Uma Viagem Inesperada: passeio Oxford e Birmingham de Tolkien

Vitchenzo Manfron Caliari

“É um negócio perigoso, Frodo, sair da sua porta. Você pisa na estrada, e, se não controlar seus pés, não há como saber até onde você pode ser levado.”

Assim estava eu, Vitchenzo Caliari, com 20 anos, e sozinho na primeira viagem da minha vida, inseguro nos primeiros momentos e com uma demanda desafiadora. Como muitos leitores da obra do Professor J.R.R. Tolkien, sejam eles principiantes ou avançados, quando se vai além do legendário para o estudo biográfico é improvável que não tenhamos o desejo de conhecer e ver com os próprios olhos os pináculos acima das gárgulas das imensas construções seculares da Universidade Oxford, os “colleges” em que o Professor estudara e lecionava, ou mesmo a simplicidade de sua casa em Birmingham e o memorável Moinho de tijolos em Sarehole Mill.

Universidade de Oxford

No fim de 2020, tive a ideia de conhecer tais locais, pois, naquele ano, busquei mais da vida e obra do Professor Tolkien e fiquei fascinado. Tive um ano ainda pela frente para a preparação e cada mês que passava, o coração acelerava. Dias antes, sentia-me como o Sr. Bilbo Bolseiro, relutante e apreensivo em deixar o lar, mas quando o momento chegou o lado Tûk despertou. Assim que cheguei em Oxford, não poderia estar mais maravilhado ao observar aqueles belos prédios antigos e adornados no estilo gótico, algo de que sempre gostei.

Nos primeiros dias, conheci a cidade pelo tour da universidade e nos próximos coloquei em ação a jornada pelas localizações tolkienianas. Em Oxford, utilizei em maior parte o tour da Tolkien Society que começava no pub “The Eagle and Child” e encerrava no Cemitério de Wolvercote. Portanto, cedo pela manhã lá estava eu em St. Giles, caminhando para o Norte, quando finalmente vi a indistinguível placa do “The Eagle and Child” ou “Bird and Baby”, como Tolkien e os amigos o chamavam. Infelizmente o pub estava fechado, mas ainda é possível observar o interior vazio pela janela e sentir a atmosfera dos Inklings, que se encontravam ali para ler em voz alta trabalhos em andamento, conversar e beber cerveja. Foi interessante imaginar o encontro de “Tollers” e “Jack” na porta do pub nas manhãs agradáveis de uma terça-feira. Em frente a este pub, fica o “Lamb and Flag”, onde também se encontravam e logo irá reabrir. Próximas a estes pubs, ficam duas casas onde a família Tolkien morou, na Pusey Street e St. John’s Street, bem localizadas nas ruas de Oxford.

No centro da cidade, com seus vários “colleges” [faculdades] pelas quadras, ficam aqueles importantíssimos para Tolkien, seus amigos e grupos de autores, desde a sua época de graduação até os tempos de “Fellow”. Pude contemplar todos eles e iniciei com o Balliol College, onde no final dos anos 1920, os “Kolbitars” se reuniam para ler as sagas islandesas em voz alta. Próximo à famosa livraria Blackwell’s (com uma belíssima e tentadora estante do autor), onde, em 1915, Basil Backwell publicou o primeiro poema de Tolkien, “Goblin’s Feet”, na “Turl Street”, entrei no Exeter College e veio à memória todas aquelas fotos do Professor em sua juventude no local e seus relatos, de 1911 a 1915. Como era belo o pátio e pisar ali, onde o autor que tanto admiro frequentava; e como sempre, tentava imaginar a presença dele ali no começo da década de 1910 caminhando com os amigos pela calçada abaixo das encantadoras janelas entre o verde das plantas que subiam pela parede ao norte da entrada. Infelizmente estavam reformando uma parte da área interna e não pude tirar a clássica foto como na capa do livro “Explicando Tolkien”, do magnífico tolkienista Ronald Kyrmse.

Visitei outros pontos, como o Old Ashmolean Building, onde anos logo após a Grande Guerra, Tolkien trabalhou no que se tornaria o Dicionário Oxford de Inglês. Também o Sheldonian Theatre, onde Tolkien recebeu seu honorário D.Litt. em 1972, e também a Bodleian Libraries onde costuma haver uma exposição dos diversos manuscritos valiosos que ela possui. Tive a oportunidade de visitar o interior dela e fiquei impressionado com a estética e organização da biblioteca. Após a visita interna, fui até a grandiosa Radcliffe Camera, inspiração para o Templo de Sauron em Númenor e, lá no topo do domo, foi interessante imaginar o Senhor dos Anéis em meio aos trovões desafiando os Valar. O interior era magnífico e, com certeza, muito agradável para o jovem Tolkien na época. Ao fim do tour da Bodleian Libraries, fiz a doação de uma cópia da edição brasileira de O Silmarillion da editora HarperCollins Brasil e a instituição ficou extremamente feliz e agradecida em receber, claro, com muitos elogios pelo capricho estético e cuidado com a obra.

Segui então para o New College, onde o memorável e inspirador, Christopher Tolkien era um Fellow. Próximo dali visitei a casa de Tolkien na Holywell Street e Manor Road, casas muito belas e aconchegantes, sendo a primeira de tijolos com estética extremamente “inglesa”. Voltando e seguindo pela High Street, fiz o tour pelo fantástico Magdalen College, lá C.S. Lewis era um Fellow [acadêmico sênior na universidade de Oxford] e Tolkien o visitava com frequência em seus aposentos. Uma dessas visitas foram de vital importância para Lewis, pois levou à sua conversão do ateísmo ao cristianismo ativo. Os corredores contornavam o belíssimo jardim principal da faculdade, e era possível ver a torre dele ao fundo, assim era a vista todos os dias de C.S. Lewis por aquele local. Nos New Buildings, Lewis tinha quartos e ele e Tolkien costumavam conversar tarde da noite. Próximo dali fica um portão e uma ponte que conduz à “Addison’s Walk” e aos jardins. Esse foi o meu local favorito na visita e fiquei todo arrepiado andando pela estreita estrada sob as árvores no fim de outono, pois por esse caminho Tolkien e Lewis tiveram aquela importante discussão sobre o significado e o propósito do mito cristão. Caminhava sentindo o vento no rosto, observando os animais, ouvindo o riacho que contornava toda a estrada e como a imaginação despertava, parecia que via ao longe as figuras dos dois grandes autores. Voltando pela mesma rua, fica na esquina o Eastgate Hotel, onde o Professor Tolkien e Lewis se reuniam para jantar. Em frente fica a Merton Street, onde em 1971, Tolkien morou após o falecimento de Edith.

Addison’s Walk onde Tolkien e Lewis conversaram sobre mito e verdade

Ao norte de St. Giles durante no dia seguinte e chuvoso, visitei a Northmoor Road e as duas casas do Professor, as de número 22 e 20, onde a família viveu de 1926 a 1930 e 1930 a 1947, respectivamente, sendo nelas desenvolvida a escrita de O Hobbit e muito de O Senhor dos Anéis, com direito a uma placa azul para marcar o importante local na n. 20. Em ambas as casas, imaginei um senhor em frente à janela escrevendo as obras fantásticas que revolucionariam a literatura e então pelas ruas pensei no Professor com sua icônica bicicleta. Segui então para o norte e entrei no Cemitério de Wolvercote, onde fiquei muito emocionado, pois sabia que, em poucos minutos, iria me encontrar (espiritualmente) com o Professor. Segui as placas que indicavam a direção para a lápide do casal e ao alcançar a última, olhei para o lado e meus olhos foram direcionados exatamente para o local. Lá foi devidamente o mais adequado para terminar o tour, em frente a lápide gravada com os nomes de Beren e Lúthien. Sem dúvidas o melhor momento da minha viagem, pois finalmente pude sentir a presença do Professor Tolkien e sua esposa, Edith, de acordo com a minha fé, que era mesma deles. Tive um calafrio e quando olhei para a lápide foi a melhor experiência para um leitor e grande admirador de suas obras. Um momento emocionante e profundo, um desejo realizado! Fiquei longos minutos olhando em admiração, em especial devido ao clima do dia. Jamais me esquecerei do momento em que comecei o primeiro livro lendo “Em uma toca no chão vivia um Hobbit…”, um dia chuvoso e frio, exatamente como no que o encontrei.

Lápide de Tolkien e Edith no cemitério de Wolvercote

Após visitar Oxford, fui para Birmingham e conheci o Condado de Tolkien e os principais pontos importantes de sua infância. Primeiramente conheci o belo moinho de Sarehole Mill, hoje um museu do Birmingham Museums Trust e com placas contando a história de sua relação com a Terra-média. Imaginava as histórias do “Ogro Branco” perseguindo os irmãos Tolkien, que corriam pelos campos perto do moinho. Próximo dali visitei sua humilde e antiga casa na Wake Green Road, o The Shire Country Park and Cole Valley, o Moseley Bog and Joy’s Wood, ideal para as aventuras na infância do pequeno Ronald Tolkien e lembrado na descrição do autor da “Floresta Velha”, última das matas selvagens primitivas, onde Tom Bombadil morava. Inclusive, enquanto caminhava pelo parque, lembrei muito da música do bom e alegre personagem e olhava apreensivo para não encontrar despercebido o Velho Salgueiro, mas sabia que o velho Tom apareceria com suas icônicas botas e chapéu com pena.

No dia seguinte, visitei as torres Perrott’s Folly e Edgbaston Waterworks Tower e o Oratório, importantíssimo para a família e para a história de conversão de Mabel, a mãe de Tolkien, ao catolicismo. Depois de se mudar para Edgbaston em 1902, ela e os meninos frequentaram o Oratório do Cardeal Newman no Hagley Road. A família morava perto de Oliver Road e, por um tempo, Ronald foi matriculado no St Phillip’s School, naquela época localizada na mesma rua. A amizade do Padre Francis Xavier Morgan, que se tornou o tutor dos meninos, era uma fonte de força durante a doença de Mabel e morte subsequente. No Oratório, encontrei uma placa com o nome do Padre Francis Morgan e fiquei impressionado com a beleza do local, em especial pelo número de fiéis naquele domingo.

Para finalizar o tour, entrei no Highfield Road and the Plough & Harrow Hotel, lá enquanto morava em alojamentos na Duchess Road, Tolkien encontrou e apaixonou-se por Edith Bratt de dezenove anos. Ele tinha apenas dezesseis anos naquele tempo e o Padre Morgan tentou pôr fim no relacionamento movendo os dois meninos para Highfield Road. Foi o último endereço de Tolkien em Birmingham. Em 1913, aos 21 anos, e ainda no Exeter College em Oxford, Tolkien restabeleceu contato com Edith e seu romance foi reacendido. Eles se casaram em a primavera de 1916 em Warwick e em junho daquele ano passaram uma noite em Birmingham no Plough & Harrow Hotel. Tolkien estava provavelmente em licença de embarque antes de partir para a França como oficial do Lancashire Fusiliers. Partindo de Birmingham, visitei a região de Cotswolds, no interior da Inglaterra, e lá senti a atmosfera do Condado, onde caminhei entre bosques, florestas e vilarejos seculares.

Só tenho a agradecer pela oportunidade e gostaria que todos os leitores tivessem a mesma experiência, é mágica! Levaria muitas páginas descrevendo como é a sensação de caminhar nos mesmos passos de Tolkien e acredito que mesmo assim não seria possível transmiti-la. A partir de tudo isso, visitando os locais e imaginando o Professor desde sua infância até a os últimos anos de sua vida, foi fundamental para entrar ainda mais em contato com toda a vida e obra.

Muito obrigado, Cristina Casagrande, pelo maravilhoso convite [nós que agradecemos, Vitchenzo]! Não tenho palavras para agradecer a tamanha honra! Jamais imaginei que seis anos atrás eu como leitor principiante das obras de Tolkien teria essa experiência fantástica! E também, em especial, agradeço ao Sérgio Ramos do Tolkien Talk pela ajuda com as informações e documentação dos tours providenciada por ele [é a cara dele!].


Vitchenzo Caliari é administrador da página Parmandîl no Instagram

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One thought on “Uma Viagem Inesperada: passeio Oxford e Birmingham de Tolkien

  1. Parabéns Vitchenzo! Você escreve muito bem e assim como foi para você uma incrivel experiência no fim de 2020 viajar para conhecer um pouco mais sobre a vida de Tolkien, creio que seu relato inspiraram algumas pessoas viajar e seguirem suas indicações de locais para visitar

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