‘Doworst’, de J.R.R. Tolkien: um poema desaparecido

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Ronald Kyrmse

Doworst é um poema aliterante de J.R.R. Tolkien, com cerca de 2,2 mil palavras, escrito como paródia de Piers Plowman [Pedro Arador], uma narrativa do final do século XIV. No poema medieval o autor, William Langland, descreve a busca pelos personagens alegóricos Dowel (“Faz-bem”), Dobet (“Faz-melhor”) e Dobest (“Faz-o-melhor”).

A obra de Tolkien ironiza os erros cometidos por ansiosos estudantes submetidos a um exame oral de língua inglesa, em 1932, diante de quatro acadêmicos que incluem o próprio Tolkien, C.S. Lewis e ainda os professores C.L. Wrenn (Anglo-Saxão) e H.F.B. Brett-Smith (Literatura Inglesa). O poema chama esses mestres de Plato, Britoner, Regulus e Grim (não necessariamente nessa ordem). Provavelmente cada um dos examinandos poderia merecer, por analogia com Piers Plowman, a alcunha de Doworst (“Faz-o-pior”).

Tolkien enviou o manuscrito de seu poema como presente de Natal ao Professor R.W. Chambers, do University College londrino, com uma carta de 21 de dezembro de 1933. A obra foi caligrafada com iluminuras em amarelo e azul, encadernada em pergaminho (19 × 24cm) por Douglas Cockerell & Son e acondicionada em um belo estojo. Chambers legou o poema à sua secretária Winifred Husbands, que em 1957 o deu ao Prof. Arthur Brown, do Departamento de Inglês da Monash University de Melbourne, Austrália. O paradeiro atual do manuscrito é desconhecido.

Doworst permanece inédito. Dois trechos foram publicados no número de julho de 1975 do Monash Review, periódico da universidade australiana. A primeira página foi reproduzida em A Elbereth Gilthoniel!, nº 1, de 1978, fanzine do grupo The Fellowship of Middle Earth [sic] arquivado na Marquette University de Milwaukee, Wisconsin, EUA, instituição que guarda grande parte dos manuscritos de J.R.R. Tolkien.

Dos extratos abaixo, o primeiro reproduz texto e pontuação do manuscrito, expandindo as abreviaturas (ao estilo medieval) que Tolkien empregou. Mostra-nos os examinandos à espera de serem chamados para a prova. O segundo trecho foi extraído tal e qual do Monash Review, com as devidas ressalvas por se tratar já de um texto secundário, e descreve as vigorosas reações dos examinadores diante do desatino de um dos alunos (Atkins). A tradução de ambos é de acordo com o sentido, sem pretensão de reproduzir as aliterações do original.

Visio Petri Aratoris de Doworst.
DOWORST

In a summer season when sultry was the sun
with lourdains and lubbers I lounged in a hall,
and wood in his wits was each wight as meseemed:
on his [head] was a hat as hard as a board,
on his neck was there knotted a noose all of white
with bow big and broad as a butterfly’s wings.
Most of that meiny had on mantles of stuff,
shrouds short as shrift and shapeless as sacks
that never covered their tails nor their touts either.
The clamour of that company was like the cackle of hens,
till a bell rang brazenly — that abated their noise.
They were summoned it seemed to an assize to be held
by four clerks very fell whom few could appease
that should judge them ungently with jesting unkind.
Then I went in their wake walking slowly,
as they passed down a passage paved all with marble
to a double doorway in a dim corner.
An usher it opened, and we entered in fear,
filing in like footmen or folk of the street.
[…]
Sir Plato turned pale as with pang at the heart,
cast his hood o’er his head and hid up his face.
Sir Britoner bawled forth, ‘The bastard is mad!’
Sir Regulus retched and wrinkled his nose,
Sir Grim rent his gown and gulped in his throat,
then spinfoot he sprang and sprinted to the bell.
An usher then entered and asked what he wished,
and the clerks with a clamour all cried out together:
‘Hale forth this harlot and hew him with staves!
Kick him from these cloisters to Carfax and further,
then plough him in pieces with ploughshares keen,
as red-hot as wrath — no ruth he deserves!’
[…]

Visão de Pedro Arador de Doworst [em latim]
DOWORST

Em tempo de verão, quando abafava o sol,
com vagabundos e trapalhões descansava em um saguão,
e cada sujeito parecia-me ter a mente insensata:
na cabeça tinha um chapéu duro como tábua,
amarrado no pescoço um nó todo branco
com laço grande e largo como asas de borboleta.
A maior parte da junta trajava mantos de tecido,
capas curtas de penitentes e disformes como sacos
que não lhes cobriam as caudas nem os traseiros.
O clamor dessa tropa era como cacarejo de galinhas,
até um sino tocar, impudente — isso reduziu seu barulho.
Foram convocados, parece, a uma sessão liderada
por quatro letrados mui cruéis que poucos podiam aplacar
e que deviam julgá-los, inclementes, com dura galhofa.
Então segui após eles, caminhando lento,
ao trilharem um corredor todo calçado de mármore
até um duplo portal em canto sombrio.
Um porteiro abriu-o, e entramos com temor,
fazendo fila como lacaios ou gente da rua.
[…]
Sir Plato empalideceu como de pontada no coração,
puxou o capuz sobre a cabeça e escondeu o rosto.
Sir Britoner berrou: “O desgraçado está louco!”
Sir Regulus engasgou e enrugou o nariz,
Sir Grim rasgou a toga e engoliu em seco,
depois, rodopiando, saltou correndo rumo ao sino.
Entrou então um porteiro e perguntou o que desejava,
e os letrados, com clamor, exclamaram todos juntos:
“Levai daqui este vilão e o surrai com bastões!
Chutai-o destes claustros até Carfax e além,
depois fazei-o em pedaços com relhas afiadas,
candentes como a ira — piedade ele não merece!”
[…]

O primeiro fólio do manuscrito



A carta de Tolkien a R.W. Chambers

My Dear Chambers,

Thank you for your note. I am sorry you are — or were — unwell. My very best wishes for a happy feast and for all blessings in 1934.

Yrs very sincerely,

J.R.R. Tolkien

I send you — it may possibly amuse you — a report on last year’s Examinations in Oxford: held by myself, Wrenn, Brett-Smith & C.S. Lewis (whose Pilgrim’s Regress you may have read). The howlers are genuine except the nonsense about Percy S.

Yrs J.R.R.T.

Meu Caro Chambers,

Obrigado por sua nota. Lamento que esteja — ou esteve — doente. Meus melhores votos para uma feliz festa e para todas as bênçãos em 1934.

Seu, muito sinceramente,

J.R.R. Tolkien

Mando-lhe — é possível que o divirta — um relato sobre os Exames do ano passado em Oxford: realizados por mim, Wrenn, Brett-Smith e C.S. Lewis (cujo Pilgrim’s Regress você pode ter lido). As asneiras são genuínas, exceto pela bobagem sobre Percy S.

Seu J.R.R.T.


Bibliografia
“Fantasy that! —  a Tolkien original”. Monash Review, Melbourne, p. 2, jul. 1975.
A Elbereth Gilthoniel!, n. 1, p. 3, 1978. Disponível em: https://cdm16280.contentdm.oclc.org/digital/collection/p16280coll10/id/552/rec/2. Acesso em: 23 set. 2020.
Letter to R.W. Chambers. Tolkien Gateway. Disponível em: http://tolkiengateway.net/wiki/Letter_to_R.W._Chambers. Acesso em: 23 set. 2020.


Ronald Kyrmse é pesquisador independente, autor de Explicando Tolkien, tradutor de O Senhor dos Anéis e de outras obras de J.R.R. Tolkien para a HarperCollins Brasil.
Contato: kyrmse@gmail.com


3 thoughts on “‘Doworst’, de J.R.R. Tolkien: um poema desaparecido

  1. Excelente texto! E sobre algo que eu pelo menos desconhecia totalmente! Nunca havia ouvido falar deste poema do professor. Uma pergunta mestre Ronald, o texto existe – ainda que não publicado – preservado integralmente ou somente os trechos publicados escaparam o extravio do manuscrito? Obrigado!

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