Tolkien e Astrid Lindgren: escritores e seus leitores

Eduardo Boheme

Outro dia estava assistindo ao concerto anual em comemoração ao aniversário da futura Rainha da Suécia e entre as atrações estava a dupla Smith & Thell. Eles cantaram, na ocasião, uma música chamada Nangilima (por volta dos 52 minutos no link).[nota 1]

A música é do ano passado, mas o título e o tema vêm de um dos livros mais conhecidos da mais importante escritora sueca de livros infantis: Astrid Lindgren. O livro em questão é Os Irmãos Coração de Leão (Bröderna Lejonhjärta, 1973. Mais sobre ele em instantes). A relevância de Lindgren na Suécia, mais do que merecida, é impressionante: quantos escritores de livros infantis você já viu ilustrando o papel-moeda de um país? Pois o rosto benevolente de Astrid Lindgren estampa a nota de 20 coroas suecas.

Lindgren tem uma relação profissional próxima com a obra de Tolkien. Em 1960, na esteira do sucesso da tradução — polêmica tradução de um polêmico tradutor, aliás — de O Senhor dos Anéis, a editora Rabén & Sjögren decidiu lançar uma nova tradução sueca de O Hobbit.[nota 2] Astrid Lindgren era, na época, a diretora do departamento de livros infantis e foi ela quem contatou a ilustradora finlandesa Tove Jansson para fazer os desenhos do livro, que receberia uma nova tradução de Britt G. Hallqvist:

“Pense um pouco […]. Não diga ‘não’ imediatamente”, escreveu Lindgren para Jansson. Nas palavras da escritora sueca, “Quando as pessoas lerem o livro, elas terão as ilustrações diante de si, desenhadas por Tove Jansson, e vão dizer a si mesmas que este será o livro infantil do século, e que ele viverá até muito tempo depois de estarmos mortos e enterrados” (ambas as citações retiradas de Westin 2014: 346).[nota 3] Não era uma escritora qualquer que estava elogiando o trabalho de Tolkien. Ao ver as ilustrações de Jansson, Lindgren escreveu entusiasmada: “Minha cara e magnífica Tove, mande-me a barra do seu manto para que eu possa beijar! Estou tão feliz com seu maravilhoso Hobbit que não encontro palavras para expressar o que sinto” (Westin 2014: 349).

Astrid Lindgren e Tove Jansson

Aquela edição foi um tanto anticlimática e as ilustrações de Jansson foram criticadas, em especial por especialistas em Tolkien. Segundo Westin (2014: 351) “Interpretar Tolkien era tão ruim quanto falar palavrão na igreja”. Nós sabemos como leitores do Professor podem ser e frequentemente são cruéis em seus juízos. Mas as palavras de Lindgren de que O Hobbit perduraria têm se provado corretas há décadas.

Mas este artigo não é sobre Jansson (que, aliás, fez aniversário no dia 9 passado). Gostaria de voltar ao livro mencionado no início, Os Irmãos Coração de Leão. Como eu disse, esse é um dos livros mais famosos de Astrid Lindgren, traduzido, segundo a Wikipedia, para 46 idiomas.

Vou contar brevemente o enredo [ATENÇÃO: SPOILER]. Trata-se da história de dois irmãos, Jonatan e Karl. Ambos morrem no início do livro e vão para uma terra chamada Nangijala. Lá, eles cortam um dobrado para libertar a terra da tirania de um vilão. No fim, Karl e Jonatan — este paralisado e ferido — se suicidam atirando-se em um precipício, partindo para Nangilima, a terra sem morte para onde vão os que morrem em Nangijala. O livro é um page-turner, isso é certo, e os protagonistas não têm um segundo de paz: é desgraça da primeira até (literalmente, na minha edição) a última página; tem dragão, vilão e emoção.

Mas este texto também não é uma resenha (considerem o livro muito bem recomendado, porém). O que eu gostaria de comentar é uma frase na mesmíssima Wikipedia. Algum editor anônimo escreveu o seguinte sobre Os Irmãos Coração de Leão:

Os contrastes, o enredo evocativo e os temas do anseio por conforto, do afeto fraternal, lealdade e luta pela liberdade foram bem recebidos por um vasto público leitor que estava familiarizado com O Senhor dos Anéis e contos folclóricos. De muitas maneiras, o romance de Lindgren é um exemplo do que Tolkien descreveu como a inspiração retirada do “conto folclórico profundo” (em Sobre Estórias de Fadas), e o poder catártico e pungente de tais estórias.

É um fenômeno comum — e, portanto, não muito surpreendente — que autores de fantasia, quando pré-Tolkien, sejam cogitados como “possíveis influências” para ele e, quando pós-Tolkien, sejam comparados com ele ou espremidos para caberem em sua teoria. Nesse caso, acredito que Sobre Estórias de Fadas não é um bom instrumento interpretativo para Os Irmãos Coração de Leão a não ser que sejam feitas muitas concessões: se o equivalente de Feéria puder ser uma terra post mortem, como Nangijala e Nangilima; se o Escape da Morte puder ser um Escape rumo à Morte; e se a Discatástrofe puder coincidir com a Eucatástrofe, já que o suicídio dos meninos ocasiona e é simultâneo ao “final feliz”.

No caso acima, a teoria e o livro não se coadunam muito bem. Mas há algo em que Tolkien e Lindgren concordam e em que são comparáveis: que muitos de seus leitores adultos veem “coisas” em seus livros. No artigo “Por que escrevemos livros infantis?” (1983), Lindgren escreve:

Enquanto uma criança lê e desfruta o livro sem mais análises, adultos a todo momento tentam descrever o que o autor quis dizer com isso ou aquilo, e por que o autor não quis dizer o oposto, e por que fulano não deveria ir conversar com o autor sobre o que ele quis dizer, e por que o autor não escreveu um livro completamente diferente? […] Para os adultos, é importante que haja um ensaio analítico, não apenas uma experiência de leitura direta e clara, como essas que deixam as crianças bobinhas felizes. Leitores adultos encontram desígnios secretos em todo lugar e explicações que fazem um autor pular de surpresa quando se depara com elas.

(Lindgren 2017: 191)

Em Sobre Estórias de Fadas, Tolkien já indicara que os adultos nem sempre leem só por ler:

Há alguma conexão essencial entre crianças e estórias de fadas? Há alguma necessidade de comentário, se um adulto as lê para si mesmo? como estórias, isto é, não as estuda como curiosidades. Permite-se que adultos colecionem e estudem qualquer coisa, até velhos programas de teatro ou sacos de papel.

(Tolkien 2020: 44–5)

Em 1967 (carta n. 297), Tolkien fala mais sobre essa gana analítica e investigadora, especificamente sobre sua própria obra:

[…] ainda fico perplexo e, de fato, ocasionalmente irritado, pelas muitas conjecturas a respeito das “fontes” da nomenclatura, e pelas teorias e fantasias acerca de sentidos ocultos. Parece-me que não passam de divertimentos privados e, como tal, não tenho o direito ou o poder de me opor, embora sejam, penso, inúteis para a elucidação ou a interpretação da minha ficção. Se forem publicados, aí eu me oponho, quando (como é normalmente o caso) parecem ser exageros inautênticos sobre a minha obra, revelando o estado mental daqueles que escrevem, mas não o meu, nem minha real intenção e procedimento.

No tom irritado de Tolkien e na observação zombeteira de Lindgren, vemos dois grandes autores lidando com fatos comuns: que os adultos nem sempre leem só pelo prazer de ler e que, muitas vezes, leem querendo achar algo escondido; nada muito raro nos estudos tolkienianos. Talvez achem algo que não necessariamente está ali, mas que pode acabar publicado, de maneira mais informada (digamos, a teoria de Tom Shippey acerca de Ferreiro de Bosque Maior) ou menos (“O Anel é a bomba atômica!”).

Igualmente, muitos procuram encaixotar a obra do autor em alguma teoria, mesmo que ela não caiba ali muito confortavelmente. Quanto maior o jeitão de “one-size-fits-all” da teoria e quanto mais categorias ela tiver, então mais largo é o sorriso do ensaísta, que pega o livro de seu estudioso preferido e traça ali algumas relações, também de maneira mais informada (Verlyn Flieger e John Bowers fazem isso bem) ou menos (o ilustre anônimo da Wikipedia, por exemplo).

E, por fim, os adultos desejam muito “ver os ossos” da sopa que é colocada diante deles (Tolkien 2020: 32–3), isto é, buscar as fontes das estórias que leem, como fiscais de prova atentos para ver quem está colando de quem. Dia normal nos estudos tolkienianos… ainda outra vez, isso pode ser feito de maneira mais informada (menciono novamente os estudos de Tom Shippey, no geral) ou menos (por exemplo, Michael White dizendo que O Hobbit foi inspirado por um buraco no tapete do escritório de Tolkien).

Não há, é claro, grande ofensa em nenhum desses três procedimentos (achar desígnios ocultos, forçar obras em recortes teóricos e procurar fontes). São meios legítimos (e muitas vezes divertidos) de se ganhar o pão e o reconhecimento. Aliás, se o caso for oportuno, plausível, verificável e relevante, passa a ser também necessário para se entender um objeto. Mas esse nem sempre é o caso. De todo modo, é até compreensível que os escritores, ciosos de suas crias, se incomodem ou façam chacota com isso; se pudessem, talvez até diriam “fique quieto e tome essa sopa!”, tentando nos convencer a simplesmente ler suas histórias, como fazem as sábias crianças.


Notas

[1] Na terça-feira, dia 10, eles cantaram a mesma música no festival sueco Allsång På Skansen e, logo em seguida, cantaram I natt jag drömde [Na noite passada eu sonhei], escrita por Cornelis Vreeswijk, uma canção muito oportuna bem no dia do tal desfile de tanques em Brasília.
Vreeswijk é também conhecido pela versão sueca da originalmente bela canção “Quem te viu, quem te vê”, de Chico Buarque.

[2] a tradução anterior de Tore Zetterholm, famigeradamente intitulada Hompen fora lançada em 1947. A primeira tradução ever de um trabalho de Tolkien!

[3] Na sua cópia novinha de O Hobbit Anotado, você encontra algumas ilustrações de Tove Jansson. Ali, Douglas Anderson comenta que, segundo Jansson, ilustrar O Hobbit foi uma aventura, e lamenta que ela não tenha elaborado o raciocínio. Uma suposição pode ser a de que, para O Hobbit, Jansson se viu compelida a mudar a técnica que usara para seus famosos livros dos Moomins, como relata o biógrafo Boel Westin.


Obras citadas

Lindgren, Astrid. 2017. ‘Why do we write children’s books?’, trans. by Elizabeth Sofia Powell, Children’s Literature, 45, 188–95.

Tolkien, J.R.R. 2020. ‘Sobre Estórias de Fadas’, trans. by Reinaldo José Lopes, in Árvore e Folha (Rio de Janeiro: HarperCollins)

Westin, Boel. 2014. Tove Jansson: Life, Art, Words, trans. by Silvester Mazzarella (London: Sort Of Books)


Eduardo Boheme é mestre em Tradução Literária pelo Trinity College da Universidade de Dublin


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