“É uma tradução estrangeirizadora”, diz Reinaldo José Lopes em 20 perguntas sobre as novas edições

Por Fernanda Correia

Reinaldo José Lopes

Quando, em março de 2018, a editora HarperCollins Brasil anunciou que passaria a publicar as obras de J.R.R. Tolkien com novas traduções, O Hobbit e O Senhor dos Anéis tornaram-se uma festa há muito esperada.

Desde o anúncio, cinco títulos foram publicados, mas O Hobbit com a tradução de Reinaldo José Lopes finalmente chegou às livrarias neste último mês de julho, enquanto a joia da coroa ou a muda da árvore de Gondor, O Senhor dos Anéis, está previsto para ficar pronto em novembro com a tradução de Ronald Kymrse.

Capa da nova edição de O Hobbit (Haper Collins Brasil)
Capa de edição exclusiva pela Nerdstore

Com todos empolgados com o lançamento, tal qual um hobbit ao degustar um segundo café da manhã, batemos um papo com Reinaldo a respeito das obras, das traduções e de suas profissões. Reinaldo José Lopes, além de tradutor e membro do Conselho de tradução, também é jornalista da editoria de Ciências da Folha de S.Paulo, mantendo o blog e o canal Darwin e Deus. As duas atividades, somadas à autoria de livros de divulgação científica, conversam muito bem entre si: “Trabalhar com jornalismo de ciência e escrever sobre História me deu bagagem para construir um contexto e para entender a lógica do Tolkien. Ele era um cientista das palavras que levava em conta história e arqueologia no seu trabalho como inspiração e como trabalho diário. Pensar em termos científicos sempre me ajudou e eu acho que tem a ver com a forma que o Tolkien pensou essas coisas.”

Sendo o responsável pelas traduções de A Queda de Gondolin e O Silmarillion, Reinaldo não achou que a tradução de O Hobbit tenha sido menos desafiadora. “O Hobbit tem muita variação de estilos literários, muito diferente de O Silmarillion e mais próximo de O Senhor dos Anéis, que aprofunda essa variação ainda mais. A principal peculiaridade de O Hobbit é a linguagem muito expressiva, muito brincalhona e com muitos jogos de ritmo de sons repetidos que são típicos do inglês e da época em que Tolkien escreveu, o que é muito difícil reproduzir no português. Além dos poemas, que aproximam a linguagem de O Silmarillion.

“Após traduzir ganhei uma nova percepção do porquê O Hobbit é esse clássico e por que tantas pessoas gostam dele ainda hoje. E é interessante ver como Tolkien salta da linguagem brincalhona para a linguagem séria e perceber que há partes dele que se misturam com O Silmarillion, como a cena de Bard com a flecha e a batalha dos cinco exércitos que poderia fazer parte de O Silmarillion tranquilamente. O Hobbit tem coisas em comum com texto do History of Middle-Earth, muito mais próximo dos contos perdidos que é o autor experimentando com a linguagem e até brincando com ela. Principalmente o senso de humor, brincando com a narrativa e fazendo um diálogo como leitor, mencionando diretamente ‘you’.”, complementa Reinaldo.

Diferente do que o senso comum possa acreditar, traduzir não é simplesmente verter o texto da língua original para outra. “Para um tradutor há a tentação de fazer o texto fluir e deixar mais compreensível para o leitor, mas às vezes Tolkien resiste, no original, a isso. Ele não quer saber tanto de fluência, de facilidade, às vezes ele quer ser mais duro, escrevendo de forma mais antiga. Então, o tradutor precisa ter coragem para fazer jus a esses elementos do Tolkien que são difíceis ou que são inesperados, complicados.”.

Há métodos e estilos, sendo que Reinaldo segue aquele que estudou em seu doutorado. “É uma tradução estrangeirizadora, tentando trazer ao máximo os elementos do texto original, até os elementos que são mais estrangeiros ou estranhos e não usados no português, pelo menos não no moderno. Eu tento olhar elemento por elemento, como as palavras até a sintaxe, e passar ponto a ponto no português. Se o adjetivo está na quinta posição ou o objeto direto está invertido com o sujeito, deixar assim em português sempre que possível. Procuro também coisas da tradição literária em português que sejam ao menos equivalentes, então tenho sido muito influenciado por Camões, principalmente nos textos da Primeira Era.”, explica.

Após o lançamento dos primeiros títulos, especialmente com O Silmarillion, houve muito estranhamento e críticas relacionadas às escolhas do Conselho de Tradução, grupo da editora que debate cada mudança e decide o que vai para a versão final. “O Hobbit está com uma recepção muito boa, os livros estão lindos. Por enquanto, está sendo muito positivo, até mais do que a recepção dos livros anteriores. Acho que as pessoas estão mais acostumadas com a nossa proposta e estão mais abertas às mudanças.”

Críticas e comentários são muito bem-vindos pelos tradutores e pelo Conselho, mas a palavra final ainda é do editor. “Quando as pessoas falam na boa, fazem a gente repensar. Geralmente são coisas pontuais que são levadas para o conselho de tradução, mas que não devem causar mudanças. O nosso grande guia é o Guia de Tradução deixado pelo próprio Tolkien e, em geral, o tradutor que está trabalhando em um título em que aparece um termo que ele acha que precisa mudar considera o que deve ser feito e coloca em nosso fórum interno, onde é discutido se a mudança deve ocorrer ou não e qual a melhor solução. Quem bate o martelo é o Saruman do grupo, o nosso chefe do conselho de magos, o editor Samuel Coto da HarperCollins Brasil.”

“A relação com o Conselho é muito próxima, às vezes converso mais com eles do que com os meus amigos e parentes porque há picos de produção e tem muita coisa sendo feita. E com os revisores também é muito próxima e tem bastante troca. Os revisores salvam a vida do tradutor que evitaram puladas de linha e comer palavras e o que aconteceu com O Senhor dos Anéis poderia ter acontecido em larga escala com essas edições sem os trabalhos deles.”, complementa.

Ter a possibilidade de traduzir a obra que conheceu na juventude é a realização de um sonho para Reinaldo: “Eu sempre tive esse plano maligno de poder traduzir Tolkien. Uma das primeiras reações que eu tive à obra foi tentar traduzir porque era um jeito de tentar quebrar e reconstruir aquela linguagem que me deixou boquiaberto. Como que eu entendo essa linguagem, como eu reconstituo ela, como que ela faz sentido do ponto de visto quase material, era passar para o português. Então esse desejo me acompanhou esse tempo todo, fazendo tradução amadora para a Valinor, e é muito gratificante, um desejo realizado.”

E o fã segue acompanhando o tradutor profissional: “Continuo tão fã quanto sempre, mas agora eu tenho uma visão mais anatômica da obra. A apreciação pela capacidade de construção literária do Tolkien aumenta muito, você vê como aquilo é complexo e fantástico. Você precisa estudar a evolução dos textos e percebe como nada daquilo saiu pronto e como aquilo deu trabalho, com falsas entradas e começos. Então é uma coisa humana e maravilhosamente feita por um grande ser humano que era o Tolkien. Eu não sei se eu consigo separar o fã do tradutor, as coisas estão muito juntas. O Reinaldo fã já foi muito xiita, acreditando que Tolkien deveria ser lido em inglês e tradução não adianta, por melhor que o tradutor seja não vai ser igual, aprende inglês e lê no original. Essa posição foi mudando ao longo dos anos e hoje eu acho que é realmente um exagero, afinal, um trabalho bem pensado e bem feito consegue trazer não tudo, mas grande parte da beleza intrínseca do Tolkien.”

Beleza essa que ficou ainda mais realçada ao trabalhar com a tradução dos textos: “Para mim, às vezes lendo Tolkien, tem uma percepção da beleza e da verdade, pensando em termos clássicos. A beleza da linguagem em estado bruto, em estado puro. Para aquele diamante que saiu da terra e parece pronto. Tolkien me dá muito alento, muita esperança, muita coragem. A visão que ele tem do sofrimento e da beleza do mundo que está ao nosso redor e que transparece nos textos mexe muito comigo.”

Os trechos favoritos das obras que Reinaldo traduziu mesclam-se com suas passagens mais trabalhosas de traduzir. Em A Queda de Gondolin, por conta de sua estrutura em rima aliterativa anglo-saxônica, o poema que traz o juramento de Fëanor foi uma das passagens complicadas de trabalhar.

Dão-nos essa paga     os Deuses néscios,

a inveja dos Valar,     que em vão nos guardam,

a pedir nosso canto    em doces jaulas,
nossas joias e gemas  ajustam em rol,
seu deleite no ócio     a beleza dos Elfos,
enquanto a obra         de eras se esvai

e Morgoth não dominam,     mansos, sentados

em concílio insosso.      Ora sus, ó vós
de coragem e esperança!     Meu rogo ouvi,

livres fujamos     para longe daqui!

livres fujamos     para longe daqui!

The Oath of Fëanor, Jenny Dolfen

Mesmo assim, o texto que traz o excerto acima ocupa um lugar como favorito ao lado do texto do conto original, este presente por conta da sua linguagem arcaica e brincalhona.

O Silmarillion é um dos textos de leitura mais complexa para quem só conhece O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Assim, o “Ainulindalë”, que narra criação do mundo em forma de canção, trouxe mais dificuldade por conta dos termos musicais utilizados para descrever a canção, além do próprio ritmo do texto que é cantado. Ainda que Reinaldo tenha traduzido amadoramente antes este texto, não foi mais fácil trabalhá-lo.

Então, Ilúvatar disse a eles: “Do tema que declarei a vós, desejo agora que façais, em harmonia e juntos, uma Grande Música. E, já que vos inflamei com a Imperecível Chama, mostrareis vossos poderes ao adornar esse tema, cada um com seus próprios pensamentos e desígnios, se desejar. Mas sentar-me-ei e escutarei e ficarei contente que através de vós grande beleza despertou em canção.”

Então, as vozes dos Ainur, tal como harpas e alaúdes, e flautas e trombetas, e violas e órgãos, e tal como incontáveis corais cantando com palavras, começaram a moldar o tema de Ilúvatar em uma grande música; e um som se levantou de intermináveis melodias cambiantes tecidas em harmonia, que passou além da audição para as profundezas e para as alturas, e os lugares da habitação de Ilúvatar se encheram até transbordar, e a música e o eco da música saíram para o Vazio, e ele não era mais vazio. Nunca, desde então, fizeram os Ainur música alguma semelhante a essa música, embora se diga que outra maior ainda há de ser feita diante de Ilúvatar pelos corais dos Ainur e dos Filhos de Ilúvatar depois do fim dos dias. Então os temas de Ilúvatar hão de ser tocados com acerto, adquirindo Ser no momento de sua emissão, pois todos então hão de entender plenamente o propósito dele em sua parte da música, e cada um há de conhecer a compreensão de cada um, e Ilúvatar há de dar a seus pensamentos o fogo secreto, comprazendo-se neles.

Além do texto do “Ainulindalë” que traz esta passagem, estão entre os favoritos o “Valaquenta” e “A Queda de Númenor”, este último por dizer muito sobre a nossa situação atual.

Finalmente, O Hobbit tem como passagens favoritas os poemas de retorno para casa de Bilbo, a cena da flecha de Bard e a famosa advinha no escuro, que repetimos abaixo:

Gollum subiu em seu barco e saiu apressado da ilha, enquanto Bilbo estava sentado na margem, totalmente desacorçoado, no fim da linha e sem mais nenhuma ideia. De repente, eis que apareceu Gollum, que sussurrou e sibilou:

“Bença e sabença, meu preciosssso! Acho que é um banquete daqueles; pelo menos seria um bocado gostoso para nós, gollum!” E, quando dizia gollum, ele fazia um barulho de engolir horrível na garganta. Foi assim que ele ganhou seu nome, embora sempre chamasse a si mesmo de “meu precioso”.

O hobbit quase pulou até o teto quando o sibilo chegou a seus ouvidos e, de repente, viu os dois olhos pálidos se projetando na sua direção.

“Quem é você?”, disse, colocando a adaga na frente do corpo.

“O que é ele, meu preciosso?”, sussurrou Gollum (que sempre falava consigo mesmo por não ter ninguém mais com quem falar). Era isso o que ele tinha vindo descobrir, pois na verdade não estava com muita fome no momento, apenas com curiosidade; do contrário, teria agarrado primeiro e sussurrado depois.

“Sou o Sr. Bilbo Bolseiro. Perdi os anãos e perdi o mago e não sei onde estou; e não quero nem saber, desde que consiga sair daqui.”

“O que ele tem nas suas mãoses?”, disse Gollum, olhando para a espada, da qual não estava gostando muito.

“Uma espada, uma arma que veio de Gondolin!”

“Sssss”, fez Gollum, ficando muito educado. “Talvêiz cê se senta aqui e conversa com ele um pouquim, meu preciossso. Ele gosta de adivinhas, talvêiz ele gosta, né?” Estava ansioso para parecer amigável, por enquanto pelo menos, e até que descobrisse mais sobre a espada e o hobbit, se ele estava mesmo sozinho, se era bom de comer e se ele, Gollum, estava realmente com fome. Adivinhas eram a única coisa em que ele conseguia pensar. Propô-las, e às vezes respondê-las, tinha sido o único jogo que ele jogara com outras criaturas engraçadas sentadas em suas tocas muito, muito tempo atrás, antes que ele perdesse todos os seus amigos e fosse expulso, sozinho, e rastejasse para o fundo, para o escuro sob as montanhas.

A Queda de Gondolin, O Silmarillion e O Hobbit já estão nas livrarias, mas ainda há muito da obra de Tolkien a ser publicado. Atualmente Reinaldo está trabalhando na tradução de Árvore e Folha, edição que traz o famoso ensaio On Fairy-stories que passará a se chamar Sobre Estórias de Fadas e o conto alegórico Folha, de Cisco. Esta nova versão trará uma introdução especial escrita por Christopher Tolkien, o poema “Mythopoeia” e a única peça de teatro escrita por Tolkien, “The Homecoming of Beorhtnoth Beorhthelm’s Son”, que se passa no período anglo-saxão da Inglaterra.

Ainda que a tradução desta coletânea tenha sido a dissertação de mestrado de Reinaldo, o trabalho não se torna menos desafiante. Mais uma vez a rima aliterativa aparece, complicando a mudança das línguas, além de pensar de forma poética para que o texto original não se perca. O ensaio teórico, até por ser o mais conhecido, está recebendo notas com as referências teórico-literárias feitas por Tolkien que podem se perder para o leitor brasileiro. O desafio comum à coletânea como um todo é a variação de estilos e temas presente em cada texto que compõe o livro.

Tree and Leaf (HarperCollins UK)

Para as próximas traduções de Tolkien que ainda não foram iniciadas, Reinaldo tem gosto especial pelos livros finais do History of Middle-Earth. Isso porque “em geral, eu gosto muito dos textos da primeira era e de Númenor” justifica Reinaldo. Além destes volumes, o tradutor está de olho nos ensaios teóricos de Tolkien, publicados principalmente por conta de seu trabalho como acadêmico, e no livro The Road to Middle-Earth, de Tom Shippey, um dos maiores estudiosos de Tolkien no mundo.

Fora do universo tolkeniano, Reinaldo gostaria de poder traduzir Ursula K. Le Guin, autora de ficção científica renomada. A escolha por ela se dá por conta de Reinaldo ver em sua obra “aspectos muito tolkenianos nela, mas também tem características muito próprias”. Segundo o tradutor, quem mais se aproxima de Tolkien na criação de mundos e trabalho com a linguagem é ela.

Além de Ursula, alguns dos autores que estão na lista de Reinaldo estão Michael Chabon, autor judeu norte-americano que mistura fantasia e ficção científica e ganhou um Pulitzer em 200; Orson Scott Card, autor da saga O jogo do exterminador que já foi traduzida para o Brasil; T. H. White, especialmente a obra The once and future king que recria a lenda do rei Artur, e Thomas Mallory com o seu famoso livro A morte de Artur, deixando claro seu gosto pelas histórias do ciclo arturiano.

Tendo um mestrado e um doutorado sobre Tolkien e publicando livros de divulgação científica, é natural perguntar quando teremos um livro sobre Tolkien escrito pelo próprio Reinaldo. “Eu gostaria muito publicar algo autoral, mas ainda não tive a ideia. Quero muito, mas preciso pensar em alguma coisa inovadora e que não chova no molhado.”

Para quem quiser conferir a entrevista completa – meia hora de vídeo respondendo todas as nossas vinte perguntas! – é só assistir ao vídeo:


Fernanda Correia é jornalista, leitora de Tolkien desde os 14 anos e ficou ofendida que Gandalf não apareceu no seu aniversário de 33.


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