Kennings para olhar de novo

Por Eduardo Boheme

Quando lemos O Hobbit, deparamo-nos com algumas preciosas referências que parecem deslocadas no tempo e que foram, evidentemente, notadas por estudiosos de Tolkien. Uma delas é a menção ao surgimento do jogo de golfe; outra, o comentário de Glóin dizendo que Bilbo parecia um “grocer”, um “quitandeiro” na tradução de Reinaldo Lopes (Tolkien, 2019a: 43).

Ligeiramente anacrônicas como são, não apresentam um problema grave para a consistência interna de realidade, já que os hobbits, para Tom Shippey (2001: 6-7), são eles mesmos um elemento anacrônico na Terra-média, especialmente Bilbo, que tem traços fortes de uma burguesia vitoriana contrastando com o mundo heroico e antigo no qual Gandalf o atirou.

Ilustração de J.R.R. Tolkien.

Contudo, palavras como essas que mencionei colocam um problema tradutório especial para uma língua como o latim, que há muito tempo deixou de ter falantes nativos e que frequentemente carece de palavras para conceitos mais recentes. Alguém consegue imaginar o imperador Augusto jogando golfe depois de passar na quitanda?

Para uma porção de palavras como “golfe” e “quitandeiro”, o tradutor Mark Walker, em seu Hobbitus Ille (2012), precisou buscar soluções neolatinas.[1] No caso dessas duas palavras, ele trouxe pilamallei e uenditor condimentorum, respectivamente. O que se nota logo de cara é que são compostos que dizem algo sobre a natureza da coisa que nomeiam, a saber: pila (bola) + malleus (marreta) e “vendedor de condimentos”.[2]

Esse preâmbulo um pouco longo me leva ao ponto deste pequeno texto: que usar expressões descritivas é um modo interessante e benéfico de lançarmos um novo olhar sobre coisas banais, um método capaz de dar frescor poético àquilo que ficou embotado pelo hábito.

É algo que os escaldos, antigos poetas nórdicos, faziam muito e com excelência. Esse tipo de palavra composta recebeu um nome específico na literatura deles, e o conceito foi usado também para a literatura anglo-saxônica: kenning.

O que é um kenning? Melhor dar a palavra para alguém que entende melhor do assunto. Diz Tolkien (2015: 234):

Kenning é uma palavra islandesa que significa […] “descrição”. Da crítica islandesa antiga dos versos aliterantes nórdicos, ela foi tomada e usada por nós como termo técnico para aqueles compostos pictóricos descritivos ou breves expressões que podem ser usados no lugar da palavra simples e normal. Assim, dizer que “ele navegou sobre o banho do alcatraz” (I[nglês] A[ntigo] ganotes bæþ) é usar um kenning para o mar.

É importante, aqui, fazer uma distinção entre os kennings e os meio-kennings.[3] Um kenning é uma metáfora que identifica um referente por algo que ele não é. O “banho do alcatraz” é uma metáfora para o mar, mas não é uma descrição objetiva do mar. Igualmente, hildre-nædre (“víbora da batalha”) é um kenning porque chama uma coisa (flecha, no caso) de algo que ela não é. Por outro lado, quando Barbárvore se refere aos hobbits como laughing-folk (“seres risonhos” na tradução de Ronald Kyrmse [Tolkien, 2019b: 849]), ele está chamando os hobbits por algo que eles de fato são, usando não uma metáfora, mas um composto perifrástico descritivo: um meio-kenning, por assim dizer.

Se pudéssemos extrapolar ainda mais esses conceitos tão característicos do norte europeu (não façam isso em casa!) para a tradução em latim de O Hobbit, “uenditor condimentorum” estaria mais próximo de um meio-kenning, porque “vendedor de condimentos” não é uma metáfora e descreve objetivamente um quitandeiro. Claro, é uma extrapolação pouco técnica, já que os meio-kennings vêm na forma de uma única palavra, mesmo que composta.

*

Mas não pretendo aqui generalizar indevidamente o uso dos kennings, nem dizer que eles se aplicam a qualquer nome composto. Minha intenção é apenas encorajar um exercício íntimo e inofensivo de olhar para as coisas e buscar novas expressões para descrevê-las. Uma árvore talvez fosse o “quarto-do-rouxinol”, assim como o “banho-do-alcatraz” é o mar, metaforicamente. Por meio dessa ginástica mental seríamos capazes, por exemplo, de avaliar melhor qual o valor e o papel dessas coisas na nossa vida: um celular poderia ser, para alguns, a “barca-dos-germes” (eca!); para outros, o “chefe-portátil”. Para cada pessoa, as coisas mais simples seriam únicas, pois as combinações são inúmeras, e o exercício não requer nada além de nossa percepção e inventividade.

Strange Planet, de Nathan Pyle

Há também quem use os compostos descritivos para fazer humor de bastante qualidade. É o caso de Nathan Pyle, por exemplo, com seu perfil de tirinhas no Instagram chamado Strange Planet. Seus alienígenas azuis passam por situações curiosamente semelhantes ao nosso cotidiano, mostrando as pílulas de pequenos absurdos que nós humanos engolimos dia após dia sem nos darmos conta. Com seu engraçado inglês altissonante, os ETs usam palavras compostas para coisas muito comuns. Assim, uma máquina automática de vender comida vira um ‘gravity-induced sustenance releaser’; um ursinho de pelúcia é uma ‘fabric predator creature’, ao passo que um simples guarda-chuva se torna um refinado ‘skyshield’. Quem imaginaria que algo semelhante a kennings e meio-kennings estaria em voga no falar cotidiano desse planeta estranho!

Strange Planet, de Nathan Pyle

Em um dos mais belos textos escritos por Tolkien (2002: 316), o Diálogo de Finrod e Andreth, a humana Andreth menciona um ditado que corre em meio aos seus: ‘Too often seen is seen no longer’ [Não se vê mais o que se vê demais]. É natural que as coisas passem por esse processo de “desaparecimento” diante de nossos olhos, especialmente quando temos pouco tempo para olhá-las detidamente. Mas nesses dias tão estranhos em que muitos talvez tenham um minutinho a mais para pensar na morte da bezerra, podemos nos dar ao luxo de sacudir a poeira das coisas ao olhá-las novamente, até virginalmente, e nos perguntarmos ‘como eu chamaria essa coisa se não pudesse chamá-la como eu sempre a chamo?’. É nesse momento que uma das centelhas do encantamento mitopoético risca o ar.


Notas

[1] O Neolatim foi um dos “renascimentos” da língua latina depois que ela deixou de ser uma língua nativa. A introdução de termos novos para conceitos novos (como “golfe”) é uma característica de tais renascimentos.

[2] De maneira semelhante, Peter Needham, em sua tradução para o latim de Harry Potter e a Pedra Filosofal, usou a pomposa expressão circumvectione mechanica para traduzir “carrossel” (Rowling, 2003: 14).

[3] A explicação deste texto é reducionista pelo bem do didatismo. Para explicações mais completas de autoridades no assunto, cf. Williamson, 2017: 17-8, que usa de fato o nome half-kenning e Brodeur, 1971: 249-51, que prefere o termo islandês kend heiti. Uma explicação de kennings e heiti centrada na literatura islandesa antiga pode ser encontrada em Whaley, 2005: 486-88.


Obras citadas

Brodeur, Arthur G. 1971. The Art of Beowulf (Berkeley: University of California Press)Rowling, J.K. 2003. Harrius Potter et Philosophi Lapis, trans. by Peter Needham (London: Bloomsbury)

Shippey, Tom. 2001. Tolkien: Author of the Century (London: HarperCollins)

Tolkien, J.R.R. 2015. Beowulf: Uma Tradução Comentada, trans. by Ronald Kyrmse (São Paulo: WMF Martins Fontes)

______. 2012. Hobbitus ille, trans. by Mark Walker (London: HarperCollins)

______. 2019a. O Hobbit, trans. by Reinaldo José Lopes (Rio de Janeiro: HarperCollins)

______. 2019b. O Senhor dos Anéis: As Duas Torres, trans. by Ronald Kyrmse (Rio de Janeiro: HarperCollins)

______. 2002. Morgoth’s Ring, ed. by Christopher Tolkien (London: HarperCollins)

Whaley, Diana. 2005. ‘Skaldic Poetry’, in A Companion to Old Norse-Icelandic Literature and Culture, ed. by Rory McTurk (Oxford: Blackwell), pp. 479-502.

Williamson, Craig (trans.). 2017. The Complete Old English Poems (Philadelphia: University of Pennsylvania Press)


Eduardo Boheme é mestre em Tradução Literária pelo Trinity College da Universidade de Dublin


3 thoughts on “Kennings para olhar de novo

  1. Mais um texto perceptivo do Eduardo, que muito ensina sobre tradução, “kennings”, e a familiaridade que se torna em estranheza quando a observamos de uma perspectiva um pouco diversa.
    Já dizia O Professor que a exótica palavra MOOREEFFOC é apenas a prosaica COFFEEROOM… vista do lado de dentro da vitrine.

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