“A Spring Harvest”: a antologia poética recomendada por Tolkien

Lorena S. Ávila

Pensemos por um instante na primavera, no espírito feliz e melancólico que personifica o paradoxo da natureza no desabrochar, prover e morrer das flores e dos frutos. A perfeita união de calor e frio. Equilíbrio. Estação de renovação e esperança que, não à toa, dá nome à antologia poética de Geoffrey Bache Smith, A Spring Harvest [Uma Colheita da Primavera].

Da Esquerda pra Direita: Geoffrey Smith,J.R.R. Tolkien, Christopher Wiseman e Robert Gilson

 G.B. Smith foi um grande amigo de J.R.R. Tolkien e integrante do T.C.B.S. (Tea Club Barrovian Society), o primeiro, e fundamental, grupo de entusiastas da literatura, fundado pelo Professor e composto por Rob Gilson e Christopher Wiseman. Eles se conheceram no King Edward’s College, em meados de 1910, quando ainda eram jovens, saindo da adolescência para a fase adulta. Desde então, estreitaram laços, compartilhando não apenas do amor por histórias e línguas antigas, como também, mais tarde, da alegria de estudar em Oxford.

A ligação entre os dois era muito especial e perdurou até depois que Smith faleceu durante a Primeira Guerra Mundial, o que fica evidente nos esforços do Professor em publicar os poemas do amigo. Pela perspectiva do ator Anthony Boyle, que interpretou Smith na biografia de Tolkien para o cinema, a relação deles era profunda. (Confira as resenhas sobre o filme por Cristina Casagrande e Eduardo Boheme)

Em uma entrevista para a Inverse, Boyle declarou:

Geoffrey Smith
The Tolkien Family Album, p. 41

“Olhe o último ato de Smith na Terra: ele foi atingido por estilhaços e o que escolheu fazer foi escrever uma carta para Tolkien. Eu acho que essa é uma linda prova de amor. Se você soubesse que ia morrer, para quem você ligaria?”

Quase como uma pintura em palavras ou uma fotografia em versos, A Spring Harvest captura a alma de um jovem e a eterniza no tempo. Congela momentos e pensamentos, dos sonhos às angústias, do regozijo a tristeza, e os revela para o mundo como numa galeria de memórias e sentimentos intocáveis, cuja dolorosa tarefa de promover a obra, em parte, ficou nas mãos de Tolkien, que escreve um sucinto prefácio da obra.

Tolkien era uma pessoa expressiva, mesmo que discretamente, e seu amor aos amigos fica visível em suas cartas e histórias, o que leva a estranhar sua nota tão didática no livro. De forma objetiva, Tolkien pontua que os poemas não seguem uma ordem cronológica, com exceção da terceira parte que contém escritos depois que a guerra eclodiu. Ele não acrescenta em sua fala tom emocional ou lembranças sobre o que dividiu com o amigo. Tudo leva a crer que seu breve comentário esconde uma tristeza que ele não quis revirar.

Seja como for, Tolkien cuidou do legado de Smith com esmero, realizando seu último desejo, expressado na angustiante, porém belíssima, carta que ele enviou ao Professor, no dia 29 de novembro de 1916, antes de partir para uma missão fatal:

“Meu principal consolo é que, se eu morrer hoje — vou sair em missão daqui a alguns minutos —, ainda restará um membro do grande T.C.B.S. para expressar o que sonhei e no que todos concordamos. Pois a morte de um dos seus membros não pode, tenho certeza, dissolver o T.C.B.S. A morte pode nos tornar repugnantes e indefesos como indivíduos, mas não pode acabar com os quatro imortais! Uma descoberta que vou comunicar a Rob antes de sair hoje à noite. E você, escreva-a também a Christopher. Deus o abençoe, meu caro John Ronald, e possa você dizer as coisas que tentei dizer, muito tempo depois de eu não estar aqui para dizê-las, se for esse o meu destino.

Sempre seu, G.B.S.” (Biografia, 2018, p. 123)

Carta de Smith a Tolkien. Reproduzido de Tolkien: Maker of Middle-earth, p. 158.

Tolkien nos convida a apreciar a obra da forma como foi concebida por seu criador. Assim, somos introduzidos ao que por muitos anos eram apenas rabiscos criteriosos de um garoto apaixonado, suas ideias e divagações sobre vivências, sociedade, sentimentos, crenças, culturas e tudo o que era digno de sua atenção, apreciação e crítica.  

O poema “Two Legends”, que abre a antologia, nos conduz para uma linda cena em que um dos cavaleiros da Távola Redonda, Bedivere, é resgatado por uma figura misteriosa, que se identifica como bispo da corte do rei Artur; os dois dialogam sobre os momentos finais do grande rei, sua batalha com Mordred e o funeral místico que recebeu; apresentando assim um novo olhar sobre a lenda.

Outro poema que flerta com um tempo longínquo e heroico é o “Rime”, que fala sobre um Gramarye, um tipo de livro mágico, cujo eu-lírico do poema é versado na leitura e interpretação. Trata-se de uma janela para uma vida de aventuras, perigos, medo e prazeres que todos anseiam.

Ainda que com algum hiato, Smith volta para a temática fantástica, como nos poemas “A Preface for a Tale I Have Never Told”, sobre uma história perdida da qual ninguém tem conhecimento, a não ser quem a viveu; “The Old Kings” e “O There be Kings whose Treasures”, que evocam a presença da Idade Média na concepção de uma majestosa realeza romantizada na figura de nobres líderes.

Nesse aspecto, a organização de Tolkien torna-se interessante; ele não se preocupa em ordená-los metodicamente, mas a sequência que criou desenha a personalidade de Smith sendo moldada pelos prazeres da juventude e o súbito desespero da guerra. O choque da imaginação pura com a realidade fria guia o amadurecimento do escritor. Se há uma constância em seus poemas, pode-se dizer que é a inquietude diante das belezas e dissabores da vida.

A última parte, que traz reflexões sobre a guerra, é naturalmente mais sombria e lamentável. “Dark is the World our Fathers Left Us” expõe bem esse sentimento. “Memories” e “Intercessional” são muito fortes, pois já revelam a obscura presença da morte, que espreita os pensamentos do jovem Smith, cercado pela brutalidade do conflito.

Contudo, um lampejo de esperança ainda ilumina suas linhas. “Afterwards” é um dos que evoca a alegria vindoura. Deixam um nó na garganta àqueles em tom de despedidas, como “The Last Meeting”, que pode ter sido inspirada, talvez, pelo último encontro dos quatro amigos na casa de Wiseman e “Ave atque Vale”, uma saudação e um adeus ao campus, jardins e torres de Oxford. O encerramento, a partir de “The Burial of Sophocles” até “So we lay down the Pen”, é uma união desses sentimentos isolados ao longo da obra, num doloroso e profundo contentamento contemplativo diante da natureza da vida.

Capa da primeira edição (1918)

A Spring Harvest é, sobretudo, uma obra importante no entendimento das influências de Tolkien e na tamanha relevância do T.C.B.S. para a criação futura de seu legendarium. Não porque faz menção direta a isso, mas é uma parte do amigo, e dos sonhos que tinham, que o Professor levou consigo para o resto da vida e que vemos refletir em seus textos.

Sentados em poltronas confortáveis, tomando uma xícara de chá quente, os jovens universitários dialogavam sobre o mundo das artes e do fantástico, onde eram seguramente mais livres e mais felizes do que na realidade moderna, industrial e pacata, como Smith reflete no poema “The New Age and the Old”.

Foi durante esse período de diversão e trocas, que os talentos dos quatro garotos floresceram. Unidos na paixão por mitologias, medievalismo, épicos clássicos e linguística, cada um deles, inspirado ao seu modo, transfigurava o fascínio que sentiam numa expressão autêntica de seus anseios. Wiseman compunha músicas, Gilson desenhava, Tolkien contava histórias, Smith escrevia poemas.

Em mais um ato de lealdade, Tolkien manteve-se firme em seu propósito poético, que começou justamente por conta da aptidão de Smith pelo ofício. A fim de manter a essência do clube viva através dos anos, Tolkien persistiu na escrita e na ideia de fazer algo significativo para o mundo. Como é relatado pelo biógrafo Humphrey Carpenter (p. 107):

“G.B. Smith leu todos os poemas de Tolkien e lhe enviou críticas. Foi encorajador […] Ele havia mostrado os versos originais sobre Earendel a Smith, que dissera que gostava deles, mas não sabia do que se tratavam realmente. Tolkien respondera: “Não sei. Tentarei descobrir.” […]
Para Ronald, as [últimas] palavras de G.B. Smith foram evidentemente uma conclamação para que iniciasse a grande obra sobre a qual vinha meditando durante algum tempo, um grandioso e extraordinário projeto com poucos paralelos na história da literatura. Ele criaria uma mitologia inteira.”

Anos depois, a confirmação desse relato apareceu nas Cartas de J.R.R. Tolkien; durante as últimas correspondências que trocou com Smith, fez uma reflexão, com certo pesar, sobre o que seria do futuro da irmandade e o legado que deixaria.

“O que eu tencionava, e penso que Chris tencionava, e estou quase certo de que você tencionava, era que fosse concedida ao T.C.B.S. alguma centelha de fogo — certamente como um conjunto se não individualmente — que estivesse destinada a acender uma nova luz ou, o que é a mesma coisa, reacender uma antiga luz no mundo (…) É claro que o T.C.B.S. pode ter sido tudo o que sonhamos — e seu trabalho ao final ser feito por três, dois ou um sobrevivente, e a parte dos outros ser confiada por Deus àquela inspiração que sabemos que todos nós demos e damos uns aos outros. A isto agora prendo minhas esperanças, e rezo a Deus que as pessoas escolhidas para darem continuidade ao T.C.B.S. não sejam menos do que nós três…” (Cartas, 2010, p. 16)

Por todo o significado grandioso e pela energia que carrega, A Spring Harvest é uma obra que vale a pena ler e reler ao longo da vida. Mesmo que isso exija de nós um esforço extra, pois sua complexidade em termos de língua requer que o leitor tenha fluência em inglês, bem como um conhecimento raso de latim e expressões antigas particulares da linguagem poética. Termos como ‘thou’, ‘ere’, ‘aye’, ‘lo’, ‘thay’, entre outros, são utilizados com frequência.

O recomendável para quem deseja se aventurar, é adquirir a versão digital pelo aplicativo Kindle (disponível em Android e iOS), pois há um mecanismo de identificação, conceito e tradução que aparecem na tela automaticamente quando uma palavra é selecionada. A opção é válida, e enriquece o leitor com um pouco de conhecimento. Interessante é que, mesmo esbarrando nos limites da língua, todos nós somos capazes de compreender a essência das emoções que foram compartilhadas. No fim, essa é a verdadeira mágica dos poetas.

Se você morresse agora, o que teria deixado? G.B. Smith faleceu aos 22 anos. Sua poesia evoluiu o quanto pode. Quase cem anos depois, uma garota de 22 anos escreve sobre sua obra. Há muitas diferenças entre o Brasil e a Inglaterra, a guerra e o vírus, os campos verdejantes e a rua pavimentada, as cartas e os celulares, mas quase não há diferenças em partilhar da existência e ter que decidir o que fazer com o tempo que nos é dado.

Para além de honrar a memória do T.C.B.S. e o sonho de Smith, a leitura de A Spring Harvest é um lembrete de que a natureza é eterna e as ideias dos homens são como sementes que precisam ser semeadas e colhidas num campo que sempre se renova, mas nunca se finda; a arte.


A Spring Harvest
★★★★☆
Autor: Geoffrey Smith
Editora: Publicação independente 
Brochura, 72 páginas



Lorena S. Ávila é jornalista, formada pela Universidade Metodista de São Paulo.


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2 thoughts on ““A Spring Harvest”: a antologia poética recomendada por Tolkien

  1. Adorei a resenha, parabéns! Eu gosto de ler poesia, queria que tivéssemos “A Spring Harvest” traduzido para português, uma coisa me chamou a atenção no seu texto, a pergunta “se você morresse agora o que teria deixado?”, me faz refletir sobre a vida, acho que eu teria deixado meus textos de análise no meu blog “pausa para análise” e lembranças nas relações com algumas pessoas.
    A amizade entre Tolkien e Smith é muito bonita, e deixou sua marca para os leitores.

    1. Obrigada pelo carinho, Patrick! Fico feliz que tenha gostado. Realmente essa história é muito emocionante e, tenho certeza, mudou muitas coisas no coração e na mente do nosso amado Tolkien. Também fiz a mesma reflexão que você e espero poder deixar algo valoroso para este mundo.

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