Presentes de Natal: o que os filhos de Tolkien recebiam do Papai Noel

Cristina Casagrande

“O que você vai ganhar de Natal?” Essa é uma das principais perguntas que as crianças — e os adultos — se fazem nesta época do ano, e não é de hoje, tampouco exclusivo ao Brasil. Discussões à parte, se isso é bom ou não, podemos aprender muito com a cultura de uma época ao conhecermos os presentes natalinos recebidos (ou não) pelas crianças.

No ano passado, fizemos uma resenha do livro Cartas do Papai Noel, de J.R.R. Tolkien, dando um panorama geral sobre o conteúdo do livro, seu contexto histórico e pessoal e seu desenvolvimento ao longo dos anos. Desta vez, apresentamos um pormenor desse conteúdo: os presentes que os filhos de Tolkien pediam e recebiam do bom velhinho.

No Natal de 1920, seu filho primogênito John, de três aninhos, recebeu sua primeira cartinha e, com ela, um desenho do Papai Noel e de sua casa. Ainda não temos um registro de um presente clássico como estamos acostumados, mas o desenho era bem elaborado e caprichado — o que não deixa de ser um belo presente.

Em 1923, quando John já tinha seis anos e o pequeno Michael tinha três, o primeiro brinquedo de fato foi mencionado:

“Estou mandando muito amor a você (e muito para o Michael também) e muitos Lotts Bricks […] Eu acho que eles são mais bonitos, resistentes e caprichados do que os da marca Picabrix.”

Os Lotts Bricks surgiram em 1917 e se referem a conjuntos de blocos da empresa homônima, fundada por Ernest Lott. O brinquedo, projetado por Arnold Mitchell, foi um dos precursores dos blocos de montar que conhecemos hoje de madeira ou de plástico, esses últimos popularizados pela marca Lego. Mas os Lotts Bricks eram todos feitos basicamente de pedra ­— embora parecessem pedra de verdade, segundo o pesquisador Gary Birch, elas eram pedras artificiais — simulando um material de construção bem próximo ao que os adultos usam para construções de fato.

De acordo com o site “Watford Observer”, “os tijolinhos [bricks] se tornaram um sucesso depois de a Primeira Guerra interromper as ligações de mercado entre a Grã-Bretanha e a Alemanha, que era a produtora anterior de muitos brinquedos de construção”. Segundo o site, em seu lançamento, as primeiras caixas de Lotts Bricks foram trazidas pela Rainha Mary de Teck, esposa do Rei George V, e depois se espalhou por todos os lares britânicos.

Na carta, o Papai Noel também menciona a marca concorrente Picabrix, lançada em 1921. O site The Brighton Toy and Model Index traz a apresentação da marca, prometendo desbancar o concorrente:

“BOM DIA para vocês, crianças, meu nome é Picabrix, eu vim para diverti-las. Eu sou um camarada muito simples e tenho certeza de que, quando me conhecerem, o que acontecerá em cerca de cinco minutos, nós iremos ser grandes amigos e companheiros inseparáveis. Neste livro, eu vou mostrar como fazer muitos brinquedos, apenas aqueles divertidos, e quando se cansarem de fazer um, vocês podem pegar as suas peças e fazer outro novinho. Eu não vim para brincar apenas com os meninos mais velhos como certos parentes meus, mas também com a irmãzinha e o irmãozinho. Eu vim para tomar o lugar daqueles velhos blocos e dominós estúpidos que vão insistir em desmoronar quando chegamos bem perto de terminar a construção. […] Quando você tiver construído simples modelos e perceber o quanto sou fácil de brincar, você vai querer construir os maiores, aquela grande TORRE EIFFEL, o belo GIANT SWING, e a esplêndida RODA GIGANTE que irá girar igualzinho aquela em Blackpool.”

Traduzir brinquedos, especialmente estrangeiros e de uma época distante da nossa, é algo desafiador, pois a eles trazem consigo componentes culturais e linguísticos muito específicos. No texto original, por exemplo, Tolkien faz um trocadilho com a palavra “lots” e a marca Lott’s:

“I send you lots of love (and lots for Michael too) and Lotts Bricks too (which are called that because there are lots more for you to have next year if you let me know in good time).”

Que ficaria como:

“Eu envio a você um monte de amor (e um monte para o Michael também) e Lotts Bricks também (que são chamados desse jeito porque tem um monte a mais para você ganhar no próximo ano, se me deixar saber no tempo certo).

Mas para fazer mais sentido em português, teria de deixar uma nota explicativa:

“Lotts Bricks foi uma marca de brinquedos inglesa (de 1918 até a década de 1960), que trazia pequenas peças como tijolinhos e telhados para montar construções miniaturas. Aqui o narrador faz um trocadilho com Lott’s (Bricks) e “lots”, que significa muito, um monte.”

Por uma decisão editorial, optou-se por não deixar notas no livro, por se tratar de um livro para crianças pequenas (embora encante leitores de todas as idades), deixando a explicação no corpo do texto, dando mais fluidez à leitura.

Em 1924, aos quatro aninhos, Michael ganha a sua primeira carta. E seu presente é uma locomotiva. Veja alguns modelos de um brinquedo desse tipo da época:

Neste site, existe uma réplica, porém totalmente reformada:

Em 1925, Papai Noel afirma em sua carta problemas com os presentes: “coisas horríveis têm acontecido, alguns dos presentes foram arruinados”. Essa, provavelmente, era uma forma de justificar a escassez de presentes, pois a Inglaterra passava por uma crise econômica nas minas de carvão, o que resultou em uma greve geral do setor no ano seguinte. Nessa ocasião é que aparece efetivamente o Urso Polar do Norte, e suas histórias cheias de trapalhadas — bem como os desenhos delas — serviram para distrair as crianças.

No primeiro recado do urso Polar, ele envia uma bombinha de papel de desejos mágicos (magic wishing crackers) para as crianças. Os Christmas crackers (traduzidos como bombinhas de papel) são um costume tipicamente inglês, cuja inspiração surgiu em 1847, no período vitoriano, com Tom Smith. A ideia surgiu em uma viagem em Paris, quando Smith descobriu um doce (bonbon) de amêndoas e açúcar, embrulhado em um papel de seda, com as pontas torcidas — como hoje são embalados os nossos bombons de chocolate — e junto vinham frases de amor.

Antigas caixas com Christmas crackers, do início do século XX

Smith trouxe a ideia para a Inglaterra e, com o tempo, as amêndoas sumiram, dando lugar a pequenos brinquedos e bugigangas. Para incrementar, Smith criou um mecanismo para que se fizesse um estalido, lembrando levemente o som dos fogos de artifício, assim que a embalagem fosse aberta — daí o nome cracker, que significa rojão, buscapé. O brinquedo natalino foi se aperfeiçoando, mas a base existe desde 1906: pequenas embalagens que se assemelham a bombons e que abrem com um estalido, com brinquedos, doces e mensagens dentro.

Christmas cracker hoje

A empresa Tom Smith existe até hoje, produzindo cerca de 70 milhões de Christmas crackers por ano, dos mais simples aos mais elaborados, enviando encomendas, inclusive, para a família real britânica.

Com a greve geral de 1926, os desastres causados pelo Urso Polar continuaram justificando a ausência de presentes, ou mesmo as ações causadas por outros integrantes como o Homem da Lua que caiu no quintal do Papai Noel e comeu um monte de chocolates ou as renas que tentaram fugir, jogando presentes e pelo ar: justo de um trenó cheio de chocolates. Na carta, ele finaliza: “espero que vocês gostem das coisas que estou trazendo: quase tudo o que vocês pediram e um monte de outras coisas que não pediram, que pensei no último minuto”.  

Em 1927, após o ano da greve, o tom da carta continua nada animador: “Minha gente querida, parece que há cada vez mais e mais de vocês a cada ano. E eu fico cada vez mais pobre”. Nesse ano, a família Tolkien já tem três filhos, tendo o mais novo, Christopher três aninhos.

Já em 1928, mais brinquedos são descritos, e o Papai (Noel) dá uma lição de partilha e de preservação das coisas aos três filhos:

“Espero que vocês sempre dividam as coisas da ferrovia, da fazenda e dos animais e não pensem, de modo algum, que elas são apenas para aquele a quem pertence a meia em que elas estavam. Cuidem bem delas, pois são algumas das minhas melhores coisas”.

Já para o John, o mais velho, àquela altura com 11 anos, o Papai Noel trouxe tintas, mas não sabia se estavam corretas, pois ele já não escrevia mais as cartinhas pedindo presentes.

Em 1929, o Papai parece mais emotivo e feliz, pois nasceu a filha mais nova da família, Priscilla, e ele exclama com alegria “Uma meia a mais para encher neste ano!”. Especialmente comovido com as cartinhas que recebeu, escreve:

“Ninguém, ou muito pouca gente, escreve tanto e com tanta gentileza para mim.”

Com apenas cinco anos, o pequeno Christopher já envia suas primeiras cartinhas, e por isso ganha uma caneta-tinteiro do bom velhinho, além de um desenho especial.

Em 1931, o Papai Noel vai trazer mais uma mensagem de reflexão aos pequenos Tolkiens, em relação aos presentes:

Envio o mesmo amor de sempre, na verdade, mais. Nós, o velho Urso Polar e eu, gostamos de receber tantas belas cartas de vocês e de seus bichinhos de estimação. Se acham que nós não as lemos, vocês estão enganados; mas se acharem que muitas das coisas que vocês pediram não vieram, e talvez não tantas quanto costumavam vir, lembrem-se de que, neste Natal, em todo o mundo, há um número espantoso de pessoas pobres e famintas.
Eu (e também o meu Irmão Verde) tivemos de fazer uma coleta de alimentos, roupas e brinquedos, para as crianças cujos pais, mães e amigos não podem dar nada a elas, às vezes nem mesmo a janta. Sei que os de vocês não vão esquecê-los. Então, meus queridos, espero que vocês fiquem felizes neste Natal, não discutam e se divirtam bastante com sua ferrovia, todos juntos.

Com o tempo, as cartas são mais recheadas de aventuras e a questão dos presentes vão ganhando cada vez menos destaque. Em 1936, aparece uma lista em um rascunho feito pelo Papai Noel:

  • Bonecas 70.000
  • Arcas de Noé 8.000
  • Locomotivas 50.000
  • Livros; Meninas 80.000 ou mais
  • Meninos 90.000
  • Bombinhas 10.000 dúzias de caixas
  • Giz de louça 20.000 caixas
  • Caixas de tinta 20.000 caixas
  • Brinquedos da Dinky: enviados para fabricantes
  • de toda espécie
  • Lápis: 10.000.000
  • Ursinhos: 60.000
  • Chocolates?
Taxi em miniatura da Dinky, de 1936

Os brinquedos da marca Dinky Toys foram lançados em 1934 e consistiam, basicamente em veículos de miniatura. A empresa era uma espécie de sucessora da marca Hornby, presente também no rascunho.

Em 1937, o ano de lançamento de O Hobbit, o Papai Noel autor ironiza: “Eu ia enviar ‘Hobbits’ — tenho enviado pilhas (principalmente segundas edições) que mandei buscar apenas alguns dias atrás — mas imaginei que vocês já teriam muitos, então estou mandando outro volume de ‘Estórias de Fadas’ de Oxford.”

Em 1940, os meninos já estão grandes, e Priscilla ganha uma carta só para ela. Seus presentes são vários, especialmente livros, muitos deles, a ponto de o Papai Noel escrever “enviei quase todos os livros que você pediu”. Ele também pede desculpas por não enviar um chocolate “língua de gato”.

Esses chocolatinhos chamados “língua de gato”, feitos de biscoito num formato de língua de gato coberto de chocolate, nasceram na Áustria, pela Küfferle (hoje pertencente à Lindt), bem no ano de nascimento de J.R.R. Tolkien, em 1892. Na Europa, ele foi popularizado por empresas alemãs, e aqui no Brasil pela dinamarquesa Kopenhagen, mas existe de outras marcas também, como a Cacau Brasil, uma filial mais popular da Kopenhagen, a Cacau Show e outras mais regionais. 

Em, 1941, o Papai Noel cita um livro que era de interesse de Priscilla, que já contava com seus 12 anos: “Me disseram que quase todos os livros da Alison Uttley foram queimados, e não pude encontrar nenhum do Moldy Warp”.  

A autora era famosa pela série de livros Little Grey Rabbit. Seu livro citado pelo Papai Noel, Moldy Warp the Mole [Moldy Warp, a Toupeira], foi lançado no ano anterior, 1940, com ilustrações de Margaret Tempest.

Em 1943, em sua última carta a Priscilla, já com 14 anos, o Papai Noel não traz mais presentes, mas deixa alguns dinheiros para que ela mesma compre coisas de seu interesse, especialmente os livros de que ela gosta.

Vale lembrar que o país está em plena Segunda Guerra. E a despedida é um tanto melancólica:

Imagino que você vá pendurar sua meia só mais uma vez: espero que sim, pois ainda tenho algumas coisas para você. Depois disso, devo dizer “adeus”. Bom, mais ou menos: quero dizer, não vou me esquecer de você. Nós sempre guardamos os números antigos de nossos velhos amigos, e as cartas deles; e, mais tarde, esperamos voltar quando eles forem mais velhos e tiverem suas próprias casas e seus filhos.
Os meus mensageiros me dizem que as pessoas estão chamando de “severo” este ano. Acho que elas querem dizer miserável: e assim é, receio, em muitos lugares onde eu gostava especialmente de ir; mas fico muito feliz em saber que você ainda não está de fato se sentindo miserável. Não se sinta assim! Eu ainda estou muito vivo e devo voltar em breve, tão feliz como sempre fui.


Obras Citadas

TOLKIEN, J.R.R. Cartas do Papai Noel. Tradução de Cristina Casagrande. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2020.
TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit. Tradução de Reinaldo José Lopes. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2019.
UTTLEY, A. Moldy Warp the Mole. Londres: Collins, 1940.

Referências

Bryton Museum. Disponível em: https://www.brightontoymuseum.co.uk/index. Acesso em: 21 nov. 2020.
Christmas Crackers: Story. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Ndeg-cGN4vw. Acesso em: 25 nov. 2020.
“Lígua de Gato”. Chocólotras Online. Disponível em: https://chocolatrasonline.com.br/lingua-de-gato/. Acesso em: 26 nov. 2020.
History Toy. Disponível em: https://www.historytoy.com/ Acesso em: 21 nov. 2020.
Watford Observer. “Do you recall Lotts Bricks?” Disponível em: https://www.watfordobserver.co.uk/news/1820057.do-you-recall-lotts-bricks/. Acesso em: 21 nov. 2020.
Tom Smith Crackers. Disponível em: https://www.tomsmith-crackers.com/tom-smith-brand-history/. Acesso em: 25 nov. 2020.


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Cristina Casagrande é tradutora de Cartas do Papai Noel para a HarperCollins Brasil ❤

4 thoughts on “Presentes de Natal: o que os filhos de Tolkien recebiam do Papai Noel

  1. Parabéns pelo texto Cris, é um bom complemento para quem faz a leita do livro Cartas do Papai Noel, adorei principalmente as fotos é enriquecedor ver o que você ler no livro, adoraria colecionar esses carros de miniatura da Dinky Toys e acabei de descobrir que eu já comi os chocolates “língua de gato”.

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