O coração ao coração fala: Newman para Tolkien

Por Cristina Casagrande

No domingo, dia 13 de outubro, os católicos brasileiros poderão comemorar a canonização da Irmã Dulce, conhecida como “o anjo bom da Bahia”. Mas os entusiastas de J.R.R. Tolkien terão ainda mais um motivo para celebrar: na mesma cerimônia, será canonizado o Beato John Henry Newman — ao lado das também beatas Giuseppina Vannini, Maria Teresa Chiramel Mankidiyan e Margherita Bays. Newman será o primeiro inglês a ser canonizado em 300 anos.

Para os leitores de Tolkien que não têm nenhuma ligação com o catolicismo, mas que querem saber mais sobre o autor, interessa conhecer um pouco a vida do cardeal inglês que inspirou, direta ou indiretamente, a fé e a cosmovisão de personalidades importantes como G.K. Chesterton e do próprio J.R.R. Tolkien.

Convertido e conversor

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Cardeal Newman

A vida de Newman foi marcada por pequenas — e uma grande — conversões religiosas. Nascido em 1801, ele relata, em um de seus escritos (Apologia), que, já aos 15 anos, sentiu-se numa comunhão ardente com a vida sobrenatural e seu Criador. Tal “mudança de pensamento”, como ele chama a experiência, resultará na sua ordenação como padre anglicano, em 1825, e em sua decisão de viver uma vida celibatária, algo incomum para a época entre os padres anglicanos.

O padre John Henry Newman se tornou conhecido por visitar todos os seus fiéis, especialmente os pobres e os doentes. Aos poucos, ficava cada vez mais famoso por sua pregação, fazendo com que as pessoas viajassem para testemunhar a sua grande sabedoria, ouvindo-o falar sobre a condição humana e sobre as verdades de fé.

Sempre com seu coração inquieto, procurando chegar mais próximo da Verdade, ele buscou conhecer a fundo, cada vez mais, a doutrina cristã, baseada nos ensinamentos dos Padres da Igreja. Em um determinado momento, ele iniciou com seus amigos o “Movimento de Oxford”, distribuindo panfletos chamados Tracts for the Times [Livretos para os Tempos], com o intuito de disseminar uma “melhor reforma” na Inglaterra.

O padre Newman encontrava incongruências na Igreja Anglicana e se aproximava cada vez mais do catolicismo, embora ainda tivesse algumas reservas. Com o tempo, ele se convenceu, por seus estudos sobre a Igreja Primitiva, que o catolicismo era o que mais se aproximava dela. Em outubro de 1845, ele teve uma longa confissão com o padre passionista Dominic Barberi e pediu para ser recebido na Igreja Católica.

Oratório de Birmingham

Após sua ordenação, o recém-ordenado padre católico descobriu, em Roma, uma comunidade de oratorianos de São Filipe Nery, “o santo da alegria”, e identificou neles a dedicação cristã voltada à educação dos jovens e à caridade. Newman trouxe o Oratório para a Inglaterra, primeiro em Birmingham, depois Londres e, finalmente, Oxford. Mas a decisão de tornar-se católico foi motivo de muitas hostilidades, pois ele perdeu a maior parte de seus amigos, fora rejeitado por sua família e não poderia mais ser associado a Oxford, onde se formara.

A rejeição dos entes queridos por causa da fé encontra paralelos na vida de J.R.R. Tolkien, mais especificamente com a sua mãe, Mabel Tolkien, que se tornara católica alguns anos após a morte de seu marido Arthur. Ela perdera grande parte do auxílio financeiro e do contato com a sua família e a de seu marido, que se dividiam entre anglicanos, batistas e metodistas. A rejeição que Mabel sofreu pela família por causa da fé marcou a memória de Tolkien por toda a sua vida:

“Minha querida mãe foi de fato uma mártir, e não é a qualquer um que Deus concede um acesso tão fácil às suas gran­des dádivas como concedeu a Hilary e a mim, dando-nos uma mãe que se matou de trabalho e preocupação para assegurar que mantivéssemos a fé” (TOLKIEN apud CARPENTER, 2018, p. 47).

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Mabel Tolkien

O curioso é que a conversão de Mabel se deu antes que ela fosse parar no Oratório de Birmingham, fundado por Newman. Doze anos após a morte do sacerdote convertido, depois de ter passado por algumas paróquias católicas, em 1902, a mãe de Tolkien encontrou justamente em uma comunidade que tinha carisma de Newman — o Oratório de Birmingham — seu porto seguro. Lá ela conheceu o padre Francis Morgan, que convivera com Newman, e passou a considerá-lo amigo da família, a ponto de, anos mais tarde, ele se tornar tutor de J.R.R. Tolkien e seu irmão Hilary após a morte de Mabel. Ela se preocupava com a fé dos filhos e, por isso, não quis deixar a custódia deles para algum outro membro da família.

Conta Humphrey Carpenter na biografia de J.R.R. Tolkien que “o espírito de Newman ainda dominava as salas altas da Casa do Oratório em Hagley Road”, quando Mabel chegou até lá com os filhos. A família fora acolhida pelos oratorianos, mais uma vez, quando a Sra. Tolkien estava adoecendo por conta do diabetes.  Conforme relata Carpenter, o padre Morgan teve a ideia de levar Mabel e os filhos para uma casa de retiros construída para os padres do Oratório. O local era bucólico e tranquilo e, assim como Sarehole em Birmingham, inspirou Tolkien a criar do Condado dos hobbits.

Apostolado da inteligência

Após a sua conversão, Newman se tornou um grande influenciador de conversões de anglicanos ao catolicismo e de conversões interiores dos próprios católicos, buscando uma coerência e profundidade maior em sua fé. Em 1852, ele foi convidado para fazer uma série de palestras em Dublin, na Irlanda, abordando os benefícios da educação na universidade. Essas palestras seriam o começo de uma grande obra intitulada The Idea of a University [A Ideia de uma Universidade]. Segundo o padre convertido, a universidade tem o seu objeto e a sua missão voltados para a cultura intelectual: a impressão moral e a produção mecânica ou mesmo artística não lhe dizem respeito. Caberia à universidade ensinar o intelecto para a razão, com o intuito de alcançar a verdade e compreendê-la.

Assim como Newman, Tolkien acreditava na importância do estudo, no desenvolvimento do intelecto. Mais uma vez, Tolkien recebera a influência de sua mãe nessa questão. Mabel teria feito grandes esforços para garantir o melhor estudo aos seus filhos. Ronald Tolkien se destacava mais que o seu irmão Hilary e conseguira uma bolsa de estudos na King Edward’s School. Posteriormente, ele conseguiu ingressar em Oxford, formando-se como filólogo. Inicialmente, lecionou na Universidade de Leeds e depois voltou a Oxford como professor até se aposentar em 1959.

Apesar de dar importância ao intelecto, Newman dava ainda mais ênfase à virtude moral, pois acreditava que o crescimento cultural não bastava para a formação de um cavalheiro: também havia a necessidade de uma formação espiritual pela religião. 

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Brasão do cardeal Newman

Com o passar do tempo, ele se tornou cada vez mais admirado no meio católico e universitário, recebendo um título honorário do Trinity College em 1877 e, dois anos depois, foi nomeado pelo papa Leão XIII para receber o título de cardeal. Newman aceitou, mas pediu para que continuasse na condição de presbítero e que não fosse ordenado bispo, como normalmente são os cardeais. Pediu também para continuar em Birmingham, sendo atendido nos dois pedidos. Escolheu como lema de cardeal as palavras “Cor ad cor loquitur”, que significa “o coração ao coração fala”.

Os últimos anos de sua vida foram marcados pela doação como guia espiritual para muitas pessoas. Ele faleceu em 11 de agosto de 1890 aos 89 anos. Foi enterrado no cemitério do Oratório de Birmingham com a inscrição: “out of shadows and symbols unto the truth” [“das sombras e símbolos rumo à verdade”]. Os anglicanos comemoram a sua festa litúrgica no dia de sua morte (11 de agosto) e a Igreja Católica comemora a sua festa no dia de hoje (9 de outubro), data de sua conversão.

A jornada de um santo

Em 2010, o cardeal Newman foi beatificado pelo papa Bento XVI e, no próximo domingo, 13, ele será declarado santo da Igreja Católica. O processo de canonização costuma passar por sete etapas, necessitando haver dois milagres comprovados (um para a beatificação e outro para canonização). O milagre que validou a canonização do cardeal inglês envolveu a americana Melissa Villalobos. Ela alega ter recebido a graça, pela intercessão do fundador do Oratório na Inglaterra, de que a sua hemorragia durante uma gravidez de risco parasse instantaneamente, assim como sua placenta, antes rasgada, aparecesse intacta nos exames médicos.

Alguns tolkienistas no mundo especulam que a canonização de Henry Newman possa dar abertura para um possível processo de canonização do próprio Tolkien, embora outros se mostrem mais céticos quanto a isso.

Referências

CARPENTER, H. J.R.R. Tolkien: uma biografia. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2019.

Newman Canonisation — the journey to sainthood. Disponível em <www.newmancanonisation.com> Acesso em 09 de out. 2019.


Cristina Casagrande é jornalista e pesquisadora em literatura tolkieniana. Ainda espera passar uma tarde no Salão de Fogo e encontrar trechos esquecidos do Livro Vermelho do Marco Ocidental. 

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