O feminino na literatura de J.R.R. Tolkien

Por Cristina Casagrande

Embora haja muitas personagens femininas em todo o lengendário tolkieniano, ainda assim elas são minoria e, no entanto, muitas são bastante expressivas e significativas. Um dos principais motivos dessa diferença em relação aos personagens masculinos é porque as histórias envolvem guerras, e nesse quesito os homens ganham mais destaque. De todo o modo, trazendo uma visão de mundo cristã em seus escritos — ainda que inconscientemente em sua composição, mas conscientemente em sua revisão —, conciliada com elementos da cultura pagã, Tolkien traça a figura feminina em sua literatura, com suas especificidades.

“Criou o homem e a mulher”  

O Ainulindalë, que quer dizer “A Música dos Ainur” em élfico, é um livro dentro de O Silmarillion, com uma proposta mitológica do surgimento do mundo. Conta-se que os Ainur, depois de três tentativas, entoaram uma canção que configurou o mundo material. Essa canção consistia na interpretação que eles tinham do pensamento de Eru, o Único, o Deus Criador. Alguns desses Ainur vieram do mundo sobrenatural para o natural e passaram a habitar Arda, que seria o nosso planeta Terra dentro daquele universo mítico. Seriam eles os Valar (de maior poder) e os Maiar (de menor poder).

Por serem primordialmente espíritos puros, os Valar ­poderiam assumir diversas formas físicas ao entrarem em contato com o mundo material. Mas, logo de início, o narrador deixa claro que o gênero ao qual eles pertencem — enquanto Ainur em contato com o mundo material — é anterior a seus corpos, pois vem do seu temperamento:

Mas quando desejam vestir a si mesmos, os Valar tomam sobre eles formas que são algumas de macho e outras de fêmea; pois aquela diferença de temperamento eles tinham já desde seu princípio, e ela é só incorporada pela escolha de cada um, não feita pela escolha, assim como conosco macho e fêmea podem ser revelados pela vestimenta, mas não feitos por ela. (TOLKIEN, 2019, p. 47, grifo nosso).

Por serem espíritos puros, tinham a inteligência e a vontade mais fortes e firmes que qualquer elfo ou homem. Dessa forma, os Ainur serviam de modelo a todos os demais seres criados por Eru Ilúvatar. Assim, entende-se que, na cosmovisão de Tolkien, a identidade sexual está submetida ao gênero, ou seja, na personalidade impressa na alma do ser — dentro do mundo material.

Isso não significa que os caracteres masculinos têm apenas princípios varonis, e os femininos não tenham traços viris em suas personalidades, do contrário, não seriam seres pessoais, mas tipos. Em uma linguagem literária, conforme Foster, seriam personagens planas e não esféricas. O que existe é uma preponderância de um ser masculino e de um ser feminino, em suas complexidades.

Numa carta dirigida a seu filho Michael, em que trata do relacionamento entre homem e mulher, Tolkien deixa mostrar um pouco de sua visão sobre o ser masculino e o ser feminino:

Os relacionamentos de um homem com as mulheres podem ser puramente físicos (na verdade eles não podem, é claro, mas quero dizer que ele pode recusar-se a levar outras coisas em consideração, para o grande dano de sua alma (e corpo) e das delas) (…). Este é um mundo decaído. A desarticulação do instinto sexual é um dos principais sintomas da Queda (TOLKIEN, 2010, p. 51).

Tolkien considera o relacionamento entre o homem e a mulher como algo que vai além da questão física, ou primordialmente espiritual; além disso, para ele, a sexualidade, em sua visão cristã, fora corrompida pelo pecado original (queda). Para ele, seguindo os ensinamentos doutrinários da Igreja Católica, o homem e a mulher teriam perdido seus dons preternaturais depois de terem cometido o pecado original. Isso significa que sua inteligência e sua vontade teriam ficado atrofiados, o espírito teria de lutar para mostrar que não estaria submetido à carne, além da existência de certas consequências mais pontuais como o cansaço no trabalho, a dor no parto, entre outras.

Edith Stein, em seus ensaios sobre a mulher, levanta a hipótese de que o que levou Eva a se sentir especialmente tentada a consumir o fruto da árvore proibida deveria estar atrelado a algo que é muito peculiar à natureza feminina: a maternidade. Esta, para a filósofa, está dividida em dois aspectos: o natural e o sobrenatural. O natural estaria associado à procriação propriamente dita e à criação, como os cuidados de saúde e nutrição. A maternidade sobrenatural estaria presente em qualquer mulher — até nas virgens consagradas — e se atrelaria à educação, ao cuidado afetivo, espiritual, na promoção da vida da graça. Para Stein, o que é peculiar à mulher é, portanto, o aspecto formador dela, o de deixar o outro tornar-se aquilo que deve ser.

De acordo com a narrativa cristã, a mulher é aquela que abre as portas para o pecado e, ao mesmo tempo para a salvação. Séculos e mais séculos depois do advento da queda, surge outra mulher que vence o mal exatamente pela via da maternidade: Maria se tornaria a mãe de Cristo, aquele que salvaria toda a humanidade.

A mais perfeita das criaturas

Galadriel, Jay Johnstone

Em O Privilégio de Ser Mulher, Alice von Hildebrant traz uma série de questões acerca do ser feminino do ponto de vista do cristianismo que valorizam e elevam a natureza feminina. A principal delas é o fato de Maria, uma mulher, ser a mais perfeita das criaturas, visto que Jesus Cristo seria não apenas uma criatura, pois teria, além de uma natureza humana, uma divina, na segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

No legendário, algumas personagens ganham especialmente algumas atribuições marianas, ainda que o tempo diegético seja muito anterior à vinda de Cristo. Em O Senhor dos Anéis a figura de Galadriel é comumente associada a Maria, embora Tolkien nunca tenha feito essa ligação conscientemente.

De fato, ao encontrarem Galadriel em Lothlórien, os membros da Sociedade do Anel viram na elfa uma figura maternal e mística, especialmente por aquele ser um momento subsequente à dor e a perda de Gandalf, o único membro da comitiva que vinha das Terras Imortais. Eles estavam sem rumo, com a energia diminuída, e precisavam de um amparo. O encontro com Galadriel tem a simbologia do embalo do colo materno, que faz com que aquelas criaturas, cansadas e frustradas, renovem suas energias, como se renascessem para prosseguir na jornada.

Em Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés traz uma reflexão sobre o ser embalado depois de uma jornada esgotante. Ela conta a história do velho cansado que chega à noite numa casa, onde será embalado por uma velha senhora e, depois disso, volta a ser uma criança cheia de energia. A autora atenta para o fato de que a noite, num conto de fadas, significa a entrada no inconsciente.

Os encontros em Lothlórien costumam ser ambientados em momentos noturnos. O lugar é uma réplica dos jardins de Lórien — das Terras Imortais —, que é um lugar de sonhos e visões. A questão do inconsciente é evidente ali. De fato, para repor as energias e superar o trauma da perda de Gandalf, a Sociedade do Anel precisa de um retorno ao inconsciente, receber o embalo do “colo da mãe” (Galadriel), em busca de cura.

Em sua despedida à Sociedade do Anel, a senhora élfica presenteou cada um dos membros com objetos que lhe serviriam de auxílio na jornada. Destacamos aqui especialmente os presentes que ela deu a Gimli e a Frodo.

Bolseiro recebeu um frasco que continha a luz de Eärendil. Ela vinha de uma das três Silmarils, as quais foram inflamadas por Varda, a Valië da Luz e das Estrelas. De fato, quando Sam utiliza o frasco que Frodo recebeu, depois que seu mestre está inanimado por ação da aranha Laracna, é por Galadriel, seguido de Elbereth (Varda), que ele clama.

É dito em O Silmarillion que Varda conhecia Melkor muito antes da Música dos Ainur e que o rejeitava; ele por sua vez, “a odiava e a temia mais do que qualquer outro ser criado por Eru” (TOLKIEN, 2009, p. 16). Pelo princípio da aplicabilidade, podemos dizer que existe um paralelo entre Varda e Maria, e Melkor e Lúcifer, o anjo decaído.

É dito no Gênesis que Deus opôs a serpente contra a mulher “Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu ferirás o calcanhar.’ (Gênesis 3, 15). Os teólogos cristãos veem nessa passagem um prenúncio da missão concedida a Maria, aquela que teria aceitado conceber o filho de Deus em seu ventre, o qual salvaria o Homem do pecado.

Para o Anão, Galadriel deu três fios de seus cabelos, ao pedir-lhe que ele revelasse o seu desejo e ela nobremente o concede.

“[…] Mas dize-me, o que farias com tal dádiva?”
“Guardá-la-ia como um tesouro, Senhora” […].
Então a Senhora destrançou um de seus longos cachos, cor­tou três cabelos dourados e os colocou na mão de Gimli. (TOLKIEN, 2019, p. 530).

Galadriel and Gimli, theSSjulia

Os cabelos de Galadriel eram cobiçados desde a Primeira Era. Fëanor, o poderoso Elfo, artífice das três preciosas Silmarils, teria também desejado uma mecha do cabelo de Galadriel, mas ela lhe teria negado. Ouvindo o coração humilde e verdadeiro de Gimli, no entanto, ela lhe concedeu. Ao recordarmos que os povos élficos e anânicos tinham uma longa tradição de animosidades, tal gesto ganha ainda mais força.

De acordo com Estés “o cabelo simboliza o pensamento, aquilo que emana da cabeça” (2014, p. 377). Os cabelos de Galadriel, com certeza, tinham muitos significados. É dito que ele continha a luz das árvores de Valinor, com uma beleza que nenhum outro cabelo teria. O cabelo é um emblema da feminilidade, a beleza e a sabedoria da mulher. Assim, ela entrega um pouco de si ao Anão e, com isso, a amizade entre os povos é selada e abençoada.

Duas em uma

Estés pontua em seu livro que as mulheres, para serem íntegras, devem reconhecer que têm duas mulheres dentro de si: a civilizada e a selvagem. Tolkien evidencia isso nomeando muitas personagens com mais de um nome — não só as mulheres, mas os homens também.

Galadriel também possui uma multiplicidade de vertentes de sua personalidade. A tentação que ela sente de possuir o Anel em Lothlórien é uma clara figuração disso. A vontade de se tornar uma rainha poderosa é um exemplo corrompido de um dos traços de sua personalidade — uma elfa com um poder muito grande dentro de si, que pode enveredar para a virtude ou o para o vício.

Um dos nomes de Galadriel na língua éfica Quenya é “Artanis”, nome dado pelo pai e que significa “mulher nobre”; já a mãe lhe deu o nome de “Nerwen”, significando Donzela-Homem, pois Eärwen via na filha características masculinas como a força física, a altura e o poder de autoridade.

Já seu marido, Celeborn, chamou-lhe de “Alatáriel”, que vem do Quenya e significa “Donzela coroada de grinalda reluzente”. Ele viu na Senhora de Lórien o que ela tinha de mais belo como ser feminino: seus cabelos, que demonstravam seu poder, beleza, feminilidade e sabedoria.

Lúthien também recebe destaque quando o assunto é dualidade de nome. Seu amado Beren lhe chama de Tinúviel assim que a vê, e, nessa mesma ocasião, ela foge. Tinúviel significa, em Quenya, “rouxinol” ou literalmente “filha do crepúsculo”. De fato, Lúthien trazia consigo a alegria e a leveza das flores, sua beleza era como o “alvorecer da primavera” (TOLKIEN, 2009, p. 110), sua dança alegrava o povo de Doriath e trazia um canto agudo como o da cotovia, uma ave que anuncia o dia, o sol, a alegria de viver.

Mas Beren lhe chama de Tinúviel, rouxinol, um pássaro que anuncia a noite. Por analogia, podemos entender que a noite também simboliza a morte — esse é o destino de Lúthien, que há de morrer para passar a eternidade próxima ao seu amado.

Lúthien, na condição de Tinúviel, carrega grande parte dos simbolismos do pássaro do crepúsculo: é aquela que se torna mulher e amante de Beren, que dá a vida por seu amado e que o cura da morte. Sua dualidade vai dar ainda mais destaque ao seu amor de doação, pois por ser a alegria do povo de Doriath, a sua entrega em abandonar a condição de elfa para se tornar uma humana mortal ganha mais força.

Romana Grünfelder

Arwen Undómiel era, de acordo com Tolkien, muito semelhante a Lúthien “em aparência, personalidade e destino” (2010, p. 187). No entanto, a narrativa não nos demonstra toda essa força que aparece em Lúthien. Arwen, que significa “donzela nobre” e Undómiel, que quer dizer “estrela do crepúsculo” é mais discreta e silenciosa que a sua antepassada. Mas o autor nos revela em suas cartas que a história entre ela e Aragorn não ganhou tanto destaque para que os humildes hobbits fossem os maiores heróis da história.

É sabido que os elfos são muito poderosos não só em seus atos, mas em sua mente. A presença de Arwen pela mente — por vezes figurada concretamente, como o estandarte tecido por ela e entregue ao futuro rei Elessar na Batalha dos Campos de Pelennor — era o que dava forças a Aragorn para continuar lutando.

Outra personagem de destaque é a Donzela Branca de Rohan, Éowyn, também conhecida como a Senhora do Braço do Escudo. Seus dois epítetos tão distintos demonstram a dualidade de sua personalidade, que, unidas, lhe conferem integralidade. Na Batalha dos Campos de Pelennor, ela aparece para lutar, sem autorização de seu tio Théoden. Por conta disso, ela está disfarçada de soldado, apresentando-se como Dernhelm, que significa elmo ou protetor escondido.

Éowyn significa alegria de cavalo, algo condizente à sua terra, Rohan, que significa País dos Cavalos. Ela traz consigo essa jovialidade e alegria presentes em seu povo, mas traz também uma dama forte e decidida a salvar aqueles que ama a altos custos.

Compreensão e poder

Sabemos que Éowyn age corretamente porque ela cumpre a profecia de que nenhum homem mataria o rei dos bruxos de Angmar. Não foi um homem, mas uma mulher, a própria Éowyn, travestida de Dernhelm, com a ajuda de outro alguém improvável para o feito — Merry Brandebuque, um hobbit do Condado. 

Éowyn Dernhelm, Jabber Baby Wocky 645

A donzela de Rohan, porém, apesar de ter motivos nobres para ir à guerra e de ser justo esse anseio que traz em seu coração, carrega consigo também as suas sombras pessoais. Ao ver que não poderia ser a esposa do futuro rei, busca, na guerra, também a notabilidade e a vanglória:

“O que temes, senhora?”, perguntou ele.
“Uma gaiola”, disse ela. “Ficar atrás das barras até que o cos­tume e a velhice as aceitem e que toda oportunidade de fazer grandes feitos tiver-se ido além da recordação ou do desejo.”
“E, no entanto, me aconselhaste a não me arriscar na estrada que escolhi porque é perigosa?”
[…] “Porém não te peço para fugir do perigo, e sim para cavalgar à batalha onde tua espada poderá ganhar renome e vitória. Não me agrada ver algo elevado e excelente lançado fora sem necessidade.”
“Nem a mim”, comentou ele. “Portanto eu te digo, senhora: fica! Pois não tens missão no Sul.” (TOLKIEN, 2019, p. 1139).

Se Éowyn tivesse ouvido os conselhos do Dúnadan, o Rei dos Bruxos não seria aniquilado, e talvez o Anel não fosse destruído. Mas o futuro rei de Gondor não estava tão enganado assim. Parte do que movia a donzela de Rohan era a vaidade, a vontade de ser notada. Depois da Batalha, a sombra do Espectro do Anel que a atingiu a levou a uma espécie de depressão pós-guerra, exercendo, além disso, sua maligna influência mágica. Outros também foram acometidos pelo mesmo mal, como Merry e Faramir, mas Éowyn demorou mais tempo para se recuperar.

A sobrinha de Théoden teve de lutar contra uma força muito maior que a dela — isso, em parte, explica o seu estado depressivo —, por outro lado, o apego ao elmo de Dernhelm daquela que trazia a alegria dos cavalos em seu coração fez com que ela demorasse mais tempo para se recuperar. Éowyn ainda desejava Aragorn e todo o futuro glorioso que ele poderia dar ao seu lado.

Lisa Coutras aponta os estudos de Melanie Rawls sobre o princípio feminino em Tolkien e destaca duas diferenças das peculiaridades de cada um: nas obras de Tolkien as personagens femininas costumam se expressar pela via da compreensão, enquanto as masculinas se caracterizam pelo poder. Coutras ressalta:

Enquanto Thingol governa o reino de Doriath, é Melian quem aconselha suas ações. Porém, quando Thingol rejeita os conselhos de Melian, suas atitudes temerárias trazem a ruína de seu reino. Hopkins assume a mesma postura quando se refere aos homens, Tuor, que segue o conselho de Idril, acaba salvando sua família e muitos outros (2014, p. 193).

Esse excerto destaca a importância do conselho e da compreensão para a vida de um casal, e essas características, ao menos em Tolkien, são mais comumente atribuídas às personagens femininas. Isso não significa que as características não podem se inverter e que alguns personagens masculinos não tenham princípios femininos e vice-versa.

Depois de conhecer e conviver por um bom tempo com o valoroso capitão de Gondor, Faramir, ela passa a gradualmente equilibrar as emoções e a ter menos apego à guerra e às láureas que ela poderia lhe trazer. Quando se encontram nas casas de cura, podemos ver que Faramir tem as qualidades que, naquele momento, faltam em Éowyn, como paciência e ternura, ao mesmo tempo conservando a bravura de um grande guerreiro.

Em seu artigo, Melanie Rawls pormenoriza as características mais tipicamente femininas e outras masculinas. Rawls propõe um esquema assim:

Ungoliant, a maligna aranha gigante, é uma personagem feminina extremamente negativa. Se lhe sobram características femininas como introspecção e sentimentalismo e lhe faltam masculinas, como razão e praticidade, isso pode dar um desequilíbrio, no caso dela, extremo, desencadeando em uma postura destrutiva e autodevoradora.

O oposto também pode ocorrer com os personagens masculinos. Melkor, por exemplo, não soube dosar com sabedoria suas peculiaridades masculinas, e o resultado é uma personalidade extremamente agressiva e dominadora. 

A dominação do homem sobre a mulher

Os princípios cristãos, nos quais Tolkien se apoiava, trazem considerações bastante coerentes — do ponto de vista mítico-religioso — para explicar por que ocorre o problema da dominação do homem sobre a mulher em nossa História. O principal argumento está nas consequências ocorridas após o pecado original entre Adão e Eva:

“Então o Senhor Deus disse à serpente: […]
“Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu ferirás o calcanhar.’ 
Disse também à mulher: ‘Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio.’” (Gênesis 3, 14–16, grifo nosso).

Edith Stein atenta para essa passagem mostrando que o domínio do homem sobre a mulher é uma consequência do pecado original na narrativa bíblica e não algo próprio da natureza humana. Consciente ou não, Tolkien segue a linha dos princípios cristãos em seus contos. A igualdade em dignidade e direitos é inversamente proporcional à Queda. Os Valar, que são uma espécie de anjos, não apresentam diferenças hierárquicas, somente distinções complementares entre si. Nesse modelo, aquele que lidera e aquela que auxilia têm o mesmo valor.

Manwë and Varda, SarkaSkorpikova

Vemos na relação entre o rei e a rainha dos Valar — Manwë e Varda — essa relação de igualdade e complementariedade. É dito, em O Silmarillion, que eles raramente se separam, e que ela veio à Terra-média em auxílio a Manwë. Mas esse apoio nunca a deixa como inferior, ao contrário, é dito que a sua beleza é imensa e que a luz de Ilúvatar, o próprio Deus, está em seu semblante; além disso, ao lado de Varda, Manwë vê mais longe.

Os Maiar, de menor poder, têm uma característica parecida com os Valar. É dito que, Uinen, senhora dos mares, costumava acalmar a fúria de Ossë, o senhor dos mares da Terra-média. É bem verdade que os Valar não são propriamente anjos e que perdem parte de seu poder quando vêm morar no mundo material, ainda que nas Terras Imortais. Isso posto, temos o caso de Yavanna e Aulë, que não configuravam um casal tão harmônico quanto Varda e Manwë.

Yavanna, a mãe de muitos dos seres viventes na Terra-média teria se incomodado por Aulë ter criado os anãos sozinho, sem sua ajuda. Assim, ela previu que que os filhos de Aulë teriam pouco amor pelas coisas que ela amava — as plantas e os animais — e prefeririam os trabalhos manuais. Yavanna, por sua vez, criou os Ents, por concessão de Eru Ilúvatar — por meio de Manwë —, ao dar vida a espécies “arvorescas” que podem andar, pensar e falar.

Não por acaso, a relação entre os anãos e as anãs não era tão harmônica como era com os Valar. Havia poucas anãs e nem todas queriam se casar; além disso, muitos anões estavam absortos no trabalho e não pensavam em se casar também. O número de anãos que se casavam era um terço de sua população, e eles tinham poucos filhos. Elas, por sua vez, tinham uma aparência mais rude e quando viajam poderiam ser confundidas com os anãos. As anãs tinham uma vida mais voltada para os interesses domésticos, os anãos eram ciumentos e pouco românticos. Dada a raridade dos casamentos e o baixo número de filhos, é bem provável que seu povo tenha desaparecido da Terra-média.

Os “filhos” de Yavanna também devem ter se extinguido por razões parecidas. Apesar de terem sido criação da Valië, os ents do sexo masculino eram devotados a Oromë, o Vala da Caça, e as entesposas, eram devotadas a Yavanna. Diferente das anãs, todas as Entesposas se casavam, eram criadas para isso. No entanto, na Segunda Era, as Entesposas desapareceram com a diminuição das florestas por ação dos homens e seus jardins foram dizimados por Sauron. Além disso, é dito que as Entesposas e os Ents passaram a se preocupar com assuntos distintos, elas com árvores menores e campinas, eles com as grandes árvores e florestas. Era só uma questão de tempo até que os Ents desaparecessem também da Terra-média para sempre.

Os elfos e elfas teriam uma relação mais igualitária que os casais de anãos ou Ents, mas menos que os Valar e os Maiar. Seguindo a mesma lógica os casais Númenórianos teriam menos igualdade que os elfos e mais que os Rohirrim, por exemplo. Quanto mais distante o povo estivesse da influência do pecado original, do ponto de vista simbólico, teria menos dominação dos machos em relação às fêmeas.

A dominação do homem sobre a mulher traria consequências nocivas não só para a mulher, mas para o homem também. O caso de Aldarion e Erendis exemplifica bem isso. Aldarion era herdeiro do trono de Númenor, casou-se com Erendis, mas nunca escondeu seu amor pelo mar. Passava muito mais tempo viajando do que prometia a ela, e então a mágoa de sua esposa tornou-se imensa em sem chances de perdão. Ambos orgulhosos, terminam os seus dias separados.

Imagem relacionada

Um caso trágico é o de Nienor, que perde a memória e encontra seu irmão Túrin, que não a conheceu quando criança, pois ambos foram separados quando ela nasceu durante a  Nirnaeth Arnoediad, a Batalha das Lágrimas Incontáveis. Como o pai deles Húrin, caíra sobre a desgraça de Morgoth, os irmãos recebem tal maldição como extensão. O resultado, dentre outras questões trágicas é que Túrin se casa com Nienor, sem saber que era sua irmã, e tampouco ela o sabia. Quando essa questão é revelada, ela tira a própria vida, grávida de seu irmão. Na sequência, ele também se mata.

Cura, vida e morte

Lisa Coutras atenta para o fato de as personagens tolkienianas ou canalizarem suas energias para as questões voltadas para a guerra ou para a cura. De um modo geral, os interesses bélicos ficam mais a cargo dos elfos e homens, enquanto a cura fica para as mulheres e elfas. Ambos estão buscando proteção, seja pela luta e pela defesa armada, seja por meio dos tratamentos medicinais.

Mais uma vez, essa questão não é estática e transita entre os gêneros e, muitas vezes, o mesmo personagem assume as duas forças. Aragorn é o exemplo mais claro disso: ele é um andarilho que não teme a batalha e, após vencer a guerra, suas mãos que curam comprovam que são de um rei.

Éowyn, por sua vez, amadurece enquanto mulher desapegando das armas e da fama que a guerra acarreta, tornando-se uma senhora que traz a cura para os que têm inverno em seus corações. Quando a Sombra Negra a abandona, e ela se rende aos encantos de Faramir, exclama:

“[…] e eis que a Sombra partiu! Não serei mais donzela-do-escudo, nem porfiarei com os grandes Cavaleiros, nem me regozijarei apenas com as canções de matança. Serei uma curadora e amarei todas as coisas que crescem e não são estéreis.” (TOLKIEN, 2019, p. 1379).

Éowyn está fertilizada pelo amor de Faramir e deseja dar a vida, não mais a morte. Ela reencontra em si o que tem de mais feminino e seu semblante já não é mais de uma palidez de uma manhã fria, mas remete ao florescimento de um campo primaveril.

Sam, Rose and Elanor, Inger Edelfeldt

Rosinha Villa, a esposa de Samwise Gamgi é o maior exemplo da fertilidade feminina e, simbolicamente, demonstra o imenso o amor que o casal tem pelos seus frutos. Ela teve treze filhos com Sam e isso significa, especialmente aos hobbits, saúde, felicidade, prosperidade e longevidade.

Assim como dá a vida, a mulher também é aquela que acompanha na hora da morte, seja ela simbólica ou real. Em muitas culturas, a morte é substantivo feminino — como ocorre nos países de língua portuguesa. Como as carpideiras que são chamadas para chorar o sobre o defunto, é uma característica peculiar da mulher o lamento e o choro diante daquele que sofre. Não como mero sentimentalismo ou desespero, mas como purificação e sagração.

Assim é a Valië Nienna, cuja principal característica é chorar diante do sofrimento e transcendê-lo ao sagrado, transformando tristeza em sabedoria. Ela traz a cura espiritual e mostra que a morte não é um fim. Com o mesmo carisma de Nienna, Lúthien chora diante do inexorável Mandos, implorando uma nova vida ao seu amado Beren. Com seu canto de lamento, ela consegue recuperar a vida daquele que ama, e o custo disso é a sua própria morte — ainda que distante.

Do mesmo modo que sua antepassada, Arwen abdica de sua imortalidade por seu amado. Como elfa, ela poderia ir para as Terras-imortais com seus parentes — e jamais perder a sua vida, ao menos até quando o mundo material durasse. Mas, por amor a Aragorn, ela escolhe ser uma mortal e ter o destino dos homens. Mas, diferente de seu amado, sua passagem deste mundo para o sobrenatural é mostrada de forma amarga. A filha de Elrond vai demonstrar a dor da perda e do sacrifício ao morrer, enquanto o rei de Gondor irá mostrar a sua glória como um filho de Eru em seu momento derradeiro.

Contudo, a escolha de Arwen não é de todo trágica aos olhos tolkienianos; ao contrário, é típica de um verdadeiro conto de fadas: é preciso passar pela dor da perda para se conseguir o verdadeiro final feliz. Para Tolkien, a morte é uma dádiva de Ilúvatar, como um presente, os homens não estão para sempre presos a esse mundo e suas almas ganham um valor espiritual.

Arwen’s Death, Kim Kincaid

Lúthien e Arwen configuram o paradoxo do amor cristão: para ganhar a vida é necessário perdê-la — elas se desprendem de uma vida num mundo físico para ganhá-la no mundo sobrenatural. Deste modo, a Vespestrela fecha o ciclo da era dos elfos e abre para a era dos homens. Ela, como Lúthien, simboliza a capacidade feminina de dar a vida por aquele que ama, morrendo um pouco para que nasça o amor transcendente.


Obras Citadas

BÍBLIA SAGRADA. São Paulo: Ave-Maria, 2009.

COUTRAS, L. Tolkien’s Theology of Beauty — majesty, splendor and transcedence in Middle-earth. New York: Palgrave MacMillan, 2016.

ESTÉS, C. P. Mulheres que Correm com Lobos
— mitos e histórias do arquétipo da Mulher Selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

FORSTER, E. M. Aspectos do Romance. São Paulo: Globo, 2005.

HILDEBRAND, A. O Privilégio de Ser Mulher. Campinas: Ecclesiae, 2014.

RAWLS, Melanie (1984) “The Feminine Principle in Tolkien,” Mythlore: A Journal of J.R.R. Tolkien, C.S. Lewis, Charles Williams, and Mythopoeic Literature: Vol. 10: No. 4, Article 2. Disponível em: https://dc.swosu.edu/mythlore/vol10/iss4/2. Acesso em: 12 dez. 2018.

______. O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2019.

______. O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2019.

______. O Silmarillion. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2019.

______ CARPENTER, H. (org.), TOLKIEN, C. (assist.). As Cartas de J.R.R. Tolkien. Curitiba: Arte e Letra, 2010.


Este texto é uma versão reduzida e modificada do artigo “O Feminino em Tolkien” presente no e-book A Subcriação de Mundos, lançado em outubro de 2019. Baixe o livro pelo link: http://www.livrosabertos.sibi.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/book/405


Cristina Casagrande é administradora do site e autora de A Amizade em O Senhor dos Anéis


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s