“Cartas de um Diabo a seu Aprendiz”: uma Apresentação

Carlos Alberto Chaves Pessôa Júnior

 

Cartas de Um Diabo a Seu Aprendiz é considerada uma das produções mais fascinantes de C.S. Lewis. O livro foi dedicado a outro grande nome da literatura inglesa, J.R.R Tolkien, contudo, como revela Colin Duriez, O Dom da Amizade, que relata a amizade de J.R.R Tolkien e C.S Lewis, o autor de O Senhor dos Anéis não compreendeu a razão da dedicatória ter sido dirigida a ele, embora a obra tenha recebido elogios dos críticos. Sabemos que que a abordagem da teologia popular de Lewis era constantemente questionada por Tolkien, além disso, houve críticas dele sobre a estética (a criação ficcional) do livro.

No exemplar que Lewis deu ao Tolkien foi escrito: “Em pagamento simbólico de uma grande dívida”. De fato, Tolkien foi uma das principais influências na vida de Lewis em termos literários e religiosos. O Professor teve participação ativa na conversão de Lewis ao cristianismo, além de uma relação amizade regada com discussões e leituras de trechos e capítulos das obras que ambos viriam a publicar, especialmente dentro do grupo Inklings. Ambos se favoreceram mutuamente — graças à motivação de “Jack” (modo como amigos se dirigiam a C.S Lewis), Tollers (como assim era chamado mais intimamente Tolkien) terminou a grandiosa obra O Senhor dos Anéis.

Tolkien era um católico devoto, enquanto Lewis converteu-se ao cristianismo anglicano. Tolkien escreveu a seu filho Michael em uma carta:

[…] deleitei-me sarcasticamente ao saber (D. Telegraph) que “o próprio Lewis nunca gostou muito de The Screwtape Letters” — seu best-seller (250.000). Ele dedicou-o a mim. Eu me perguntava por quê. Agora eu sei — dizem eles.

Em um conteúdo bastante semelhante, Tolkien escreveu a George Sayer (professor no Malvern College e autor de uma biografia sobre C.S Lewis) , em 28 de Novembro de 1963, o seguinte:

Mas então Jack (C.S. Lewis) nunca me mandou nada. Nem mesmo o Cartas de um diabo ao seu aprendiz, que ele dedicou para mim (sem permissão). Eu sarcasticamente me diverti ao saber do Daily Telegraph que ‘Lewis nunca gostou muito de seu trabalho’. Eu depois / muitas vezes [esta palavra é especialmente difícil de discernir] me perguntei por que a dedicatória foi feita. Agora eu sei, ou deveria.

O biógrafo Michael White, autor do livro O Senhor da Fantasia, reporta o seguinte:

Mais tarde, Cartas de Um Diabo a Seu Aprendiz, basicamente escrito durante 1940 e 1941, quando cuidava de suas tarefas nos ataques aéreos na Segunda Guerra, foi publicado em capítulos em uma revista cristã e fez sucesso mundo afora quando saiu em livro, em 1942. Tolkien não gostou desse livro e acreditava, provavelmente com alguma razão, que Lewis não havia dado tempo a si mesmo para chegar a um entendimento claro de sua percepção religiosa e que havia se precipitado e impresso seus pensamentos sem permitir que amadurecessem. (grifo nosso)

O mesmo biógrafo em outro trecho relata que:

Lewis dedicou Cartas de Um Diabo a Seu Aprendiz a Tolkien, e na cópia que autografou para seu amigo acrescentou: “Um pagamento simbólico de uma grande dívida”. Mas, ironicamente, Tolkien não se importou com a história, considerando-a bastante banal e feita de maneira apressada. E ainda, a sua verdadeira objeção a ela era, na verdade, mais pessoal. Em muitos aspectos, Tolkien era quase um católico fundamentalista. Acreditava que o diabo e seus demônios realmente existiam e, portanto, seria bastante temerário desdenhar de assuntos sérios como este. (grifo nosso)

Cartas de Um Diabo ao Seu Aprendiz foi alvo, e ainda é, de muita polêmica entre cristãos, críticos literários e leitores. Mesmo entre os amantes dos escritos de Lewis, o material encontra críticas diversas, embora seja reconhecido como um dos trabalhos mais importantes de Lewis.

Um pouco sobre a obra

Lewis escolheu a figura do diabo como meio para, didaticamente, versar sobre o modo como este persegue, desestimula e perverte o caminho do cristão, especialmente o do novo convertido. Para alguns, foi uma decisão acertada, pois assim pôde atribuir ironia, perversidade e sarcasmo ao personagem Screwtape (Maldanado) — o que o torna atrativo o suficiente para conseguir que o leitor acompanhe seus ensinos infernais, e através deles, possa retirar preciosas lições.  

O escrito soa muito cativante mesmo para àqueles que não são cristãos, mesmo diante de uma ausência de entendimento sobre a natureza maligna do diabo. A construção estética das cartas confere a elas uma atração singular, não sendo maçantes ou mesmo pitorescas demais; o humor e o sarcasmo permite ao leitor compreender o que Lewis deseja ensinar sobre os obstáculos e desafios da vida cristã para o novo convertido, diante dos desejos intrínsecos de sua humanidade e das artimanhas que o adversário espiritual lança para derrubá-lo.

Em tempos em que a mídia, tanto dirigida para adolescentes e jovens, como para adultos, usa a figura do diabo como um anti-herói carismático, (vemos isso na série Lúcifer e nos quadrinhos com o demônio Etrigan da DC Comics, por exemplo), Cartas de um Diabo a seu Aprendiz tende a ser desinteressante para não religiosos.

Lewis agrada, todavia, tanto cristãos de várias vertentes e denominações como muitos não adeptos do cristianismo; a criação estética e conteudística sobrevivem e dialogam com as gerações para além da biografia e intenção do autor. O articulista Filipe Sérgio Koller aponta:

“C. S. Lewis é um dos pensadores cristãos mais admirados do século XX. O autor de As Crônicas de Nárnia — obra literária com claro fundo cristão — foi também um grande divulgador da fé cristã, como apologeta e pregador, escrevendo obras memoráveis como Cristianismo Puro e Simples, Cartas de um Diabo a seu Aprendiz e O Peso da Glória. E, curiosamente, o pensamento desse anglicano que viveu entre 1898 e 1963 encontra ampla aceitação entre cristãos de diversas denominações — mesmo entre os grupos mais fechados ao ecumenismo.”

Em outro artigo, Koller afirma:

“Para Gabriele Greggersen, uma das maiores especialistas brasileiras na obra de Lewis e tradutora das novas edições de Cristianismo Puro e Simples, Cartas de um Diabo a seu Aprendiz e A Abolição do Homem lançadas neste ano [2019] pela editora Thomas Nelson Brasil, um dos principais motivos da popularidade de Lewis entre cristãos de diversas confissões é justamente a sua própria confissão. ‘Como anglicano, ele tinha uma visão voltada para o diálogo inter-religioso e para o ecumenismo, não levantando bandeiras, principalmente da sua própria igreja’”

A identificação do leitor pode se dar no reconhecimento por meio dos personagens, narrativa e tema, que cativa leitores dos mais diversos perfis e profissões de fé.

A questão da “edificação moral, uma das três funções históricas da arte literária segundo o crítico literário José Guilherme Merquior, é bem trabalhada. Ao traçar planos para corromper a alma do “paciente” (o ser humano alvo das tramoias dos demônios), o autor instiga o leitor a perceber o quão preciosas são as posturas e ideias que estão sendo atacadas pela dupla dantesca. Cartas de um Diabo a seu Aprendiz possui a simplicidade de um conto de fadas, ao transmitir um valor moral. O livro nos apresenta um mundo tenebroso e grotesco, onde o homem é visto como uma peça de xadrez, podendo ser manipulado sem dar-se conta. Há uma boa moderação no uso do gótico, do fantástico e da sabedoria presente na “teologia popular”, ecumênica, do bom e velho Jack.

O “divertimento”, outra importante função, ganha espaço para quem abraçar a sutil ironia e sarcasmo de Lewis. Sendo os demônios o fio condutor do livro, pode o leitor apegar-se à primeira camada interpretativa da obra, a caracterização do personagem, e assim, desfrutar com bons risos das tentativas de Maldanado de ensinar o sobrinho, o jovem demônio, como corromper almas humanas.

A moralidade cristã demandaria, contudo, um a reflexão mais profunda para ser compreendida e um desejo de ligar-se ao divino para ser assumida e colocada em prática. Cabe aqui a brilhante análise da articulista Casey Cep redatora do The New Yorker: “Acho que seu apelo vem do sucesso de Lewis em escrever uma teodiceia do cotidiano. Ao contrário de Dante e Milton, ele evitou uma grande teologia do cosmos, concentrando-se nas tentações cotidianas do homem comum.

Através do grotesco, Lewis apresenta o sublime e o virtuoso com a maestria que lhe era tão típica e natural.


Referências

POUND, Ezra. ABC da Literatura. Editora Cultrix, 12 edição. São Paulo, 2014

KOLLER, Felipe Sérgio. Por que C. S. Lewis é uma unanimidade entre evangélicos e católicos?. Disponível em: https://www.semprefamilia.com.br/cultura/por-que-c-s-lewis-e-uma-unanimidade-entre-evangelicos-e-catolicos/ . Acesso em 25-05-2020.

CEP, Casey. The Devil You Know. Disponível em: https://www.newyorker.com/books/page-turner/the-devil-you-know Acesso em: 25-05-2020.

Os Contos de Fadas e o Despertar da Imaginação Moral. Disponível em: http://comoeducarseusfilhos.com.br/blog/os-contos-de-fadas-e-o-despertar-da-imaginacao-moral/. Acesso em: 14-06-2020.

CARTAS DE UM DIABO A SEU APRENDIZ: O livro de C.S. Lewis dedicado a Tolkien. Disponível em : https://www.nanocell.org.br/cartas-de-um-diabo-a-seu-aprendiz-o-livro-de-c-s-lewis-dedicado-a-tolkien/ Acesso em 09-02-2021


Carlos Alberto Chaves Pessôa Júnior é Crítico literário, jornalista e professor

Imagem destacada: Screwtape, Elias Dean

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