Filme “Tolkien”: biografia ou ficção?

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Por Cristina Casagrande

A cinebiografia Tolkien, dirigida pelo finlandês Dome Karukoski, deve estrear no Brasil no dia 23 de maio pela Fox Searchlight. Sendo assim, não pretendo decepcionar com spoilers. Mas por se tratar da história de vida de uma personalidade bastante conhecida, é claro que certos fatos não são segredo para ninguém. O mais importante de todos, que ele se tornaria o autor de um dos livros mais aclamados pelo mundo — a princípio, de forma aberta pela massa e velada pelos eruditos — nem sequer aparece no filme. Isso porque a película foca na experiência de vida de Ronald Tolkien quando ainda era jovem. Desse modo, os produtores esperam que o seu público já reconheça a grandeza do escritor e saiba boa parte de sua história ou o instigue a conhecer mais, buscando outros recursos como livros biográficos do autor.

O questionamento que se apresenta no título desta resenha — se é uma cinebiografia ou uma ficção inspirada na história de uma celebridade — ganha então um novo propósito. Não tenho a intenção de apontar as inversões cronológicas, nem imprecisões factuais. Mesmo porque fica bem claro que seus roteiristas, David Gleeson e Stephen Beresford, apesar de romancearem bastante o roteiro, têm um bom conhecimento de suas principais biografias, especialmente a oficial J.R.R. Tolkien, uma biografia, escrita por Humphrey Carpenter, além de As Cartas de J.R.R. Tolkien, também editada por Carpenter, e, a mais específica sobre a sua experiência na Primeira Guerra, Tolkien and The Great War: the treshold of Middle-earth , por John Garth.

 

 

 

É um filme bastante humano, poético e delicado. Tem uma bela fotografia e conta com excelentes atuações de Nicholas Hoult (J.R.R. Tolkien) e Lily Collins (Edith Bratt). Mostra um Tolkien ainda frágil tendo de lidar com as dores da vida. A primeira apresentada é quando ele, a mãe Mabel (Laura Donnelly) e seu irmão Hilary (Guilhermo Bedward) têm de deixar a bucólica Sarehole, sua grande inspiração para o Condado dos hobbits da Terra-média, e viver em um ambiente mais urbano em Birmingham em favor de melhores condições de estudos para ele e o irmão.

A segunda e mais marcante — se desconsiderarmos a morte do pai ocorrida ainda na sua primeira infância e não retratada ali — é a perda da mãe, quando ele ainda estava entrando na adolescência. Antes desse fato dramático, chama a atenção como é retratado o relacionamento dele com Mabel, que sem dúvida teve um papel crucial para a sua história — especialmente na questão do amor à língua, da valorização dos estudos e da importância da fé católica. Essa relação é pouco explorada na película e, em alguns momentos, mais tensa do que o esperado.

Não que o filme mostre um jovem Tolkien rebelde, mas a memória afetiva e a relevância do legado deixado pela mãe ganharam menos destaque do que mereciam. O mesmo se pode dizer sobre o relacionamento com o padre Francis Morgan (Colm Meaney), tutor dele e do irmão, que ficou mais como uma figura austera, embora bem-humorada e afetuosa, do que como um segundo pai para os meninos.

A questão da religiosidade, tão marcante no pensamento do autor, basicamente não é explorada. É como se a religião fosse apenas uma obrigação a ser seguida em respeito à memória da mãe, assim como o apreço pelos estudos. O Tolkien de Karukoski teria deixado a amada jovem Edith partir mais por medo de infringir uma regra do que por devota obediência a seu tutor ou por admiração pelas escolhas da mãe. Por outro lado, o roteiro explora o lado mais humano de Ronald Tolkien, e não é desprezível a hipótese de que ele tenha tido mesmo um ou outro ataque de rebeldia com a proibição de seu romance com Edith, afinal é típico dos jovens um pouco de relutância às regras estabelecidas.

Embora haja essas lacunas, não é justo dizer que o filme tenha sugerido um autor de O Senhor dos Anéis agnóstico, tampouco raso ou revoltado. Sem dúvidas, faltaram os longos debates sobre teologia e filosofia com seus amigos da TCBS — um grupo de estudos entre Tolkien e mais três alunos da King Edward’s School —, mas o filme também não mostrou nenhuma aversão do autor pela temática. A religiosidade, assim como o relacionamento com a mãe e o padre Morgan foram menos explorados para dar voz a questões como o seu interesse pelas línguas e à mitologia, a sua profundidade de pensamento criativo e o valor que ele dava à amizade e ao amor.

Além disso, é sabido que Ronald Tolkien era crítico à exposição apologética de leigos e achava que a fé deveria ser vivida de forma cotidiana, discreta — mas não escondida — e natural. O pensamento religioso poderia ser mais bem desenvolvido em uma nova película que trouxesse sua vivência no aclamado grupo de estudos “Os Inklings”, em Oxford, e especialmente a sua amizade com C.S. Lewis, o autor de As Crônicas de Nárnia.

Para os mais apaixonados pela história da vida do autor, faz falta também uma imersão mais profunda na sua composição literária, especialmente O Livro dos Contos Perdidos, que deu origem ao conhecido O Silmarillion. Isso ficou mais por conta de flashes de suas experiências na guerra e de suas conversas com Edith e com os amigos da TCBS. Não por acaso, o escritor tem um soldado ordenança chamado Sam na Batalha do Somme, que o apoia e até mesmo o carrega em momentos cruciais; Edith dança no bosque para Ronald, tal qual Lúthien para Beren (o que de fato aconteceu e levou a uma associação abertamente declarada pelo autor); e a TCBS é chamada de “Fellowship” (“Sociedade” aqui no Brasil e “Irmandade” em Portugal), que remete ao título The Fellowhip of The Ring, primeiro volume da saga do Anel.

Os pontos mais fortes do filme são a aproximação de Tolkien com o professor Wright (Derek Jacobi), de Filologia Comparada, com quem pode desenvolver mais os seus talentos como um estudioso das línguas; o diálogo de Ronald e Edith no restaurante, revelando todo o seu pensamento a respeito das histórias de fadas — relativas a um lugar e não a uma pessoa ou ser fantástico; e a lealdade entre os seus amigos da King Edward’s, especialmente a vivida entre ele o jovem poeta Geoffrey Smith (Adam Bregman), cuja carta, enviada a Ronald logo antes de sua repentina morte na guerra, serviria de inspiração ao escritor por toda a sua vida.

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Karukoski e sua equipe foram felizes em não apelarem por abusos com os eventos de O Senhor dos Anéis ou mesmo O Hobbit. Muito pouco sobre as grandes obras do autor estão presentes no filme; o que há são elementos da sua composição do legendário, como nomes presentes na Edda Poética que aparecem de uma forma sutil nas cenas apresentadas. No entanto, houve alguns recursos questionáveis ao aparecerem ícones religiosos e fantásticos — como uma demonstração da imaginação do autor durante os momentos mais trágicos da guerra —, que dividiriam opiniões entre o cabível e o caricaturesco.

O filme pode emocionar entusiastas ou não do autor por trazer experiências afetivas — como o seu amor por Edith e a lealdade dos amigos — de J.R.R. Tolkien nas telas, além de nos impressionar com o horror da guerra e com a capacidade inventiva do escritor. Aos mais afeiçoados, é tentador o convite a conhecer mais e melhor sobre a vida e especialmente a obra de tão importante autor. Quem sabe em novas representações na grande tela.


Foto Cris

Cristina Casagrande é jornalista e pesquisadora em literatura tolkieniana. Ainda espera passar uma tarde no Salão de Fogo e encontrar trechos esquecidos do Livro Vermelho do Marco Ocidental.

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