Considerações sobre o uso de “Ociente” em O Silmarillion

Franz Brehme

Das muitas palavras que podem ter causado estranhamento ao leitor da nova tradução de O Silmarillion, uma em específico me chamou a atenção. Seu emprego demonstra todo o trabalho de pesquisa minucioso que o tradutor e todo o Conselho de Tradução da HarperCollins Brasil têm dedicado à obra.  

A palavra à qual me refiro é “Ociente” e, após um tour por algumas páginas e grupos de redes sociais, pude perceber que alguns leitores têm interpretado essa palavra como sendo um erro de digitação, um typo, pois o “certo” seria “Ocidente”. Convém esclarecer, desde logo, que não é bem assim e tratarei de explicar adiante.

Aproveito para escrever este texto como uma forma de homenagear o trabalho do tradutor, uma verdadeira ode a essa função muitas vezes negligenciada. Gostaria de evidenciar, por meio de uma breve análise do emprego de “Ociente”, como o trabalho de tradução é hercúleo e, aqui, primoroso, especialmente quando busca trazer ao leitor brasileiro uma experiência o mais próxima possível daquela vivida pelo leitor no original.

O termo no texto original

O Silmarillion não é leitura simples nem para os leitores anglófonos, e Tolkien tinha alguma noção disso. Ainda que não tenha visto a obra publicada, escreveu, em 1956, o seguinte sobre a versão então existente de O Silmarillion, conforme citado por seu filho Christopher na introdução de The Book of the Lost Tales [O Livro dos Contos Perdidos], Parte 1, em The History of Middle-earth [A História da Terra-média]: “…eu não acredito que teria o apelo do S.A. — sem hobbits! Cheio de mitologia e “elficidade” e todo aquele “estilo elevado” (como Chaucer poderia dizer), o que tem sido tão pouco para o gosto de muitos críticos”.

Embora saibamos que O Silmarillion publicado (decorrente do trabalho de edição de Christopher Tolkien com o auxílio de Guy Gavriel Kay) não seja o mesmo “Silmarillion” a que se refere Tolkien na citação acima, vale dizer que pouco mudou-se no “tom” e na “ambientação” proporcionada pela versão publicada. Disso se pode teorizar que o próprio Tolkien tinha ciência (e até mesmo reconhecia) a complexidade que era a leitura da obra de sua vida.

Como muitos já falaram e é possível atestar na leitura das obras (os Contos Inacabados são um belo exemplo disso), J.R.R. Tolkien era extremamente preocupado com nomes e as histórias decorrentes deles — não só a história factual, mas também etimológica, ou seja, a origem das palavras e sua posterior evolução. Essa preocupação também parece estar na cabeça do atual tradutor de O Silmarillion: ele demonstra, ao longo de sua tradução, que realizou profundo trabalho de pesquisa (e provavelmente travou discussões imensas com seus colegas do Conselho de Tradução) e que possui uma alta carga de estudo e erudição, tanto sobre obra completa do autor, como com relação aos dois idiomas da obra (o de origem e o da tradução).

A Tolkien Compass, onde o “Guide to The Names in The Lord of The Rings” surgiu pela primeira vez

Dito isso, vamos ao que importa: parto do princípio de que a palavra “Ociente” realmente causa estranheza, especialmente porque ela não é de uso corrente. Muito pelo contrário, é uma palavra arcaica, foi usada em Portugal entre os séculos XII e XVI e, por conseguinte, desconhecida da maioria das pessoas, como é contumaz ocorrer com muitas das palavras antigas. O mesmo ocorre com a palavra no original: Westernesse.

Mas o que é, exatamente, Westernesse? Como muitos já sabem, após algumas frustrações agudas com as primeiras traduções de O Senhor dos Anéis para outros idiomas, J.R.R. Tolkien resolveu escrever um guia sobre como traduzir os nomes de sua obra, o famoso “Guide to the Names in the The Lord of the Rings”, mais tarde, “Nomenclature of The Lord of the Rings” — sobre isso, há uma questão de direitos autorais que não cabe discutir neste espaço.

Diz o Guia:

Westernesse. Tradução: O nome de Númenor em Língua Comum (que significa “Terra do Oeste”). Significa ocidental (“western”) + “ess”, uma terminação usada em nomes parcialmente afrancesados de terras “românticas”, como Lyonesse, ou Logres (Inglaterra no Romance Arturiano). O nome realmente ocorre no antigo romance Rei Chifre (“King Horn”), de algum reino que se alcança por barco. Traduzir para alguma invenção similar contendo Oeste — ou seu equivalente. A versão sueca emprega Västerness, a holandesa Westernisse.

Logo, o elemento Oeste/Ocidente deve estar presente, com algum acréscimo. E, por uma escolha que me parece laudatória ao nosso idioma, o tradutor optou por Ociente. Mas essa palavra existe em português? 

Alguns pressupostos

Antes de tentar responder à essa pergunta, vamos nos debruçar sobre algumas questões pertinentes ao tema. Na Carta 276, de 1965, J.R.R. Tolkien fala que o nome é derivado da rara palavra Westernesse, em inglês médio: “onde o significado é vago, mas que pode significar ‘Terras Ocidentais’, em distinção ao Leste habitado pelos pagãos[1] e sarracenos”.[2]

O romance antigo King Horn, mencionado por Tolkien nessa carta e no guia, foi escrito em inglês médio e justamente faz menção a Westernesse, uma parte das Ilhas Britânicas. Qual parte, exatamente, não se pode identificar, sendo a própria história ambígua neste ponto, talvez a Península Wirral, talvez a Ilha de Man.

Ainda que não tenha sido a intenção de J.R.R. Tolkien, é impossível resistir à tentação de ver um vislumbre de conexão entre Westernesse e Lyonesse (também mencionada no Guia), que seria uma espécie de “Atlântida Britânica”.

Tristan, Second Goddess

No Ciclo Arturiano, Lyonesse é uma região da Bretanha ocidental onde habitariam antigos e altivos homens, mas que afunda sob as ondas. Alguns dos cavaleiros do Rei Artur teriam vindo dessa terra, sendo Tristão um dos mais conhecidos.

Curioso notar que Tolkien menciona, na carta 257, um sonho recorrente sobre uma cidade em uma ilha que é tragada pelo Oceano, sua “assombração de Atlântida”, como ele mesmo diz na referida carta:

Essa lenda ou mito ou lembrança turva de alguma história antiga sempre me incomodou. Ao dormir eu tinha o terrível sonho da Onda inelutável, ou saindo do mar calmo, ou elevando-se sobre as verdejantes terras do interior. Ele ainda ocorre ocasionalmente, apesar de agora exorcizado por escrever sobre ele. Ele sempre termina em capitulação, e acordo ofegando ao sair de águas profundas. Eu costumava desenhá-lo ou escrever poemas sobre ele.

Inclusive, isso virou objeto de um conto inacabado, o The Notion Club Papers, publicado no volume 9 de The History of Middle-earth, o Sauron Defeated [Sauron Derrotado]. O texto é uma versão de J.R.R. Tolkien à queda de Atlântida (e é uma espécie de sátira ao grupo de Tolkien, Os Inklings), com elementos muito interessantes.

Outra curiosidade: após a queda de Númenor, os elfos passaram a chamar essa “terra decaída”, em Quenya, de “Atalantë”, uma clara conexão com o mito grego.

Voltando às conexões arturianas: há muito pontos de contato com a obra de Tolkien, sendo os mais óbvios os nomes de lugares, por exemplo:

  1. a cidade porto de Avallónë, em Tol Eressëa, e sua gritante ligação com a Avalon do Ciclo Arturiano. No volume 12 da História da Terra-média, o The Peoples of Middle-earth [Os Povos da Terra-média], Christopher Tolkien observa em uma das revisões que Tolkien fez em “O Conto dos Anos da Segunda Era” que seu pai substituiu “Avallon” por “Eressëa”; e
  2. nas primeiras versões dos Contos Antigos, o nome Broseliand foi utilizado e depois, conforme a história foi evoluindo, foi substituído por Beleriand. Brocéliande é uma floresta mágica bastante comum no mito arturiano, famosa por abrigar a tumba do mago Merlin.

[1] No original, Tolkien usa a palavra arcaica “paynim”, normalmente traduzida como “pagãos”, mas usualmente utilizada para se referir aos islâmicos.

[2] Tradução do Gabriel Oliva Brum para as Cartas de J.R.R. Tolkien, da editora Arte & Letra.


Sobre a palavra “Ociente”

Os idiomas mudam com o passar do tempo, palavras se transformam, expressões se aglutinam, outras se preservam ou ainda caem no esquecimento. Com o nosso português não poderia ser diferente. Ociente é uma dessas palavras que mudaram e que, na sua versão original, caiu em desuso. 

Tive a felicidade de descobrir, anos atrás, uma obra (consultei a segunda edição, de 1865) que ajudou muito nesta investigação. Talvez até tenha sido utilizada como referência pelo tradutor, visto que esta é a única obra do tipo que conheço — sendo ele um profissional e acadêmico, deve ter acesso a outras obras dessa natureza.

Trata-se do “Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram: obra indispensável para entender sem erro os documentos mais raros e preciosos que entre nós se conservam/Publicado em beneficio da litheratura portugueza por Fr. Joaquim de Santa Rosa Viterbo”. O título da obra fala por si só e, caso esteja curioso para vê-la, poderá fazê-lo on-line no site da Biblioteca Nacional de Portugal neste link aqui. Vou chamá-la apenas de “Elucidário”.

E o que diz o Elucidário?

OCIENTE: Desde o Sec. XII. até o XVI. São innumeraveis os Doc. Que nomeão as quatro partes do mundo com os nomes seguintes: Levante, ou Soão, o Nascente. Abrego, Vendaval, ou Alcouço, o Sul. Aguiom, ou Aquilom, o Norte. Travesia, e Ociente, o Poente.

Ora, a palavra realmente existiu e foi utilizada por cerca de cinco séculos em Portugal! E que melhor oportunidade de trazê-la à luz na obra que nos apresenta a cosmogonia de Arda em todo seu esplendor? Pareceu-me de uso muito acertado, pois contempla a “estranheza” de “Westernesse” com seu significado (“Ocidente” + “algum acréscimo” que, no caso, é o resgate de uma palavra que não se utiliza mais em nosso idioma). Mas poderia, muito bem, ser a tradução de alguma equivalente a Oeste/do Oeste, como consta do Guia acima citado.

Essa última opção foi a solução utilizada pela tradução espanhola, da Editora Minotauro, que emprega “Poniente” para “Westernesse”. Essa palavra significa justamente Ocidente, com o detalhe que Poniente é uma palavra comumente empregada pelos falantes espanhol/castelhano, sendo equivalente a “West”.

Conclusão

Com tantos detalhes em apenas uma palavra, sejam internos ou externos à obra, a escolha do vocábulo para a nova tradução não poderia ser mais acertada do que “Ociente”. Trata-se de verdadeira prova da competência e seriedade do trabalho da equipe de tradução da HarperCollins Brasil, representada pelo tradutor Reinaldo José Lopes, bem como uma prova de amor (ainda que involuntária) ao nosso belo idioma que Olavo Bilac tão carinhosamente apelidou de “Última Flor do Lácio”.

Sob pretexto de informar e complementar um pouco o conhecimento dos leitores sobre a obra e o processo de tradução, acabo por fazer uma ode ao trabalho de todos os tradutores: para utilizar uma figura de Umberto Eco, é graças ao trabalho deles em escrever quase a mesma coisa, mas em nosso idioma, que temos acesso a tantas obras maravilhosas produzidas em outros países. Ergam seus copos (ou chifres de beber) em honra a esses profissionais!

Saúde!

Obras consultadas

TOLKIEN, J.R.R., CARPENTER, H. (org) TOLKIEN, C. (assist). As Cartas de J.R.R. Tolkien. Curitiba:Arte & Letra, 2010.

TOLKIEN, J.R.R., LODBELL, J (org). Guide to the Names on the The Lord of the Rings, por J.R.R. Tolkien, In.: “A Tolkien Compass”, Nova York: Del Rey, 1975.

TOLKIEN, J.R.R. O Silmarillion. Tradução: Reinaldo José Lopes. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2019.

TOLKIEN, J.R.R. The History of Middle-earth — The Book of the Lost Tales I. London: HarperCollins, 2015.

VITERBO, J.S.R. Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram: obra indispensável para entender sem erro os documentos mais raros e preciosos que entre nós se conservam. Disponível em < http://purl.pt/13944/3/ > [Acesso em 18 Ago. 2020]


Franz Brehme descobriu Tolkien no comecinho dos anos 90 e nunca mais deixou de se maravilhar.


2 thoughts on “Considerações sobre o uso de “Ociente” em O Silmarillion

  1. Em primeiro lugar obrigado pela elucidação, realmente não sabia disso, e obrigado pelo link do elucidário de palavras, fiquei curioso, assim que possível vou folheá-lo.
    Salve-me engano a outra tradução havia o termo “extremo Ocidente”, para se referir a Aman, talvez venha dai as pessoas pensarem ocidente, além de fato pensarmos inicialmente em um erro de digitação.
    Achei interessante você citar a tradução espanhola, da Editora Minotauro, pois justamente estou lendo essa versão el livro de los cuentos perdidos 1, já que não sei inglês e achei a palavra Poniente de certo modo acessível pois em uma rápida pesquisa do dicionário aparecia “oeste”, um colega que sabe bem o idioma disse a a palavra ainda era utilizada em alguns locais.
    Ainda não li esse livro na nova tradução, ele tem a tradução da palavra ao final do livro? Apesar de você ter mostrado o trabalho editorial na escolha da palavra, tem a questão que a língua é um organismo que se modifica, então a palavra seria acessível aos leitores? já que para a maioria é uma leitura por diversão, as pessoas provavelmente não iriam se debruçar para fazer uma pesquisa como essa, iram ao google de maneira rápida. Claro que também cabe ao leitos certa busca, lembro que quando lis alguns livros clássicos da literatura brasileira como “Senhora”, ia procurar palavras como canapé.

  2. Salve Patrick!
    Eu que agradeço!
    Eu não entendi a que você se refere com “tradução ao final do livro”.
    Sobre o estranhamento ao leitor, etc., parto do princípio de que O Silmarillion não é fácil para o anglofano e não deveria ser para o lusófano, como o próprio Tolkien deve ter ponderado. Outrossim, em Monsters and the Critics, ele também fala que na tradução de Beowulf não poderiam ser empregadas palavras totalmente desconhecidas e em desuso – o que não penso que é o caso, já que a palavra é reconhecível.

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