Jorge de Oliveira
Na vasta e intricada cosmogonia concebida por J.R.R. Tolkien, onde as tensões entre o bem e o mal se entrelaçam numa dança perene de oposição ontológica, emergem figuras cuja presença ultrapassa os limites do mito e adentra os domínios do arquétipo. Dentre tais entidades, destaca-se Arien, Maia de fogo puro, incumbida da condução do Sol através da abóbada celeste de Arda. Sua trajetória, por vezes relegada a um plano secundário nas leituras apressadas do Legendarium, revela-se, à luz de uma análise mais apurada, como um dos mais vigorosos emblemas da resiliência espiritual, da integridade moral e da imperturbável oposição à corrupção.
Desde sua origem, Arien manifesta-se como um espírito de ardor incandescente e pureza luminosa. Antes mesmo da criação do Sol, servia a Vána, a Sempre-jovem, nos jardins de Valinor, onde cuidava das flores douradas nutridas pelo orvalho de Laurelin, uma das Duas Árvores que outrora banhavam o mundo primitivo em luz sagrada. Esta íntima conexão com a luz primordial de Arda não constitui um mero detalhe cosmológico, mas sim a chave hermenêutica para a compreensão de sua natureza. Ao contrário de outros espíritos ígneos, como os Balrogs, que, outrora espíritos de fogo, caíram sob a influência maligna de Melkor, Arien permaneceu inviolável. Sua chama, longe de ser apenas calor ou claridade, é a expressão visível de uma integridade intransigente.
Melkor, o mais poderoso dos Ainur e fonte de todo mal em Arda, intentou subjugá-la. Não por desejo amoroso, como algumas versões sugerem de modo ambíguo, mas por impulso de corromper e possuir tudo quanto ainda resplandecesse de pureza. Contudo, fracassou de forma exemplar. Arien não apenas resistiu: ela rechaçou. Sua recusa ao domínio do Inimigo foi tão veemente que se desfez de sua forma corpórea, tornando-se uma chama viva, nua, imensa, terrível e eterna; uma manifestação de luz que nenhuma sombra ousa atravessar. Sua presença nos céus não é apenas função astronômica, mas teofania moral. Ao assumir o papel de portadora da luz solar, Arien se converte em signo ontológico de incorruptibilidade, ardendo não em negação da escuridão, mas em afirmação transbordante do que não pode ser manchado.
É precisamente nesse ponto que reside o temor de Melkor: em Arien, ele reconhece um limite que não pode ultrapassar, um fulgor que não se apaga e uma verdade que não se submete. Segundo algumas versões do Legendarium, a tentativa de Melkor de se apossar dela resultou em uma agressão terrível: Arien o feriu com tal intensidade que ele jamais ousou aproximar-se novamente. O gesto não se reduz à defesa, trata-se de um contra-ataque ontológico, uma refutação absoluta à tentativa de dominação. Arien não apenas sobrevive à investida das trevas: ela as repele com uma dignidade flamejante, impassível e incontestável.
Esse episódio, embora revestido das roupagens do mito, reverbera para além da narrativa ficcional. Arien converte-se, assim, em símbolo universal de resistência íntima, de fidelidade à luz interior que se recusa a ceder, mesmo diante da mais insidiosa das ameaças. Em nossas vidas, os “Melkors” não se manifestam como divindades caídas, mas como forças cotidianas de medo, cinismo, desespero, ressentimento e apatia. Contra essas forças, Arien oferece um paradigma ético e espiritual: ela nos ensina que a verdadeira fortaleza não reside na aniquilação do outro, mas na fidelidade incondicional à própria essência luminosa.
A narrativa de Arien pode ser interpretada, pois, como uma alegoria da perseverança silenciosa que ilumina os dias mais sombrios. Conduzindo o Sol através dos céus, ela não apenas cumpre um desígnio cosmológico, mas representa a nobreza de uma missão assumida com abnegação e constância. Sua chama, inextinguível, é o reflexo de uma força interior que transcende os abalos e as tentações. Trata-se de uma luz que não se impõe pela violência, mas que se afirma por sua permanência serena e inegociável.
ela nos ensina que a verdadeira fortaleza não reside na aniquilação do outro, mas na fidelidade incondicional à própria essência luminosa
Por isso, Arien não pode ser reduzida a um papel secundário dentro da mitologia tolkieniana. Sua figura simboliza, com profundidade e elegância, a possibilidade de que cada ser, mesmo em meio à vastidão do mundo e à brutalidade da História, possa tornar-se centelha contra a noite. Num tempo em que as sombras parecem multiplicar-se, e em que a integridade é frequentemente vista como fraqueza ou ingenuidade, a figura de Arien ressurge como um arquétipo necessário: o de que a luz, quando verdadeira, não precisa de alarde para ser vitoriosa.
Em última análise, Arien nos recorda que a luz que escolhemos preservar (e irradiar) é, talvez, o mais nobre e radical gesto de resistência que podemos oferecer ao mundo.




