Livros do “Legendarium” de Tolkien: por Onde Começar?

Cristina Casagrande

Uma das dúvidas recorrentes dos leitores iniciantes de J.R.R. Tolkien é por onde começar a ler a sua obra. A verdade é que não existe resposta pronta para isso, e mesmo os leitores mais avançados se perguntam como seria a experiência deles se tivessem começado por um livro diferente ou mesmo qual seria a ordem de uma possível releitura.

Como não existe resposta pronta para isso, separamos três sugestões para vocês. Lembrando que essas são dicas para boas experiências com as obras do legendário de Tolkien, não as demais obras, que não envolvem a mitologia literária do autor.

1. Ordem cronológica.

A primeira sugestão é seguir a ordem que conta o legendário desde a Criação do Mundo até o final da Terceira Era depois da Destruição do Anel do Poder. Essa é uma ordem pouco indicada para um iniciante, mas é ótima para quem já conhece a obra e quer aprofundar os seus conhecimentos sobre o legendário tolkieniano. Isso não significa que não possa funcionar com alguns leitores iniciantes na obra do autor, especialmente aqueles que já são ávidos leitores, têm familiaridade com leituras mitológica e sentem fascínio pelos estudos da linguagem.

Para começar nessa ordem, o indicado é O Silmarillion, que conta a história desde a Criação do Mundo, o “Ainunlindalë”, passando pela apresentação dos Valar, no “Valaquenta”, chegando ao relato dos principais eventos da Primeira Era, no “Quenta Silmarillion”.

Após ler cada um dos três Grandes Contos de forma mais condensada em O Silmarillion, sugere-se dar uma pausa para ler as suas respectivas em publicações “solo”, a saber: Beren e Lúthien (após “De Beren e Lúthien”), Os Filhos de Húrin (após De Turin Turambar”) e A Queda de Gondolin (após “De Tuor e da Quenda de Gondolin”). Vale lembrar que somente Os Filhos de Húrin traz uma versão única o mais completa possível da trágica história da família de Húrin, centrada em seu filho Turin. As outras duas publicações, Beren e Lúthien e A Queda de Gondolin, trazem várias versões do autor para o mesmo conto, inclusive em verso.

Também há versões ou histórias que tangenciam os três Grandes Contos espalhados nos doze volumes de The History of Middle-earth [A História da Terra-média], carinhosamente apelidada de HoMe. Eles também aparecem em Contos Inacabados, de forma tangencial sobre a chegada de Tuor a Gondolin, e ainda uma versão do conto dos Filhos de Húrin.

Depois, continuando no Silmarillion, vem o “Akallabêth”, que conta, de forma ainda mais sucinta, os eventos da Segunda Era, época em que a famigerada série da Amazon deve retratar. Da mesma forma, o leitor encontrará eventos que tratam da Segunda Era tanto em Contos Inacabados quanto na série The History of Middle-earth.

Por fim, ainda no Silmarillion, vem a parte “Dos Anéis de Poder e da Terceira Era”, que vai dar um bom panorama geral da formação de tais artefatos mágicos e do início da Terceira Era, que será tratada de forma mais atenta em O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Depois disso, a leitura pode prosseguir para O Hobbit, primeiro livro lançado pelo autor, que encanta crianças e adultos até hoje. Nele você vai conhecer Bilbo encontrou o Anel, além de Gandalf (que aparece bem de leve em O Silmarillion inclusive com outros nomes, Olórin e Mithrandir), Elrond, Gollum, os anãos, entre outros.

A próxima leitura é, finalmente, O Senhor dos Anéis, com a famosa e grandiosa da Guerra do Anel de Sauron contra os Povos Livres da Terra-média. Vale dizer que há ainda a coletânea de poemas das Aventuras de Tom Bombadil, que pode ser lida após ou concomitantemente a O Senhor dos Anéis. E é claro que existem histórias da Terceira Era em Contos Inacabados e no HoMe, aliás no último volume da série tem “The New Shadow” [A Nova Sombra], uma história esboçada por Tolkien que viria depois dos ocorridos em O Senhor dos Anéis, ou seja, depois do final da Terceira Era.

2. Ordem de publicação

A segunda ordem de leitura indicada é a mais conhecida de todas. É a sugestão que se costuma dar aos iniciantes de um modo geral.  

Neste caso, fica mais fácil visualizá-la fazendo uma lista com o nome das obras e de suas respectivas datas de publicação:

  • O Hobbit (1937)
  • O Senhor dos Anéis uma obra só publicada originalmente em três: A Sociedade do Anel (Julho de 1954), As Duas Torres (Novembro de 1954) e O Retorno do Rei (Outubro de 1955).
  • As Aventuras de Tom Bombadil (1962).
  • O Silmarillion (1977, com edição de Christopher Tolkien).
Capa da Primeira Edição de Contos Inacabados

  • Contos Inacabados (1980, com edição de Christopher Tolkien).

  • Série The History of the Middle-earth (1983–1996, com edição de Christopher Tolkien).
  • Os Filhos de Húrin (2007, com edição de Christopher Tolkien).
  • Beren e Lúthien (lançado em 2017, com edição de Christopher Tolkien).
  • A Queda de Gondolin (2018, com edição de Christopher Tolkien).


Ainda fará parte do legendário The Nature of Middle-earth [A Natureza da Terra-média], com edição de Carl F. Hostetter. Olançamento do original está previsto para 2 setembro deste ano, 2021, aniversário de morte do autor.

3. Ordem de interesse, de acordo com o perfil do leitor.

Esse seria o critério mais interessante, mas menos “mastigado” ao público geral. Seria necessário o mínimo de autoconhecimento como leitor, pois vai de acordo com o perfil de cada um. Para facilitar, tomaremos como base apenas os três livros referenciais do legendário: O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion.

Começando por O Hobbit. Esta é uma obra infantil/juvenil, que conta a aventura de Bilbo Bolseiro que, a pedido do mago Gandalf, vai ajudar treze anãos — até então desconhecidos por ele — a recuperarem seu tesouro dominado pelo dragão Smaug, em Erebor, a Montanha Solitária. É uma história linear, com não muitos personagens e que, basicamente, acompanha Bilbo Bolseiro do início ao fim, lá e de volta outra vez! Se você gosta de aventuras e de uma história mais linear, sem muitas ramificações, certamente essa é uma excelente pedida!

Na sequência, vem O Senhor dos Anéis, já escrito mais para o público adulto. É uma narrativa mais complexa, ramificada, cheia de claros e escuros. O terror, a dor, a perda e a solidão são mais pesados e exigem mais maturidade para serem encarados. É uma história de maior fôlego também, sem um único personagem central. São muitos heróis ­— todos defectíveis — e muitas aventuras para todos os gostos: simples, complexos, ativos, filosóficos, românticos (não muito mais tem), cômicos, trágicos, obscuros, guerreiros, épicos, festivos contemplativos…

Por fim, vem a obra mais complexa, O Silmarillion. Diferente de O Hobbit e de O Senhor dos Anéis, ela não é centrada nos hobbits ou homens, mas sim nos elfos. O livro não pode ser caracterizado propriamente um romance, uma história longa literária, mas seria mais um compêndio mitológico. Para os que apreciam mais mitologia do que romances literários e tem seu coração mais voltado aos elfos do que aos homens, esta é a melhor pedida!


Confira o vídeo sobre a ordem de leitura no canal no Youtube: https://youtu.be/GXvpMtHc2O4


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Cristina Casagrande é doutoranda em literatura tolkieniana e autora de “A Amizade em O Senhor dos Anéis”

2 thoughts on “Livros do “Legendarium” de Tolkien: por Onde Começar?

  1. Em minha primeira leitura do legendário, comecei com a Sociedade do Anel – presente de aniversário recebido alguns meses antes da estreia do primeiro filme. Depois dessa experiência inicial, voltei para o Hobbit, então ao Senhor dos Anéis completo e aí ao Silmarilion – estes ganhos no Natal daquele ano. Depois disso experimentei entre leituras que observavam as ordens cronológicas dos Mundos Primário e Secundário (incorporando os outros livros do legendário a estas), sem se furtar de “leituras de ocasião” motivadas por cada novo lançamento da Harper Collins. Concordo que a ordem da cronologia do mundo real é a melhor para o leitor iniciante – como demonstra sua aderência àquela que vai do texto mais simples ao mais complexo; sendo as imersões motivadas pelos acontecimentos de Arda mais cabíveis àqueles em sua segunda ou terceira visita – embora de modo algum seja proibitiva a passageiros de primeira viagem. Só não tenho particular interesse pelos “pulos” de um livro a outro. Enxergo considerável concisão interna e forte senso de propósito em cada um das obras – sejam as publicadas pelo pai, sejam as editadas pelo filho – de tal maneira que o vai e vem a mim parece trazer um desnecessário estranhamento pelo choque de textos com formas e objetivos os mais diversos – como por exemplo, ao pular de trechos do Silmarillion; com sua proposta de narrativa única, autocontida e transparente; para a opacidade trazida pela leitura dos textos não tratados e cheios de interrupções editorias de um Contos Inacabados ou A Queda de Gondolin; muito do senso estético e dramático do primeiro, e da capacidade de se absorver a “arqueologia do texto tolkeniano” dos segundos acabam perdidos

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