Fuga do cativeiro: de Rapunzel a Lúthien

Cristina Casagrande

No artigo sobre o aspecto físico de Lúthien comparado à Branca de Neve, demonstramos que ao contrário da princesa envenenada por uma maçã, Lúthien não tinha problemas com a figura materna. Porém, não podemos dizer o mesmo em relação ao pai, o rei Thingol de Doriath. Ao menos, a partir da chegada de Beren à vida deles. 

Daeron, o Menestrel, também amava Lúthien. Ele descobriu seus encontros com Beren e os denunciou a Thingol. Enfureceu-se então o Rei, pois ele amava Lúthien acima de tudo, considerando-a superior a todos os príncipes dos elfos; ao passo que homens mortais ele nem admitia a seu serviço. Por isso, falou com Lúthien, magoado e espantado. (TOLKIEN, 2019, p. 228)

Thingol and Lúthien, Steamey (DeviantArt)

Depois desse episódio, Lúthien fez o rei Thingol prometer que não mataria Beren e, na sequência, o rei o inquiriu. Tomando coragem, Beren declara seu amor por Lúthien a Thingol. Furioso, mas preso à promessa de não o matar, Thingol propõe um desafio a Beren: que o mortal lhe trouxesse uma das três preciosas Silmarils das garras de Morgoth, o maior e o mais poderoso antagonista da mitologia tolkieniana, e assim poderia tomar a mão de Lúthien.

A princesa élfica caiu numa tristeza imensa com a partida de Beren. Pouco depois, quando sentiu em seu coração que seu amado estava em perigo, procurou os conselhos da mãe e descobriu onde ele estava: preso nas masmorras de Tol-in-Gaurhoth, a mando de Sauron. Sem demora, Lúthien decidiu ela mesma ajudar Beren, pois sabia que mais ninguém iria socorrê-lo. No entanto, ao pedir a ajuda de Daeron, este mais uma vez traiu sua confiança, contando o plano dela a Thingol. Assustado, o rei mandou construir uma casa numa grande faia chamada Hírilorn, onde Lúthien ficou trancada, sem poder sair.  

Não é difícil fazer uma associação desse episódio com o conto de Rapunzel, dos irmãos Grimm. Diz-se que os pais de Rapunzel tinham muitas dificuldades de ter filhos, por mais que tentassem, nunca conseguiam. Quando finalmente a esposa conseguiu engravidar, ela sentiu uma vontade imensa de comer uns rapôncios que viu em um jardim por onde andava, e seu marido foi pegar alguns para ela. Como seu desejo persistia mais e mais, um dia, a fada que era dona do jardim pegou o homem furtando seus rapôncios. Ele explicou a situação àquela estranha mulher, pois a criança poderia correr o risco de não nascer se os desejos de sua esposa não fossem realizados. A fada permitiu-lhe que pegasse os vegetais com a condição de que ele lhe entregasse a criança quando nascesse.

Rapunzel então foi levada pela fada quando era ainda bebê e passou a sua vida presa numa alta torre, no meio da floresta. Seus cabelos foram crescendo, e o único acesso que sua madrasta tinha à torre era justamente por suas longas madeixas douradas, que lhe serviam de cordas para chegar ao topo. Um dia, um jovem príncipe viu Rapunzel na alta torre e, escondido, observou como a fada madrasta chegava até ela. Ele fez o mesmo, e, ao se conhecerem, Rapunzel e o príncipe se apaixonaram perdidamente, repetindo os encontros.

Até que Rapunzel engravidou, despertando a fúria da fada, que considerou isso como uma traição de sua prisioneira. Depois disso, ela foi expulsa, teve seus cabelos cortados e precisou dar à luz e cuidar do casal de gêmeos sozinha e na miséria. O príncipe atirou-se da janela quando viu a madrasta no lugar de Rapunzel, e na queda, perdeu os olhos.  

Mas os Grimm não deixaram de manter o final feliz, apesar das desgraças ocorridas. Um dia, Rapunzel, reencontrou o príncipe que vagava incessantemente à sua procura. Chorando de emoção, recuperou os olhos, e ele, Rapunzel e seus filhos foram felizes para sempre.

Rapunzel, Arthur Rackham (Wikimedia Commons)

Vemos nessa história algumas semelhanças com alguns acontecimentos e personagens de O Silmarillion. A fada madrasta traz uma correlação com o rei élfico Thingol, que tem um amor excessivo pela sua filha a ponto de sufocá-la com seus ciúmes. No entanto, o rei não prendeu a filha como posse ou vingança, como fez a fada com Rapunzel, mas por um protecionismo excessivo. Conta O Silmarillion:

Então Thingol se encheu de temor e assombro; e, por­que não queria deixar Lúthien desprovida das luzes dos céus para que não fraquejasse e fenecesse, e mesmo assim querendo impedi-la, mandou que se construísse uma casa da qual ela não pudesse escapar. (TOLKIEN, 2019, p. 236, grifo nosso)

Lúthien, por sua vez, encontra ela mesma um jeito de sair dali. “Conta-se na ‘Balada de Leithian’, como ela escapou da casa em Hírilorn; pois lançou suas artes de encantamento, e fez com que seu cabelo crescesse em grande comprimento” (TOLKIEN, 2019, p. 236). Os cabelos de Lúthien, que serviriam de corda e manto para ela escapar dali, cresceram pela força do seu encantamento, enquanto os de Rapunzel demonstram a passagem do tempo em que ela ficou ali, no cárcere, esperando o príncipe salvá-la da solidão. A sequência da fuga de Lúthien é descrita assim em O Silmarillion:

e com ele [o cabelo] teceu um manto escuro que envolvia a sua beleza como uma sombra, e esse estava carregado de um feitiço de sono. Das tra­mas que sobraram, ela trançou uma corda e a deixou cair de sua janela; e, conforme a ponta balouçava acima dos guardas que se sentavam sob a árvore, eles caíram em um sono profundo. Então Lúthien desceu de sua prisão e, envolta em seu manto sombrio, escapou de todos os olhos e desapareceu de Doriath. (Ibidem)

Christopher Tolkien nos apresenta, em Beren e Lúthien (2018), uma versão do Conto de Tinúviel (1917), escrita por seu pai, J.R.R. Tolkien, que detalhou a história de Lúthien tentando escapar de Hirilorn. Tinúviel — como Lúthien era chamada nessa versão — estaria ali, segundo Tinwelint (Thingol), para que aprendesse a ser sábia. Ou seja, nessa primeira versão, o rei prendera a filha não para protegê-la apenas, mas para educá-la, segundo seu conceito de sabedoria.

Para que não faltasse nada a Tinúviel, os súditos do rei pegavam as escadas para lhe levar alimentos, roupas e o que a princesa precisasse. Para que ela não fugisse, um vigia era colocado ao pé da árvore durante a noite. Ao sonhar com Beren, Lúthien planejou sua fuga:

Ora, Tinúviel, filha de Gwendeling [Melian], não ignorava magias nem encantos, como se pode bem imaginar, e após muito pensar concebeu um plano. No dia seguinte pediu aos que vieram até ela que trouxessem, como favor, um tanto da água mais clara do rio lá embaixo, “mas essa”, disse, “tem de ser tirada à meia-noite numa bacia de prata, e trazida à minha mão sem que seja dita uma palavra sequer”. E depois pediu que trouxessem vinho, “mas esse”, disse, “tem de ser trazido num frasco de ouro ao meio-dia, e quem o trouxer deve cantar durante o caminho” e fizeram o que lhes fora pedido, mas ninguém contou a Tinwelint (TOLKIEN, 2018, p. 51).

Vê-se melhor, nessa versão, como Lúthien prepara a sua magia: não prescinde de meios, nem do auxílio de seus súditos elfos. Os meios são elementos da natureza como a água do rio ou produtos como o vinho e a bacia de prata. Elementos esses que encontramos no nosso Mundo Primário e que de alguma maneira têm potencialidades diferentes no Mundo Secundário.

Então Tinúviel disse: “Ide agora até minha mãe, e dizei-lhe que sua filha deseja uma roda de fiar para passar as horas enfadonhas”, mas secretamente pediu a Dairon que lhe fizesse um minúsculo tear, e ele o fez na própria casinha de Tinúviel na árvore. “Mas com que fiarás e com que tecerás?”, perguntou ele, e Tinúviel respondeu: “Com encantos e mágicas”, mas Dairon não sabia seu desígnio, nem disse nada mais ao rei ou a Gwendeling (TOLKIEN, 2018, p. 51).

Lúthien, Jenny Dolfen

No excerto destacado, vemos que Tinúviel contou com o auxílio da mãe e de Dairon (Daeron, que nessa versão era seu irmão), que se sentia mal por ter delatado a irmã. Nessa parte, vemos o auxílio de sua mãe Gwendeling bem concreto a Tinúviel, pois a roca lhe foi concedida. E mesmo o enciumado irmão dá uma contribuição a ela: todos a ajudam, menos o rei Tinwelint que foi quem a colocou no cárcere da casa na árvore.

Tinúviel, assim, embora certamente amasse o pai, escolhe seguir a sua consciência movida por seu amor. Já não é mais menina, mas adulta. Sabe o que quer e não se acomoda até conquistar aquilo que considera correto, ainda que tenha de enfrentar quem ama. Está ciente de suas potencialidades e daquilo que lhe falta, mas, com destreza élfica e feminina, consegue meios de suprir tais ausências.

Nota-se que Tinúviel não poderia esconder nada de sua mãe — pois esta é mais sábia e mais poderosa que ela —, mas a elfa pede auxílio à Maia mesmo assim, pois sabe que pode contar com o auxílio materno. A bênção de Melian garante à Lúthien um final eucatastrófico, feliz, apesar dos pesares, e não trágico, como infelizmente vai ocorrer com Túrin Túrambar, em cuja história os conselhos de Melian não são ouvidos por seus protagonistas e coadjuvantes.

Para Dairon, Tinúviel precisa dissimular um pouco. Ainda que não falte à verdade e responda evasivamente que vai tecer e fiar com magia, não lhe conta o plano de construir uma corda com seus próprios cabelos alongados. Já para o rei Tinwelint tudo fica ocultado, pois, com ele, não haveria como se buscar apoio. Na sequência:

Ora, Tinúviel tomou o vinho e a água quando estava a sós e, enquanto cantava uma canção de grande magia, misturou-os, e quando estavam na bacia de ouro cantou uma canção de crescimento, e quando estavam na bacia de prata cantou outra canção, e os nomes de todas as coisas mais altas e mais longas da Terra estavam postos nessa canção: […] por mais longo tempo, falou dos cabelos de Uinen, senhora do mar, que se espalha por todas as águas. Então banhou a cabeça com a água e o vinho misturados, e assim fazendo cantou uma terceira canção, uma canção de profundo sono, e os cabelos de Tinúviel, que eram escuros e mais finos que os mais delicados filamentos do crepúsculo, repentinamente começaram de fato a crescer muito rápido, […] e quando despertou o recinto estava como que repleto de uma névoa negra, e ela estava oculta bem fundo abaixo dela, e eis que seus cabelos pendiam para fora da janela e esvoaçavam em torno dos troncos da árvore na manhã. (TOLKIEN, 2018, p. 51–52, grifo nosso).

Vemos que o encantamento de Tinúviel passa por etapas: aciona a magia, faz o seu cabelo crescer e então ativa nele as propriedades soníferas. Com o crescimento de seus cabelos, pela magia, teceu uma corda e uma capa negra “embebida de uma sonolência ainda muito mais mágica que aquela que sua mãe envergara, e dançara nela, muito tempo atrás” (Ibidem, p. 52). Ao contrário de Rapunzel, que mantém uma atitude passiva e obediente, Lúthien é ativa, criativa e contestadora. Sua magia irá ajudá-la a escapar do cativeiro e a ludibriar a guarda que a vigiava ao pé da árvore.

A luz do sol já se apagava nas árvores, e à medida que o crepúsculo preenchia a floresta, ela começou a cantar, muito de leve e em voz baixa, e enquanto cantava lançou os longos cabelos pela janela de forma que a névoa sonolenta tocasse as cabeças e os rostos dos guardas lá embaixo, e eles, escutando sua voz, caíram de repente em sono incomensurável. Então Tinúviel, envergando suas vestes de treva, deslizou pela corda de cabelos leve como um esquilo e afastou-se dançando rumo à ponte, e antes que os vigias da ponte pudessem gritar ela estava entre eles, a dançar, e quando a bainha de sua capa negra os tocava eles adormeciam, e Tinúviel fugiu para muito longe tão depressa quanto voavam seus pés dançantes. (TOLKIEN, 2018, p. 52).

Qual Sherazade, de As Mil e Uma Noites, Lúthien tece a sua história. Com seus cabelos feito manto, põe seus inimigos para dormirem, ao se sentirem seduzidos por seus dotes: o canto, a dança e a magia. Utilizando artifícios intrinsecamente femininos, Lúthien vai enfrentar os piores vilões da literatura tolkieniana: Sauron e Morgoth.

Vemos aqui pontos simbólicos presentes tanto no conto de Lúthien quanto no de Rapunzel. O mais significativo são os cabelos, que trazem a simbologia da beleza e da sensualidade da mulher, por outro lado também representa a tristeza e o luto de quem espera sair do cativeiro. Eles demonstram a passagem do tempo, da menina que se tornou mulher e, junto com isso, aumentou seu poder: a chave de que precisa para libertar-se do cativeiro. Lúthien, ao contrário de Rapunzel tem consciência disso, e ela mesma se salva.


Imagem destacada: Lúthien Escapes the Treehouse, Ted Nasmith.


Referências bibliográficas

BARTON, D. Rapunzel and the Forbidden Garden. Disponível em: <https://www.academia.edu/8249833/Rapunzel_and_the_Forbidden_Garden&gt;. Acesso em: 13 out. 2018.

GRIMM, Irmãos. Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

TOLKIEN, J. R. R.  Beren e Lúthien. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2018.

TOLKIEN, J. R. R. O Silmarillion. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2019.


Este texto é parte de um artigo mais amplo, “A mais linda de todos os Filhos de Ilúvatar: Lúthien e o feminino nos contos de fadas”, presente no e-book: “Narrativas e enigmas da arte: fios da memória, frestas e arredores da ficção”.


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Cristina Casagrande é doutoranda em literatura tolkieniana e autora de “A Amizade em O Senhor dos Anéis”

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