas, como diz uma amiga minha, quando não temos uma resposta, o jeito é não responder. Enquanto isso, vamos trabalhando duro por aqui.


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Cristina Casagrande é jornalista e pesquisadora em literatura tolkieniana. Ainda espera passar uma tarde no Salão de Fogo e encontrar trechos esquecidos do Livro Vermelho do Marco Ocidental. 


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