O Autor e o subcriador

Por Cristina Casagrande

Vou propor um pequeno exercício ao leitor. O trecho a seguir foi escrito por uma personalidade conhecida, na carta de abertura de uma obra fictícia, hoje deveras consagrada. Sem saber quem é — e se souber não vale soprar —, você deverá tentar adivinhar aspectos da obra em questão: do que ela possivelmente trata? Quem a escreveu? Depois disso, eu vou lhe dizer a autoria do texto, e você também poderá, se assim desejar, refletir se a sua percepção muda. Eis o trecho (editado para não ficar muito longo):

“Cada um de nós vai escrever uma história de fantasmas”, disse Lord Byron, e sua proposição foi aceita. Éramos quatro. […] Concentrei-me para criar alguma história […] que falasse aos misteriosos medos de nossa natureza e despertasse um espantoso horror — capaz de fazer o leitor olhar em torno, amedrontado, capaz de gelar o seu sangue e acelerar os batimentos do seu coração. […] Pensei e ponderei, mas em vão. Senti aquela total incapacidade de invenção que é a maior desgraça dos autores, quando um estúpido nada responde às nossas ansiosas invocações. “Já encontrou a história?”, perguntavam-me todas as manhãs, e eu era obrigada a responder com uma mortificante negativa.
Parodiando Sancho Pança, tudo deve ter um início; e esse início deve estar ligado a algo que já existiu antes. Para os hindus o mundo é sustentado por um elefante, mas o elefante se acha apoiado em cima de uma tartaruga. Inventar, deve-se admitir humildemente, não consiste em criar algo do nada, mas sim do caos; em primeiro lugar, deve-se dispor dos materiais; pode-se dar forma à substância negra e informe, mas não se pode fazer aparecer a própria substância. Em tudo o que se refere às descobertas e às invenções, mesmo aquelas que pertencem à imaginação, lembramo-nos continuamente da história do ovo de Colombo. A invenção consiste na capacidade de julgar um objeto e no poder de moldar e arrumar as idéias sugeridas por ele. [grifo nosso]
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Tip of tongue, Picolo Kun

Vou dar um tempo e não identificar autor e obra logo de cara. Assim aproveito para escrever o propósito dessa introdução e colaboro para que você vença a tentação de ler logo a resposta, se já não a souber.

Na universidade, decidimos, em um grupo restrito de amigos pesquisadores, estudar sobre a questão da autoria, especialmente nas histórias de fadas. Começamos justamente pelo polêmico texto “A morte do autor”, de Roland Barthes. O texto é de 1967, mas dá o que falar até hoje. Como pesquisadora de literatura tolkieniana, evidentemente reconheço que a concepção de (não) autoria de Barthes está muito distante da de Tolkien. Mas, curiosamente, é possível fazer algumas pontes a princípio, para, na sequência, apontar suas discrepâncias.

De acordo com o crítico literário francês, o autor é um personagem moderno e, à medida que ele morre, a escritura começa. Eis dois pontos que, embora não de maneira óbvia, se aproximam do pensamento do autor de O Senhor dos Anéis. O primeiro é que Tolkien era um grande crítico da modernidade e propunha, junto com uma corrente de amigos, dentre os quais o mais notável era C.S. Lewis, um resgate do pensamento antigo e medieval, especialmente na relação do homem com o seu imaginário.

O segundo ponto em que se pode encontrar uma convergência entre os dois é justamente na questão de a obra aparecer mais do que o próprio autor. E isso merece uma atenção maior. Ainda que com intenções e objetivos distintos, Tolkien e Barthes entendiam que a obra está acima do autor. É bem verdade que o francês deseja matá-lo, enquanto o inglês deseja transcendê-lo. Explico.

Inconformado com a exacerbação do indivíduo na sociedade moderna, Barthes pretende aniquilar a importância do sujeito que escreve a todo custo, e, com isso, se apoia na palavra:

a linguagem é que fala, não o autor; escrever é, através de uma impessoalidade prévia — que não se deve em momento algum confundir com a objetividade castradora do romancista realista — atingir esse ponto em que só a linguagem age, “per forma”, e não “eu”: toda a poética de Mallarmé consiste em suprimir o autor em proveito da escritura (o que vem a ser, como se verá, devolver ao leitor o seu lugar) (2004, p. 58).

Tolkien, por sua vez, vai se posicionar totalmente contrário à ideia de alegoria. A obra não possui único significado e uma única resposta. Ela pode ser aplicável à leitura circunstancial do leitor ­— desde que embasada, é claro — e, quanto mais possibilidades o texto nos propuser, tanto mais rica será a narrativa. No prefácio da segunda edição de O Senhor dos Anéis ele diz:

eu cordialmente desgosto de alegorias em suas manifestações, e sempre foi assim desde que me tornei adulto e perspicaz o suficiente para detectar sua presença. Gosto mais de histórias, verdadeiras ou inventadas, com sua aplicabilidade variada ao pensamento e à experiência dos leitores. Acho que muitos confundem “aplicabilidade” com “alegoria”; mas a primeira reside na liberdade do leitor, e a segunda na dominação proposital do autor (2009, p. XIII).

Assim como Barthes, Tolkien reconhece que a obra está além de sua mente — por sinal, altamente inventiva. Mas é claro que ele não propõe a morte do autor, nem como sujeito que escreve, nem como uma voz que concebe, conduz e constrói o texto — este último algo próximo do que Foucault propôs como autor-função em sua conferência “O que é um Autor”, em 1969.

O que Tolkien propõe é a humildade do autor, que reconhece tanto a sua grandeza quanto a sua pequenez. Para ele, a mente do Autor é infinitamente abrangente e o Significado da história (e da História) jamais é alegórico, mas sim, profundo, verdadeiro e múltiplo — embora jamais contraditório. No seu ensaio “Sobre Contos de Fadas” [On fairy-stories], bem como em suas cartas, Tolkien nos apresenta a figura do subcriador, aquele que, imitando o Autor da História, apreende as histórias do Mundo Primário e as do Mundo Secundário. O Criador seria o senhor dos homens, dos anjos e também dos elfos.

Diz-se que Michelangelo via em cada bloco de mármore uma estátua e que ele necessitava apenas esculpir o que já estava presente na pedra. Talvez o pensamento de Tolkien se assemelhe ao do escultor quando ele se coloca como subcriador de histórias, um descobridor do que já existe na mente do Autor.

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Pietà, Michelangelo
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A Criação de Adão, Michelangelo

O pensamento de Barthes afasta-se dessa concepção. A ideia de dar um sentido único ao texto, para ele, seria atribuí-lo a um Autor-Deus, que assumiria a palavra final. Contraditoriamente, isso teria crescido em uma sociedade moderna, pois, segundo ele, “a recusa de deter o sentido é finalmente recusar Deus e suas hipóteses, a razão, a ciência, a lei” (2004, p. 61).

No ensaio de Tolkien, ele posiciona as histórias de fadas justamente como resistência ao pensamento moderno tecnicista e cientificista. É bom ressaltar que ele não se opõe à ciência e à tecnologia, mas se coloca como um crítico delas, submetendo-as à natureza, e não considerando a Razão como a única portadora da Verdade. Nesse sentido, a Imaginação também teria voz e conduziria a ela de forma eficaz.

Barthes coloca a criatura acima do Criador, tal qual a história de Frankenstein. E são justamente de Mary Shelley, a autora desse romance de horror, os dizeres que coloquei sem indicação de autoria no início desta reflexão, para que você tentasse tirar as suas próprias conclusões. Shelley, no entanto, entende que “pode-se dar forma à substância negra e informe, mas não se pode fazer aparecer a própria substância” (2012). Em outras palavras, ela reconhece que descobriu, ou “esculpiu” algo que fora colocado antes dela.

Frankenstein’s Laboratory, Stephen Burger

Se Tolkien, diferente de Barthes, dá dois passos para trás ao resgatar mitos da antiguidade e narrativas medievais, ele acaba dando muitos outros adiante, encontrando, no exercício de autoria, algo que transcende o texto e o sujeito que escreve.

Podemos pôr um verde mortal no rosto de um homem e produzir um horror; podemos fazer luzir a rara e terrível lua azul; ou podemos fazer com que os bosques irrompam em folhas de prata e os carneiros vistam lanugens de ouro, e pôr o fogo quente no ventre do réptil frio. Mas numa tal “fantasia”, como a chamamos, uma nova forma se faz: o Reino Encantado começa, o Homem torna-se subcriador (TOLKIEN, 2013, p. 22).

Em outras palavras, a obra em Tolkien é maior que o seu subcriador, pois esta não lhe pertence; ele, com a grandeza da sua humildade, espelha-se em seu Autor.

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Frankenstein, Tom Carlton

Referências

BARTHES, Roland. “A morte do autor”. In. O rumor da língua. Tradução: Mario Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

FOCAULT, Michel. “O que é o autor”. In. Estética Literatura e Pintura, música e cinema. Trad. Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.

SHELLEY, Mary. Frankenstein ou o Moderno Prometeu. São Paulo: Martin Claret, 2012.

TOLKIEN, J.R.R. “Sobre contos de fadas”, In: Árvore e Folha. Trad. Ronald Kyrmse. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.


Foto Cris
Cristina Casagrande é jornalista e pesquisadora em literatura tolkieniana. Ainda espera passar uma tarde no Salão de Fogo e encontrar trechos esquecidos do Livro Vermelho do Marco Ocidental.

6 thoughts on “O Autor e o subcriador

  1. “O que Tolkien propõe é a humildade do autor, que reconhece tanto a sua grandeza quanto a sua pequenez.”

    Acho que devemos ter sempre essa frase em mente quando nos propomos a estudar Tolkien. Parabéns pelo texto!

  2. Que texto delicado e contundente! Cativou logo de cara! Reconheci a autoria da introdução e me fez querer chegar até o final para entender onde você queria chegar. Brilhante conclusão. E o comentário do nosso Dudu, acima é precisa!

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