Tolkien, Chesterton e as histórias para crianças

No dia 29 de maio, publicamos o texto de Vinícius de Oliveira, como fruto do curso “Tolkien e a formação do imaginário”, ministrado por Cristina Casagrande, no Lugar de Ler, em São Paulo, de janeiro a março de 2019.

Como projeto final, os alunos foram convidados a postar aqui no site, se assim tivessem interesse. Dois alunos toparam, e agora segue o segundo texto, por William Chrysthopher, 22 anos. 

TX_cursos_Tolkien


Por William Chrystopher

A única justificativa, ou melhor, desculpa aceitável para o que se seguirá abaixo, é que a Cristina me ameaçou com uma excomunhão latae sententiae, caso não o fizesse. Porém, se algo merece ser feito, então também pode ser mal feito e, com efeito, cá estou eu.

Se me foi pedido para escrever sobre Tolkien, a quem tanto admiro, certo estarei em querer juntá-lo com um outro alguém a quem também admiro: G. K. Chesterton. Mas há tanto para se dizer sobre os dois que corro o risco — confesso ser esse um pecado comum — de ser enfadonho ao ser muito empolgado. De fato, se eu pudesse escrever a respeito desses dois autores do modo como gostaria, chegaria aos seguintes problemas: 1) não conseguiria realizá-lo por uma falta de aptidão para a empreitada e 2) deixaria o leitor absurdamente cansado com a quantidade de páginas necessárias para fazê-lo. De todo modo, seguirei o método de Tolkien de antes ter uma palavra para só depois se ter uma história. E aqui eis as minhas duas palavras: Tolkien e Chesterton.

Creio que Tolkien seja bastante conhecido cá onde isto será publicado, então ele dispensa apresentações, mas Chesterton talvez não o seja, de modo que se faz necessário introduzi-lo. Se você for pesquisar quem foi Gilbert Keith Chesterton, logo perceberá que ele foi duas coisas: gordo e jornalista. Enquanto que o primeiro atributo lhe dá um ar cômico, o segundo o faz com muito mais jus, mas não pense que ele é um jornalista como os que temos nos dias de hoje. Por fotos é notável que ele era gigante, mas muita gente ficou decepcionada por presencialmente ele não ser tão grande quanto parecia; muita gente acha que ele é pequeno por ser jornalista, mas muitas delas ficaram impressionadas por descobrirem que neste ponto ele é grande por justamente sê-lo.

Chesterton gordo
G.K. Chesterton

A vida dos dois foi bem diferente. Enquanto Tolkien era um acadêmico, Chesterton era um jornalista, enquanto aquele teve uma infância turbulenta, este teve uma tranquila. Mas apesar das muitas diferenças que poderia citar, há também muitas semelhanças, e a mais significativa, a bem da verdade, talvez seja o amor que ambos tinham por crianças, sendo Tolkien um pai exemplar, bem como Chesterton que, não tendo filhos por conta de um problema de saúde de sua esposa, amou os pequenos cidadãos tanto quanto pode, defendeu-os tanto quanto conseguiu.

As histórias de muitos livros de ficção de Tolkien começam com ele contando-as aos seus filhos, só muito depois é que ganham vida nas páginas. Com isto, temos cá mais duas palavras que podem ser extraídas da frase inicial do parágrafo: crianças e contos de fadas. Estas duas se conectam muito com as outras duas citadas mais acima, e com elas trataremos de descobrir o que são e como se relacionam.

Se se pergunta a alguém uma característica comum das crianças, poderemos dizer muitas coisas, dentre elas: brincadeiras, aprendizado, imaginação, maravilhamento, espanto e, num mundo são, com certeza não diríamos muito do que vemos hoje. De todo modo, quando vivíamos numa época não tão insana como a de hoje, certamente falaríamos sobre o gosto que elas têm sobre as histórias que suas avós e pessoas mais velhas lhes contavam. Mas como bem diz Tolkien, os contos de fadas não são necessários ao que chamamos de fase infantil, como se fossem necessidades de causa, do mesmo modo que os dentes de leite o são. Os contos foram atribuídos às crianças por uma coisa que levou grande parte do mundo à loucura: a negação do óbvio. Causando assim o que conhecemos como racionalismo, cientificismo, em suma, tudo o que se pode dizer de ruim que a modernidade vive.

Enquanto hoje as crianças representam apenas um status social, sendo trancadas em seus quartos, escolas e privadas de toda a vida, os contos de fadas sofreram de forma parecida: foram declarados sem importância, de modo que juntaram duas coisas sem importância, a saber, crianças e estas histórias, e foram então desprezadas. Dizem, os modernos, que histórias em que fadas aparecem, que rios correm chocolate etc., acabam fazendo um mal danado por iludir o homem, e completam dizendo que preferem a política pragmática e o maquinário industrial, em detrimento do idealismo juvenil que desaparece quando se deixa de ser criança. Um homem de seu tempo diz exatamente isto para Chesterton, no que ele responde que com ele foi exatamente o contrário.

Chesterton e criança

De forma mais completa, a resposta que Chesterton dá ao homem pragmático é o que resultou no livro chamado Ortodoxia, no qual ele esboça, como bem o título o diz, a visão correta das coisas. E a visão correta sobre os contos de fadas não é aquele expresso pelos homens do nosso tempo. A bem da verdade, os contos de fadas não enganam o homem quando lhes mostra um rio correndo chocolate, mas o traz de volta à realidade. Eles nos mostram como as coisas são através de como não são. Pode-se fazer a objeção de saber que rios não correm chocolate, e isto é uma verdade, mas se esqueceu desta obviedade.

As coisas que nos são familiares quando a familiaridade gera afeição devem deixar de ser familiares quando a mesma familiaridade gera desprezo. Nós desprezamos que os rios correm água porque nos habituamos tanto que acabamos por nos esquecer; com efeito, o maravilhamento da criação é perdido e caímos na morbidez de quem é banal por não conseguir ser enfadonho o suficiente e se empolgar demais com tudo o que existe. As histórias infantis nos trazem esse reavivamento, o retorno da realidade por meio da adjetivação das coisas. Atribuímos características no Mundo Secundário que não estão presentes no Mundo Primário para que aquilo nos desperte o maravilhamento cá neste mundo com as coisas que temos. É preciso lembrar que além de ser grama, a grama também é verde. Um rio que corre chocolate pode ser maravilhoso, mas um que corre água também o é, pois poderia correr outra coisa, ou pior, não correr nada. O maravilhamento e a gratidão, eis o que os contos nos dão.

Se o mundo moderno está em decadência ética, muito se deve à negligência que ele dá aos contos de fadas. O simbolismo das histórias que nossas avós nos contavam é riquíssima. A história de Cinderela nos conta sobre a exaltação dos humildes, A Bela e a Fera, sobre que algumas coisas precisam ser amadas antes de serem amáveis. Nos contos de fadas a felicidade pende sobre um fio. Cinderela pode participar do baile, contanto que volte até a meia-noite, o jovem pode se casar com a princesa, mas desde que não pronuncie a palavra “cebola”, podemos ter nossas coisas cá no mundo em que existimos, mas desde que respeitemos e coisas que nossos colegas têm para que eles respeitam as nossas.

A base da ética está toda contida nos contos, e ela está posta do mesmo modo que muita vez está expressa no nosso mundo: de forma quase sempre ininteligível. Se Cinderela perguntasse a sua Fada Madrinha o porquê de ela ter de voltar antes da meia-noite, sua Fada Madrinha poderia respondê-la perguntando: “mas por que você pode ir ao baile?”. A concessão é tão compreensível quanto o impedimento. A dádiva e concessões da existência no Mundo Secundário subcriado pelo autor são maravilhosas do mesmo modo que o Mundo Primário é maravilhoso por ser Criação do Criador. Cavalo dado não se olha os dentes. O número de concessões gratuitas e não necessárias (do ponto de vista lógico, como a nossa existência que não é necessária) a que temos direito é muito maior que o número de impedimentos.

Dizem que um bom livro deve ser lido em ambos os sentidos: da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. E é assim pois o que tem lá é de tão tamanha grandeza, que devemos ler desta maneira para conseguirmos pegar o máximo do que está escrito, muito se deve a nossa inépcia. Este ensaio segue este modelo, mas não foi bem escrito, talvez você tenha que voltar para melhor compreender o que foi escrito anteriormente depois de ler o que vou escrever agora.

Tolkien diz que nós, homens, não criamos, apenas subcriamos. Assim, ele difere o mundo “real” que chamou de Mundo Primário, aquele que nós existimos, do Mundo Secundário, aqueles que nós criamos, ou melhor, subcriamos. Deus mantém a existência do mundo (Primário) pelo poder de sua Palavra na mesma medida em que o homem mantém a existência do mundo (Secundário) pelo poder de sua palavra, seja ela oral ou escrita. Tendemos a imitar nosso Criador, por isto Tolkien diz que o cristianismo é um Conto de Fadas, mas do tipo que invade o mundo primário e toma forma.

Como católico, para Tolkien o cristianismo contém toda a essência dos Contos de Fadas, e Chesterton o confirma quando ele descobriu que, por meio das histórias que sua babá lhe contava, muito do que ele foi descobrir no catolicismo já estava lá presente em meio às fadas. Cristo entra para a História. Nunca houve história que os homens quisessem tanto descobrir que era verdadeira, bem como nunca houve história que tantos homens por mérito próprio descobriram que de fato o era.

Há muito o que se dizer sobre o que foi dito, e muito mais sobre o que não foi, mas isto é coisa que cabe a gente mais competente que eu, então para elas deixarei o trabalho restante. Espero ter expresso, ainda que de forma sucinta, o que abarca o problema: negligência dos contos de fadas bem como das crianças, o que fez com que caíssemos nos problemas do mundo moderno e, por final, como a soma destes dois problemas nos fez perder a Fé, e como um bom conto pode restaurar a sanidade. A qualquer incoerência que tenha aqui, antes se deve exclusivamente a mim, que escreveu isto aqui numa tacada só e pouca revisão, que a Chesterton ou a Tolkien. Ademais, namárië.


William Chrystopher
William é analista de sistemas e administrador da página Santo Che(esterton) no Facebook. Essas são as únicas coisas sérias que se poderia dizer sobre ele, se ele mesmo não as tivesse escrito em terceira pessoa, o que triplica a pena do crime.

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