In Memorian: O Último Inkling

Na terça-feira, dia 16 de junho, a morte de Christopher Tolkien completou cinco meses. Trazemos aqui uma despedida escrita pelo notório tolkienista John D. Rateliff, com tradução de Guilherme Mazzafera (demais créditos ao final do texto).

John D. Rateliff

O falecimento de Christopher Tolkien marca o fim de uma era. Ele foi o último Inkling. Então já um estudioso estabelecido (um don em New College, Oxford) e editor experiente[i] quando da morte do pai, Christopher — designado como executor literário com permissão explícita concedida pelo testamento paterno para publicar, por completo ou em parte, ou destruir, por completo ou em parte, todos os escritos do pai — dedicou o restante de sua longa carreira a editar e publicar o máximo possível daquele vasto arquivo.

Nessa tarefa, ele foi igualmente diligente e prolífico. Penso que muitos daqueles que passaram a aguardar um novo livro de Tolkien a cada um ou dois anos jamais se deram inteiramente conta da imensa quantidade de trabalho despendida em ordenar, transcrever e editar estes manuscritos e textos datilografados, sem mencionar a composição de comentários detalhados explicando as relações entre diferentes versões de uma mesma história.

Fui afortunado o suficiente para encontrá-lo duas vezes, na Marquette Mythcon e outra vez em Oxford, na conferência do Centenário; ocasiões igualmente memoráveis. Alguns episódios se destacam, como a presença dele junto a um grupo de estudiosos e fãs de Tolkien no I-Hop local na manhã seguinte à conferência, onde nos contou sobre a vez em que ele e seu pai tiveram um acalorado debate referente ao papel da monarquia na Grã-Bretanha moderna.

Após o término da conferência, Christopher, Taum Santoski e eu seguimos de carro para Wheaton a convite da Coleção Wade. Ele apreciou a hospitalidade, embora tenha confessado, mais tarde, que foi uma experiência estranha ter visto o lugar no cofre onde guardam um dos itens mais estimados: os diários de Warnie Lewis. Christopher disse ter vívidas memórias de Warnie sentado em uma pequena mesa de apoio escrevendo naqueles mesmos livros, e achou a passagem de objeto ordinário a tesouro venerado algo perturbador. Por um curioso acaso, quando lhe mostraram a grande foto de J.R.R.T. que tinham pendurada em local de destaque, Christopher observou que, tendo herdado as gravatas do pai, no dia da visita, ocorreu de estar usando aquela mesma gravata que o pai usara quando fotografado, o que logo confirmamos ser verdade.

Tolkien e os filhos: Priscilla, Michael, John e Christopher (à direita)

Cinco anos após o centenário, pude vê-lo novamente, e me lembro de andar com ele ao redor do pátio em Keble enquanto discutia a ideia subjacente ao título de seu próximo livro, desenvolvendo a compreensão paterna de que a Terra-média como um todo era o anel de Morgoth. Também vim a compreender o quão importante fora Christopher em prevenir um dilúvio de clones autorizados de Tolkien, de modo que em seu lugar ganhamos uma prodigiosa fileira de obras do próprio Tolkien: uma feliz decisão, mas não universalmente popular.

Finalmente, com a conferência chegando ao fim, nosso pequeno grupo reuniu-se com Christopher, sentados no fundo do Eagle & Child. Incluo-me entre os felizardos que, graças a sua generosidade, já estiveram no pub favorito dos Inklings com um Inkling.

Embora tenhamos trocado cartas espaçadamente, sinto um grande senso de perda ao saber que não haverá mais nenhuma de suas cartas, elegantemente escritas e nitidamente focadas, do sul da França. Após saber de sua morte, encontrei de fato conforto ao tirar da estante um de seus volumes e começar a lê-lo, descobrindo que posso ouvi-lo em sua voz. Os Inklings acreditavam que Christopher lia a obra do pai melhor do que o próprio Professor era capaz, e temos abundantes evidências de que isso é verdade. Nenhum dos bem-afortunados entre nós que puderam ouvi-lo ler “The Hobbit 1960” [O Hobbit de 1960] em Marquette ou “The New Shadow” [A Nova Sombra] em Oxford (ambos inéditos à época) pôde duvidar disso desde então.[ii] Gostaria que tivéssemos O Senhor dos Anéis inteiro na voz de Christopher, mas sou grato por tudo que ele fez ao longo dos anos, por tudo o que temos graças a seus esforços.


[i] Ver sua tradução e edição de The Saga of King Heidrek The Wise  [A Saga do Rei Heidrek, o Sábio] (1960).

[ii] Sem falar nas gravações de excertos de O Silmarillion que ele fez para a Caedmon Records, as introduções que ofertou para algumas adaptações em formato audiobook ou entrevistas que deu à época do Centenário e nos anos seguintes.


John D. Rateliff é o editor de The History of the Hobbit [A História de O Hobbit]







Tradução livre de Guilherme Mazzafera de “In Memoriam: The Last Inkling”, Mythlore: A Journal of J.R.R. Tolkien, C.S. Lewis, Charles Williams, and Mythopoeic Literature: Vol. 38: No. 2, Article 9. Disponível em: https://dc.swosu.edu/mythlore/vol38/iss2/9


Guilherme Mazzafera é revisor e tradutor da HarpeCollins Brasil.

6 thoughts on “In Memorian: O Último Inkling

  1. Guilherme, obrigado por esta contribuição. É importante que os tolkienistas brasileiros conheçam – e honrem! – o trabalho que CJRT prestou à obra do pai.

    1. Eu que agradeço pela leitura, Mestre!. Christopher é o modelo – inatingível, é certo – a ser buscado por todos os tolkienistas. Que possamos continuar difundindo e honrando seu legado, como você tem nos ensinado há tanto tempo!

  2. A morte de Christopher me deu a sensação de que um último pequeno pedaço das Terra Imortais, finalmente se descolasse de nossa Arda e abandonasse o plano terreno e acessível. Perdemos o nosso acesso à Féeria. Triste lembrança de uma grande perda, justamente no dia em que nossa querido Ian Holm foi também descansar nos braços de Mandos…

    1. Lidar com esse acúmulo de perdas tolkienianas em um ano já tão doloroso não está sendo nada fácil. Mas sempre me vem à mente estre trechinho de The Two Towers:

      “Don’t the great tales never end?’
      ‘No, they never end as tales,’ said Frodo. ‘But the people in them come, and go when their part’s ended. Our part will end later – or sooner.’

      A parte de Christopher e Ian Holm nessa grande e infinita história da Terra-média chegou ao fim. O que nos cabe, agora, é honrá-los com nossa parte nessa história, por mínima que seja. Como bem disse o Rateliff – ainda que não tenhamos tido o privilégio de ouvir Christopher ler a obra paterna na nossa frente -, a voz do filho está em cada um dos livros do pai que editados por ele. Basta procurarmos com atenção. A história, como estória, continua.

    1. Valeu, Vini! Já tenho vários outros em mente, só arrumar um tempinho, pedir autorização pros autores e pronto! Obrigado pela leitura!

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