Tolkienistas italianos entrevistam Cristina Casagrande

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A Tolkien 2019 em Birmingham não foi apenas um simpósio, mas uma celebração dos 50 anos da Tolkien Society com várias apresentações, comunicações, exposições, mostra de arte e música. Foi uma grande interação, de estudantes aos maiores nomes do mundo tolkieniano. Foi uma troca de experiências e de informações que nos permitiu enriquecer ainda mais essa paixão comum, o amor pela Terra-média.

Lá, Giuseppe Scattolini conheceu Cristina Casagrande, jornalista brasileira, tolkienista, escritora, tradutora e mãe que nos deu essa entrevista com muita simpatia e gentileza. Foto de capa, por Anderson Timóteo.


Cristina, agradecemos em nome dos Tolkienianos Italianos e da Sociedade Tolkieniana Italiana por conceder esta entrevista, que vem de uma breve conversa realizada em Birmingham com um dos nossos amigos, Giuseppe Scattolini.

Eu que agradeço a atenção de vocês.

Conte-nos um pouco sobre você. Quem é Cristina Casagrande?

Sou brasileira, faço 37 anos dia 8 de setembro, sou casada e tenho um menino, Francisco, de 5 anos. Sou formada em jornalismo e letras, com mestrado em literatura comparada, tendo como objeto de estudo as obras de J.R.R. Tolkien. Hoje continuo a minha pesquisa em literatura tolkieniana como doutoranda na Universidade de São Paulo.

A sua paixão por Tolkien, que a levou do Brasil até chegar à Inglaterra: quando nasceu e como?

Eu viajei para Birmingham com intuito acadêmico. Foi a minha primeira viagem internacional como pesquisadora na área. A minha intenção era ouvir o que as pessoas tinham para me falar, conhecer mais o meio no âmbito internacional e trazer comigo boas reflexões para amadurecer a minha pesquisa.

Qual a importância de Tolkien para você?

Bem, ele mudou a minha vida. Eu conto um pouco a história na carta de apresentação do meu livro A Amizade em “O Senhor dos Anéis”. A princípio, eu comecei a fomentar a ideia de fazer um mestrado na área de literatura. Depois surgiu a ideia de estudar a amizade na literatura, com foco no pensamento aristotélico, mais especificamente em Ética a Nicômaco. Eu pretendia estudar um autor brasileiro, que trata, em boa parte, do nosso folclore, o Monteiro Lobato. Mas não se encaixava bem com o que eu queria. Eu já havia lido Tolkien e assistido às adaptações cinematográficas, mas jamais imaginaria que iria estudá-lo no âmbito acadêmico. Um dia, à noite, fui assistir às versões estendidas da adaptação cinematográfica de O Senhor dos Anéis, com o meu marido, e então me veio um estalo: era O Senhor dos Anéis que eu queria estudar. Fui conversar com a minha orientadora para ver se ela topava, e ela concordou. Foi então que eu decidi estudar a amizade em O Senhor dos Anéis como mestrado em literatura comparada. Eu costumo brincar que Tolkien que meu escolheu, e não eu que o escolhi.

Como foi sua experiência na Tolkien 2019 em Birmingham?

Foi incrível, muito melhor do que eu poderia imaginar. Foi uma grande imersão intelectual, lúdica e fraternal também. Um verdadeiro presente.

Ficamos sabendo que você conheceu Dimitra Fimi, John Garth, Alan Lee, John Howe, Tom Shippey … Como foi a experiência em conhecer, interagir e encontrar na balada os grandes nomes do campo tolkieniano contemporâneo?

Hahaha. Essa pergunta foi engraçada. Eu achei muito legal ver todos lá, são pessoas muito simples e acessíveis como eu e vocês. Um sentimento de união muito grande.

Falando de Tom Shippey e John Howe. O mundo aguarda notícias sobre a série multimilionária da Amazon Studios “O Senhor dos Anéis on Prime”. Qual é a sua expectativa para a série?

Eu não consigo imaginar muito bem, porque parece estar tudo muito obscuro. Costumo ter uma forte intuição sobre as coisas, mas essa série tem sido uma grande incógnita para mim. Sinceramente, eu acho que nem o Tom Shippey sabe muita coisa. Devem ter muitas camadas de sigilo por ali. Mas costumo brincar com os meus amigos que adoraria participar no roteiro, se me oferecessem a vaga.

O meu palpite é que eles trabalharão bastante a corrupção humana, e espero que explorem bem o Sauron versão Annatar, mais dúbio e sedutor. Tenho um pouco de medo de que eles descaracterizem a essência de Tolkien. Porque mesmo que a Segunda Era seja sobre personagens mais “cinzas”, o autor sempre deixou muito claro o que é a virtude e o que é a corrupção; espero que os roteiristas tenham isso muito claro também. Tolkien bebeu de fontes medievais e da antiguidade grega em sua concepção moral; nesse aspecto, ele é bem diferente de George R.R. Martin, que traz uma visão mais pós-moderna da moralidade.

Uma grande preocupação comum é que temos poucos elementos sobre a Segunda Era, e além disso, não se sabe se vão poder contar com o Silmarillion, Contos Inacabados e outros livros póstumos. Se forem se basearem só nos apêndices do Senhor dos Anéis, por uma questão de direito autoral, vão ter de inventar mais coisas ainda do que já precisariam se pudessem contar com esses livros — visto que a narrativa da Segunda Era não foi tão bem desenvolvida quanto as outras.

Pelo que também foi discutido em Birmingham, você tem uma vaga ideia do que a Amazon nos oferecerá em 2020/2021?

Acho que ninguém na Tolkien 2019 tem ideia do que realmente possa acontecer, somente especulações. Sabemos que eles contam com o Shippey para consultoria, mas que ele não participa do roteiro, ou seja, a equipe da Amazon pode perguntar o que quiser e quando quiser e escolher o que aceitar ou não de conselho. Eu sinceramente espero que eles ouçam muito bem o Tom Shippey, porque acredito que ele permitirá que a essência de Tolkien não se perca na adaptação. Mas, no evento, Shippey não falou absolutamente nada sobre isso.

Sabemos que o John Howe também participará da série, então teremos alguma noção da estética, se formos nos basear nas ilustrações dele. Mas o Howe não estava no evento, então não deu para saber muito. Mesmo ele já tendo participado das adaptações dirigidas por Peter Jackson, penso que a estética vai ser diferente, visto que tratarão da Segunda Era ao que tudo indica, e nesse período os homens númenórianos aparecem mais, diferente da Terceira Era que é mais hobbitocêntrica (do ponto de vista da narrativa literária).

O que você gostaria de ver na tela “on Prime”?

Eu adoraria ver um Annatar bem explorado e acompanhar o processo da forja dos anéis (e do Um Anel também, claro).

O que mais a marcou nessa viagem à Europa e qual foi a bagagem pessoal que você levou de volta para a casa?

Nossa, essa viagem foi muito especial em inúmeros aspectos. Mas um dos pontos mais fortes foi esse sentimento de comunhão. Não importa tanto a cultura e a distância, todos somos muito parecidos. Voltei com mais vontade de estudar e de me concentrar mais nos meus projetos.

Falamos antes sobre Giuseppe Scatollini. Ele tem o hábito de chamar Tolkien de “pai espiritual” dos tolkienianos. Você acha que é uma definição adequada?

Acho uma expressão simpática. Eu também o considero assim, porque acredito que exista vida após a morte e penso comigo mesma que, lá do céu, Tolkien vai sugerindo — se Deus permite — para cada um de nós, os afeiçoados ao tema, ajudarmos em alguma parcela desse grande projeto da compreensão do imaginário humano que ele grandemente contribuiu.

Mas é importante deixar bem claro que não acredito, nem de longe, que o ambiente tolkieniano se assemelha a uma religião. É só um carisma que toca mais forte em alguns.

Os Tolkienianos são todos irmãos, um pouco filhos de Tolkien?

Acho que metaforicamente podemos dizer assim. Mas infelizmente, às vezes, alguns irmãos brigam, achando que são filhos mais queridos do que os outros.

A notícia do trabalho da HarperCollins Brasil chegou até nós. O que você acha do projeto deles de retraduzir O Senhor dos Anéis e os outros trabalhos do Professor e o quanto você acha que poderia ser importante para a sua nação?

Eu acho o trabalho da HarperCollins Brasil muito primoroso. A perfeição não existe, ainda mais quando se trata de uma obra literária, que lida com a linguagem. Mas eles entregam um trabalho muito bem feito, e posso dizer isso mesmo nos trabalhos em que não participei. Isso porque já atuei com revisora (como Beren e Lúthien e O Silmarillion) e tradutora em alguns livros deles — mas, nesse último caso, em publicações menores e fora do legendarium

Há os erros inevitáveis e acidentais que a editora prontamente se corrige. Existe um conselho de tradução para os livros do legendarium formado por grandes especialistas, como Ronald Kyrmse e Reinaldo José Lopes. Nenhum deles toma a decisão sozinho. Essa predisposição para o diálogo é o que eu mais admiro no trabalho da HCB.

Estamos cientes do fato de que, no Brasil, houve reações opostas e debates acalorados sobre esse projeto da Harper Collins Brasil e que a comunidade brasileira de Tolkien é tão grande e variada quanto o seu país. Você pode fazer uma imagem o mais clara e abrangente possível da situação para nós, italianos?

A maior parte dos grupos brasileiros apoia a editora, sem deixar de ter uma postura crítica saudável. Acredito que 90% dos grupos tolkienianos que eu conheço apoiam a HarperCollins Brasil, pois eles veem a seriedade dos editores, tradutores e revisores, bem como o seu diálogo e o seu empenho em melhorar. Existem os grupos que se contrapõem, mas são minoria. Há um portal de grande alcance no Brasil que é o que mais se empenha em criticar de uma forma infrutífera a editora, pois não aceita opiniões divergentes — as quais são bastante embasadas e que procuram levar em conta o Guia de Tradução que Tolkien escreveu para O Senhor dos Anéis. Esse portal dissonante acaba passando uma imagem negativa da editora para leitores e espectadores desavisados. Mas o resultado não é eficiente, porque os livros de Tolkien lançados pela HarperCollins no Brasil estão entre os mais vendidos entre os rankings de vendas nacionais. Além disso, os grupos — smials da Tolkien Society, portais, canais do YouTube, acadêmicos, colecionadores e outros — promovem encontros presenciais por todo o país, e a aceitação tem sido sempre muito grande.

Eu acredito que críticas são mais do que bem-vindas, são necessárias. Mas elas devem ter o intuito de buscar o melhor de nós e dos outros. Mas existem as críticas destrutivas, que são baseadas na vaidade e na rixa, movidas pelas paixões e não pelo bom senso, e essas não deveriam receber tanta atenção.

Nos permita, agora, de fazer uma pergunta “filosófica” que nos preocupa muito de perto, já que a Itália também é extremamente fragmentada e dividida como o Brasil. Você acha que é possível e proveitoso ser capaz de coordenar várias realidades tolkienianas no mesmo país, colocando a apreciação da diversidade no mesmo terreno comum daqueles valores que Tolkien nos deixou como herança?

Eu adoro perguntas filosóficas. Eu entendo que os países de origem latina tendem a ser mais passionais e talvez por isso as discussões podem parecer mais acaloradas. Eu acredito que uma das principais lições das obras de Tolkien é a exaltação dos humildes. Tenhamos corações hobbitescos e saibamos ouvir. Deixemos que um Conselho tome as decisões em conjunto e não o nosso ego sozinho. Sigamos bravamente com a nossa Demanda, com o senso do dever, esquecendo-nos de nós mesmos. Talvez alguns esqueçam que tivemos muitos atos heroicos e se decepcionem quanto recuamos diante de uma provação máxima, mas a misericórdia que tivemos diante daqueles que tanto nos fizeram mal triunfará.

Quais são esses valores, se você acredita que existem?

Eu acredito, senão não estaria estudando Tolkien. Os valores são muitos, destacaria algumas virtudes: humildade, responsabilidade, generosidade, amizade, coragem e misericórdia.

O que você acha que torna um trabalho focado na cultura norte europeia tão amado em um país latino-americano como o Brasil?

Acredito que, mesmo Tolkien tendo o intuito de, a princípio, fazer uma mitologia para a Inglaterra, ele acabou fazendo uma mitologia universal que toca toda a humanidade. As histórias da Terra-média acabam dialogando com pessoas das mais diversas realidades e culturas.

Tolkienista? O que é e para quem é?

Em 2016, eu estava terminando o mestrado e fiquei um pouco triste de “abandonar” meu encontro diário com J.R.R. Tolkien. Resolvi então fazer uma conta o Instagram chamada Tolkienista, que significa aquele que estuda Tolkien. Neste ano, eu resolvi levar adiante um projeto antigo que era criar um site que pudesse trazer notícias, compartilhar resenhas e análises e demais assuntos que envolvam Tolkien e outros autores de fantasia e contos de fadas. Eu e alguns amigos costumamos escrever nesse site (Tolkienista.com). Gostaria de destacar especialmente os meus amigos Fernanda Correia, Eduardo Boheme e o professor Diego Klautau. O site é aberto a todos os tolkienistas e congêneres de boa vontade a publicarem por lá.


Conte-nos sobre o seu livro “A amizade em O Senhor dos Anéis”. O que levou você a escrevê-lo e publicá-lo?

O livro é fruto da minha pesquisa no mestrado. Ele traz alguns elementos diferentes da dissertação, mas nasceu com base nela. Eu sempre quis ter esse diálogo com a sociedade e não deixar a pesquisa parada nas prateleiras da universidade. Fico extremamente grata de ter conseguido publicar. Agradeço a muitas pessoas, destaco aqui a editora Martin Claret que me recebeu carinhosamente de braços abertos.

O que pode nos contar com mais precisão?

O assunto é o mesmo da dissertação: a amizade, tendo como base filosófica o livro Ética a Nicômaco, de Aristóteles. Existe também uma abordagem teológica, com base na Suma Teológica de Tomás de Aquino, visto que grande parte da cosmovisão de Tolkien é cristã. Basicamente, Aristóteles diz que a amizade é a benevolência recíproca, e ela se dá de modo perfeito (ou o mais próximo disso) entre aqueles que são bons em si mesmos. Do ponto de vista religioso, essa amizade se dá por Deus em primeiro lugar, desse modo, a reciprocidade sempre vai existir, porque Deus nos dá essa benevolência de volta, ainda que os outros não correspondam. Em O Senhor dos Anéis,isso tudo é demonstrado tanto do ponto de vista pessoal quanto político. Os hobbits, assim como os outros membros da Sociedade e amigos dela, vão crescendo em virtude e, ao mesmo tempo, em amizade.

Existe uma tradução no exterior?

Por enquanto não, mas existe forte interesse.

Você teve problemas para publicar o seu livro no Brasil?

Eu mandei o texto para várias editoras, a que me recebeu de braços abertos foi a Martin Claret. Fui muito bem acolhida e prontamente aceitei! Na época, a HarperCollins ainda mal tinha começado no Brasil, e eles acabaram não retornando o meu e-mail. Foi em 2017. Não tinham os direitos sobre Tolkien, e eu segui com a Martin Claret que tem ótimas publicações de livros clássicos.

E em quanto tempo você conseguiu essa publicação? Da escrivaninha às prateleiras das lojas?

Dois anos.

Quais são seus planos para o futuro?

Tenho alguns. Posso destacar que por ora quero ler muito para fazer um bom doutorado e quem sabe publicar um novo livro. Estou disposta a traduzir o meu livro para outras línguas também.

Deseja enviar uma mensagem aos nossos amigos tolkienianos italianos?

Como quase todo bom brasileiro, eu trago sangue italiano nas minhas veias, então o carinho pela Itália é imenso para mim. Não foi à toa que fiz questão de colocar as duas palestras do Oronzo Cilli na minha grade de compromissos no evento da Tolkien 2019.

Desejo que nossas pátrias sejam sempre amigas, no sentido mais profundo do termo: que queira e faça o bem mutuamente, fruto da abundância de bem que cada nação conserva em si.

Agradecemos de coração, novamente, por nos conceder esta entrevista.

Eu que agradeço, foi um prazer imenso poder colaborar.


Agradeço à Sociedade Italiana de Tolkien e aos queridos Erie Rizzi Neves e Giuseppe Scatolini que me deram a oportunidade de conceder esta entrevista.

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