A pandemia, o dragão e o apocalipse

Diego Klautau

A partir da mitologia comparada, por exemplo o livro Tratado da História das Religiões, de Mircea Eliade (2010, p. 155-156; 168-171; p. 358-361), podemos pensar na figura do dragão. A palavra vem do grego drakon, ser aquático e que remete ao ato de ver, monstro normalmente de caráter maligno. Contudo, historicamente, podemos considerar, grosso modo, e correndo todos os riscos da generalização e simplificação, que apesar das diferenças particulares da imagem nas diferentes culturas, o dragão (nesse sentido amplo de ser marinho, caótico e superior ao homem, como um grande réptil, serpente, crocodilo ou lagarto) simboliza as forças da natureza na sua forma mais exuberante, dinâmica, vigorosa e indiferente ao homem.

Essa perspectiva é bem aceita na mitologia comparada. Da mesma forma, dentro da lógica do símbolo, costuma-se associar os significados do dragão a diferentes posturas das civilizações históricas que condicionam as formas como tais povos se relacionam com os ritmos e perigos do meio ambiente. Uma vez que a cultura assume uma perspectiva diante dessa expressão da natureza indomável, podemos analisar as diferentes reações de atitudes coletivas e princípios socioculturais e ambientais diante do dragão. Quero ressaltar, nesta reflexão, três abordagens sobre a figura do dragão, sendo uma predominante do oriente, outra hegemônica no ocidente e, por fim, uma especificamente cristã.

Inicialmente, chamo atenção para a cosmovisão entre as posturas ocidentais, vindas dos hipotéticos indo-europeus, que integrariam mesopotâmicos, indianos, iranianos e europeus. Nessa primeira perspectiva, lembramos de Tiamat, a deusa-serpente do poema babilônio Enuma Elish, datado do segundo milênio a.C., morta pelo deus Marduk, que utiliza a carcaça de Tiamat para configurar o mundo. Nesse mito fundante, encontramos o dragão tanto como o desafio a ser vencido em nome da sobrevivência quanto como a origem da matéria-prima para a construção do mundo civilizado. Assim, a natureza é tanto o nosso maior oponente quanto nossa fonte da vida.

Conversa com Smaug, de J.R.R. Tolkien

Entre os gregos, essa dupla significação, isto é, do inimigo a ser abatido e ao mesmo tempo o caminho para o tesouro, é abundante. Na Teogonia, de Hesíodo, do século VIII a.C., podemos encontrar na linhagem dos titãs do mar tanto Tífon, monstro-serpente que foi o último desafio para Zeus assumir como rei dos deuses; a hidra de Lerna, morta por Hércules para cumprir seus doze trabalhos e conseguir as flechas envenenadas por meio do sangue da Hidra; e o dragão guardião dos pomos (maçãs) de ouro no jardim das Hespérides, igualmente morto por Hércules. Por fim, vale lembrar de Píton, na Biblioteca de Pseudo-Apolodoro, no século I-II d.C, o dragão que cuidava de Delfos, que o deus Apolo teve que matar para fundar seu Templo.


Em todos esses casos, o símbolo do dragão é sempre o obstáculo a ser vencido para se conseguir o tesouro. Pôr à prova o heroísmo é matar o monstro reptiliano em nome da civilização, seja para conseguir os recursos materiais para a formação do mundo, seja para honrar o próprio nome na glória, ou ainda para conseguir a preciosidade almejada, ou mesmo, como no caso de Apolo contra Píton, fundar o templo cujas pérolas são a sabedoria, que se expressa na frase escrita no templo de Delfos: conhece-te a ti mesmo. Para matar o dragão e acessar o tesouro, é necessário o autoconhecimento. Esse é o mote socrático, no século IV a.C., que funda a filosofia ocidental e que se desdobra na aposta da razão e da técnica como mestres da natureza.

Chinese Dragon, Russel Dogjun Lu

Uma segunda forma de lidar com o dragão é à maneira dos orientais, como as tradições da China, das Coreias e do Japão. Essas civilizações se relacionam com a natureza por meio de uma postura mais de harmonização, daí o dragão para eles ser menos hostil, um símbolo da superioridade de forças que devem ser reverenciadas e respeitadas. A indiferença do dragão diante do homem e a necessidade de humildade pela noção da pequenez humana é comum com os ocidentais, mas a atitude de conquista difere da atitude de harmonia dos orientais. Nesse sentido, em vez dos traços de desafio e conquista, temos harmonia e reverência. O dragão-natureza é a autoridade ordenadora da humanidade.

Assim, para Tchuang Tsu, um dos expoentes do taoísmo chinês do século IV a.C., que escreveu um livro com seu nome, o dragão é símbolo da vida rítmica em unidade com as águas na harmoniosa ondulação que alimenta o mundo e a civilização. Essa relação de fecundidade e destruição, do homem como indefeso diante do ciclo da natureza, é unificada na dança do dragão, assim como a integração do imperador chinês como o dragão terrestre, porque somente o imperador-dragão pode impor sua vontade e trazer a ordem diante do caos. Por isso, o imperador amarelo Huang-ti, do terceiro milênio a.C. foi levado aos céus por um dragão barbado, juntamente com suas mulheres e conselheiros.

Essa diferença genérica entre ocidente e oriente ocasionou uma discussão enorme de como a perspectiva mitológica-religiosa influencia a cultura de cada uma dessas civilizações, gerando uma maneira própria de como cada uma delas trata da natureza, política, ciência e tecnologia. Um exemplo é a revolução científica, que aconteceu no ocidente mesmo com o oriente descobrindo certas coisas primeiro (como a pólvora e os instrumentos de navegação).

Não quero requentar a controvérsia dos anos 90 entre Samuel Huntigton, com seu livro O Choque das Civilizações, e Francis Fukuyama, na obra O Fim da História e o último homem. Em tal polêmica, Fukuyama afirmava que, após a guerra fria e o colapso do comunismo soviético, o mundo rumaria finalmente para uma estabilização civilizatória fundada na democracia iluminista liberal, enquanto Huntington afirmava que o grande conflito do século XXI seria de bases culturais e religiosas, em vez da disputa de modelos econômicos e políticos comunistas ou capitalistas.

Contudo, quero ressaltar como essa perspectiva simbólica do dragão pode nos ajudar a entender nossa situação diante da pandemia que grassou pelo mundo em 2020. Seja por meio do desafio de matar o monstro e conquistar o tesouro ou a reverência da autoridade e a harmonização com ritmo cósmico, a natureza sempre nos oferece desafios, ainda mais perceptíveis em suas diferenças e problemas comuns entre todas as civilizações globais. Na China, Japão e Coreia, a principal via de combate do “dragão-corona” foi o controle social e a atitude das pessoas de resignação e colaboração com o Estado. Não à toa, o Partido Comunista na China, após décadas de sincretismo com o capitalismo, agora começa a resgatar o confucionismo, doutrina iniciada pelo sábio Confúcio, do século VI a.C. e reformador do taoísmo, que considera o imperador como a representação do dragão em seu controle dos ritmos cósmicos e sociais.

No ocidente, na tradição anglo-saxônica representada pelos EUA e a Inglaterra, existe o poema Beowulf possivelmente do século VIII d.C., que mistura elementos greco-romanos, bíblicos e nórdicos, expressando o herói impetuoso e forte diante dos ogros e que mata o dragão que cuida do tesouro, para livrar seu povo do perigo. Nessa esteira, a primeira coisa que o presidente Donald Trump fez para acalmar os ânimos foi exibir um potencial remédio para eliminar a doença. Mesmo depois de falhas nesse sentido, o ocidente, especialmente a Inglaterra por meio da universidade de Oxford, se encarregou de promover a pesquisa para vacina como troféu civilizatório contra a China, numa reedição da corrida nuclear da segunda metade do século XX, agora com a corrida virológica, para mostrar quem consegue dominar essa biotecnologia com mais eficiência.

Forbidden Fruit, Fall of Man Print Jan Brueghel the Elder

Por fim, no oriente, entendeu-se que deveria respeitar-se o “dragão-corona” ficando em casa e evitando o contato, buscando essa harmonia. No ocidente, a primeira reação foi anunciar a arma para matar o bicho, com o combo do remédio ou da vacina. Independentemente de considerações políticas, pois o isolamento e a colaboração social têm se mostrado eficaz de fato, embora seja medida paliativa, pois o coronavírus só será derrotado com remédio e vacina, a questão do dragão dentro da terceira perspectiva, a cristã, nos traz novos elementos para reflexão.

Como deve estar na memória de todos, o relato bíblico do Gênesis nos apresenta a serpente que engana Adão e Eva como uma embusteira e mentirosa. Não oferece perigo físico e nem mesmo uma reverência. Ela é frágil e se arrasta no chão, sussurrando coisas suspeitas. Da mesma forma, no livro de Daniel, o profeta aparece matando um monstro adorado pelos babilônios e descrito como dragão (Dn 14, 23-30), revelando que ninguém é como Deus, imortal e todo-poderosos, pois até mesmos animais terríveis como os dragões podem ser mortos. Por fim, o profeta Ezequiel compara o faraó no Egito com o dragão (Ez 29, 03) e, sua aparente invencibilidade destinada ao fracasso.

Nesses casos, a perspectiva é sempre a derrota do dragão como forma de superar um ídolo e não conquistar um tesouro ou harmonizar-se com a natureza. As forças naturais não devem ser adoradas ou submetidas como escravas, mas servem para encontrar Deus. Da mesma forma que enfrentar o dragão para conquistar seu tesouro é idolatria, submeter-se a uma força draconiana, do mundo físico ou social, é igualmente adorar falsamente. O dragão vermelho do apocalipse cristão (Ap 12) revela um outro traço, pois quando aparece diante da Mulher e seu Filho, Deus orienta ambos para longe e deixa o combate do dragão para os anjos.

Ao homem não cabe harmonizar-se com o dragão, pois sua condição natural de mortalidade deve transcender para a imortalidade, assim como não tem capacidade de enfrentá-lo, pois isso cabe a Deus e seus anjos, correndo o risco de se transformar em servo do próprio dragão e destruir o meio ambiente e a Criação Divina. Resta trabalhar como se tudo dependesse de nós, ciência e sociedade, tendo consciência de que tudo depende de Deus. Nada mais simboliza essa atitude do que a imagem do Papa Francisco na noite da Sexta-Feira Santa, em abril deste ano, numa praça de São Pedro esvaziada, acompanhado de poucos profissionais da saúde — a linha de frente no combate à pandemia, lançando sua benção na noite em que lembramos da morte de Cristo na cruz.

Obras citadas
ELIADE, Mircea. Tratado da História das Religiões. Tradução: Fernando Tomaz, Natália Nunes. 4 ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.
HESÍODO. Teogonia. Tradução: Jaa Torrano. 4 ed. São Paulo: Editora iluminuras, 2001.
CABRAL, Luiz Alberto Machado. A biblioteca do Pseudo-Apolodoro e o estatuto da mitografia. Tese de Doutorado em Estudos da Linguagem. Unicamp. 2013.
HUNTINGTON, Samuel P. O Choque das civilização e a Recomposição da Ordem Mundial. Tradução: M.H.C. Côrtes. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.
TOLKIEN, J.R.R. Beowulf: uma tradução comentada. Tradução: Ronald Kyrmse. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2015.
Bíblia de Jerusalém.


Diego Klautau é doutor em ciências da religião e conheceu Tolkien jogando RPG com os amigos.


One thought on “A pandemia, o dragão e o apocalipse

  1. Gostei do texto, apesar que gostaria que tivesse falado mais sobre dragões e sua relação com a pandemia. Do oriente mais voltado para o Japão que eu leio mais as lendas, eles são geralmente representados como etidades ligado as águas, raios, tempestades, por exemplo tem o “Ryūjin Shinko” (deus dragão da fé) é uma forma representada na crença religiosa do xintoísmo que adora os dragões como Kami(Deus) da água. Devido a sua característica como um kami da água, o dragão Ryujin também está relacionado com a agricultura, tem também o Zennyo Ryuo: Deus dragão da chuva, mencionado em textos budistas no Palácio Imperial de Kyoto.
    Em algumas lendas eles são responsáveis por trazer destruição em frente a devantação que o homem faz da natureza em outros trazem chuvas e boas novas, traz vida e proporcionam plantio, então é interessante você citar a pandemia da Covid-19 e o Isolamento.

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