Bela como a aurora na primavera: o aspecto físico como símbolo do caráter

Cristina Casagrande

Lúthien Tinúviel é uma das personagens mais profundas e complexas de J.R.R. Tolkien. Um dos aspectos mais interessantes dela é a sua capacidade de estabelecer diálogos com diversas personagens femininas da literatura mundial, incluindo as próprias personagens da obra do autor.

Não por acaso, é possível encontrar relações muito pertinente entre a bela elfa de Tolkien e uma das personagens mais populares dos contos de fadas do mundo Ocidental: Branca de Neve. Nesse sentido, estabeleceremos correlações entre os traços físicos da personagem e seus respectivos carácteres.

Snow White, Red Selena

É dito que quando Beren se encontrou com Thingol, o rei dos Sindar, pela primeira vez, sentiu-se apavorado, e as palavras lhe fugiam da boca. Ele amava a filha do rei, mas a sua condição de um mero homem e não um elfo poderoso o colocava como indigno de desposá-la, de acordo com o crivo do pai da donzela élfica. No entanto, ao contemplar os olhos de Lúthien e o rosto de sua mãe, Melian, a Maia encarnada, Beren tomou coragem e pareceu que “palavras estavam sendo postas em sua boca” (TOLKIEN, 2019, p. 229) e exclamou:

“Meu fado, ó Rei, trouxe-me aqui, através de perigos tais que poucos, mesmo entre os Elfos, ousariam enfrentar. E aqui achei o que não buscava, com efeito, mas, achando, quero pos­suir para sempre. Pois está acima de todo ouro e de toda prata e além de todas as joias. Nem rocha, nem aço, nem os fogos de Morgoth, nem todos os poderes dos reinos-élficos hão de me afastar do tesouro que desejo. Pois Lúthien, vossa filha, é a mais bela de todos os Filhos do Mundo.”

Esse trecho exalta as qualidades de Lúthien, o que levou Beren a se apaixonar ardentemente por ela. A princesa de Doriath é considerada a mais bela de todas as criaturas divinas, nela contém sangue élfico, por parte de seu pai Thingol, e Maia, vindo de sua mãe, Melian. Sua força está justamente na sua beleza, não só física, mas na graça de seus gestos e no poder de suas habilidades: sua dança e seu canto que envolvem todo o seu povo do reino de Doriath. Tais características ela certamente herdou da mãe, inclusive as físicas. Seu pai, Thingol, tem os cabelos prata acinzentados, enquanto os de Lúthien são escuros, provavelmente como os de sua mãe. Assim Lúthien é descrita:

Azul era a sua vestimenta, feito o céu sem nuvens, mas seus olhos eram cinzentos como o anoitecer estrelado; o seu manto era bordado com flores douradas, mas seu cabelo era escuro, feito as sombras do crepúsculo. Como a luz sobre as folhas das árvores, como a voz de águas claras, como as estrelas acima das brumas do mundo, tal era a sua glória e a sua delicadeza; e em seu rosto havia brilhante luz. (TOLKIEN, 2019, p. 227)

Essa breve descrição, que retomamos da epígrafe deste texto, apresenta a dualidade de Lúthien. Sua vestimenta era azul como um céu claro, remetendo ao dia, enquanto seus olhos eram cinzentos como o céu estrelado, associado à noite. Novamente a descrição de sua vestimenta traz características de um tempo ensolarado, primaveril, pois é dito que seu manto é bordado com flores douradas, mas seu cabelo era escuro como o cair do dia.

Lúthien, Aeranka (Moon Blossom)

Nota-se nesses detalhes, que as características mais superficiais de Lúthien, ou seja, de sua vestimenta, aparentam o dia, que nos remete à vida, à alegria e à clareza, assim como diz o significado do seu nome, “Filha das Flores”. Por outro lado, as características físicas dela, impregnadas no seu próprio ser, remetem à noite, rementem ao nome que Beren a chama, quando a vê pela primeira vez: “Tinúviel”, que significa “Rouxinol” ou literalmente “Filha do Crepúsculo”.  

Rouxinol, um pássaro que costuma cantar mais à noite, frequentemente aparece na literatura e traz uma série de simbologias. No dicionário de símbolos, é descrito:

O rouxinol tem tido a carreira mais espetacular de todos os pássaros literários. Ele apareceu em milhares de poemas desde Homero até o século XX, e ainda em tempos antigos, ele adquiriu um significado quase formulaico como o pássaro da primavera, da noite e do luto. Mais tarde, por sua ligação com a primavera e a noite, ele também se tornou um pássaro do amor. (FERBER, 2007, p. 138, tradução nossa)

Vejamos a passagem que mostra o primeiro encontro de Beren e Lúthien:

Mas desapareceu da vista dele; e Beren emudeceu, como alguém que é atado por um feitiço, e desgarrou-se por longo tempo nas matas, selvagem e arredio feito um bicho, a buscá-la. Em seu coração, a chamava de Tinúviel, que significa Rouxinol, Filha do Crepúsculo, na língua dos Elfos-cinzentos, pois não conhecia outro nome para ela. (TOLKIEN, 2019, p. 227)

Foi nos bosques de Neldoreth que Beren encontrou Lúthien, dançando e cantando, e se apaixonou pela glória e beleza dela. Na sequência, Lúthien desaparece da vista de Beren, provavelmente assustada com a situação. Ainda não estava preparada para o seu destino. A presença de Beren despertara isso nela. Tal atitude deixa Beren atordoado, pois, além de ter passado por muito sofrimento para chegar até lá, ele precisou passar pela provação de não ver a sua amada, aquela que lhe renovara as esperanças e a alegria.

Em Mulheres que Correm com Lobos, a analista jungiana Clarissa Pinkola Estés, tenta traçar, por meio de mitos e lendas, aspectos da mulher selvagem, que é a mulher nos seus estados psíquicos e instintivos mais “crus”, despidos das máscaras sociais. “Qualquer um que seja íntimo de uma Mulher Selvagem está de fato na presença de duas mulheres: um ser exterior e uma criatura interior, um que habita o mundo terreno, e outro que vive num mundo não tão visível” (2014, p. 140).

Nesse aspecto, Estés ressalta que quanto mais esses dois lados da mulher forem reconhecidos, mais se conhece ela em sua integridade. Beren assim demonstra um conhecimento pleno de sua amada, em tão pouco tempo que passa perto dela: seu lado Lúthien, donzela pura e encantadora; e seu lado Tinúviel, o rouxinol, que não só é dono de um dos mais belos cantos da natureza, como tem uma forte carga mítica.

Como um prenúncio de seu fim, Beren reconhece, em Lúthien, seu caráter Tinúviel, o rouxinol que, por meio de seu canto de lamento, irá lhe trazer a possibilidade de retornar à vida. Segundo Estés, é comum que “a procura pelo nome tenha como objetivo invocar aquela força ou aquela pessoa, chamá-la para que se aproxime e entrar em um relacionamento com essa pessoa” e que conhecer os nomes “representa adquirir consciência acerca da natureza dual e retê-la” (ESTÉS, 2014, p. 143).

Em Tolkien’s Theology of Beauty, Lisa Coutras cita a autora Mary Zimmer para reforçar a questão da importância dos nomes na literatura de Tolkien:

Como Zimmer observa, Tolkien usa a significância e o poder da linguagem como realidade descritiva e expressiva das coisas reais; do mesmo modo, os nomes revelam a realidade de um ser. Ela escreve “[Um] verdadeiro nome é a causa exemplar da coisa material ao que ela refere; o ‘nome de uma coisa não é um mero rótulo ou símbolo mas a verdadeira realidade.’” O verdadeiro nome de alguém é a realidade expressiva de um ser. Revelar o verdadeiro nome de alguém é revelar o poder de um ser ou ainda expor a vulnerabilidade de um ser. (2016, p. 108)

Beren, portanto, enxerga em Lúthien a mais profunda realidade do seu ser, vê seu segundo nome antes mesmo de conhecê-la de fato. Quando se aproxima de Tinúviel, o rouxinol que lhe trará cura espiritual, psicológica e física, também se aproximará de Lúthien, e reconhecendo essas duas mulheres numa só, ele a terá ao seu lado, em sua integralidade.

Nightingales, Matthew Stuart

Por ora, guardemos essas simbologias a respeito da personalidade profunda e destino dual de Lúthien e nos voltemos, mais uma vez, às suas características físicas que nos conduzirão a um conhecimento mais complexo da personagem. Diante dessas breves descrições físicas da elfa, cabelos escuros e a pele provavelmente alva (por conta da referência nórdica e germânica presente no legendário tolkieniano), além de uma beleza indescritível, estabelecemos um paralelo com a personagem clássica dos contos de fadas ocidentais, que conserva as mesmas características físicas: Branca de Neve. É dito na versão dos Grimm:

Num certo dia de inverno, flocos de neve caíam como penas do céu e uma bela rainha costurava à janela, cujo batente era de ébano preto. Enquanto estava costurando e levantou o rosto para ver a neve, ela espetou o dedo com a agulha e três gotas de sangue caíram na neve. Como o vermelho combinava tão bem com o branco, pensou: “Quem me dera ter uma filha branca como a neve, vermelha como o sangue e negra como esse batente de janela”. Pouco tempo depois ela deu à luz uma menina, branca como a neve, vermelha como sangue e preta como o ébano, e por isso foi chamada de Branca de Neve.
[…]
Branca de Neve foi crescendo, e aos sete anos de idade, sua beleza era tamanha que superava até mesmo a da rainha, e quando esta perguntou ao espelho:
“Espelho, espelho meu,
existe no mundo alguém mais bela do que eu?
O Espelho respondeu:
“Vós, minha rainha, sois a mais bela por aqui,
mas Branca de Neve é mil vezes mais bonita!” (GRIMM, GRIMM, 2012, p. 247–248).

Assim como no conto de Lúthien, a beleza de Branca de Neve é um motivo para chamar atenção dos que a rodeiam, de desconforto na família e de confusões para ela mesma, ao mesmo tempo que é a chave para o encontro com seu amado e fonte de seu próprio amadurecimento. Diante disso, selecionamos aqui três pontos centrais da nossa análise nesta seção: a relação com a mãe, a questão da beleza e a presença do Espelho.

Nessa versão dos irmãos Grimm (a primeira) que utilizamos para esta análise, é a própria mãe de Branca de Neve, não a madrasta, que sente inveja pela beleza da filha e, por isso, manda matá-la. Veronica L. Schanoes (2014) atenta para o fato de que, nos contos de fadas, a relação mãe e filha raramente é tranquila. “A impressão geral das figuras maternas dadas pelas versões mais reconhecíveis dos mitos e dos contos de fadas mais populares é de mães maldosas, ausentes ou desagradáveis.” (SCHANOES, 2014, p. 15).

O conto de fadas dos Grimm traz traços muito pesados, embora conserve um final feliz para Branca de Neve. Quanto à mãe, eles fazem um retrato assustador: a rainha má não só manda matar a filha, como come o pulmão e o fígado de um porco selvagem pensando que eram de Branca de Neve. Mas como o Espelho lhe revela que a princesa ainda está viva, ao responder que ela era ainda mil vezes mais bela que a rainha, a malvada mãe resolve acabar com a vida da princesa com as próprias mãos.

A rainha então se disfarça três vezes até conseguir eliminar a bela de sua vida — temporariamente, para seu desespero. Da primeira vez, ela se passa por uma vendedora ambulante de cordões e vai até a casa dos anões para vendê-los à Branca de Neve, apertando um deles tão forte na cintura da princesa, que ela cai morta no chão. Mas os anões voltam para casa, cortam o cordão, e a bela volta a viver.

Na segunda tentativa, a mãe se transforma numa outra velha, que quer lhe vender um pente envenenado. Atraída pelo brilho do pente, mesmo tendo sido advertida pelos anões para não abrir a porta aos estranhos, acabou comprando-o e passando-o nos cabelos. Caída morta no chão, foi salva novamente pelos anões, quando eles tiraram o pente dos cabelos dela. Por fim, a rainha má se vestiu de camponesa e persuadiu Branca de Neve a morder a maçã envenenada, e a princesa ficou morta por muito tempo, velada num caixão de vidro até ser resgatada pelo príncipe. (Vale dizer que na versão que aqui, a maçã se desprende da garganta da princesa por causa de uma fatalidade: um dos empregados do príncipe, cansado de carregar o caixão para onde ia Sua Alteza, bateu nas costas da bela morta, o que fez a maçã sair de sua garganta e a vida retornar ao corpo de Branca de Neve. Nada de beijo encantado — mesmo porque, nesta versão, a princesa é uma criança de sete anos)

Nos três casos, podemos observar que Branca de Neve tem um apreço por objetos de valor, que potencializem sua beleza, e não consegue resistir à tentação de tomá-los para si. A prova fatal é quando ela não resiste à maçã, que não é um mero objeto, mas um alimento, que com toda a sua aparência irresistível, não só irá embelezar a princesa, mas irá incorporá-la.

Em um ensaio, Ana Sofia Pereira Caldeira (2010) alerta para o fato de Branca ter um apego por enfeitar-se que acaba culminando em perigos mortais. O cordão e o pente eram objetos de adorno para Branca, que já nascera bonita. Mas a vaidade fazia com que ela quisesse mais, sem medir as consequências.

Branca seria o resultado de uma idealização de sua mãe, que um belo dia viu seu próprio sangue vermelho cair sobre a neve branquíssima, enquanto costurava próximo à janela cujo batente era de preto ébano e, a partir de então, desejou ter uma filha com tais cores em suas feições. Caldeira ressalta o fato de a beleza ser uma imagem que moldamos, como quem pinta um quadro e que esses adornos são resultados da nossa manipulação diante de um padrão estético que estabelecemos.

A rainha é obsessiva com sua própria beleza assim como é com sua filha. Assim, quando Branca de Neve passou a ser outra e não uma extensão da mãe, sua reação foi querer tirar-lhe a vida, como ela própria a criou. Não é o mesmo, nem de longe, que acontece com Melian e Lúthien. A Maia, que também tinha uma beleza e encantos notáveis, tem um amor puro e incondicional pela filha — mas sem sentimentalismos. Vemos seu amor no seu olhar discreto e na força da própria Lúthien. Esta, por sua vez, não é resultado da idealização de Melian, mas fruto de um profundo amor de seus pais.

Melian and Thingol, Elena Kukanova

Dessa maneira, a esposa de Thingol não sufoca a existência da filha, ao contrário, é como se Melian fosse a fonte de todo o poder da donzela élfica — inclusive a beleza, a arte do canto e do encanto. A rainha de Doriath não só ajudou Lúthien, como o próprio Beren: vimos que, com o simples contemplar do rosto de Melian, além do olhar de Lúthien, o filho de Barahir tomou coragem para declarar seu amor pela princesa élfica frente a seu austero pai, Thingol. Além disso, a rainha Maia conteve a ira de Thingol, rogando-o que não executasse Beren.

O rosto de Melian trazia a luz de Aman, a Terra Abençoada, para a Terra-média e assim ela transmitiu essa luz a seus descendentes. A beleza de Melian é descrita como o sol do meio-dia, enquanto de Lúthien era como a de uma manhã de primavera.

Diz-se sobre a Maia:

Habitava os jardins de Lórien e, entre todo o povo dele, não havia ninguém mais bela do que Melian, nem mais sábia, nem mais hábil em canções de encantamento. Conta-se que os Valar deixavam seus trabalhos, e as aves de Valinor, seus festejos, que os sinos de Valmar silen­ciavam e que as fontes deixavam de fluir quando, no misturar das luzes, Melian cantava em Lórien. Rouxinóis estavam sem­pre com ela, e Melian os ensinou suas canções; e ela amava as sombras profundas das grandes árvores. (TOLKIEN, 2019, p. 89).

Lúthien causava uma sensação parecida, na Terra-média, à de sua mãe em Aman, pois seu canto e dança alegravam e encantavam todo o reino de Doriath. Isso se evidencia quando Beren partiu para buscar a Silmaril como prova de seu amor, a pedido de Thingol, a elfa não mais cantou em Doriath, trazendo silêncio e sombras àquele reino, pois aquilo era como uma sentença de morte ao seu amado.

Tinúviel contou também com a ajuda de sua mãe, que tinha o poder de ver além das fronteiras de Doriath. Por meio de Melian, a elfa descobriu que Beren estava preso nas masmorras de Sauron, e, com isso, resolveu ela mesma fugir e salvar seu amado. E o poder de Lúthien ameaçou Sauron, “pois sabia que era a filha de Melian” (Ibidem, p. 239).

Vemos, portanto, nesses exemplos, que Melian estava em comunhão com Lúthien, ainda que a ajuda da mãe para com a sua filha resultasse na separação final de ambas — pois Lúthien teria um destino diferente de sua mãe, ao escolher, perante os Valar, ficar ao lado de Beren e se tornar uma mortal. Melian traz, portanto, um amor de doação, enquanto no coração da rainha má há perversão perante Branca de Neve.

Vemos assim que o nascimento de Lúthien é superabundância do amor de Melian e Thingol, enquanto Branca de Neve é um resultado da obsessão da rainha por si mesma. A beleza de Lúthien, assim, reflete o Reino Abençoado, não se esgotando em uma questão física, pois o corpo é algo passível de sofrer uma manipulação excessiva por adereços. Ao contrário, a beleza de Lúthien é uma exaltação de seu caráter virtuoso, que reflete sua sabedoria, coragem e bondade.

Por fim, vemos, na presença do espelho, algo tão presente nas obras de Tolkien: o duplo. Diz Ferber no dicionário de símbolos literários: “O simbolismo de espelhos não depende apenas do que as coisas causam o reflexo — natureza, Deus, um livro, drama — mas também do que se vê neles — a si mesmo, a verdade, o ideal, ilusão” (2007, p. 126, tradução nossa). No espelho, a personagem vê um outro, para enxergar melhor a si mesmo.

A rainha má vê, no espelho, uma imagem de si mesma, mas nunca será capaz de se ver como ela realmente é e como os outros a veem, mas somente seu reflexo e a ilusão que cria de si mesma. Obcecada pela própria aparência, como o mito de Narciso, acaba arruinando a sua vida, o que resulta na vontade de aniquilar a própria filha, quando esta já atinge a idade da razão (sete anos). Desta forma, procurando destruir a filha, acaba destruindo a si mesma. Branca de Neve, por sua vez, encontra no “verdadeiro amor”, de acordo com o que a história propõe, a libertação dessa corrente vaidosa, rompendo com o duplo criado por sua mãe.

Melian, por sua vez, não tem um objeto concreto de espelho, mas tem uma relação de duplo com Lúthien também: ambas têm naturezas diferentes e de maior poder à de seus cônjuges, possuem uma beleza indescritível e um forte poder de encantamento. Mas ao contrário da rainha má, Melian não busca sufocar Lúthien numa obsessão pessoal, mas procura amar a filha de modo virtuoso e produtivo. O resultado não é sua autodestruição, mas a realização de suas vidas independentes.

Eras mais tarde, Arwen Undómiel, trineta de Lúthien, também terá uma relação de duplo com ela. Assim como Tinúviel, Arwen vai abdicar de sua condição élfica, como imortal, para tornar-se uma mortal por amor a um homem, Aragorn, o rei de Gondor e Arnor. Em suas cartas, Tolkien afirma que Arwen não é uma encarnação de Lúthien, mas alguém muito semelhante a ela em “aparência, personalidade e destino” (TOLKIEN, 2010, p. 187).

Mas enquanto a relação de duplo entre a rainha e Branca de Neve pressupõe a não existência uma da outra, pelo excesso de vaidade por parte da rainha e de certa frivolidade por parte de Branca de Neve, a relação de Melian e Lúthien é de doação. Melian esquece de si mesma e de sua satisfação pela felicidade da filha, mas sem se anular, pois quanto mais generosa, mais ela brilha em seu esplendor, o que, de certa forma, nutre o poder da filha.


Referências bibliográficas

CALDEIRA, A. S. Snow White, Beauty as Image. 2009/2010. 15 p. Essay, Faculty of Fine Arts Lisbon, 2010.

COUTRAS, L. Tolkien’s Theology of Beauty— majesty, splendor and transcedence in Middle-earth. New York: Palgrave Macmillan, 2016.

ESTÉS, C. P. Mulheres que Correm com Lobos— mitos e histórias do arquétipo da Mulher Selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.
FERBER, M. A Dictionary of Literary Symbols.

Cambridge at University Press, 2007.

GRIMM, Irmãos. Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

SCHANOES, V. L. Fairy Tales, Myth, and Psychoanalytic Theory. Dorchester: Ashgate, 2014.

TOLKIEN, J.R.R., CARPENTER, H. (Org.), TOLKIEN, C. (Assist.). As Cartas de J. R. R. Tolkien. Curitiba: Arte e Letra. 2010.

TOLKIEN, J. R. R.  Beren e Lúthien. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2018.

TOLKIEN, J. R. R. O Silmarillion. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2019.


Este texto é parte de um artigo mais amplo, “A mais linda de todos os Filhos de Ilúvatar: Lúthien e o feminino nos contos de fadas”, presente no e-book: “Narrativas e enigmas da arte: fios da memória, frestas e arredores da ficção”.


Cristina Casagrande é doutoranda em literatura tolkieniana e autora de “A Amizade em O Senhor dos Anéis”

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