Lewis e Tolkien: O dom da amizade, de Colin Duriez

Por Guilherme Mazzafera

O Dom da Amizade, Colin Duriez

Primeiro título lançado pela HarperCollins Brasil em seu projeto Tolkien, J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis: O Dom da Amizade, de Colin Duriez, é uma boa introdução à vida e obra dos amigos autores. Do ponto de vista editorial, a publicação apresentou ao público brasileiro os elementos centrais do projeto: uma edição bem cuidada e atrativa, preço competitivo e, o mais importante, uma tradução de altíssima qualidade feita pelo principal tradutor de Tolkien entre nós, Ronald Kyrmse, amparada por um serviço especializado de revisão, com profissionais versados na dupla de autores contemplados pelo livro.

Além de funcionar como importante rito de passagem para a Harper brasileira, que desde 2017 publica consistentemente as obras de Lewis, o estudo de Duriez, anteriormente publicado pela Nova Fronteira, em 2006, com a mesma tradução, me parece cumprir outra função relevante em seu relançamento programático: o de tirar Tolkien de certo isolamento literário, percebido tanto na constante rejeição acadêmica que suas obras ainda sofrem no Brasil, quanto, no espectro oposto, na sua fruição de sabor secreto-clandestino por devotados grupos de leitores, fenômeno presente por aqui, ao menos desde o final dos anos 1980, e do qual Kyrmse — exímio tradutor sem filiações acadêmicas — dá notícia em seu livro Explicando Tolkien (2003), tendo sido ele mesmo um de seus mais destacados partícipes.

Nada é mais ficcional que uma biografia, a não ser a autobiografia. Quando se trata de um objeto duplo, mediado pela escolha de um fio condutor ostensivo — a amizade entre Tolkien e Lewis, percebida por Duriez como “extremamente forte e persistente”[i] —, muito do que já foi devassado por outros estudos é retomado, outro tanto ignorado e, essencialmente, as novas descobertas do biógrafo devem amalgamar-se em liga orgânica com seu projeto de livro. Duriez está perfeitamente consciente de tais questões, indicando de modo bastante geral suas principais fontes e débitos bem como a não pretensão de responder a todas as perguntas: “Ainda não sei se balrogs têm asas, a despeito da bela visualização no filme A Sociedade do Anel, mas acho que descobri por que os hobbits comem fish and chips.”

O método adotado é descrito na introdução. Cada capítulo é iniciado por uma “vinheta” (e outras podem aparecer de entremeio) em que o biógrafo encarna de leve o ficcionista e recria cenas fundamentais das vidas em questão. Não há maior elogio ao poder da ficção como via de acesso e conhecimento do mundo do que tal contaminação ficcional pelo gênero biográfico. Além disso, não deixa de ser uma bela homenagem do biógrafo a seus biografados, marcados pela crença da via imaginativa como modo privilegiado de amplificação da experiência e pela partilha de infâncias “surpreendentemente marcadas pela imaginação”. A primeira dessas vinhetas, por exemplo, leva-nos à estação King’s Heath, em Birmingham, onde vemos Tolkien aos nove anos, acompanhado do irmão Hillary, observando com fascínio as inscrições no flanco dos vagões de carvão vindos dos vales de mineração de Gales do Sul, reconhecendo, talvez pela primeira vez, a beleza dos nomes ignotos que o impulsionaria mais tarde a criar todo o contexto necessário para que nomes como estes pudessem existir in natura: “Dê-me um nome e ele produz uma história, não o inverso.”

Tanto pela presença das vinhetas, quanto pela escrita como um todo, a leitura é extremamente agradável, um verdadeiro convite a devassar um pouco da intimidade dos escritores para, ato contínuo, refletir sobre seus anseios e posições — e mesmo suas contradições, em especial nos anos finais, de amizade mais dura —, sem jamais descambar para o gozo voyeurístico irrestrito. Embora não seja um livro longo, a abrangência de informações e questões que sua leitura nos coloca é imensa, o que obriga o resenhista a optar por alguns pontos nodais para traçar um possível mapa da leitura.

Um leve incômodo que tive, como pesquisador acadêmico que precisa dar recibo de tudo que lê — mas também como curioso que se depara com pequenas joias e quer desesperadamente o endereço do ourives —, é que nem sempre as referências das citações são claras, constando apenas a lista bibliográfica no fim e um quase inexistente sistema de referências no interior do livro, de modo que não é possível ter certeza sobre as contribuições de facto originais do biógrafo. Há algumas notas esparsas do autor, bem como notas da edição e do tradutor. Estas, além de clarificarem alguns meandros linguísticos, acabam, quando necessário, por melhor precisar e até mesmo corrigir algumas impropriedades do texto original, o que é um ganho para o leitor brasileiro. Originalmente lançado em 2003, ainda no boom das primeiras adaptações cinematográficas de Peter Jackson, não se trata de um livro propriamente acadêmico, mas sim voltado para um público mais amplo. O leitor nacional poderá experimentar uma forma anacrônica de déjà­-vu caso se lance posteriormente à biografia oficial de Carpenter, texto de apoio basicamente canônico do qual Duriez se vale copiosamente.

Colin Duriez

Parte dessa sensação remonta, a meu ver, à própria escrita de Duriez, que busca a fluidez comunicativa em meio à mobilização de uma grande massa documental, e ao seu próprio histórico de escritor, desvinculado da academia, marcado por alguns anos de trabalho jornalístico e que se construiu por meio de livros dedicados mais a divulgar e explicar seus objetos do que a interpretá-los criticamente, como se dá nos handbooks (The Inklings Handbook, The J.R.R. Tolkien Handbook, C. S. Lewis Handbook, The Tolkien and Middle-earth Handbook), nos “manuais práticos” (como um deles foi traduzido por aqui) sobre Nárnia e Harry Potter e também na The C. S. Lewis Encyclopedia e no The A-Z of C S. Lewis. Duriez também escreveu livros menos “práticos” como Bedeviled: Lewis, Tolkien and the Shadow of Evil e The Oxford Inklings: Lewis, Tolkien and their Circle, ambos lançados em 2015, mas imagino que seu pendor não divirja muito do que vemos em O Dom da Amizade, escrito com a consciência de “não sobrecarregar meu livro com detalhes que pertencem com propriedade a um estudo especializado”.

No caso deste último, movido pelo anseio de promover um convite a Tolkien e Lewis, a escolha editorial parece acertada, abrindo possibilidades ao leitor de explorar por sua conta. A bibliografia elencada por Duriez é mais incorporada do que ostensivamente citada, o que é um ganho para o leitor em geral. Não me parece haver uma tese a que se quer provar aguerridamente, mas uma percepção inicial sobre o caráter complexo e duradouro de uma amizade construída pela partilha de um pathos, uma verdadeira disposição do coração em que a amizade não emerge inexoravelmente como necessidade vital, mas, como percebe Lewis em Os quatro amores, citado por Duriez, talvez como uma instância em que “ninguém reivindica ou tem qualquer responsabilidade com o outro, mas todos são pessoas livres e iguais, como se tivessem se encontrado há uma hora, ao mesmo tempo que uma afeição enternecida pelos anos nos envolve.”

A noção de fellowship, enquanto junção da amizade filial e do vínculo acadêmico, é o termo chave para se pensar O Dom da Amizade. Evidentemente, a fellowship vivida e estimulada pelos autores — eles mesmos fellows de diferentes colleges oxfordianos — , assim como a que consta no título da primeira parte do romance de Tolkien, remete especialmente à noção de irmandade (como consta na tradução portuguesa e na sueca), uma afinidade de espírito transformada em convivência física e intelectual, algo que reaparece em outras traduções como companhia (italiano), comunidade (espanhol e francês), fraternidade (tradução francesa recente de Daniel Lauzon) ou mesmo, num desses casos curiosos, como os companheiros (Die Gefährten) na tradução alemã, elidindo-se, inclusive, a referência ao anel, e, de modo ainda mais preciso, Os companheiros de viagem (De reisgenoten) no caso da tradução holandesa feita por Max Schuchart nos anos 1950, que exemplifica bem as nuances dessa convivência.

Foto montagem: Tolkien e Lewis

Talvez a dimensão mais profunda da noção de fellowship entre Lewis e Tolkienseja a partilha de uma atitude criativa, ficcional, alimentada pela imaginação e que tem em seu âmago a recuperação de uma “consciência unitária perdida”, localizada, em especial, no “esplendor imaginativo da Idade Média” (mas não só). Tolkien e Lewis se viam como “adversários do espírito moderno”, reagindo ao modernismo como estética e dogma intelectual, reação que gestou uma espécie de projeto literário comum — ainda que com realizações marcadamente idiossincráticas — que tinha por horizonte a escrita de “contos de fadas para adultos”.

Essa busca de unidade manifestava-se não apenas nas obras ficcionais dos autores, mas também comparecia em suas contribuições acadêmicas, por meio de uma apreensão da unidade como soma das partes, de modo análogo ao que Tolkien propunha para o entendimento dos mitos: “Pois o mito vive ao mesmo tempo e em todas as suas partes, e morre antes de poder ser dissecado”. É este o espírito que anima o poderoso ensaio de Tolkien a que pertence esta citação, “Beowulf: The Monsters and The Critics” (1936), em seu anseio pela fruição de uma “obra de arte unificada”, e que se faz sentir, no caso de Lewis, em English Literature in the Sixteenth Century e em Alegoria do amor, no qual a alegoria se faz conceito chave para pensar diversas obras em suas diferenças como também para caracterizar um modo específico de pensamento literário medieval.

O leitor há de notar que optei por não mencionar diversas passagens “canônicas” das vidas em questão. Para quem as conhece, seria enfadonho; para os que não, seria um esbulho. A intenção desta resenha foi a de avaliar, de modo sucinto, as opções do biógrafo, seus alcances e limites, e a de perseguir, a partir do texto de Duriez, um fio condutor que procuramos corporificar na complexa noção de fellowship, palavra em grande medida intraduzível neste contexto (veja a versão estendida aqui).

Cabe talvez especular que este anelo recuperativo — lembremos que recuperação é uma das funções essenciais das estórias de fadas para Tolkien — de um sentido unitário se espraia para muito além da dimensão mais imediata da “ortodoxia imaginativa” ou da “renascença cristã” que Duriez dá notícia, encontrando algum eco nas observações daquele que foi o maior crítico literário do século passado, Erich Auerbach, em sua Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental (1946), em “Filologia da literatura mundial”:

Já agora somos ameaçados pelo empobrecimento ligado a uma formação cultural a-histórica, que não apenas já existe como procura a cada dia afirmar seu domínio. Aquilo que somos, nós o somos por nossa história, e só dentro desta podemos conservar e desenvolver nosso ser; tornar isso claro, de modo penetrante e indelével, é a tarefa da filologia de nosso tempo.

Essa tarefa não implica, no entanto, uma redução ou especialização obtusa, marca precípua do academicismo de hoje; pelo contrário, o ensaio deixa claro que se o ângulo de pesquisa precisa ser bem delimitado, “nossa pátria filológica é a Terra — a nação já não pode sê-lo”, lição imanente ao livre trânsito de Tolkien e Lewis pelos textos e culturas literárias que lhes interessavam, recompostos, na obra de cada um, em síntese própria.

Se retomarmos a opção do tradutor holandês para o título de A Sociedade do Anel, estende-se à nossa frente um caminho possível de compreensão conjunta das obras de Tolkien e Lewis: Os companheiros de viagem. Movidos por anseios comuns, mas tomando por vezes estradas diversas, subjaz à realização literária dos amigos a crença profunda em um sentido unitário de experiência, em que os caminhos de Nárnia ou da Terra-média, a despeito de suas diferenças, constituem-se como “pano de fundo variado para um destino comum”[i], destino esse que ainda nos cabe.


[i] A menos que haja indicação em contrário, todas as citações encontram-se referidas no livro de Duriez.

[i] Expressão retirada do ensaio “Filologia da literatura mundial”, citado no texto. Ver: AUERBACH, Erich. Ensaios de literatura ocidental. Organização de Davi Arrigucci Jr. e Samuel Titan Jr. Tradução de Samuel Titan Jr. e José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Editora 34, 2007


Guilherme Mazzafera é revisor e tradutor da HarpeCollins Brasil e às vezes pensa em largar tudo para ser cat sitter dos gatos da Rainha Berúthiel.


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