Vita tolkieniana

Por Guilherme Mazzafera

O exercício biográfico é perigoso por sua ânsia explicativa, em especial pelo desejo muitas vezes obtuso de construir os liames causais entre vida e obra. Sobre os riscos de tal empresa, adverte-nos W. H. Auden: “Um escritor é um criador, não um homem de ação. Em verdade, algumas e, em certo sentido, todas as suas obras são transmutações de experiências pessoais, mas nenhum conhecimento dos ingredientes crus explicará o sabor peculiar dos pratos verbais que ele convida o público a provar: sua vida privada não diz, nem deveria dizer respeito a ninguém a não ser ele mesmo, sua família e seus amigos.” (AUDEN apud CARPENTER, 1983, tradução minha). A opinião de Auden era tão inflamada que ele dizia ser melhor que os autores publicassem suas obras anonimamente, o que obrigaria os leitores a se concentrarem no que interessa: o texto. De forma mais explícita, deixou ordens para que suas cartas (inclusive as enviadas a amigos) fossem queimadas de modo a inviabilizar qualquer projeto de biografia.

Diferente do ex-aluno e devotado defensor, J.R.R. Tolkien mostrou-se mais aberto, aceitando algumas entrevistas e a realização de um documentário sobre sua vida em Oxford, por exemplo. Recusou, no entanto, a escrita de um livro sobre sua obra por parte do mesmo Auden (ver a carta 284), considerando tal anseio uma impertinência prematura, e que, em seu caso, deveria no mínimo aguardar a publicação de O Silmarillion. Na “Nota do autor” de J.R.R. Tolkien: uma biografia — lançada originalmente em 1977, mesmo ano em que O Silmarillion chegou às livrarias, e (re)lançada aqui, em 2018, pela HarperCollins Brasil, com tradução de Ronald Kyrmse —, Humphrey Carpenter informa que essa aversão de seu biografado suavizara-se nos últimos anos, a ponto de Tolkien “ter feito alguns preparativos nesse sentido”, acrescentando notas a documentos antigos e mesmo escrevendo “algumas páginas de reminiscências de infância”. Ao desvelar tais preparativos com apuro e cuidado a fim de “lançar alguma luz” sobre os escritos do autor, Carpenter produziu uma obra de referência que se lê como os melhores romances.

O primeiro capítulo do livro reconta as impressões do biógrafo ao visitar a casa de Tolkien em 1968, descrevendo em breves pinceladas sua garagem-escritório repleta obras de referência filológica e etimológica, um mapa da Terra-média “preso por alfinetes ao peitoril da janela” e uma arca antiga, repleta de cartas. O anfitrião o recebe com leve ressaibo, abrandando-se ao longo do colóquio ostensivamente dominado por “uma voz estranha, profunda mas sem ressonância […] como se viesse de uma outra era ou civilização”, que se expressa sem muita clareza, aos borbotões, entremeados por pausas profundas. A fala se mescla a uma movimentação constante, marca inequívoca de um “espírito irrequieto”. Em uma dessas pausas, Carpenter declara suas intenções, que, curiosamente, parecem interessar a Tolkien.

Humphrey Carpenter

Em “Observando Fotografias”, um dos capítulos mais emblemáticos do livro, Carpenter propõe um percurso imaginativo sobre um dia (a)típico na vida de Tolkien que recusa a pretensão totalizante da explicatio para lançar múltiplos fachos luz em atividades rotineiras. A ida matinal à missa, por exemplo, faz-se índice de um comprometimento religioso profundo, herdado da mãe, cuja morte prematura infundiu-lhe “violentas oscilações de ânimo”, resultando em um caráter apaixonado, “incapaz de expressar uma opinião sem entusiasmo”, fato que se refrata na voz lépida e esbravejante que entoa o “Hwæt” inicial de Beowulf, na galofobia, na preferência pelos autores antigos e nas crises intermitentes de desesperança registradas com frequência nos diários. Vejamos outro exemplo: ao se deter sobre os instantâneos do Tolkien de meia-idade, o que mais parece chamar a atenção de Carpenter é justamente seu modo de vestir, composto por trajes “que são excepcionalmente comuns”. A partir dessa constatação, Carpenter supõe que, em parte, os trajes indiciam “a necessidade de sustentar uma família grande com uma renda relativamente baixa, que não lhe permitia gastos pessoais extravagantes”.

No entanto, a constrição econômica não explica tudo, pois há algo de marcadamente pessoal nessa escolha, uma aversão ao dandismo — evidenciada de modo mais intenso no amigo C.S. Lewis —, afetação que lhe parecia pouco masculina. Um passo além e a recorrência dos paletós de tweed, calças de flanela (sempre passadas), sapatos marrons e óculos regulares permite vislumbrar o apego a certos “valores positivos, o seu amor por tudo que fosse moderado, sensato, discreto e inglês”. Entre opiniões efusivas e um guarda-roupa modesto, eis Tolkien: um viking de tweed bebendo cerveja artesanal.

Um possível caminho para compreender a vita tolkieniana elaborada por Carpenter dá-se pela tensão profusa entre permanência e mudança, que se desdobra em diversos níveis e, no limite, organiza-se no embate entre Providência e livre-arbítrio admiravelmente analisado por Tom Shippey em The Road to Middle-earth (1982). A contingência, a ação de forças maiores e mesquinhas como o dinheiro nos parece indigno da vida de um autor de gênio. No entanto, não deixa de ser também algo que nos aproxima de sua humanidade: as interrupções constantes na realização de um projeto de vida, o desânimo diante do que parece inacabável, mesmo para ele; a progressiva falta de forças impostas pela velhice; o sentido agudo de isolamento, agravado pelas sucessivas perdas (dos amigos da T.C.B.S. ao dileto Lewis e, mais tarde, do amor de toda uma vida).

Northmoor Road n.20, casa onde Tolkien viveu. Fotografia de Jonathan Bowen.

De modo mais específico, poucas pessoas mudaram tanto de casa quanto Tolkien e sua família. Se pouco viajou, a permanência nesses lugares, sobretudo em Oxford, implicava mudanças constantes de domicílio, ainda que seja para a casa vizinha, como na passagem do n. 22 para o n. 20 da Northmoor Road, uma de suas casas mais icônicas. Sua animosa rejeição ao automóvel e ao motor de combustão significa quase sempre a conversão das garagens em improváveis escritórios/estúdios — e o leitor tem um pouco a sensação de que a extrema atenção e detalhismo da obra se contrapõem a uma vida em certa medida improvisada — ainda que pudesse contar com um emprego estável e de prestígio, mesmo que não tão bem remunerado assim, situação que só se remediará com o sucesso internacional da obra. Extrapolando um pouco, a obra, nunca acabada — e não seria esse inacabamento uma espécie de projeto? —, propiciava o sentido de permanência inalcançável na vida. No entanto, sua própria mitologia é marcada por um senso profundo de ruptura e desvelamento temporal, algo bastante forte na passagem da Terceira para a Quarta Era e o domínio dos homens em O Senhor dos Anéis, obra vincada por certo tom elegíaco que vai gradualmente impregnando a narrativa.

Toda obra literária contém em si um gérmen de imortalidade — e Tolkien diz não ser outro o cerne vivo de sua obra: “O verdadeiro tema para mim é sobre algo muito mais permanente e difícil [do que Poder e Dominação]: Morte e Imortalidade — o mistério do amor pelo mundo nos corações de uma raça ‘fadada’ a deixá-lo e aparentemente perdê-lo; a angústia nos corações de uma raça ‘fadada’ a não deixá-lo até que toda a história deste mundo estimulada pelo mal esteja completa.” (TOLKIEN, 2006, p. 236) A dedicação assídua e interminável aos ciscos de cada detalhe evidencia um prazer profundo do gesto criativo expresso habilmente no seu famoso conceito de subcriação que, levando em conta o inegável viés religioso, refere-se à forma que ele considerava mais elevada de participação em Deus. Diferente de Auden, Tolkien não queria que seus papéis fossem queimados; ansiava, antes, pela permanência destes e, em um vislumbre megalômano de uma ideia de arte próxima do Gesamtkunstwerk wagneriano, por sua continuidade a partir do trabalho de muitas mentes e mãos:

Não ria! Mas, certa vez (minha crista caiu há muito tempo), tive a intenção de criar um corpo de lendas mais ou menos interligadas, que abrangesse desde o amplo e o cosmogônico até o nível do conto de fadas romântico — o maior apoiado no menor em contato com a terra, o menor sorvendo esplendor do vasto pano de fundo — que eu poderia dedicar simplesmente à Inglaterra, ao meu país. […] Eu desenvolveria alguns dos grandes contos na sua plenitude e deixaria muitos apenas no projeto e esboçados. Os ciclos deveriam ligar-se a um todo majestoso e ainda assim deixar espaço para outras mentes e mãos, munidas de tinta, música e drama. Absurdo.

(CARPENTER, 2018, p. 128)

Tolkien, de fato, realizou esse “absurdo”. Seja por projeto ou contingência, conseguiu dar uma forma mais ou menos acabada aos três grandes contos (Os Filhos de Húrin, Beren e Lúthien e A Queda de Gondolin), construiu o arcabouço cosmogônico que encontramos em O Silmarillion e modelou a estória de fadas romântica, engastada no “esplendor do vasto de pano de fundo”, que lemos em O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Mas, também, deixou muita coisa esboçada e inacabada.

Parece-me, no entanto, que tal anseio de continuidade é infundado. Para além das mãos de Christopher Tolkien e de algumas contribuições de importantes tolkienistas como Verlyn Flieger (que editou A História de Kullervo, The Lay of Aoutrou e Itroun, além da organização de versões críticas de Ferreiro de Bosque Grande e Sobre Estórias de Fadas, este último em parceria com Douglas A. Anderson), não é possível vislumbrar a expansão desse universo como se deu, por exemplo com Star Wars, cuja definição propositalmente vaga dos elementos principais (o que é a força?) estimula o input externo — que pode ou não ser referendado em cânone, posição nunca de todo estável, como a Disney deixou bem claro — e, atualmente, vai de encontro ao dogmatismo radical de alguns fãs diante dos novos filmes, que seriam refratários de uma essência bem pouco discernível. No caso de Tolkien, não se trata de continuar sua mitologia, mas sim de tornar disponível ao público, em versões inteligíveis, o que ele mesmo compôs, sem esquecer, no entanto, que o todo o vasto cabedal de obras publicadas a partir de O Silmarillion é, também, fruto de trabalho editorial.

O grande mérito do texto de Carpenter — a despeito da canonização que o torna suspeito e refém dos interesses familiares, algo que também se aplica à sua organização das Cartas, em que o aspecto da edição é bastante evidente — é a atenção para detalhes miúdos que complexificam a vida do biografado aproximando-o de nós, ao mesmo tempo em que postula uma diferença indevassável. A construção apaixonada de uma mitologia tem seus custos, como a percepção aguda do biógrafo — que nisso cumpre os requisitos básicos do grande romancista — da liga orgânica entre a rotina (im)permanente e a obra inacabável, atravessada por fraturas familiares (a, por vezes, onerosa herança materna e os descompassos da vida a dois) e pessoais (o desânimo renitente e a evanescência do tempo), permite entrever, o que torna o Tolkien de Carpenter tão vívido, humano e próximo — com uma leve permuta verbal entre “ler” e “escrever” — de um dos mais pungentes relatos sobre um professor universitário, o Stoner de John Williams:

Por vezes, imerso em seus livros, vinha até ele a consciência de tudo que não sabia, de tudo que não havia lido; e a serenidade pela qual laborara despedaçava-se ao perceber o pouco tempo que tinha em vida para ler tanto, para aprender o que devia saber. [1]

A escrita de Tolkien, sem ser um antídoto impossível à descontinuidade incessante da vida moderna, alinha-se fortemente à percepção de escritores emergidos dos escombros da Guerra sobre a dissolução da experiência e de valores comunais, incluindo a própria possibilidade de compor estórias. Seu esforço criativo contínuo, seja no refinamento dos detalhes ou na gestação de novos fios narrativos, a despeito da inconstância da vida, parece-me uma lição fundamental, uma espécie humilde de resiliência que também nos cabe como leitores e que se encontra habilmente resumida por um fragilizado narrador de Guimarães Rosa:[2] “Narrar é resistir”. Resistamos.


Uma versão mais ampla deste texto foi publicada no blog Letras in.verso e re.verso.


Notas
[1] Tradução nossa. No original: “Sometimes, immersed in his books, there would come to him the awareness of all that he did not know, of all that he had not read; and the serenity for which he labored was shattered as he realized the little time he had in life to read so much, to learn what he had to know”.

[2] Trata-se de “Com o vaqueiro Mariano”, incluído no livro póstumo Estas estórias (1969).


Obras citadas

CARPENTER, Humphrey. W. H. Auden: A Biography. Londres: Unwin Paperbacks, 1983.
______. J.R.R. Tolkien: uma biografia. Tradução de Ronald Kyrmse. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2019.
TOLKIEN, J.R.R. As cartas de J.R.R. Tolkien. Organização de Humphrey Carpenter com a assistência de Chistopher Tolkien. Tradução de Gabriel Oliva Brum. Curitiba: Arte e Letra Editora, 2006.
WILLIAMS, John. Stoner – A novel. Vintage Classics, 2012.


Guilherme Mazzafera é revisor e tradutor da HarperCollins Brasil.


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