“Tolkien” e a Verdade Linguística

Por Eduardo Boheme

T_05811.RAF

Aquele que for assistir ao filme Tolkien, dirigido por Dome Karukoski e estrelado por Nicholas Hoult e Lily Collins, verá uma das muitas versões que circulam sobre a vida do autor. Fantasiosa, sim, em muitos pontos. Mas também fantasioso é parte do material biográfico impresso, a exemplo do capítulo “Oxford Life”, na biografia oficial, de Humphrey Carpenter, e dos capítulos que vão da capa à contracapa daquele livro escrito por Michael White.

Não se espera que o espectador tome como real tudo aquilo que foi criado pelos roteiristas para imprimir interesse numa vida que, não fosse o estrondoso sucesso literário, teria sido relativamente comum. Quando deixamos esse conselho guiar nossa experiência cinematográfica, quando paramos de corrigir mentalmente os anacronismos, imprecisões e desvios, o filme ganha nossa simpatia.

tolkien-920x584

Os anos de formação e maturação acadêmica desenrolam-se em uma estrada repleta de “marcos quilométricos”, indicando textos literários e autores importantes na carreira de Tolkien. É evidente que, além de biografias, na escrivaninha dos roteiristas também havia um espaço reservado para The Monsters and the Critics and Other Essays.

Procurem referências a Chaucer, a Beowulf, a Sir Gawain, à Batalha de Maldon, à Edda Antiga: tudo isso que foi lido e estudado por Tolkien está lá. Gótico? Inglês Antigo? Finlandês? Entram na receita do filme também, animados pela presença de Joseph Wright (Derek Jacobi), o professor a quem Tolkien certa vez chamou de “um bom amigo e conselheiro” (Carpenter, 2006: 397). É no processo da lapidação linguística de Tolkien e nos agentes que participaram desse processo que reside uma das grandes forças do filme. Porque, como afirma Tom Shippey, “Tolkien tinha muitas visões altamente pessoais, até mesmo heréticas, sobre línguas” (Shippey, 2001: xiv).

Uma dessas visões é de que as línguas podem ter uma beleza inerente, e que as palavras carregam essa beleza mesmo dissociadas de seu significado. Diz Tolkien em uma de suas cartas: ‘Quanto a plenilune e argent, são palavras bonitas antes mesmo de serem compreendidas queria eu ter o prazer de encontrá-las pela primeira vez novamente!” (Carpenter, 2006: 310).

Tolkien trabalha melhor sua heresia linguística no famoso ensaio English and Welsh. Perto do fim do texto, o autor diz que muitos falantes de língua inglesa concordariam que a expressão cellar door é bonita (Tolkien, 2006: 190-1). Pois, para ele, a língua galesa é repleta de cellar doors, cheia de palavras que lhe inspiravam prazer contemplativo. O mesmo se aplicaria ao finlandês que, para Tolkien, chega ao extremo de sofrer com um “excesso de eufonia” (Tolkien, 2015: 115).

No filme, a beleza linguística se materializa em muitos momentos, como na presença tangencial do finlandês como base fonológica do alto-élfico, nas rápidas cenas em que se ouve inglês antigo e médio e, de modo muito explícito, em um diálogo imaginativo e forte entre Edith e Tolkien que orbita justamente em torno da expressão cellar door. Eis aí o princípio fictício da irmanação entre língua e criação literária, tão cara a Tolkien. Em meio a essas muitas referências, o filme convida o espectador a deixar um pouco de lado O Hobbit e O Senhor dos Anéis para apreciar os artigos, palestras e ensaios do autor, além de toda a literatura que ele mesmo lia.

A herética verdade linguística de Tolkien, detectável em toda a sua ficção, é uma presença forte na película, e prevalece sobre a verdade biográfica, esse conceito tão elusivo. Há, sim, equívocos (que criaturas lindas o Tolkien cinematográfico desenhava!) e uma sensação permanente de hindsight bias, isto é, uma vez publicada a obra de Tolkien, o roteiro olha para trás e faz com que tudo pareça convergir natural e necessariamente para uma ficção rica e complexamente sedimentada. A realidade foi menos consequencial.

Contudo, se levarmos em conta que rastrear passados possíveis era justamente o trabalho de Tolkien como filólogo, podemos dar ao filme o direito de preterir da verdade biográfica em favor de uma “possibilidade não atestada” (embora sem o rigor científico da filologia). Em outras palavras, podemos nos deixar levar um pouco pela “realidade-asterisco” do filme. Essa referência certamente muitos entenderam.

Tolkien-FoxSearchlight01

Obras citadas

Carpenter, Humphrey (ed.). 2006. The Letters of J. R. R. Tolkien (London: HarperCollins)
Shippey, Tom. 2001. J. R. R. Tolkien: Author of the Century (London: HarperCollins)
Tolkien, J.R.R. 2006. ‘English and Welsh’, in The Monsters and the Critics and Other Essays (London: HarperCollins)
______. 2015. The Story of Kullervo (London: HarperCollins)

 


Eduardo Boheme

Eduardo Boheme é mestre em Tradução Literária pela Universidade de Dublin e ultimamente tem se sentido fino e esticado, como manteiga espalhada num pedaço muito grande de pão.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s