Um peregrino encontra seu caminho: ‘O Regresso do Peregrino’, de C.S. Lewis.

Igor Gaspar

“Embora a história de Lewis revele sinais de que esta era sua primeira obra de ficção em prosa, o texto é bastante encantador e muitos gostam de relê-lo”.
Colin Duriez

Numa resenha para a Time and Tide em 1954, C.S. Lewis escreveu que O Senhor dos Anéis, do professor Tolkien, era “a conquista de um novo território”. De forma semelhante, O Regresso do Peregrino, de C.S. Lewis, é também a conquista de um território: de um lugar antigo, porém tomado de uma nova forma.

Para o leitor de Cristianismo Puro e Simples ou mesmo de As Crônicas de Nárnia, talvez, num primeiro momento, o estilo literário de Lewis neste livro lhe pareça distinto. Isso pode se dever ao fato de Lewis haver escolhido escrevê-lo seguindo o estilo de John Bunyan em sua maravilhosa alegoria The Pilgrim’s Progress [O Progresso do Peregrino].

Primeira edição de The Pilgrim’s Progress, de John Bunyan, inspiração para C.S. Lewis escrever seu livro.

Fazendo jus ao título, o livro de John Bunyan conta a história do progresso do personagem cristão, que parte da Cidade da Destruição até alcançar a Cidade Celestial. De forma semelhante, Lewis conta a história de um garoto que parte de sua terra, porém, regressa a ela. E como, para os cristãos, o caminho para o Céu é um caminho de volta para Casa — seja avançando ou regredindo — os dois livros estão num paralelo semelhante. Na orelha da edição de O Regresso do Peregrino, o jornal americano Chicago Tribune observou que as inferências inteligentes do livro “seu suspense, sua caracterização e seu humor grotesco, está numa comparação favorável com seu grande modelo — O Peregrino, de John Bunyan”.

A jornada que Lewis traça no Regresso do Peregrino é uma jornada de volta, mas, também, de partida. Saindo de sua cidade natal, Puritânia, caminhando por estradas dificultosas, caminhos tortuosos e becos sem saída, e, em meio a enganos, ilusões e luxúria, o pequeno John busca encontrar uma ilha que lhe despertou um desejo cativante, nostálgico, forte, intenso, doce e doloroso. A jornada de John é movida por esse bendito desejo que capturou todo o seu ser desde a infância. Ele parte para terras distantes e, após toda desventura, descobre que o que despertava o desejo estava perto. Assim, ele regressa e descobre que há algo maior que a ilha para ser buscado: a Fonte de onde toda beleza veio.

Em seu livro Atormentados, o biógrafo Colin Duriez, antes de aprofundar sua análise sobre O Regresso do Peregrino, traça um breve panorama da obra, observando que: “Em sua história […] C. S. Lewis imaginou ataques do inferno à alma humana num mapa brilhante do mundo do pensamento dos anos 1920 e do início dos anos 1930, [mas] apesar de descrever o período após a Primeira Guerra Mundial, muito do que é retratado no texto aborda ideias da nossa própria época”.

Para aqueles de nós cuja asa da imaginação é mais longa, é possível ver em cenas o que Lewis escreveu em palavras. O Regresso do Peregrino é precioso tanto do ponto de vista fictício, enquanto história em si e por ser o primeiro livro que Lewis escreveu após a sua conversão do ateísmo ao cristianismo, quanto não fictício, pelo prefácio à terceira edição que Lewis escreveu em 1943, em que ele discorre de forma teórica sobre o doce desejo que no livro aparece em forma de fantasia.

Sendo o desejo, ou a alegria, um dos temas centrais do livro — que também é composto de filosofia, teologia e poesia — fui abençoadamente atingido, enquanto lia, pela bendita flecha disparada do terceiro céu que fez despertar em mim o doce e dolorido desejo. Um pouco distraído, pensei que o desejo poderia ser satisfeito pela chegada de livros que eu esperava, ou pela plenitude do amor romântico, mas descobri, junto com Lewis e John, que se “eu encontro em mim mesmo desejos os quais nada neste mundo pode satisfazer. A única explicação lógica é que eu fui feito para outro mundo”.

O biógrafo Alister McGrath observou que, em língua inglesa, O Regresso do Peregrino “é uma das menos lidas obras de Lewis”. Que não seja em língua portuguesa! Pois como o The New York Times escreveu: “Para muitos, [O Regresso do Peregrino] parecerá um vento fresco soprando em regiões áridas”.

Resenha editada do texto originalmente publicado na revista Ultimato.


O Regresso do Peregrino
★★★★★
Autor: C.S. Lewis
Tradução:
Editora: Ultimato
Páginas: 248


Obras citadas

McGrath, Alister. A Vida de C. S. Lewis. São Paulo: Mundo Cristão, 2013.
Lewis, C.S. Sobre Histórias.Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2018.
______. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2017.
Duriez, Colin. Atormentados: C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien e a Sombra do Mal. Rio de Janeiro: Lírio Publicações, 2020.


Igor Gaspar é autor de O Sofrimento Glorioso, e estudante de psicologia pela faculdade Maurício de Nassau em Caruaru/PE.


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