“O Senhor dos Pincéis” – A paródia de “A Turma da Mônica” para “O Senhor dos Anéis”

Fernanda Correia

A coleção “Turma da Mônica — Clássicos do Cinema” ganhou recentemente seu volume 15 em capa dura: “O Senhor dos Pincéis”, uma paródia de “O Senhor dos Anéis”.

A coleção começou em 2007 e sofreu algumas alterações ao longo dos anos, recebendo algumas republicações em formato capa dura, tendo algumas edições como almanaques, mas se mantém até hoje. “O Senhor dos Pincéis” é a primeira de uma série de histórias inéditas que serão publicadas a partir de agora. A coleção conta com títulos como a série “Coelhada nas Estrelas”, “Cascão Porker”, “Horacic Park”, “O Coiso” e “Star Treko”. 

As revistas da Turma da Mônica são famosas por suas paródias, as quais muitas vezes ganham edições próprias, como aconteceu com a série que adaptava clássicos da literatura. “Romeu e Julieta” foi apresentada como mais uma história, ganhou reedição em coletâneas e chegou a ser publicada em tamanho “gibizão”, além de receber adaptações para o teatro e para a televisão.

Nas próprias histórias, encontramos paródias e referências, sendo algumas piadas até difíceis de reconhecer pelas crianças, mas impossível não saber ao que se refere quando as crianças da turminha dizem que estão lendo uma “revistinha” do Batmão, do Superomão ou da Mulher Maravilhosa.

Nesse novo volume temos as três partes da paródia da trilogia de Peter Jackson: “O Senhor dos Pincéis”, “As Duas Cores” e a conclusão da aventura com “O Rascunho do Rei”. É importante lembrar que a coleção se chama “Clássicos do Cinema”, ou seja, a história trabalha com a adaptação cinematográfica dos anos 2000, e não com os livros de Tolkien.

Na trama, o jovem artista Maurisauron se perdeu da excursão que acompanhava, na terra de Mauodor. Ao cair no poço de vilania das HQs, tornou-se Sousaron, um grande vilão que a todos observa (menos no horário da novela, é claro). Em segredo, forjou o Um Pincel, capaz de controlar todos os outros pincéis, criados originalmente para que cada uma das raças da Terra Café com Leite (afinal, Média é a forma mais harmoniosa de se ter café, leite e cremosidade) obtivesse o melhor de sua criatividade.

Assim, como diz Galadriel, ou melhor, Marinadriel na narrativa do prólogo da história: “Então, a história se tornou lenda… a lenda se tornou mito… o mito virou livro… que virou filme… O filme virou paródia em HQ e o pincel ficou esquecido por anos, até que, um dia…” a criatura Bugolum encontrou o artefato e o tomou para si.

Final da Primeira Parte “O Senhor dos Pincéis: A Sociedade do Pincel”/Twitter Oficial do Mauricio de Sousa

A trama segue acompanhando os principais momentos do filme, não deixando passar nenhuma oportunidade de fazer trocadilhos, como o nome da terra onde se passa a trama ou a preocupação de que o vilão possa ser Valdemarte, imediatamente lembrado que se trata de outro filme e descartado como opção. 

A reunião em Valfenda, ou melhor, Jingobel, a cidade do elfofos, é confundida com uma reunião de condomínio. E o mago Gandalfão é criticado pelo anão Glimácio por usar o cavalo Scadutáxi em vez do aplicativo Maguber. Entre outras situações engraçadas que conversam com o universo dos filmes, dos quadrinhos da Mônica e com a nossa própria realidade.

Personagens de diferentes histórias da turminha se misturam para representar os muitos personagens dos filmes. Além do quarteto principal da Turma da Mônica (e alguns secundários, para grande ofensa do Xaveco), temos a Turma do Jotalhão, a Turma do Penadinho e a Turma do Bidu participando.

Cada novo personagem, cada nova situação é propícia para o que a turminha faz de melhor, metalinguagem como base para suas piadas. Há referências constantes à própria história da Mônica, como o fato de o vilão ser Maurício de Souza e o pai da Mônica ou as situações tradicionais de Mônica não aceitar comentários sobre sua altura ou seus dentes e distribuir coelhadas por aí. 

As paródias ampliam o escopo de referências, havendo piadas com os filmes, como a narração que abre a HQ, mencionando os caminhos que “O Senhor dos Anéis” seguiu na cultura pop. Outras franquias do cinema são constantemente mencionadas, brincando com as confusões que pessoas não familiarizadas com as histórias comumente fazem. Os memes, como o remix, de Legolas cantando “they are taking the hobbits to Isengard, to Isengard”, estão presentes, o que condiz com Legolouco cantando de repente e confundindo os outros personagens. Até mesmo as versões estendidas e cenas que ficaram de fora estão presentes (e fazendo uma grande confusão para os próprios personagens). 

Uma das possibilidades mais divertidas da edição é a releitura constante para que, a cada nova leitura, possamos reconhecer referências novas. Não é fácil reconhecer todos os personagens e, em alguns casos, até isso vira piada em pequenas notas de rodapé.

O maior problema da edição é que se trata de um volume único, muito bonito e em capa dura, sendo que os dois primeiros foram publicados em formato maior que o de um gibi normal, mas com capa mole e sem periodicidade. O primeiro foi publicado originalmente em 2014 e relançado em 2020, por exemplo. No entanto, o terceiro volume não foi lançado separadamente, não há nem sequer uma capa única para ele, o que por si só é uma oportunidade perdida, já que as capas parodiam os pôsteres que foram para os cinemas. Além disso, quem estava acompanhando com os volumes separados precisa comprar o volume único, já que não haverá o terceiro avulso e terminar com as duas primeiras partes duplicadas.

Não se pode esquecer também que, como ocorre com as mais conhecidas paródias, é preciso ter pelo menos assistido aos filmes para reconhecer algumas das referências, que, às vezes, podem ser bem específicas. No fim, o importante é que se trata de uma releitura divertida e engraçada, pensada para agradar principalmente aos fãs (sejam os dos filmes ou dos livros) e conquistar novos leitores para a turminha e para a Terra-média.


Fernanda Correia é doutoranda em literatura tolkieniana no Mackenzie-SP

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