Por dentro da série “Os Anéis de Poder”| Vanity Fair

Esse artigo foi publicado originalmente na revista norte-americana Vanity Fair e foi escrito pelos jornalistas Anthony Breznican and Joanna Robinson. Confira o original aqui.

Tradução de Lorena S. Ávila

O mundo de Galadriel é um mar revolto. Longe da sábia, magnífica rainha dos elfos interpretada por Cate Blanchet na aclamada trilogia de Peter Jackson, a Galadriel interpretada por Morfydd Clark na série da Amazon, O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder, é milhares de anos mais nova, tão furiosa e impetuosa quanto esperta, e certa de que um mal iminente está mais perto do que qualquer um consegue perceber. Já no episódio dois, suas preocupações a deixam à deriva, literal e figurativamente, até que ela esteja lutando para sobreviver numa balsa nos tempestuosos Mares Divisores, ao lado de um mortal chamado Halbrand (Charlie Vickers), um personagem novo apresentado na série. Galadriel está lutando pelo futuro; Halbrand está fugindo do passado. O destino entrelaçado deles é apenas duas das histórias tramadas numa série que, se funcionar, pode se tornar um fenômeno global. E, se não vingar, tornar-se-á, no mínimo, um aviso para qualquer um que, parafraseando J.R.R. Tolkien, cava com ganância demais, fundo demais.

A série da Amazon, que estreia no dia 2 de setembro no Prime Video, não é baseada em um romance de Tolkien propriamente dito, mas no vasto pano de fundo que ele colocou nos apêndices de O Senhor dos Anéis. Cinco temporadas devem custar ao estúdio cerca de 1 bilhão de dólares. Um orçamento como esse poderia dizimar a maioria dos outros estúdios, mas Tolkien, assim como a viagem espacial, é uma obsessão pessoal do fundador da Amazon, Jeff Bezos, que é também uma das pessoas mais ricas do mundo. Essa grande aposta permite que Bezos crie a mais cara e elaborada série já feita na história da Televisão. Enquanto Jackson não fará parte do projeto, seus filmes, assim como seu sucessor espiritual, Game of Thrones, provam que existe um público imenso para a fantasia imersiva. Claro que muitos tentaram capturar o mesmo público, mas poucos sobreviveram ou prosperaram.

Galadriel, comandante dos Exércitos do Norte. MATT GRACE/AMAZON STUDIOS.

Dada a fortuna de Bezos, Os Anéis de Poder é muito mais um risco de reputação do que financeiro. A Amazon precisa provar definitivamente que pode produzir séries de muito prestígio, somando-se a isso o perigo de elaborar e alterar o cânone de um amado contador de histórias. Os showrunners, Patrick McKay e J.D. Payne, estão agonizantemente cônscios da pressão. Sua criação deve equilibrar 22 estrelas, bem como múltiplos arcos narrativos, das profundezas das minas dos anãos das Montanhas Nevoentas às questões políticas no reino élfico de Lindon e a poderosa ilha humana de Númenor, semelhante a Atlântida. Tudo isso vai, eventualmente, girar em torno do acontecimento que dá nome à trilogia. “A forjadura dos anéis”, diz McKay. “Anéis para os elfos, anéis para os anãos, anéis para os homens e então o Um Anel de Sauron, usado para enganar a todos. É a história da criação de todos esses poderes, de onde eles vieram, e o que eles fizeram com cada uma dessas raças”. A pergunta principal por trás da produção, acrescenta, era: “Podemos fazer disso um romance que Tolkien nunca escreveu e transformá-lo no maior evento da televisão que só poderia ter acontecido agora?”

A sobrevivência de Galadriel no mar não é somente o ponto crucial que marca o início da série — os showrunners se recordam que este foi um momento marcante no set, na Nova Zelândia, em março de 2020. “Morfydd estava há apenas alguns dias como Galadriel, o que é assustador”, disse McKay. “Ela estava na água. Tem um monte de efeitos especiais. Tem música e luz”. Mas apesar da cena grandiosa diante deles, toda a equipe da série estava presa aos celulares: em 45 minutos, todos souberam que Tom Hanks havia contraído Covid-19 na Austrália; a temporada da NBA foi cancelada e a OMS declarou uma pandemia global. “Nós falamos ‘Meu Deus! O que vamos fazer? Vamos ter que parar tudo?’”, disse McKay. O pânico se instalou, unindo-se às outras ansiedades, grandes e pequenas. “Foi apavorante. ‘Meu Deus, alguém conseguirá entender o que estamos tentando fazer aqui? Isso não é ambicioso demais? Nós não temos ideia do que vai acontecer amanhã.’’’

“você consegue imaginar voltar para este mundo tão amado, [encarando] o alto nível dos filmes de Peter Jackson? Nós estávamos, o tempo todo, muito cientes do tamanho da expectativa”.

Mas um por um, a equipe finalmente deixou os celulares de lado. “Todos estavam juntos, olhando para o monitor enquanto filmávamos alguns close-ups em que o rosto de Galadriel preenche a tela e ela grita, decidida: eu tenho que lutar,” disse McKay. Assim que eles finalizaram a cena, a equipe de som começou a chorar. “É o exemplo perfeito de como Tolkien e a Terra-média encontram um caminho até você, mesmo nos momentos mais incertos e sombrios,” disse Payne.

Independente de outros caos que os poderia afligir, eles finalmente sentiram que estavam no caminho certo. Os primeiros três episódios, que a Vanity Fair assistiu, sugerem que estavam. A série é luxuosa, uma instigante mistura de intrigas palacianas, magia, guerra e mitologia – e há mistérios o suficiente para mil podcasts. Alguns personagens são familiares, e serão a atração principal enquanto os espectadores acompanham seu destino lendário se desenrolar. Mas as novas personagens podem se tornar ainda mais envolventes no fim, já que seus destinos literalmente ainda não foram escritos.

Owain Athur como Príncipe Durin IV, prícipe do movimentado reino subterrâneo de Khazad-dûm. COURTESY OF AMAZON STUDIOS/A princesa anã Disa, desempenhado por Sophia Nomvete, parada na entrada de Khazad-dûm. BEN ROTHSTEIN/AMAZON STUDIOS./O elfo silvestre Arondir, por Ismael Cruz Córdova, é um persoagem criado para a série. MATT GRACE/AMAZON STUDIOS.

Anteriormente, essa parte da história era mais conhecida como ruínas. Depois do sucesso do livro infanto-juvenil lançado em 1937, O Hobbit, Tolkien voltou a atenção para um volume da história da Terra-média, o qual seus editores recusaram (uma versão mais completa foi publicada postumamente como O Silmarillion). Então, conforme a segunda Guerra Mundial de sua vida eclodia à sua volta, Tolkien moldou uma aventura sobre seres de sociedades muito diferentes que deixam de lado suas divergências para combater um poder maligno superior. Esta, claro, é a história de O Senhor dos Anéis.

Nessa história, uma irmandade improvável se aventura numa jornada rumo a Mordor para destruir o Anel de Sauron. Ao longo do caminho, Tolkien queria que as personagens passassem por uma paisagem maculada, repleta de vestígios de várias civilizações e batalhas que aconteceram antes. A jornada deles, afinal, não se tratava de confrontar um novo perigo, mas sim de erradicar um antigo – um flagelo de malignidade que atormentara a terra por eras. Tolkien imaginou reinos completos e então os desmoronou para criar o pano de fundo.

Galadriel e Halbrand (Charlie Vickers) se conhecem em circunstâncias terríveis. BEN ROTHSTEIN/AMAZON STUDIOS.

O efeito foi quase que bom demais. Depois da publicação de A Sociedade do Anel e As Duas Torres — em julho e novembro de 1954, respectivamente — os leitores ficaram obcecados. “A maioria das pessoas querem mais (e melhores) mapas,” escreveu Tolkien para um amigo em 1956. “Músicos querem melodias e partituras. Arqueólogos querem saber mais sobre cerâmicas, metalurgia, ferramentas e arquitetura… Historiadores querem mais detalhes da estrutura social e política”. Para dar a eles tudo, Tolkien informou ao seu editor, “precisaria de um livro inteiro pelo menos do tamanho do Vol.1”.

Em vez de usar o seu rejeitado Silmarillion, ele espremeu milhares de anos de história em 150 páginas de pós-escritos que se tornaram conhecidos como os Apêndices. Essas cronologias, genealogias, notas sobre língua e cultura tornaram-se tão importantes para Tolkien que ele até mesmo pausou por um tempo a publicação do último livro, O Retorno do Rei, para completá-las. “Elas cumprem um papel importante na concepção do todo,” Tolkien explicou para um editor estrangeiro em 1961, “produzindo um senso instigante de realidade histórica.”

Depois da morte de Tolkien, seu filho Christopher assumiu o comando do espólio e tinha fama de ser superprotetor, quando não intransigente, quanto às adaptações dos trabalhos de seu pai, temendo a comercialização em cada esquina. “Christopher realmente não gostava de O Senhor dos Anéis de Cebola e principalmente da glorificação da violência por si só,” diz o acadêmico em Tolkien e professor do Wheaton College, Michael Drout. “Ele nasceu em 1924, então os grandes fenômenos de bilheteria e franquias cinematográficas era algo para o qual simplesmente não ligava. Se o seu pai não tivesse vendido todos os direitos de O Senhor dos Anéis e O Hobbit para pagar impostos, não acho que Christopher os teria vendido.”

Elrond (Robert Aramayo) é um jovem líder élfico politicamente ambicioso. BEN ROTHSTEIN/AMAZON STUDIOS.

Ao longo dos anos, Christopher Tolkien desconsiderou muitas propostas lucrativas para a produção de outros materiais sobre a Terra-média. Mas em 2017, enquanto preparava sua aposentadoria, os Tolkien fizeram um surpreendente leilão. Eles estavam vendendo os direitos dos Apêndices que esboçavam o que Tolkien se referia como A Segunda Era da Terra-média, assim com quaisquer referências àquele período no próprio Senhor dos Anéis. Se você não está atualizado na questão das eras, a Segunda é (aparentemente) um tempo de paz para a Terra-média, depois de uma era de conflitos e horror. O perverso deus Morgoth foi derrotado, e seu aprendiz, Sauron, sumiu. Conforme vemos no começo da série, Galadriel está caçando os últimos remanescentes dos inimigos, que tiraram a vida de seu irmão. A Terceira Era — e as aventuras de Frodo, Sam, e a Sociedade — ainda aguarda uns milhares de anos no futuro.

O lance inicial no leilão do Tolkien Estate começou em impressionantes U$200 milhões, o que teria sido uma proposta fadada ao fracasso, se não fosse a obsessão da indústria em encontrar o próximo Game of Thrones. O dinheiro não era o único fator intimidador. Algumas personagens anciãs, como Galadriel e Elrond, poderiam aparecer nesse novo projeto mais jovens, mas o estúdio deveria esquecer queridinhos dos fãs como hobbits e magos, que não tiveram grande papel na Segunda Era. O Tolkien Estate também queria informações sobre a direção da série.

Um orçamento como esse poderia dizimar a maioria dos outros estúdios, mas Tolkien, assim como a viagem espacial, é uma obsessão pessoal do fundador da Amazon, Jeff Bezos

Por outro lado, o potencial positivo era de uma série-sensação com um público cativo, garantindo a sobrevivência na Grande Guerra Global dos Streamings. A HBO e a Netflix estavam entre os interessados em adquirir os direitos, mas a Amazon os arrecadou por U$250 milhões. “Ele é pessoalmente um grande fã de Tolkien e incrivelmente apaixonado por todo esse mundo, e sabe muito sobre ele,” disse Jennifer Salke, presidente da Amazon Studios. “Seu desejo de ser ambicioso — e de nós sermos ambiciosos com o nosso conteúdo — sempre foi claro desde o primeiro momento que cheguei aqui. Isso se encaixa perfeitamente com aquela grande ambição, de fazer algo que exigisse que toda a empresa trabalhasse unida na execução do projeto.”

A Amazon não confirma o orçamento da série, mas além da quantia para os direitos, o governo da Nova Zelândia estimou que os gastos da produção no país ficaram entre U$462 milhões de dólares apenas para a primeira temporada. Isso inclui a construção de estruturas que serão usadas nas próximas temporadas — e houve uma compensação com um abate de U$108 milhões. Em comparação, a série de fantasia mais recente da Amazon, A Roda do Tempo, custou cerca de U$80 milhões por temporada. Levando em consideração a eventual campanha de marketing global — e o custo dessas temporadas subsequentes — não há dúvida de que Os Anéis de Poder acabará ultrapassando a marca de um bilhão de dólares.

Bronwyn (estrelado por Nazanin Boniadi) com seu amor proibido, Arondir (Ismael Cruz Córdova), na aldeia de Tirharad. BEN ROTHSTEIN/AMAZON STUDIOS.

Assim como Tolkien confiou sua missão a Frodo Bolseiro e Samwise Gamgi, a Amazon escolheu dois nomes improváveis. McKay e Payne são amigos de colegial e trabalharam como roteiristas em Hollywood por 13 anos. Os Anéis de Poder é a primeira obra creditada a eles na lista do IMDB. Eles sabem — isso é surreal para eles também. “Nós trabalhamos com tantas pessoas maravilhosas e empolgantes em tantos projetos que nunca foram feitos ou que realmente foram feitos, mas pelas quais nunca recebemos o crédito”, disse McKay. “Éramos meio que os azarões. E a Amazon falou com absolutamente todo mundo — qualquer um que tivesse qualquer ideia para O Senhor dos Anéis.” Payne acrescenta: “Nós estávamos apaixonados pelo material e tínhamos uma abordagem que correspondia ao apetite e ambição da Amazon”. Eles também tinham, aparentemente, um apoiador significativo na figura de J.J. Abrams, que os conhecia por um roteiro de Star Trek e supostamente os recomendou muito bem.

Convencer os executivos da Amazon a aprovar 50 horas de televisão — e, em última análise, a família Tolkien — foi árduo, mas nada comparado a escrever, produzir e dar vida a série. “Nós nos sentimos como hobbits,” Payne disse. “Nos sentimos como duas pessoas muito pequenas num mundo muito grande que foram confiadas a algo que significa muito para tantas pessoas diferentes.” Os showrunners se viram parafraseando a famosa fala de Frodo no final de A Sociedade do Anel. “Patrick e eu nos entreolhávamos nos momentos desafiadores da série e dizíamos ‘Estou feliz que você está comigo, Sam.’” “Ele é o Sam”, McKay acrescenta.
“Brincadeira, eu sou o Sam.”

Elrond e Galadriel se reúnem no majestoso reino élfico de Lindon. CORTESIA DE AMAZON STUDIOS.

Um projeto desse tamanho nunca se realizaria sozinho. Os executivos da Amazon, ainda relativamente novos quando se trata de conteúdo original, formaram um experiente time de apoio. O coprodutor executivo de Game of Thrones, Bryan Cogman entrou para a série como conselheiro para ajudar McKay e Payne a tirar o projeto do papel, e o cineasta veterano J.A. Bayona (Jurassic World: Reino Ameaçado) deu o tom da série dirigindo os primeiros dois episódios.

Bayona foi atraído não apenas pelo roteiro dos dois, mas pela sua disposição em aceitar conselhos. “Desde o começo, eu acreditei nesses garotos,” Bayona disse. “Eu sabia pelo que eles estavam passando e eles sabiam pelo que eu estava passando também, porque você consegue imaginar voltar para este mundo tão amado, [encarando] o alto nível dos filmes de Peter Jackson? Nós estávamos, o tempo todo, muito cientes do tamanho da expectativa”.

Uma sociedade foi formada.

Bronwyn (Nazanin Boniadi) é uma mãe solteira e curandeira, vista aqui em seu boticário nas terras do Sul da Terra-média. CORTESIA DE AMAZON STUDIOS.

Até agora, a Amazon não disse nada sobre a série. O sigilo incomodou alguns fãs que estavam acostumados com a relação próxima e o fluxo constante de informações “por trás das câmeras” que tiveram de Jackson e da New Line Studios na época dos filmes. É possível dar spoilers sobre um texto que tem 66 anos de publicação? Na verdade, como nem todos estão familiarizados com os apêndices, a resposta é sim. “Nós acreditamos que todo esse trabalho e toda essa segurança e proteção, na verdade, vão beneficiar os espectadores,” disse Vernon Sanders, presidente de televisão global/EUA da Amazon. De sua parte, Salke acredita que o sigilo que gera a intensa curiosidade dos fãs é saudável para o show. “Qualquer um que vasculha, ou persegue pistas, ou tenta espiar por qualquer brecha que puder para obter mais detalhes e especular — isso tudo é engajamento de fãs e paixão. Então enxergamos isso dessa forma,” explicou. “A especulação é bem-vinda.” O silêncio tem sido a regra da Marvel, DC, Star Wars, e a última temporada de Game of Thrones, mas os métodos furtivos da Amazon alçaram-se a outro nível. Mesmo os atores foram contratados sem saber qual papel iriam interpretar.

Houve um vazamento em 2019 que, conquanto inofensivo, preocupou alguns que estavam observando à distância. O consultor da série e acadêmico em Tolkien — um acadêmico muito respeitado chamado Tom Shippey — concedeu uma entrevista aparentemente não autorizada para um site de fãs na Alemanha, falando abertamente sobre o que a série poderia ou não explorar. Pouco tempo depois, Shippey foi desligado da equipe de consultores. Tanto ele quanto os showrunners se recusam a dizer o que aconteceu, mas obviamente os fãs presumiram. “Parece que o Contrato de Confidencialidade é basicamente ‘se você contar algo para qualquer um, faremos picadinho de você,’” alegou Drout, acadêmico em Tolkien. Depois disso, a Amazon não compartilha mais o nome de seus acadêmicos colaboradores.

Outras pessoas deixaram a produção de Os Anéis de Poder durante as filmagens, incluindo os atores Will Poulter e Tom Budge. Juntamente com a saída de Shippey, do desenhista de produção Rick Heinrichs e de um dos executivos que ajudaram a negociar o acordo com Tolkien, além da chefe de gênero da Amazon, Susan Tal Yguado, tais perdas despertaram a preocupação de que a produção era caótica desde o início. Mas os fãs dos filmes devem se lembrar que Stuart Townsend foi substituído por Viggo Mortensen mesmo depois de ter sido visto brandindo uma espada na Nova Zelândia. Os executivos e os showrunners insistem que em qualquer longa jornada é inevitável que alguns não cheguem até o final.

Director J.A. Bayona aponta o caminho para dois caçadores nômades vagando pelos campos da Terra-média. CORTESIA DE AMAZON STUDIOS.

Como fãs de longa data do gênero, Payne e McKay entendem a ansiedade que alguns sentem em relação a série. “Nós sabemos como é esperar alguma coisa e temer que não será como se espera,” disse McKay. “Nós fomos essas pessoas por muitas vezes.” A dupla pode agora, finalmente, sanar algumas preocupações.

Depois de circularem notícias de que a Amazon contratara um coordenador de intimidade [isto é, uma pessoa responsável pelo bem-estar dos atores em cenas de sexo], alguns fãs temeram que a produção pudesse ter perdido a mão naquilo que faz de Tolkien, Tolkien. “Minha preocupação é de que possa se tornar Game of Thrones na Segunda Era,” disse Dimitra Fimi, acadêmica em Tolkien e professora na Universidade de Glasgow. “Não seria algo que se associa à visão de Tolkien. E também seria derivativo.”

Showrunners Patrick McKay (esquerda) e J.D. Payne (direita) no set da Nova Zelândia de Os Anéis de Poder. CORTESIA DE AMAZON STUDIOS.

Então vai haver níveis de violência e sexo dignos de Westeros na Terra-média da Amazon? Em resumo, não. McKay diz que o objetivo foi ‘fazer um programa para todo mundo, para crianças de 11, 12 e 13, ainda que, às vezes, elas precisem tapar os olhos se ficar um pouco assustador demais. Conversamos sobre o tom dos livros de Tolkien. Este é um material que algumas vezes é assustador — e, às vezes, muito intenso, às vezes, é bem político, às vezes, bem sofisticado — mas é também comovente, positivo e otimista. É sobre amizade e sobre fraternidade e os desfavorecidos superando a grande escuridão’”.

Outra preocupação é: terá a presença de hobbits na Segunda Era? A resposta mais curta, por assim dizer, é sim e não. “Uma das coisas muito específicas no texto é que os hobbits não fizeram nada notável ou histórico antes da Terceira Era,” disse McKay. “Mas realmente se parece com a Terra-média se não tivermos hobbits ou algo como hobbits ali?” O ancestral dos hobbits nessa era são os chamados Pés-peludos. Eles podem não viver no Condado, mas são suficientemente próximos dos hobbits. McKay e Payne construíram uma sociedade pastoril pé-peluda que prospera em sigilo, esquivando-se de serem detectados, para que possam criar um tipo de história no estilo Rosencrantz e Guildenstern Are Dead às margens das demandas principais. Duas adoráveis ​​e curiosas pés-peludos, interpretadas por Megan Richards e Markella Kavenagh, encontram um misterioso homem perdido cuja origem promete ser um dos enigmas mais atraentes da série.

A pergunta principal por trás da produção, acrescenta, era: “Podemos fazer disso um romance que Tolkien nunca escreveu e transformá-lo no maior evento da televisão que só poderia ter acontecido agora?”

A série da Amazon também ampliará a noção de quem compartilha o mundo da Terra-média. Uma das histórias originais é voltada para o elfo silvestre chamado Arondir, interpretado por Ismael Cruz Córdova, que será a primeira pessoa negra a interpretar um elfo numa adaptação dos textos de Tolkien. Ele se envolve numa relação proibida com Bronwyn, uma curandeira humana interpretada por Nazanin Boniadi, atriz britância de ascendência iraniana. Em outro local, um inglês com decendência jamaicana, Sir Lenny Henry, faz um Pé-peludo mais velho, e Sophia Nomvete rouba a cena como uma princesa-anã chamada Disa — tornando-se não apenas a primeira mulher negra a interpretar uma personagem num derivado de O Senhor dos Anéis, como a primeira anã mulher. “Pareceu-nos natural que uma adaptação das obras de Tolkien refletisse como o mundo realmente é,” disse Lindsey Weber, produtora executiva da série. “Tolkien é para todo mundo. Suas histórias tratam de raças fictícias dando o melhor de si quando deixam o isolamento de sua própria cultura e se juntam.’

Quando a Amazon revelou as fotos do seu elenco multicultural, mesmo sem os nomes das personagens ou detalhe dos enredos, o estúdio enfrentou diversos ataques de perfis anônimos na internet. “Obviamente haveria pressão e reação”, disse a acadêmica em Tolkien, Mariana Rio Maldonado, “mas a questão é: de quem? Quem são essas pessoas que se sentem tão ameaçadas ou enojadas com a ideia de existir um elfo negro, latino ou asiático?”

Mesmo os fãs mais radicais que consideram as obras de Tolkien sagradas devem reconhecer a mensagem de união. Manter-se fiel a isso é tão importante quanto concretizar sua visão de lugares e personagens dessa época pouco conhecida em sua ficção. Nós finalmente veremos toda a glória de Khazad-dûm — as necrópole cavernosa esculpida dentro das Montanhas Nevoentas, onde ouvimos o famoso grito de Gandalf contra o Balrog, “You Shall Not Pass!”, na Sociedade do Anel de Peter Jackson. A série vai explorar este reino quando ele ainda era repleto de luz, banquetes e música. Também trará o elfo artífice Celebrimbor (Charles Edwards) à vida, conforme sua habilidade com metais e magia leva à forjadura dos anéis. Veremos um jovem elfo arquiteto, sagaz e político chamado Elrond (Robert Aramayo) tornando-se proeminente na mística capital de Lindon. Outro arco narrativo acompanhará um marinheiro chamado Isildur (Maxim Baldry) anos antes de ele se tornar um guerreiro e cortar o Anel corruptor de almas da mão de Sauron, sucumbindo ele mesmo ao seu poder.

Charlie Vickers como Halbrand, como um novo personagem que é um fugitivo de seu passado. CORTESIA DA AMAZON STUDIOS.

Falando em Sauron, a presença do vilão é crucial durante a Segunda Era, culminando em sua ressureição como tirano. Assim que a série começa, há apenas indícios dos perigos que virão. Alguns o veem nitidamente; outros não necessariamente querem ver. Bayona mergulhou em suas memórias, crescendo na Espanha, um país que ainda se recuperava de uma guerra civil que aconteceu décadas antes de seu nascimento. “Tivemos uma ditadura por 40 anos, então você percebe as repercussões da guerra e a sombra do passado”, ele diz, notando que “A Sombra do Passado” é de fato o título do primeiro episódio. “Acho que tudo se trata das repercussões da guerra. Há uma ideia que parece muito fiel a Tolkien, que é intuição. Galadriel intui que as coisas não foram corrigidas, e ainda há algo à espreita.”

No romance, isso que foi mencionado acima acontece ao longo de milhares de anos, mas Payne e McKay comprimiram alguns eventos a um único momento no tempo. Esse é o maior desvio do texto, e eles sabem que é uma grande mudança. “Nós conversamos com o Tolkien Estate,” alegou Payne. “Se você seguir a lei à risca, acabará contando uma história em que seus personagens humanos morrem a cada temporada, porque estamos falando de saltos temporais de 200 anos, e você não encontraria personagens canônicos de relevo até a quarta temporada. Veja, deve haver alguns fãs que gostariam que fizéssemos um documentário sobre a Terra-média, mas nós contaremos uma história que une todas essas coisas”.

Os showrunners claramente têm grande respeito por Tolkien, mas é impossível adaptar 50 horas sem assumir certos riscos criativos. “Achamos que o trabalho vai falar por si mesmo,” Payne disse quando questionado se as especulações e preocupações dos fãs o deixam nervoso. “Antes de a orquestra começar, os espectadores conversam uns com os outros, mas assim que a música começa, você está dentro, e ouvindo a música.”


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Lorena é jornalista, formada pela Universidade Metodista de São Paulo. Tolkienista de coração, ama a arte de contar histórias e acredita no poder das narrativas.

Revisão: Eduardo Boheme.


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