“A Viagem de Meteóris”: fantasia nacional delicada e rica que surpreende o leitor

Por Lorena S. D’Ávila

Há quem diga que a fantasia épica de J.R.R. Tolkien estabeleceu um novo padrão de escrita no mundo, sugerindo novas propostas não apenas às estruturas de histórias nos livros, mas também no cinema e nos games. De repente, o conto de fadas que começava e se encerrava tão breve quanto uma mágica, que tinha uma única moral, às vezes uma bruxa trapaceira, uma fada zombeteira ou animais falantes, ganhou uma dimensão muito maior e mais complexa.

Por um lado, é irrevogável a revolução que isso proporcionou para o gênero. Mas por outro, parece que muitos escritores ficaram presos nessa ideia de criar um legendarium, de colocar em suas histórias diferentes raças e misturas de raças, sempre trazendo para a narrativa os mesmos seres que já conhecemos de outros carnavais: elfos, orques, gobelins, anãos, magos e homens, porém com conflitos diferentes.

Por mais fantástico que isso possa parecer, alguns acreditam que essa estrutura é o suficiente para fazer de suas histórias um sucesso, ou que todo o êxito de Tolkien se atribui a essa ideia, o que é irreal. Sobram elementos como geografia, passado histórico, política, línguas, mapas e um universo que parece pouco para o que querem colocar nele e falta o principal: personagens bem desenvolvidas, cativantes, que não são guiadas necessariamente por superpoderes e sim por virtudes que resgatam a essência humana: coragem, determinação, esperança e fé, armas muito mais valiosas ao embarcar em uma aventura.

A Viagem de Meteóris: o lançamento de uma escritora – On fairy-stories
Isabella Lotufo, autora

Essa simplicidade deliciosa, repleta de uma inocência quase mágica, encontrada em raras fantasias e nos mais simples contos de fadas, identificamos no livro infanto-juvenil A Viagem de Meteóris, escrito por Isabella Lotufo. Surpreendentemente, a história da jovem menina que precisa dar uma volta ao mundo como uma forma de conclusão de um ciclo escolar e iniciação à fase da adolescência, se revela uma encantadora jornada até mesmo para os adultos. É impossível conter a ansiedade para saber o que mais Meteóris poderá enfrentar em seu misterioso caminho.

Romancista Ana Miranda

Parte daquilo que nos instiga mais na narrativa, sem dúvida, é o planeta Domus criado por Isabella, mas principalmente sua imaginação rica que nos conduz por continentes, países, florestas, praias e campos completamente fantásticos num excelente exercício de imaginação, como bem pontua a apresentação do livro, escrita por Ana Miranda.

A criatividade com a qual nos deparamos é dona de uma autenticidade difícil de se encontrar hoje em dia, as inspirações e referências ficam claras; Isabella traz elementos de obras famosas como Harry Potter, A História sem Fim, O Mágico de Oz e tantos outros ícones da fantasia, mas há um tom descritivo muito particular empregado pela autora, bem como ideias que são uma mistura inteligente desses universos com o seu próprio.

A aventura vivida pela protagonista Meteóris é divertida, transmite a sensação de que estamos viajando junto com ela e assim somos conduzidos por uma mitologia que traz elementos gregos, nórdicos, chineses e até indígenas, com apresentação de lendas e misticismo que foram completamente retrabalhados pela escritora. O livro torna-se assim uma fonte de conhecimento e curiosidade.

Isabella, como sua Meteóris, não parece temer nada: perigos, mortes, maldades, tristezas e decepções espreitam discretamente a narrativa, mas não amedrontam a garota de atitude, que sempre faz o que precisa ser feito, motivada por suas crenças. Assim como Isabella, que confiou na capacidade de seus jovens leitores de entenderem que infortúnios podem surgir no meio do caminho e é preciso lidar com eles da melhor forma. Nesse sentido, a obra é também educativa e sensível.

Domus é dividido pelos continentes: Artes, Natureza, Paz, Astromagia e Invisível, que, ao mesmo tempo que nos lembra de nosso mundo, se distancia, criando a sensação de que fomos transportados para uma realidade paralela, aonde se pode chegar atravessando um portal secreto. Domus é tão rico e vasto, que poderia facilmente ganhar desdobramentos em mesas de RPG, desenho animado, HQs e principalmente outros contos e livros da escritora.

Isabella Lotufo - A viagem de Meteóris

O universo de Isabella ampara a história, sustentando não somente A Viagem de Meteóris, mas mantendo-se fértil para muitas outras aventuras que, por enquanto, ficarão à cargo da imaginação de quem tem a obra em mãos. Algumas personagens são muito atrativas, como o misterioso Ruiz, mestre Ágathus, Hekla, a mulher-foca, Letho e tantos outros, sendo fortes candidatas a protagonizarem possíveis continuações. Fato é que Domus tem grande potencial e merece ser explorado; a escrita leve de Isabella deixa uma porta aberta muito convidativa para embarcarmos em novas jornadas, o famoso “gostinho de quero mais”.

Apesar de o livro ser destinado ao público mais novo, seria injusto não revelar ao leitor que um olhar mais atento à leitura pode captar situações e personagens que não foram tão bem descritos. Há motivações expansivas demais que encontram explicações pouco razoáveis, momentos em que sentimos falta de um “porquê” que vai além do “porque sim”, personagens envoltos em muitos mistérios cuja resolução é desinteressante, por muitas vezes por falta de aprofundamento.

Levando em consideração que toda a história é narrada pela garota numa breve carta para um amigo distante, até que é justificável a pressa que atropela alguns acontecimentos, mas isso atrapalha a narrativa em alguns momentos, gerando dúvidas e deixando lacunas.

Não se pode negar que o trabalho de um escritor é minucioso e nem sempre certos detalhes na construção de sua história irão agradar a todos. Faz parte do ofício sempre melhorar, mas quem escreve sabe que a perfeição na escrita é inalcançável, principalmente porque ela torna-se parte de um mundo de múltiplos olhares.

O processo de Isabella durou quase dez anos, como ela conta em entrevista para o Tolkienista, e essa dedicação é perceptível não apenas em conteúdo, mas também na edição caprichada, que conta com ilustrações da autora e um pôster lindo com arte criada por Marina Faria. Vale ressaltar, que em meio a grandes dificuldades que o nosso mercado editorial ainda impõe aos escritores nacionais, é uma verdadeira prova de amor a escrita não desistir de dar luz a essas histórias.

A Viagem de Meteóris é uma obra pode encontrar espaço nos corações daqueles que apreciam boas fantasias, na verdade, ela é digna dessa posição.


A Viagem de Meteóris
★★★★☆
Autora: Isabella Lotufo
Páginas: 320
Editora: Edições Sinete (produção independente)


Lorena S. Ávila é jornalista, formada pela Universidade Metodista de São Paulo. Tolkienista de coração, ama a arte de contar histórias e acredita no poder das narrativas.



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