“Phantastes”: uma Imersão no Reino das Fadas

Cristina Casagrande

Ao relatar a gênese da história de Ferreiro de Bosque Grande a Clyde Kilby, em nota presente na edição ampliada do conto com edição de Verlyn Flieger, Tolkien afirma que Phantastes o “afligiu com profunda antipatia”, enquanto “despertou” seu amigo Jack, mais conhecido como C.S. Lewis (2015, p. 64). Quando eu li isso, fiquei intrigada, mas por que Tolkien tinha (para variar) mais uma restrição com um autor de fantasia? E nesse caso, não era qualquer um, mas George MacDonald, mentor de ninguém menos que Lewis Carroll, além de ser um notório autor vitoriano e reconhecido como um dos grandes inspiradores dos próprios Tolkien e Lewis.

A nota a Kilby explicava que Ferreiro de Bosque Grande surgiu a partir de um convite da Pantheon Books a Tolkien para fazer um prefácio de uma nova edição de A Chave Dourada, do próprio MacDonald. O prefácio de Tolkien nunca foi terminado, mas dele nasceu o conto sobre o filho do ferreiro que adentra o Reino das Fadas.

Ilustração de Pauline Baynes para Ferreiro de Bosque Grande

Na mesma nota a Kilby, antes de atestar o seu desgosto com Phantastes, Tolkien dá uma pista do que pode ser a causa de seu dissabor. Segundo ele, se tivesse continuado com o prefácio, ele teria escrito mais um ensaio extremamente crítico sobre o romancista escocês, algo “desnecessário, e lamentável, já que G. M. prestou grandes serviços a outras mentes, como a de Jack. Mas, evidentemente, ele nasceu amando a alegoria (moral), e eu nasci com uma aversão instintiva a ela” (TOLKIEN, 2015, p. 64) . (Sim, é isso mesmo que você está pensando: outra vez, a bendita alegoria!)

Depois dessa crítica de Tolkien, no seu melhor estilo “postei e saí correndo” (embora tenha sido escrita de forma privada), eu li o conto de MacDonald. Para minha surpresa, ele descreve com um fôlego maior sobre a Terra das Fadas do que Tolkien em seu último conto. É claro que Ferreiro de Bosque Grande e Phantastes são narrativas diversas e independentes, do mesmo modo que seus respectivos mundos feéricos também são distintos entre si, embora ainda haja alguns claros pontos de identificação entre eles.

Tolkien dá algumas amostras, mas não entrega tudo para saciar o apetite do leitor por Feéria. Tudo leva a crer que isso é um recurso proposital do autor, ainda mais quando sabemos que muitas de suas obras ficaram engavetadas como inacabadas, diferente de Ferreiro do Bosque Grande que foi publicado quando o autor ainda estava vivo, em 1967. Tolkien intencionalmente não queria nos entregar tudo o que o mundo feérico pode nos proporcionar.

Phantastes, publicado em 1898, ao contrário, faz um mergulho em Feéria sem comedimento. O jovem Anodos atinge sua maioridade aos 21 anos e adentra no Reino das Fadas num caminho sem volta. Um dos traços mais louváveis da narrativa de MacDonald é justamente este: o mundo da fantasia é um apelo às mentes maduras. O nome do protagonista nos chama atenção: do grego, significa, entre outras coisas, “caminho de baixo para cima”. O curso da Terra das Fadas é, portanto, ascendente e transcendente. Isso pode nos dar uma pista para o que Tolkien chamou de alegoria presente na obra de MacDonald: a experiência de Anodos representa o poder da imaginação que ecoa o além-mundo.

A história começa no aniversário desse jovem adulto que recebe acesso aos documentos do pai falecido. Com ares elegíacos e traços tipicamente românticos, a narrativa relata a experiência do jovem que perdera o pai recentemente e adentrou o mundo das fadas na busca do seu eu até culminar naquilo que representaria a sua própria morte. Contudo, diria que não é tão óbvio para nós percebermos essa alegoria da morte presente em Phantastes, num percurso do mítico (o imaginário) ao místico (o abandono do mundo material para o sobrenatural).

“Curious Little Figures”, John Bell

No ensaio, Sobre Estórias de Fadas, Tolkien diz que as narrativas de fadas têm três faces: “a Mística, voltada para o Sobrenatural; a Mágica, voltada para a Natureza; e o Espelho de Escárnio e Pena, voltado para o Homem” (2020, p. 38). Phantastes traz claramente essas três faces. Anodos adentra o mundo feérico que, basicamente, consiste em uma grande floresta, e o seu contato com o mundo natural é nítido. As árvores são seres mágicos: elas podem ser amigáveis ou perigosas. “Confie no Carvalho […] no Olmo e na grande Faia. Tome conta da Bétula, pois embora ela seja honesta, ainda é muito nova para ser imutável. No entanto se afaste do Freixo e da Amieiro” (MACDONALD, 2021, p. 30).

Um dos pontos mais escuros de sua jornada é o contato com a sua sombra e com o espelho. A Sombra, assim como o Espelho são seus duplos. São aqueles que revelam o que há de vil, digno de escárnio ou de pena, em seu eu interior. Por um tempo, o drama humano limita Anodos de adentrar o mundo feérico, visto que isso não é da alçada da fantasia, embora inevitavelmente esteja presente nela quando explorada pelo homem, pois faz parte de sua própria miséria. “Para mim, tudo daqui em diante existiu em relação à minha sombra” (MACDONALD, 2021, p. 101). Um dia, ela o deixa em paz, e esse é o passo para sua caminhada derradeira, sua despedida final de Feéria e, ao mesmo tempo, o encontro com a própria morte: é a porta de entrada ao mundo sobrenatural, a face mística dos contos de fadas.

Vale ressaltar a presença tão marcante das mulheres na narrativa. Com traços ultrarromânticos, as figuras femininas normalmente são seres idealizados e inatingíveis — não foram poucas vezes que pensei: “Arwen, é você?”. Apesar de ter um fundo moral cristão, a deusa tríplice da mitologia pagã está presente: há a donzela, a mãe e a anciã. Elas lhe conferem conhecimento, proteção e sabedoria, mas também o perigo, a dor e a perda. O feminino ali é um ser crucial para a arte de amar em suas infinitas acepções. “Sim, onde há dois amores, é o amor de um para com o outro que origina e aperfeiçoa a bem-aventurança de ambos, e não o ser amado” (MACDONALD, 2021, p. 280).

A narrativa começa bem e nos convida a ler mais e mais, com prazer e curiosidade. Mas chegando ao meio da história, a leitura começa a ficar cansativa pela densidade dos conceitos e pela sensação de repetição de experiências. O final, no entanto, nos desperta novamente, quase com o mesmo fulgor do início, invadindo-nos com poesia e contemplação.

A edição da Thomas Nelson Brasil conta com um belíssimo projeto gráfico que entrega de cara ao leitor a proposta da narrativa. Como introdução, há uma apresentação de C.S. Lewis que nos dá um panorama geral rico e profundo sobre George MacDonald e algumas considerações sobre Phantastes, que nos ajuda a nos situarmos na estrada em que estamos pisando.

Confesso que terminei a leitura não entendo o porquê de Tolkien alegar tanta antipatia por uma história que claramente é inspiração por muitas de suas próprias composições, especialmente Ferreiro do Bosque Grande. Certamente a resposta está na discussão nada simplória da alegoria moral nas obras de fantasia, a qual Tolkien explicitamente rejeitava. Mas na temática, nos elementos e até mesmo nas formas — mas não no estilo —, não há como negar a importância de George MacDonald para o grande caldeirão imaginativo do subcriador da Terra-média.

Note que não mencionei a palavra influência, pois esta configuraria uma relação de dominação de um autor sobre o outro. Mas há uma evidente inspiração, ainda que inconsciente, mesmo havendo discrepâncias de estilo e discordâncias em pontos-chaves da composição autoral. De todo modo, temos apenas um comentário en passant de uma carta privada de Tolkien a Kilby sobre o assunto. Nesse sentido, faz-se justiça ficarmos com o comentário público e bem refletido de C.S. Lewis, sobre MacDonald: “A qualidade que me encantara em suas imaginativas obras transformou-se na qualidade do universo real, do divino, da magia, abalando e extasiando a realidade na qual todos nós vivemos” (LEWIS citado em MACDONALD, 2021, p. 15).


★★★★☆

Autor: George MacDonald
Tradutor: José Fernando Cristófalo
Editora: Thomas Nelson
Capa Dura, 288 páginas


Obras Citadas

MACDONALD, G. Phantastes. Tradução: José Fernando Cristófalo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2021.

TOLKIEN, J.R.R. Ferreiro de Bosque Grande. Tradução: Ronald Kyrmse. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015.

TOLKIEN, J.R.R. “Sobre Estórias de Fadas”. In: Árvore e Folha. Tradução: Reinaldo José Lopes. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2021.


Cristina Casagrande é doutoranda em literatura tolkieniana e autora de “A Amizade em O Senhor dos Anéis”



4 thoughts on ““Phantastes”: uma Imersão no Reino das Fadas

  1. Concordo com a avaliação da inspiração de Phantastes em Ferreiro. Li o livro há alguns meses e fiquei com esta sensação de proximidade bem marcada; algo que se confirmou com a releitura de Ferreiro em sua tradução, que concluí hoje. De fato não há muito como entender o porque da antipatia do professor, além de um “Tolkien sendo Tolkien”…

      1. Muitíssimo, assim como adorei as traduções das Cartas do Papai Noel e Senhor Boaventura!

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