“Mulheres vs Monstros”: antologia de ficção acende debate sobre papel das mulheres na sociedade”

Por Lorena S. Ávila

File:John Henry Fuseli - The Nightmare.JPG
The Nightmare, Henry Fuselli

De onde vêm os monstros? Uma pergunta que não tem resposta óbvia; pela etimologia da palavra, do latim monstrum, descobriremos que seu significado mais comum era ‘presságio’, ‘advertir’, ‘mostrar’. Você pode até pensar que isso não tem muito a ver com o significado atual, em que a palavra é usada para definir criaturas horríveis, de natureza maldosa, mas é possível que haja uma conexão entre palavra e sentido.

Uma vez que o monstro é um ser que se apresenta em forma pura, exibindo seu corpo obsceno e disforme, ele se torna a personificação de tudo aquilo de que devemos manter distância, que a mente transfigura em formas assustadoras, olhares cruéis, rostos distorcidos que advertem “não me enfrente ou esse será o seu fim”. O monstro é uma expressão da sordidez invisível que nos cerca, um signo.

São criaturas extremamente vivas em nossa realidade e estão cada vez mais presentes nas histórias de horror como um ser próximo do humano.    
Para citar algumas referências; o filme It e a série Stranger Things colocam suas “coisas” em diálogo direto com as pessoas, quando não são elas mesmas o mau elemento que perturba a paz. O monstro é corrompido e corrompe facilmente, gera desconforto e ao mesmo tempo fascínio por mostrar toda a sua brutalidade indiscretamente, aquilo que moralmente o homem comum não pode fazer.

Numa proposta de misturar ficção científica e terror, sem perder o senso crítico com a realidade, nasceu a antologia Mulheres vs Monstros, organizada por Claudia Lemes, que traz à tona justamente o debate sobre como a sociedade pode se revelar o habitat dos seres horripilantes. Nesse contexto, eles nascem e se multiplicam em nossas vidas todos os dias. E quem os enfrenta com mais frequência do que as mulheres?

Para muito além da narrativa, o argumento da antologia reflete sobre o papel da mulher numa sociedade tão terrível quanto qualquer ser sobrenatural. E uma das iniciativas que conecta as ideias dos onze contos com a visão dos autores é a apresentação de artigos, nos quais cada escritor explica suas inspirações pessoais, enquanto tece análises importantes sobre representatividade, igualdade, heroísmo, psicologia e liberdade dentro de um espectro feminista, o ponto central da obra.

Apesar dos incontáveis spoilers de filmes e séries de TV, que podem estragar uma futura experiência do leitor desprevenido, os pensamentos revelados nesses artigos são bem interessantes e, por vezes, mais atraentes do que as histórias. Na verdade, é genial essa ideia de unir dissertação e narrativa. O erro está apenas na organização que separa artigos de contos, quando os contos poderiam vir em sequência do seu respectivo artigo possibilitando ao leitor mergulhar na história com as ideias frescas.

Desses artigos, as quatro leituras que se destacam por abordar discussões essenciais com referências inteligentes são: “Freddy, Nancy e a vítima desacreditada”, de Rodrigo Ortiz Vinholo; “Quem conta sua história, Medusa?”, de Denise Flaibam; “Monstros, monstros e monstros”, de Flávio Karras, e “Filhas indesejadas e pais cruéis”, de Clara Madrigano. Os três primeiros se preocupam em desconstruir roteiros, personagens e mitos do imaginário popular; já o último disseca o comportamento e as crenças do patriarcado.

Cada qual esboçando, quase de maneira complementar, como esse padrão estabelecido atualmente manifesta uma perversa intenção de diminuir as mulheres, reduzi-las a nada, de modo a desacreditá-las como heroínas, amaldiçoá-las por se defenderem, excluí-las como líderes e figuras políticas até, por fim, enlouquecê-las.

Mas, como qualquer antologia, é impossível gostar de todos os contos e, apesar de criativos, nem todas as leituras cativam ou são bem conduzidas. Claro, que essa variável depende só do leitor. Do meu ponto de vista, a atração pelas histórias fantásticas se deu mais facilmente e, por isso, destaco os contos:

“O Perseguidor”, de Rodrigo Ortiz Vinholo.
Uma mulher tenta provar que um monstro metamorfo possui o corpo das pessoas mas, desacreditada, ela é obrigada a enfrentá-lo sozinha;

“A Noite mais Longa do Ano”, de Larissa Brasil.
A pequena cidade de Miramar é assombrada por uma lenda terrível de um monstro que mata e arranca a língua das mulheres;

“Protocolo Atena”, de Denise Flaibam.
Um grupo de cientistas num planeta distante da Terra descobre que monstros mitológicos habitam a superfície;

“Wildwood”, de Clara Madrigano.
A filha de um fazendeiro possessivo luta contra a violência imposta pelo pai.

Independente da história, a mensagem do livro como um todo é nobre e fundamental: no mundo real, não podemos travestir com vestes medonhas e máscaras grotescas os homens bem-afortunados, de sorriso bobo e olhar sedutor que espancam, estupram, abusam e matam mulheres. Longe dos personagens fictícios e criaturas demoníacas que habitam os pesadelos, os homens cruéis podem o vizinho, amigo, pai, avô, tio, pode ser o cara dos sonhos, alguém por quem se nutre sentimentos. Eles são o que são e, acima de tudo, pessoas com a mesma capacidade de pensar, racionar e tomar decisões que todos, até que se prove o contrário.

Diferente de criaturas místicas com característica tão bem definidas, os monstros podem ter qualquer formato, tudo depende da visão daqueles que os temem; para as mulheres eles podem assumir a forma de um agressor, de uma depressão pós-parto, de uma pressão social ligada ao gênero, de um médico indelicado, de um olhar constrangedor ou de uma piada suja. E eles estão por toda parte.

Quando as mulheres decidiram lutar contra o machismo, sem se deixarem calar, não faltaram homens que as rotularam como “vitimistas”. Bem, eles estavam errados e Mulheres vs Monstros é uma resposta à altura. As vítimas sucumbem à monstruosidade, enquanto as mulheres se tornaram protagonistas e heroínas de suas próprias vidas, as únicas capazes de encarar o inimigo e derrotá-lo com força e coragem.

Mulheres vs Monstros 
★★★☆☆
Organizadora: Claudia Lemes
Páginas: 252
Editora: Publicação independente


Lorena S. Ávila é jornalista, formada pela Universidade Metodista de São Paulo. Tolkienista de coração, ama a arte de contar histórias e acredita no poder das narrativas.


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