Referências a Tolkien em “Goblin Slayer”

Por Patrick Queiros

O que é Goblin Slayer?

Goblin Slayer [literalmente Matador de Gobelim] é uma light novel, isto é, um romance ilustrado de fantasia japonesa escrito por Kumo Kagyu e com ilustrações de Noboru Kannatuki. Aqui, analisarei a adaptação realizada em mangá e anime.

A obra conta a história de um aventureiro muito experiente cujo único interesse é matar gobelins. A narrativa começa com uma sacerdotisa entrando em um grupo de aventureiros; empolgados, eles assumem a missão de exterminar gobelins em uma caverna. Chegando lá, são atacados e todos os seus companheiros acabam violentamente aniquilados, sendo ela a única sobrevivente, salva pelo Goblin Slayer.

Reminiscência de Os Filhos de Húrin

Algo que chama a atenção na obra é a falta de piedade do Goblin Slayer para com os gobelins, pois ele utiliza quaisquer meios para matá-los, como emboscadas, armadilhas, veneno, fogo etc. Tais medidas cruéis lembram – ainda que não se possa dizer que sejam derivadas – os métodos usados pelos guerreiros, conforme relatado por Túrin: “Não apreciava o modo de combater dos elfos de Nargothrond com emboscadas, sigilo e flecha secreta” (TOLKIEN, 2009, p. 173).

Referência a O Senhor dos Anéis

Em O Senhor dos Anéis, os seres que habitam a Terra-média são ameaçados por Sauron, o segundo Senhor do Escuro.

No capítulo ‘O Conselho de Elrond’, em A Sociedade do Anel, é formado o grupo conhecido como “Os Nove Caminhantes”, composto por representantes dos diversos povos livres da Terra-média cujo objetivo era destruir o Anel de Poder de Sauron. Há uma semelhança no argumento da trama com o que acontece na obra Goblin Slayer, cujo enredo apresenta uma união de diferentes raças para enfrentar um mal maior que está causando destruição no mundo.

No quinto capítulo do mangá, relata-se que um dos lordes demônios despertou e quer exterminar vários povos. Logo, um conselho de reis de diferentes origens envia os seus representantes, visto que vários gobelins têm surgido e atacado os reinos dos humanos, elfos e anões.

Esses representantes procuram então um especialista em matar gobelins: o protagonista, chamado Goblin Slayer. Dessa forma, ele se junta ao grupo que é formado por uma elfa (arqueira), um homem (Goblin Slayer), uma maga (sacerdotisa), um anão (shaman) e um homem-lagarto.

Podemos observar, assim, uma similaridade entre O Senhor dos Anéis e Goblin Slayer, representada pela união de povos distintos e a ideia de um Senhor das Sombras que controla gobelins.

Trecho do vigésimo capítulo do mangá Goblin Slayer. A ordem de leitura é da direita para a esquerda, de cima para baixo.

No meio do arco da Cidade das Águas, no vigésimo capítulo do mangá, a elfa provoca o anão mencionando que os anões acidentalmente despertaram demônios subterrâneos e que, por isso, foram mortos, como pode ser observado no trecho citado. Há aí uma referência a Durin VI, Rei dos Anãos e ao reino de Moria, mencionado nos apêndices de O Senhor dos Anéis:

“Os anãos escavaram fundo nessa época, buscando mithril embaixo de Brainbar, o metal sem preço que ano após ano se tornava mais difícil de obter. Assim despertaram do sono um ser de terror que, fugindo de Thangorodrim, estivera oculto dos fundamentos da terra desde a chegada da Hoste do Oeste: um Balrog de Morgoth. Durin foi morto por ele, e no ano seguinte, Náin I, seu filho; e então passou a glória de Moria e seu povo foi destruído ou fugiu para longe.”
(TOLKIEN,2019, p. 1524)

Referências a O Hobbit

No mangá e no anime Goblin Slayer, há cenas narrando as memórias do protagonista Goblin Slayer. Uma dessas cenas revela que ele foi salvo na sua infância e treinado por um mestre misterioso. Em determinado momento durante o treinamento, o mestre deu ao Goblin Slayer alguns enigmas, sendo o seu último enigma: “O que eu tenho no meu bolso?” — uma clara referência a Bilbo Bolseiro, no livro O Hobbit.

Confira no frame abaixo:

Recordamos o trecho referente no capítulo cinco de O Hobbit, ‘Adivinhas no Escuro’, em que Bilbo, empatado com Gollum, tem a chance de fazer sua adivinha derradeira:

Bilbo se beliscou e se deu um tapa; apertou o cabo de sua pequena espada; até tateou o bolso com sua outra mão. Ali achou o anel que tinha pegado na passagem e do qual se esquecera.
— O que eu tenho no bolso? — disse em voz alta. Estava falando consigo mesmo, mas Gollum achou que fosse uma adivinha, e ficou
horrivelmente contrariado.”
(TOLKIEN, 2019, p. 104)

Outra referência muito clara aparece no final do no  episódio de Goblin Slayer, quando o título do episódio seguinte surge na tela: “Lá e de volta outra vez”, justamente o título alternativo de O Hobbit.


Ainda outra relação encontrada entre as obras diz respeito aos hábitos dos gobelins no mangá.  No capítulo 11 da versão Goblin Slayer Gaiden: Year One, é descrito que os gobelins não se aventuram longe de suas cavernas, a não ser que sejam expulsos. O mesmo é descrito em O Hobbit: “Os gobelins normalmente não se aventuram muito longe de suas montanhas, a não ser que sejam expulsos e que estejam procurando novas casas ou estejam marchando para guerra” (TOLKIEN, 2019, p.126).

Nesse caso, no mangá, diz-se que eles estavam procurando uma nova casa pois haviam sido expulsos e escolheram, então, uma vila para tomarem como seu território. O Goblin Slayer aceita a missão pois sabe que foi ele o responsável pela expulsão, tendo ido de caverna em caverna exterminando gobelins, fazendo com que eles fossem expulsos e tivessem que procurar outro local. 

Conclusão

Diante das semelhanças apresentadas, podemos constatar a forte influência das obras de J.R.R. Tolkien até em produtos culturais relativamente distantes do estilo tolkieniano, como ocorre nos mangás e animes japoneses. Mesmo em Goblin Slayer conseguimos observar ecos das histórias criadas pelo Professor, demonstrando um dos mais belos aspectos das lendas e mitos, a sua atemporalidade e capacidade de ganhar novos contornos por mãos diversas. 


Obras Citadas:

KAGYU, Kumo. Goblin Slayer Square Enix: Monthly Big Gangan. Disponível em: https://mangahost2.com/manga/goblin-slayer-mh30620

TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit: ou lá de volta outra vez. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2019.

______. O Senhor dos Anéis: As Duas Torres. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2019.

______. O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2019.

______. Os Filhos de Húrin. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.


Patrick Queiros é thain da Toca-BA

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