‘Sobre Estórias de Fadas’, de J.R.R. Tolkien: uma apresentação

por Cristina Casagrande

On Fairy-stories é o único ensaio teórico de Tolkien sobre o gênero que ele escreve em sua ficção. Ao contrário de outros ensaios teóricos, como Beowulf: the Monsters and the Critics ou Ancrene Wisse and Hali Meiðhad, mais voltados para a filologia, On Fairy-stories é um estudo mais literário-filosófico, embora contenha muitos aspectos filológicos, históricos, entre outros em sua análise.

A edição de 2006, da Conrad, com tradução de Ronald Kyrmse.

No Brasil, sua primeira edição é de 2006, com tradução de Ronald Kyrmse, pela editora Conrad. Recebeu o título Sobre Histórias de Fadas e, além do ensaio, o livro trazia também o conto Folha por Niggle [no original, Leaf by Niggle]. Em 2013, a editora WMF Martins Fontes lançou, também com tradução de Ronald Kyrmse, o livro Árvore e Folha, título derivado da coletânea de 1964, Tree and Leaf. A edição da WMF Martins Fontes trazia também o ensaio e o conto, mas com os títulos de Sobre Contos de Fadas e Folha de Migalha respectivamente. O livro foi reeditado pela mesma editora em 2017, com o intuito de ser utilizado na rede pública de ensino e, por isso, foi preciso incluir o nome do tradutor na capa para adequação das normas do Governo.

Edição de 2017, da WMF, com tradução de Ronald Kyrmse

O ensaio foi e ainda é palco para estudos desse gênero literário no mundo inteiro. No Brasil, chama a atenção a dissertação de mestrado de Reinaldo José Lopes, A árvore das estórias: uma Proposta de Tradução para Tree and Leaf, de J. R. R. Tolkien, defendida em 2006, na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo. Em sua dissertação, Lopes propõe uma tradução estrangeirizadora do ensaio On Fairy-stories, intitulando-o Sobre Estórias de Fadas. O conto Leaf by Niggle recebeu o nome de Folha de Cisco. A edição de 1988 de Tree and Leaf incluiu os poemas Mythopoeia e The Homecoming of Beorhtnoth Beorhthelm’s Son, traduzidos por Reinaldo Lopes como Mitopeia e O Regresso de Beorhtnoth, Filho de Beorhthelm, esse em tradução parcial.

Uma tradução estrangeirizadora existe em oposição à domesticadora, uma diferenciação proposta primeiro por Lawrence Venuti em The Translator’s Invisibility (1995), ainda que distinções semelhantes já existissem anteriormente nos Estudos da Tradução. O primeiro tipo, a tradução estrangeirizadora, busca manter o máximo possível a estrutura e estilo do idioma e do texto originais, enquanto a tradução domesticadora procura um estilo e dicção mais próximos daquilo que seria “natural” na língua para qual o texto é traduzido. Lopes escreve no resumo de sua dissertação:

Argumento que, adotando a perspectiva filológica que norteou o trabalho do autor britânico, bem como as ideias sobre as possibilidades da tradução propostas por Antoine Berman e Walter Benjamim, é viável recriar em português as conexões singulares entre língua, história e mito que marcam o trabalho de Tolkien.

A edição de 2020, da HarperCollins, com tradução de Reinaldo José Lopes.

Em 2018, a editora HarperCollins Brasil adquiriu os direitos das obras de J.R.R. Tolkien no Brasil, convidando tradutores como Ronald Kyrmse, Gabriel Oliva Brum e o próprio Reinaldo José Lopes para fazer parte do projeto, formando com eles e com os editores do projeto um conselho de tradução. Agora em abril de 2020, é lançada pela HarperCollins, uma nova edição de Árvore e Folha, com base nas publicações britânica (Allen&Unwin) e americana (Houghton Mifflin) de em 1988. A publicação traz, além do ensaio Sobre Estórias de Fadas e o conto Folha de Cisco, os poemas Mitopeia e O Retorno de Beorhntnoth, Filho de Beorhthelm, na tradução de Reinaldo José Lopes, tal como a sua proposta de tradução em seu mestrado defendido há catorze anos.

O Surgimento do Ensaio

O ensaio nasceu como uma palestra e não um texto escrito. Ela foi proferida em 1939, na Universidade de St. Andrews, em ocasião de uma conferência em homenagem ao autor Andrew Lang. O ensaio foi revisado e tomou a sua forma final em 1943. Essa foi a primeira vez em que o autor incluiu a ideia de que o evangelho estava ligado à questão da eucatástrofe. Quatro anos depois, o ensaio foi publicado pela primeira vez, por incentivo de C.S. Lewis, na coletânea Essays Presented to Charles Williams, um memorial ao poeta que dá seu nome à coletânea, dois anos após a sua morte.

Edição estendida de Verlyn Flieger e Douglas A. Anderson

Em 1964, como se disse, o ensaio foi publicado no livro Tree and Leaf, junto do conto Leaf by Niggle, com ilustrações de Pauline Baynes. A já citada edição de 1988 trouxe na capa a ilustração do próprio Tolkien.

Em 2014, Douglas A. Anderson e Verlyn Flieger fizeram uma edição expandida e comentada do ensaio, num livro intitulado Tolkien On Fairy-stories — expanded edition with commentary and notes, que pode ser vista ao lado.

Estrutura e Conteúdo

O ensaio é relativamente curto, mas bastante denso. Ele se propõe a responder a três questões: “o que são estórias de fadas? Qual é sua origem? Qual o uso delas?” (TOLKIEN, 2006, p. 40)[1]. Quanto à sua definição (“o que são”), o autor aborda a questão na seção “Estória de Fadas”; sobre a sua origem, a discussão se apresenta em  “Origens” e “Crianças” e, por fim, na parte em que ele discorre sobre o uso delas, o autor divide a questão em duas seções: “Fantasia” e “Recuperação, Escape e Consolação”. Há ainda um Epílogo em que Tolkien traz uma abordagem cristã para a questão da eucatástrofe e mais notas em anexo, em que o autor aprofunda alguns temas apontados no ensaio.

Faremos aqui uma síntese dos temas abordados no ensaio, buscando aprofundar os temas específicos em futuras oportunidades.


[1] A partir daqui, utilizaremos a tradução da dissertação de mestrado de Reinaldo José Lopes para as citações do ensaio. Nessa tradução, Lopes propõe uma diferenciação entre “story”, “tale” e “history”, sendo traduzidos como “estória”, “conto” e “história” respectivamente.


Definição

Quanto à definição de conto de fadas, Tolkien faz uma busca etimológica, ficando bastante insatisfeito com a definição do English Oxford Dictionary. As definições fairy tales (contos de fadas) seriam estreitas ou amplas demais, não chegando bem ao cerne da questão.

Representação de fadas diminutas, como uma herança da Modernidade

O autor então persiste em sua busca, desta vez procurando o verbete “fairy” (fada), mas isso o deixa ainda mais insatisfeito. O autor implica especialmente com dois adjetivos propostos pelo dicionário: sobrenaturais e diminutos. Segundo ele, o termo sobrenatural é mais apropriado a nós, humanos, que somos mortais no corpo, mas imortais no espírito. As fadas, por sua vez, seriam provenientes do mundo material, ou seja, essencialmente naturais, ligadas à Natureza.

Em sua busca, Tolkien fez uma observação que o julgou mais pertinente quanto às definições etimológicas acerca de estórias de fadas. Ele encontrou a seguinte citação do poeta Gower, em seu poema Confessio Amantis: “as he were of faierie, ‘como se ele tivesse vindo de Feéria’” (p. 47), diferentemente do que o dicionário propunha “as he were a faierie, ‘como se ele fosse uma fada’”. Dessa forma, a citação checada por Tolkien, colocava “faierie” não como um ser fantástico, mas, sim, um lugar.

Origens

Sobre as origens das estórias de fadas, Tolkien considera três vertentes dessa busca: a herança, dada pelo tempo; a difusão, dada pelo espaço e, por fim, a invenção, centrada no contador de estórias. Nesse aspecto, Tolkien discute a questão da autoria e traz, pela primeira vez, o termo subcriador, ao abordar a capacidade imaginativa do ser humano pela linguagem, especialmente pelo uso do adjetivo:

“A mente humana, agraciada com os poderes da generalização e da abstração, vê não apenas grama-verde, discriminando-a de outras coisas (e achando-a bela de contemplar), mas vê que é verde assim como é grama. Mas quão poderosa, quão estimulante para a própria faculdade que a produziu, foi a invenção do adjetivo: nenhum feitiço ou encantamento em Feéria é mais potente.
[…]
Podemos pôr um verde mortal no rosto de um homem e produzir um horror; podemos fazer a rara e terrível lua azul brilhar; ou podemos fazer com que bosques vicejem com folhas prateadas ou que carneiros usem velos de ouro, e colocar fogo quente na barriga da serpente fria. Mas em tal “fantasia”, como é chamada, nova forma é criada; Feéria começa; o Homem torna-se um sub-criador.”
(TOLKIEN, 2006, p. 67)

Para Tolkien afirma perguntar qual a origem das estórias “[…]é perguntar qual é a origem da língua e da mente” (p. 61), pois o mito busca resgatar o sentidos primordiais das palavras que se perderam na História. Assim, o mito era um modo de se compreender melhor a Verdade.

Ainda sobre as origens, Tolkien apresenta as três faces das estórias de fadas: a Mística voltada para o Sobrenatural; a Mágica voltada para a Natureza; e o Espelho de escárnio e pena voltado para o Homem. As estórias de fadas contêm as três faces, mas estão especialmente atreladas à mágica, ligada à natureza.

Ao discorrer sobre as crianças, Tolkien desmitifica a questão de que essas estórias são feitas especialmente para o universo infantil. Ao contrário, elas foram criadas para todas as pessoas, sendo necessárias especialmente aos adultos. Com a Modernidade, as estórias de fadas foram relegadas ao quarto das crianças, consideradas inferiores à Razão em um mundo cientificista e tecnicista.

Fantasia, Recuperação, Escape e Consolação

Ao tentar definir para que servem tais narrativas, Tolkien adverte que “se escritas com arte, o valor primário das estórias de fadas será aquele valor que, como literatura, elas partilham com outras formas literárias” (TOLKIEN, 2006, p. 99). Mas elas também oferecem outras coisas: fantasia, recuperação, escape e consolação.

Fantasia
Com a fantasia, Tolkien aprofunda a questão da linguagem, da imaginação e da subcriação. A imaginação, somada à arte pela linguagem, propicia a subcriação de universos imaginários. Já a fantasia é o resultado dessa arte subcriativa com o aditivo da estranheza e assombro.

Para que a fantasia esteja presente da melhor forma nas estórias de fadas, ela precisa ser bem colocada sem abusos e de forma coerente. É necessário conferir a consistência interna de realidade nas estórias de fadas, elas precisam ser críveis e verdadeiras naquele universo imaginado.  Ela não é incoerente com o mundo em que vivemos. Ao contrário, ela faz bom uso desse mundo para a sua subcriação.

Gandalf, John Howe

Quanto à magia, Tolkien a chama de encantamento, próprio da destreza élfica, ao produzir um Mundo Secundário pela linguagem. Em outros momentos, ela poderia ser considerada corruptora, ao interferir agressivamente no Mundo Primário.

Recuperação
As estórias de fadas também oferecem recuperação, e essa serve justamente como um remédio para esse apego ao poder corruptível do homem. Preso ao mundo material, ao racionalismo e ao tecnicismo, o homem precisaria recuperar o seu olhar para a realidade, para além das amarras do materialismo. A recuperação propõe enxergar o mundo como novidade outra vez, e as estórias de fadas, assim como a humildade, serviriam como um bom remédio para retomar nossa visão mais completa e coerente sobre o mundo e sobre nós mesmos.

Escape
Ao contrário das acusações de parte da crítica literária e dos racionalistas em geral, o escape não significa uma evasão da realidade. Ao contrário, as estórias de fadas propõem que existe muito mais a respeito da realidade do que o materialismo costuma enxergar. Nesse sentido, esse gênero literário oferece uma libertação em relação ao racionalismo.

Consolação
Há ainda o grande escape, o Escape da Morte, chamado por Tolkien de consolação. Por ser fiel à realidade, as estórias de fadas não negam a existência da fé no sobrenatural e, especialmente, a esperança de um final feliz. Para isso, Tolkien cria o neologismo eucatástrofe (do grego, boa catástrofe) para definir o final feliz das estórias de fadas em contraposição às tragédias. A eucatástrofe corresponderia a uma virada repentina, que ocorre de forma rara e surpreendente. Ela não nega o fracasso e o pesar, mas propõe uma superação da perda, da dor e do sofrimento; dá voz à esperança neste mundo ecoando a Esperança da Vida Eterna.

The Eagles are Coming, Michael Whelan

Em seu epílogo, Tolkien deixa clara a sua visão cristã desse gênero literário, propondo que ele seria um eco do evangelium (do latim, “boa nova”). Assim, as estórias de fadas, assim como a história de Cristo, começaria e terminaria em alegria.

De O Hobbit a O Senhor dos Anéis

Tolkien começou a escrever O Hobbit no início da década de 1930, publicando-o em 1937. Em março de 1939, quando o ensaio foi discursado na Universidade de St. Andrews, Tolkien já estava escrevendo O Senhor dos Anéis e pôde escrever a sua obra-prima de uma forma mais amadurecida que O Hobbit. Assim, o autor buscava construir o elemento fantasia de uma forma mais crível, conferindo mais consistência interna de realidade e tornando cenas, que geralmente sairiam cômicas, mais sérias e profundas.

O ensaio é imprescindível para quem quer estudar fantasia ou pretende ter mais consciência do que é a realidade e o papel da literatura frente a ela.


Obras citadas

TOLKIEN, J.R.R. “On Fairy-Stories”. In: ANDERSON, D. A.; FLIEGER, V. Tolkien On Fairy-stories — expanded edition with commentary and notes. London: HarperCollins, 2014, p. 27-84.
 _______. Árvore e Folha. Tradução: Reinaldo José Lopes. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2020.
______“Árvore e Folha”. Tradução: Reinaldo José Lopes. In: LOPES, R. J. A Árvore das Estórias: uma proposta de tradução para Tree and Leaf, de J.R.R. Tolkien. 115 f. Dissertação (Mestrado em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2006, p. 38-147.
 _______. Árvore e Folha. Tradução: Ronald Kyrmse. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.
 _______. Árvore e Folha. Tradução: Ronald Kyrmse. São Paulo: Conrad, 2006.


Cristina Casagrande é autora de A amizade em “O Senhor dos Anéis


5 thoughts on “‘Sobre Estórias de Fadas’, de J.R.R. Tolkien: uma apresentação

  1. Ai minha nossa, eu amo cada artigo que leio aqui sobre Árvore e folha. Esse universo muito me encanta e dá sentido ao que faço e aprender mais sobre ele aqui com vocês já está sendo muito bom. Obrigada porque vai me ajudar a reler esse ensaio do Tolkien, pois pra mim tem sido muita coisa para absorver e entender

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