O que o Rompimento da Sociedade do Anel tem a nos ensinar em tempo de quarentena

Por Cristina Casagrande

Tolkien passou quase a vida inteira escrevendo seu legendário, além de outras histórias além-Arda. O esforço descomunal para observar cada detalhe de seu mundo imaginário nos leva a questionar: para que tudo isso? No prefácio à segunda edição de O Senhor dos Anéis (2019: 32-3), o autor responde a essa questão ao abordar o significado de sua narrativa:

O motivo principal foi o desejo de um contador de histórias de experimentar escrever uma história realmente longa que cati­vasse a atenção dos leitores, os divertisse, os deleitasse e às vezes, talvez, os animasse ou comovesse profundamente.

O Senhor dos Anéis — e, por extensão, as demais histórias de Tolkien — têm, num primeiro nível, o simples motivo de divertir o leitor. Mas, observando melhor, ele traz outros termos além de remeter à mera diversão: a obra pretende cativar, deleitar e (às vezes) animar ou comover profundamente.

Em seu ensaio Sobre Contos de Fadas [no original, On Fairy-stories, que, no próximo mês, será lançado pela editora HarperCollins com o título Sobre Estórias de Fadas], Tolkien diz que o valor de uma estória de fadas, se for feita com arte, é o mesmo que ela compartilha com outras formas literárias. Ou seja, as estórias que envolvem um Mundo Imaginário, seja um simples conto de fadas popular, seja um romance de fantasia complexo criado por um escritor é, antes de tudo, literatura: é arte.

Three is Company, por Jenny Dolfen.

Estudos sobre o significado e a função da arte, desde a antiguidade até a contemporaneidade são diversos. Dentre eles, chama-nos a atenção a ideia clássica da capacidade contemplativa da arte. A beleza da arte (trazendo assombro e encantamento, atração e repugnância), para os antigos, estava ligada aos conceitos de bem e verdade. No pensamento do filósofo grego Aristóteles, a contemplação da verdade está estritamente ligada à virtude, que é o caminho para a felicidade.

Em Ética a Nicômaco, a amizade é um dos elementos que mais estão ligados à virtude e, assim, um dos que mais estão associados à ideia de felicidade do homem. É por isso que o elemento amizade é tão importante em O Senhor dos Anéis: além de colaborar para o desenvolvimento da narrativa, ele também contribui para o valor ético da obra.

Se Merry e Pippin não resolvessem acompanhar Frodo como cães de caça, eles não teriam conhecido Barbárvore, e Isengard não teria sido tomada durante o período da Guerra do Anel. Se o fiel jardineiro Sam não tivesse seguido seu mestre até o fim, essa convivência não teria gerado uma das mais belas amizades da literatura mundial — e Frodo provavelmente não teria chegado até as fendas de Orodruin. Se Éowyn não tivesse conhecido Merry com o punhal do Ponente, talvez não conseguisse enfrentar sozinha o Rei Bruxo de Angmar. Se Legolas e Gimli não tivessem se unido na Sociedade do Anel, eles não enfrentariam tantas batalhas até o fim e não formariam laços de amizade fraterna jamais vistos de forma tão bela e sólida na história dos elfos e anãos.

Os exemplos são inúmeros do quanto a amizade em O Senhor dos Anéis — e em outras narrativas do legendário e fora dele — é um elemento essencial para o desencadeamento da narrativa literária e para formação da beleza e da ética da obra. Mas não é só a união que configura essa beleza da amizade entre os povos livres e o desenvolvimento da narrativa. A separação, mesmo que dolorosa, também colabora para o fortalecimento de laços, muitas vezes invisíveis, entre os personagens centrais da trama.

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Gandalf, de John Howe.

Em Retórica del Personaje en la Literatura para Niños, a crítica literária Maria Nikolajeva observa que um dos motivos que colaboram para O Senhor dos Anéis não ser uma obra voltada para crianças como O Hobbit é o fato de ser uma obra extensa, envolvendo diferentes núcleos de personagens ao longo da história. É justamente a partir do Rompimento daSociedade do Anelque a narrativa amadurece.

A primeira grande perda é um pouco antes do rompimento, com a morte de Gandalf em Moria. Desolada, a comitiva perde seu líder físico e espiritual para seguir a Demanda. Essa cisão é a primeira prova de fé da Sociedade. Não há mais um sábio tutor para apontar um caminho, eles terão de seguir em frente, conferindo essa função ao futuro rei. Nessa prova, eles descobrem o valor místico e espiritual que o rei também possui — o qual, em uma ascendência deveras distante, também tem sangue maia — e percebem que devem continuar, mesmo se sentindo completamente perdidos.

Contudo, é um pouco mais adiante, depois de terem passado por Lothlórien, que o rompimento da Sociedade realmente acontece, embora todos permaneçam conectados pelo mesmo ideal. Frodo percebe que é uma grande isca para a tentação de seus amigos, ao permanecer entre eles com o Anel, especialmente depois do ataque de Boromir, e resolve partir sozinho na jornada. Ele consegue executar o seu plano em parte, pois Sam o descobre e resolve acompanhá-lo.

A partir de então, a Sociedade ficou fisicamente dividida, especialmente porque Boromir morre para salvar Merry e Pippin dos uruk-hais. Os dois hobbits vão parar na floresta de Fangorn e o restante da Sociedade, Aragorn, Legolas e Gimli, resolve perseguir os orques em busca dos Pequenos que desapareceram.

Com a sociedade interrompida, os personagens crescem na história a ponto de se tornar muito mais difícil definir quem é o herói ou o protagonista da história. Essa divisão física, paradoxalmente, colabora para a união de todos, pois têm o mesmo ideal: a destruição do Anel e a salvaguarda da liberdade dos povos da Terra-média.

Além disso, essa aparente divisão da comitiva do Anel apesar de ser extremamente dolorosa é, ao mesmo tempo, enriquecedora para o desenvolvimento desses indivíduos e para o fortalecimento das amizades mais próximas. Muitas vezes eles devem enfrentar a solidão e perigos jamais imaginados, mas com fé nas suas lutas e na esperança de uma vitória final, eles permanecem firmes. Nesses momentos, surgem novos amigos, o auxílio místico (ou mágico) que jamais imaginariam receber e transparece uma força que eles dificilmente acreditariam ter.

Em épocas difíceis, nas inúmeras batalhas que temos de enfrentar no Mundo Primário — e os entraves dessa nova doença é mais uma delas — ecoa-nos o famoso diálogo entre Frodo e Gandalf (Tolkien, 2019: 102-03):

“Gostaria que não tivesse que acontecer no meu tempo”, afir­mou Frodo.
“Eu também,” assentiu Gandalf, “e gostariam todos os que vivem para ver tais tempos. Mas isso não cabe a eles decidir. Tudo o que temos que decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado.


Obras citadas

Aristóteles. Ética a Nicômaco. Tradução: Luciano Ferreira de Souza. São Paulo: Martin Claret, 2016.

Nikolajeva, M. Retórica del Personaje en la Literatura para Niños. Tradução: Ignacio Padilla. México, D. F.: FCE, 2014.

Tolkien, J.R.R. Árvore e Folha. Tradução: Ronald Kyrmse. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014.

_______. O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. Tradução: Ronald Kyrmse. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2019.


Cristina Casagrande é autora do livro A Amizade em O Senhor dos Anéis


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