“Cidade Invisível”: o folclore brasileiro em meio ao mundo moderno

Com a chegada da Netflix a diversos países, surgiram políticas locais para fazer com que o serviço de streaming produzisse e distribuísse filmes e séries de fora do eixo Estados Unidos–Reino Unido. Surgiram destas iniciativas grandes sucessos como La casa de papel e Lupin.

Entre as produções em língua portuguesa do Brasil, estão o drama Coisa mais Linda, que ganhou segunda temporada e espera renovação, e a distopia 3%, que teve quatro temporadas e foi muito elogiada por conta de sua trama e sua produção.

Agora é a vez de Cidade Invisível, série nacional que mistura uma trama policial com personagens do folclore brasileiro transitando por locais como a Lapa e outros pontos conhecidos do Rio de Janeiro. Recentemente renovado para uma segunda temporada, o seriado vem recebendo elogios dentro e fora do país, mantendo-se no Top 10 da Netflix em vários países.

Carlos Saldanha (Rio e Era do Gelo) assina a produção executiva e a direção de alguns dos episódios. A ideia da série surgiu de uma conversa de Saldanha com o casal de escritores Raphael Draccon e Carolina Muñoz. Apesar de muitos os creditarem como roteiristas e até perguntarem pelo livro que deu origem, Dracon e Muñoz são responsáveis somente pelo argumento da série, o que significa que eles apenas criaram a história base que sustenta toda a trama a ser desenvolvida.

Raphael Draccon lança Estandartes de Névoa, quarto volume da saga Dragões  de Éter - Cinema com Rapadura
Rafael Draccon/Dragões de Éter — Estandartes de Névoa

Raphael é conhecido por seus livros de fantasia imersiva, a trilogia Dragões de Éter, e foi um dos primeiros escritores nacionais do gênero a terem projeção internacional. Carolina, sua esposa, é conhecida por suas séries centradas em personagens feéricos que vivem no mundo contemporâneo, Fantasias de portal nas quais os protagonistas descobrem a existência de um mundo mágico coexistente com o mundo mundano. A combinação dos dois estilos é nítida na estrutura de Cidade Invisível.

Espectadores familiarizados com as obras de Neil Gaiman, especialmente Deuses Americanos e sua adaptação do Amazon Prime, podem reconhecer uma certa inspiração. Temos personagens do folclore nacional convivendo com uma investigação policial. Os seres míticos convivem quase em perfeita harmonia com os seres humanos, mantendo-se à parte e não se envolvendo em seus problemas, até que eles os atinjam. Há uma certa disputa entre as “entidades”, além de alguns humanos, crédulos das lendas, que transitam entre os dois mundos e servem de ponte para os dois universos.

Marco Pigossi/Cidade Invisível

Eric (Marco Pigossi) é um investigador da polícia ambiental que tenta a todo custo investigar um caso de incêndio, possivelmente criminoso, que foi responsável pela morte de sua esposa. Ela, uma antropóloga, trabalhava com a comunidade ribeirinha que estava sendo ameaçada a deixar as terras nas quais moravam para dar espaço a um empreendimento imobiliário, local onde ocorreu o incêndio.

Aos poucos situações estranhas começam a acontecer, e Eric percebe que as lendas são mais verdadeiras do que ele acreditava e que os seres míticos convivem com os humanos sem que estes saibam. É interessante observar como ele passa de uma pessoa que via as histórias do folclore como meros contos infantis e depois passa a acreditar nelas, uma vez que vê os personagens em carne e osso. Ele também é um mistério para tais criaturas, uma vez que elas parecem não ser capazes de atingi-lo, até que, em um possível outro aceno a “Deuses Americanos”, ele se vê mais envolvido com este mundo do que ele pensava.

É nítido o trabalho de pesquisa da equipe criativa. A ideia de corpo fechado, muito presente no imaginário nacional, está presente nos compilados de Folclore. Luís da Câmara Cascudo registra em seu Dicionário do Folclore Brasileiro uma cerimônia muito parecida com a vista na série. O “vilão” da trama é de tradição europeia, mas foi incorporado ao imaginário; o corpo-seco é, segundo o dicionário (p. 313), “Homem que passou pela vida semeando malefícios e que seviciou a própria mãe. Ao morrer, nem Deus nem o Diabo o quiseram; a terra o repeliu, enojada da sua carne; e, um dia, mirrado, defecado, com a pele engelhada sobre os ossos, da tumba se levantou em obediência ao seu fado, vagando o assombrando os viventes nas caladas da noite”, ainda que na trama ele só ataque outras figuras folclóricas.

Jessica Corés, Alessandra Negrini e Jimm London/Cidade Invisível

Outra recuperação do folclore tradicional, mesclado com a tradição de diferentes localidades, é a figura da Cuca sendo retratada como uma bruxa, mas também algo próximo ao bicho-papão, que devora as crianças em seus sonhos ou pesadelos. Seu companheiro constante nas lendas é o Tutu, visto na Bahia como um porco do mato, e que também assombra os sonhos daqueles que não se comportam.

Com apenas sete episódios, todos com menos de uma hora de duração, a temporada parece um prólogo a algo que pode ser muito maior. Ainda há muitos personagens a serem explorados, principalmente aqueles que são mais regionais, o que permitiria também uma interessante mudança de cenário, uma vez que quase sempre o Rio de Janeiro é o cenário das produções brasileiras que são distribuídas internacionalmente.

Há também uma preocupação quase exagerada em entregar cenas e diálogos claros e “limpos”, fazendo com que as atuações pareçam engessadas em alguns momentos. Inês é uma das poucas cujas falas parecem mais naturais, uma vez que Alessandra Negrini fala naturalmente com a voz pausada e há uma tentativa de induzir uma sonolência quando ela fala, o que condiz com sua personagem.

Ao todo, é uma iniciativa muito boa para retirar o folclore brasileiro do quarto das crianças e expandir para um mundo de riquezas e histórias tal qual observamos em produções, boas e ruins, que trabalham mitologias mais tradicionais, como a greco-romana e a nórdica. Com a segunda temporada confirmada, aguardamos para ver roteiros um pouco mais arriscados.


Obra Citada

CASCUDO, Luíz Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. São Paulo: Ediouro, 1998.


Fernanda Correia é doutoranda em literatura tolkieniana no Mackenzie-SP

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