Cartas do Papai Noel: História, memória e afeto

Por Cristina Casagrande

Uma das obras mais graciosas de Tolkien é o livro Cartas do Papai Noel, um compilado de correspondências que o próprio autor escreveu para os seus filhos entre os anos de 1920 a 1943, na persona do Papai Noel. A primeira cartinha, de 1920, foi escrita ao pequeno John Francis, seu primogênito, que tinha então 3 aninhos. Ela vinha com um envelope personalizado, em um selo com o desenho do Polo Norte escrito “2 beijos” e “postagem do Polo Norte” destinados à Sra. Tolkien e ao Mestre John Francis Reuel Tolkien, com o endereço onde eles de fato moravam.

Os dizeres eram simples e curtos, mas chama a atenção por serem escritos com a própria mão trêmula do Papai Noel — que já tinha seus mil novecentos e muitos anos e passava muito frio naquela época do ano.

A correspondência vinha com um lindo desenho do próprio Tolkien, quer dizer, do Papai Noel — uma das mais belas ilustrações já feitas pelo autor —, uma espécie de autorretrato do bom velhinho e uma imagem de sua casa.

E assim, por mais de vinte anos, chegavam à casa dos Tolkien cartas escritas pelo Papai Noel (e alguns amigos seus), todas elas em envelopes decorados, com letras ornamentadas e algumas ilustrações.

Em 1925, aparece um novo personagem: o Urso Polar do Norte. A princípio, sua letra é apenas um pouco mais grossa, mas, com o passar do tempo, ela vai ficando mais angulosa. A desculpa é que a sua pata é gorda, e ele encontra dificuldades de escrever com as canetas do Papai Noel.

Karhu, como ele se chama de verdade, também tem muitas falhas na gramática e ortografia — que ainda não apareciam nas primeiras cartas. Segundo ele, sua língua original é o “ártico”, que possui até mesmo um sistema de escrita diferenciado — mas vale dizer que não foi lá muito desenvolvido. O curioso é que o ártico do nosso Urso Polar é a mesma língua quenya criada por Tolkien, falada pelos altos elfos.

O ajudante do Papai Noel é o responsável pelos maiores desastres que acontecem no Polo Norte, ou assim diz o Papai Noel, mas ele insiste que não é bem desse jeito. Muitas vezes, ele surpreende por sua valentia, solidariedade e carisma. E além disso, é mais inteligente do que se imagina: criou até mesmo o seu próprio alfabeto quando se aventurou na caverna dos gobelins, inspirado nas gravuras encontradas dos monstrinhos.

Alfabeto do Urso Polar

A ilustração seguinte corresponde a uma cena da aventura que eles tiveram na caverna com os gobelins em 1932. O curioso é que, de acordo com o autor de The History of the Hobbit, John D. Rateliff, a figura escura que aparece na cavidade à direita, perto da ilustração do javali, é uma imagem do Gollum, de O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Naquele ano, Tolkien estava no meio da aventura de Bilbo Bolseiro, ainda como uma simples história contada aos filhos.

Outro ponto que chama a atenção é como os personagens são apresentados na história. Fatos e fenômenos da natureza são personificados. O próprio nome do Papai Noel aponta para isso. Em inglês, ele é Father Christmas, para os portugueses, Pai Natal. O nosso “Noel” vem do francês, que quer dizer justamente Natal, mas em inglês e outras línguas, ou no próprio português europeu, fica mais evidente a personificação. O Natal passa a ser não só uma época, mas uma figura humana, o “Pai Natal”. O próprio Polo Norte não é uma região, mas um mastro, num trocadilho com a palavra inglesa Pole. Com as trapalhadas do Urso Polar, o Papai Noel teve de contratar um cometa para trabalhar com ele, e o Urso teve de pedir para a sua prima, a Ursa Maior,1 brilhar mais forte. A Aurora Boreal é tão íntima que é chamada de Rory Bory Aylis, uma brincadeira com a pronúncia de Aurora Borealis.

Papai Noel no estilo vitoriano

O pai do Papai Noel é o vovô Yule, sendo esse termo referente ao solstício de inverno nos países germânicos, uma comemoração de origem pagã. Ele também tem o seu Irmão Verde, afinal, o Papai Noel era representado em verde (por vezes, em amarelo ou outras cores) na era vitoriana. Há ainda tantos outros que se encaixam nessa questão como o Homem da Lua, os Meninos de Neve e o Homem de Neve.

Publicação e passagem do tempo

Primeira Edição, pela Allen&Unwin

Vale dizer que Tolkien nem sonhava em publicar essas cartas domésticas que escrevia a seus filhos na letra trêmula do Papai Noel. Quem tomou a iniciativa de tornar pública tão belas cartinhas foi a sua antiga secretária Baillie e já esposa de Christopher Tolkien três anos após a sua morte, em 1976. A edição era em brochura e continha apenas 48 páginas. De lá para cá, muitas edições foram lançadas, nem todas as novas superando as antigas, recebendo maior destaque a edição de 1999 e 2015 por trazerem conteúdos inovadores. Até 2019, a edição de 2017 era a mais completa, contendo uma revisão da de 2015, mas, neste ano, foi feita uma edição de luxo, que diz trazer cartas jamais publicadas antes.

Edição de luxo, HarperCollins UK

Aqui no Brasil, uma nova tradução deve sair no ano que vem (2020) pela HarperCollins Brasil.

Esse conjunto epistolar surpreende não só pelas imagens, caligrafia e criatividade na criação dos personagens. Mas ele marca a passagem do tempo da vida privada e doméstica de J.R.R. Tolkien, além de nos remeter a episódios vividos na nossa História, no Mundo Primário.

Com os relatos do bom velhinho, conhecemos nomes de brinquedos como Lotts Bricks, uma espécie de antecessor do Lego. Em 1925 e nos anos seguintes, a crise econômica e a greve geral no Reino Unido são marcadas pela presença do nosso amigo Urso Polar, que, com as sua trapalhadas justifica o esquecimento do Papai Noel ou a falta de alguns brinquedos. Os anos derradeiros, com apenas Priscilla como leitora, merecem destaque por estarem no período da guerra e isso se refletir nas adversidades que o Papai Noel enfrenta no seu mundo imaginário, dentro do nosso próprio mundo. Com isso, o Papai Tolkien não deixa de abordar a dor, a tristeza e a guerra com seus filhos, mas de um modo em que as suas mentes pueris conseguem assimilar de forma serena, sem traumas.

Vemos também o desenvolvimento criativo do autor — especialmente de 1930 em diante, quando ele já está compondo O Hobbit e, na sequência, O Senhor dos Anéis — e sua versatilidade poética com os versos do Papai Noel, Urso Polar e o elfo Ilbereth, o secretário, que tem uma letra própria, bem fininha e meticulosa como é típico da sua personalidade. Todas as aventuras, gravuras e diálogos denotam, ainda que de maneira singela, toda a capacidade criativa do autor ao longo do tempo.

Com ele, nos emocionamos ao ver Papai Noel ensaiar para se despedir do mais velho John algumas vezes — ele teria ainda três crianças para trazer presentes! — e enfrentar melancolicamente a despedida de sua caçula Priscilla, que já está com 14 anos e não vai mais pendurar as meias de Natal. Nos aventuramos em diversas batalhas contra gobelins, rimos das diversas trapalhadas do Urso Polar e nos enternecemos com o carinho e a sabedoria do Papai Noel.

Um livro para todas as idades, amantes ou não da literatura tolkieniana, uma dádiva que nos faz lembrar, especialmente nessa época, o quão mágicas e potentes podem ser a linguagem e a imaginação humanas.


Nota
1. A constelação de Ursa Maior é uma das mais famosas no hemisfério norte, e suas sete estrelas mais brilhantes, chamadas coletivamente por nomes diversos, como Arado ou Grande Carroça, são mencionadas também em O Silmarillion. Lá, as sete estrelas recebem o nome de Valacirca, a Foice dos Valar, que Varda pôs a brilhar no céu como desafio a Morgoth.


Obras citadas

Rateliff, John D. The History of The Hobbit. London: HarperCollins, 2011.

Tolkien, J.R.R. Father Christmas Letters. London: HarperCollins, 2017.


Cristina Casagrande é autora do livro A amizade em O Senhor dos Anéis

6 thoughts on “Cartas do Papai Noel: História, memória e afeto

  1. Oi Cristina. Texto incrível como sempre! Fiquei com duas perguntas. Saberia dizer qual edição serviu de base para a que temos aqui da Martins Fontes? E a sua tradução da Harper Collins? Será que pode nos revelar qual edição será a base do material?

    1. A da MF é de 2012, então usou a de 2009 (que é uma revisão da de 2004, que é uma revisão da de 1999). A HCB usou a de 2017, que é uma revisão da de 2015, pois a de 2019 não havia saído ainda. Não sei se ela fará uma adequação à de 2019. Precisa ver se a de 2019 é superior mesmo.

  2. Parabéns peloo texto Cristina! Uma das cartas que mais me chamam a atenção é a de 1942 em que papai noel fala para Pricilla sobre o número de Crianças parecem estar diminuindo por causa da Guerra.
    Outra coisa é a explicação que se dá que se as crianças recebem presentes que não haviam pedido, é pq o urso polar trocou os pacotes…fez confusão.
    A ligação que Tolkien faz com o homem da Lua de aroverandom, também me deixa muito feliz em ve-lo conectando as obras.

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