Northmoor Project: o antigo lar da família Tolkien como um atrativo popular

Lorena S. Ávila

Casas são o bem material pelo qual desenvolvemos grande apego, não por acaso, já que é entre suas paredes que a maior parte da vida acontece. É dentro de casa que os dramas — e também as alegrias — são plenamente vivenciados. É na busca por um café na cozinha, nos jantares em família, durante um banho quente e no aconchego dos ambientes, que os pensamentos vagam pelos cômodos e dão origem a grandes ideias.

É nesse simbolismo da importância do lar que supostamente se pauta o Project Northmoor, campanha iniciada no dia 2 de dezembro que alega ter como finalidade comprar uma das casas na qual viveu o renomado escritor J.R.R. Tolkien, e transformá-la num centro cultural educacional. O imóvel, localizado no número 20 da Northmoor Road, em Oxford, não foi a única morada de Tolkien nessa rua, mas tornou-se ponto icônico pois foi lá que, entre os anos de 1930 a 1947, Tolkien escreveu suas duas obras mais importantes: O Senhor dos Anéis e O Hobbit. Nesse mesmo endereço, Tolkien também criou seus filhos e até recebeu visitas ilustres de amigos como C.S. Lewis, autor de As Crônicas de Nárnia.

As cartas do Papai Noel de Tolkien também eram enviadas a esse endereço

Liderado pela escritora de romances Julia Golding, com seu marido, o advogado Joss Saunders, e os irmãos Brian e Frances Boyd, especializados em comunicação e marketing, o projeto recebeu o apoio de celebridades como Ian Mckellen (Gandalf), Martin Freeman (Bilbo jovem), John Rhys-Davis (Gimli) e a cantora Annie Lennox. O vídeo promocional da campanha, divulgado amplamente na mídia, ainda reúne nomes de pesquisadores, como Joseph Loconte, autor de Um Hobbit, Um Guarda-Roupa e uma Grande Guerra (recém lançado no Brasil pela editora Trinitas) e Michael Ward.

Juntos, eles fazem um apelo que foi utilizado como slogan oficial da campanha: “Salvem a casa de Tolkien” e pedem doações a fim de arrecadarem cerca de £4,8 milhões de libras (aproximadamente R$33 milhões de reais). De acordo com o site oficial, o valor é necessário para adquirir o imóvel e dar sequência ao projeto, que tem como metas principais a restauração do jardim, a construção de uma casa de hobbit no quintal e a elaboração de cursos, workshops, palestras e outros programas de formação artística presenciais e online. Até agora, foram arrecadados cerca de £500 mil libras.

Print do vídeo campanha com imagem de todas as personalidade que participaram.

Para alguns fãs, a ideia pareceu atraente, afinal, não é sempre que lhes é oferecida a oportunidade de adentrar o escritório em que Tolkien concebeu sua majestosa fantasia. Por outro lado, importantes entidades como a Tolkien Society e respeitáveis tolkienistas como Troels Forchhammer levantarem suspeitas.

O FAQ do site se dedica em responder algumas das principais dúvidas, principalmente esclarecendo que ainda que tenha o intuito de dar continuidade ao legado de Tolkien, o projeto não terá o foco direcionado exclusivamente para as obras do autor. Mesmo assim, para muitos entusiastas do Professor, o caráter vago do conteúdo proposto e das metas estabelecidas, foram cruciais para determinar seu posicionamento contrário ou, no mínimo, reticente.

Afinal, qual é a natureza do projeto? Registrado parcialmente como caridade e parcialmente como negócio, fica implícito que o centro cultural poderá ser parte privatizado, mantendo até mesmo um serviço de hospedagem. Algumas pessoas alegam que isso não seria um centro de Tolkien , mas um local de retiro espiritual e criativo, que por acaso, seria sediado na casa de Tolkien. Os questionamentos levaram Julia e sua equipe a reeditar a página do projeto no dia 08, atualizando com mais informações e, inclusive com uma agenda prévia de cursos de escrita criativa presencial que propõe um tour pelos locais que Tolkien esteve, e um voltado para o gênero fantasia, online.

A Tolkien Society declarou formalmente concluir, por meio de uma análise de todo o projeto tal como apresentado, que este não está de acordo com o que eles acreditam que deva ser uma entidade de fomento aos estudos e promoções culturais da obra de  J.R.R. Tolkien. Leia a carta na íntegra. Confira a tradução da carta da TS para o português publicada pelo canal Tolkien Talk no Instagram.

Para o canal norte americano Nerd of The Rings , no YouTube, a escritora  concedeu uma live, com perguntas e respostas, esclarecendo questões de seu projeto. Procurando transparecer o semblante amigável, mas visivelmente tensa, ela defendeu a causa: “Eu não estou tentando enganar ninguém. Estou tentando criar algo maravilhoso para os fãs de Tolkien”.

Assim como no mundo, no Brasil, os fãs também ficaram divididos. O Conselho Branco Sociedade Tolkien no Brasil, entidade que representa a união de todas as smials, ou tocas brasileiras — pequenos núcleos filiados à Tolkien Society britânica ­— colocou em seu site oficial uma nota em desacordo com o Northmoor Project, por não enxergar credibilidade no projeto. Confira a nota do Conselho Branco aqui. Em meio à tantas declarações e perspectivas divergentes, buscamos entender o cerne da proposta, formulando um conteúdo informativo que visa expor para o leitor os diversos pontos de vista.

Em sua fala, a escritora conta que sua maior inspiração seria a Wordsworth House, centro recreativo criado na casa do poeta William Wordsworth. O local oferece seminários, passeios pela natureza, espaços para fotos, diversas atividades artesanais e funciona como uma entidade de preservação ambiental, além de estar estabelecido como uma grande instituição de caridade que não necessariamente se dedica às obras de Wordsworth no geral. Nesse centro, os preços das visitas variam de £4 libras até £24 libras, o que pode nos dar uma base do valor que a ser cobrado para futuros passeios na casa de Tolkien.

Durante a entrevista para o site, ela ressalta que “adoraria fazer parcerias com outros grupos que estudam Tolkien”, embora o projeto não seja voltado para a comunidade acadêmica. Ela também fala abertamente sobre ter respaldo jurídico para atuação. Após solicitarmos um posicionamento de Julia sobre a carta publicada pela TS, a escritora decidiu postar um vídeo em suas redes sociais, esclarecendo que ambos os projetos possuem objetivos diferentes e por isso não seguirão parceiros. Veja o vídeo na íntegra.

Na entrevista a seguir, enviamos a Julia Golding perguntas importantes para todos que desejam compreender melhor a campanha e suas diretrizes. Infelizmente, as respostas foram bastante pontuais, e a entrevistada, apesar de nossa solicitação, não deu nenhuma devolutiva para esclarecer as diversas dúvidas que julgamos fundamentais. 

Julia é escritora na Inglaterra

Confira a entrevista completa:  

Você se considera uma fã de Tolkien? Já participou de projetos promovidos por outras entidades culturais envolvendo o universo Tolkien? Conte um pouco sobre a sua relação com o autor.

Eu amei essa pergunta! Na pressa de fazer esta campanha decolar, pouquíssimas pessoas realmente me perguntaram por que decidi dedicar tanto tempo e energia a ela. Eu li O Senhor os Anéis pela primeira vez quando tinha 10 anos e fiquei completamente viciada. Terminei O Retorno do Rei e logo em seguida recomecei a Sociedade do Anel porque não queria deixar seu mundo. Então, desenvolvi o hábito de lê-lo cerca de uma vez por ano. A capacidade de Tolkien de criar um mundo de fantasia que tivesse profundidade e amplitude foi (e é) uma inspiração para mim como escritora de mais de 60 romances para todas as faixas etárias e em muitos gêneros. Visito muitas escolas fazendo palestras sobre livros como parte do meu trabalho como autora e posso relatar que ele é uma inspiração para muitos jovens. Eu amo seus valores, a coragem dos hobbits no mundo das pessoas grandes, os vislumbres da época de Tolkien nas relações sociais. Tolkien também é um escritor brilhante que descreve a natureza, particularmente bosques e árvores. Seu feitiço era tão forte que me convenceu de que a melhor coisa que eu poderia fazer na vida era me tornar uma escritora e lançar meus próprios pequenos feitiços sobre os leitores. Também tenho formação acadêmica em literatura (doutorado pela Universidade de Oxford), então também o apreciei como crítico literário e tradutor.

Diga-nos como e quando o projeto Northmoor foi idealizado? Como todos vocês se uniram para fazer isso acontecer?

Tudo começou quando eu e meu marido passamos em frente a casa e vimos que estava à venda. Estávamos cientes de que não havia um centro sobre Tolkien, como há para tantos outros escritores no Reino Unido. A casa parecia o local perfeito para isso. Começamos conversando com os vizinhos e o conselho local para descobrir o que era possível em uma rua residencial tranquila. Investigamos várias rotas para criar um centro criativo, mas então a pandemia aconteceu e engavetamos a ideia. Só em novembro a revivemos, desejando criar algo esperançoso em um ano difícil. Vamos terminar 2020 com algo positivo.

Existe algum outro projeto semelhante relacionado a outro autor que o inspirou a fazer isso?

Existem muitas casas no Reino Unido dedicadas a outros autores: a casa de Jane Austen em Chawton, a cidade natal de Shakespeare em Stratford, o Dickens Museum em Londres, a casa de Wordsworth em Lake District. Tudo isso é uma inspiração, especialmente a casa de Wordsworth, que também convida as pessoas a vir e ficar para conferências em Grasmere todos os anos. Em cada caso, a casa está no centro de um programa inspirador construído no exemplo do escritor. Parece extraordinário que não haja um para Tolkien — ainda!

Você já pensou em se aliar a outras entidades relacionadas a Tolkien, como a Tolkien Society? Você pediu apoio de estudiosos de Tolkien e outros estudiosos no Reino Unido? Em caso afirmativo, por que a maioria deles não está envolvida no projeto? No geral, o que eles disseram a você?

O Projeto Northmoor é uma instituição de caridade independente, mas estamos ansiosos para trabalhar com todos os nossos colegas entusiastas e especialistas de Tolkien. Existem muitas maneiras de valorizar o autor, nossa abordagem a ele como fonte de inspiração é apenas uma. Recebemos grande apoio dos acadêmicos com quem falamos, alguns dos quais aparecem em nosso vídeo de campanha. Convidamos os estudiosos que estão lendo isto a participarem junto conosco.

A casa é grande para uma família, mas talvez pequena para visitantes. Você sabe quanto custariam as atividades lá? Você não acha que pode se tornar um projeto de elite?

Felizmente, a casa tem o tamanho certo para cursos de redação criativa e pequenos grupos. Os custos variam de acordo com a duração da estadia e o curso. Nossa arrecadação de fundos inclui o objetivo de doar bolsas de estudo para ajudar as pessoas de baixa renda a participarem.

Quintal da antiga casa de Tolkien na Northmoor Road, 20.

Como você planeja manter o projeto vivo?

Essa será a parte divertida.Vamos elaborar com os apoiadores um programa que eles considerem envolvente e criativo. Temos muitas ideias, mas estamos sempre abertos a sugestões.

A casa é um edifício registrada como Grade II no Reino Unido, o que significa que não pode ser demolido ou alterado sem permissão especial. Por que a campanha do projeto afirma que a casa deve ser salva?

Isso é verdade: está registrada e é uma das razões pelas quais ainda é muito parecida com os dias de Tolkien no que diz respeito à planta do quarto e ao tamanho do jardim. A velha garagem ainda sobreviveu. “Salvar” é no sentido de torná-la aberta aos entusiastas de Tolkien para visitar, em vez de desaparecer em mãos particulares e ficar fechada. O registro de grau II é um bem precioso que precisa ser defendido ativamente contra a pressão dos construtores no Reino Unido.

Na Inglaterra, a placa azul indica que uma pessoa importante viveu na propriedade.

No seu site, você diz que as doações são anônimas, por isso as celebridades que estão no seu vídeo não aparecem como patrocinadoras do projeto. No entanto, essas celebridades poderiam pagar, se quisessem. Por que você ainda precisa de doações de pessoas comuns?

Esse projeto é sobre pessoas comuns e seu apoio. Recebemos mensagens adoráveis ​​de apoio de pessoas de todo o mundo e doações de mais de 80 países. Também somos muito gratos pela atenção que as celebridades podem dar a uma causa. Os que participaram do vídeo são amigos maravilhosos, mas não são responsáveis ​​pela arrecadação de fundos do Projeto Northmoor.

Você também disse que a casa também será um centro de criatividade, não apenas um prédio dedicado a Tolkien, o que significa que você deseja apoiar novos escritores e artistas. Gostaríamos de saber como Tolkien é contemplado no projeto: ele seria mais uma referência, ou você tem um plano especialmente focado em suas obras?

Tolkien é definitivamente a inspiração. Elaboramos um programa inicial de eventos que deve dar uma boa ideia sobre nossos planos, é possível acessá-lo no site. Infelizmente, a situação do COVID-19 significa que temos que esperar antes de saber quando um programa poderá iniciar.

Você preparou um plano de ação caso a meta seja atingida? Você já tem uma equipe de colaboradores?

Temos a sorte de ter uma grande equipe de voluntários ao redor do mundo ajudando na campanha. As primeiras conversas começaram com os tutores e especialistas do curso, mas existimos há apenas algumas semanas, então trabalharemos muito mais nisso. Há um grupo muito forte de colegas escritores em e ao redor de Oxford, pessoas talentosas estão à nossa porta.

Está escrito no seu site que pretende fazer retiros, embora diga que o projeto também não é religioso. Então, que tipo de retiro você pretende fazer?

Retiros de escrita. São tempos em que não se pode ficar parado, sem fazer um curso ou ter um espaço para desempenhar a escrita.

Existem algumas manifestações públicas contra o projeto, como Shaun Gunner e Troels Forchammer, incluindo uma declaração pública da Tolkien Society. Qual é a sua posição em relação a isso?

Seria ótimo descobrir áreas nas quais podemos trabalhar juntos. Um centro para inspirar uma nova criatividade na próxima geração de escritores e artistas não está em sua área de atuação, como eu entendo, mas pode haver outras coisas que poderíamos fazer juntos.

Por que você não tem o apoio do Tolkien Estate ou de outras entidades como a Tolkien Society ou mesmo a Universidade de Oxford, por exemplo?

Temos contatos muito bons na Universidade de Oxford, com muitos acadêmicos que nos apoiam, e faculdades que desejam colaborar conosco. Adoraríamos trabalhar com os outros grupos que você mencionou e esperamos estabelecer um bom relacionamento com eles quando virem o que fazemos, mas não pretendemos ser um centro de pesquisa acadêmica. Também esperamos fazer parceria com outros centros de escrita criativa no Reino Unido e em outros lugares.

Não tendo o apoio de Estate, você não está preocupada com questões legais que podem surgir do uso do nome de Tolkien? Podemos ver que você usa o nome de algumas das criaturas do legendário dele no site, especialmente nos certificados como presente de hobbit e presente de Valar, por exemplo. Você tem permissão para fazer isso?

Operamos sob os princípios de  “fair use” e respeitamos todos os direitos legais. Em nosso site, temos algumas canecas de café e camisetas e itens relacionados à venda. Estes são trabalhos originais e não usam nenhum direito autoral ou marca comercial de outras pessoas. Os doadores receberão um certificado em reconhecimento de sua doação, mas o certificado não se refere a nenhuma marca ou nome protegido.

Se o projeto não arrecadar dinheiro suficiente, você não devolverá as doações para quem não usou o PayPal. Em seu site, é dito que você o usaria para objetivos de outras instituições de caridade. Quais são esses objetivos concretamente? por que não realocar esta doação para outra instituição sem fins lucrativos focada em Tolkien, seja na Inglaterra ou em outros países ou simplesmente não emite um reembolso aos doadores?

As doações via Paypal não envolvem uma concessão fiscal, portanto, somos livres para reembolsar os doadores e cumprir totalmente com a lei de caridade ao fazer isso. O mesmo acontecerá com a nova página do JustGiving, dentro das regras dessa plataforma. No caso de fundos isentos de impostos, as regras fiscais exigem que a doação seja usada para fins de caridade. Se não adquirirmos a casa, ficaremos livres para destinar a doação a outras instituições sem fins lucrativos, desde que atendam aos requisitos da Comissão de Caridade, ou para realizar oficinas de escritores e outros eventos em Oxford, conforme estabelecido em nosso site.

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Lorena S. Ávila é jornalista, formada pela Universidade Metodista de São Paulo. Tolkienista de coração, ama a arte de contar histórias e acredita no poder das narrativas.

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