Em defesa de Harry Potter

por Beatriz Masson

Vou iniciar este texto partindo de uma generalização: a grande maioria dos leitores de Harry Potter, que dedicou inúmeras horas de sua vida relendo a série e assistindo aos filmes, afirmam não gostar do bruxo protagonista. Vários fóruns em grupos na internet se dedicam a discutir como o chamado Menino Que Sobreviveu não teria durado até o final de A Pedra Filosofal se não fosse pela ajuda de Hermione Granger, sua amiga extremamente inteligente. Em um levantamento feito no ano de 2017 na Inglaterra, publicado pelo jornal espanhol El País, uma empresa de pesquisa chamada YouGov divulgou que a maior parte dos cidadãos britânicos entrevistados tinham Hermione como personagem preferida de Harry Potter. Harry, o protagonista e “dono” da história, aparecia somente em terceiro lugar, atrás do professor Alvo Dumbledore.

Em meu próprio estudo de mestrado, na qual realizei uma pesquisa de campo com os participantes do curso de extensão “Harry Potter: Caminhos Interpretativos”, na USP, recolhi um dado similar ao publicado pelo El País. Uma das perguntas do questionário era “Com qual personagem você se identifica mais: Harry Potter, Rony Weasley ou Hermione Granger?” e, para a minha grande surpresa, mais da metade das pessoas que responderam ao questionário disseram se identificar com Hermione. Rony ficou em segundo lugar e, Harry, em terceiro. Apesar de não ter conseguido mapear detalhadamente o motivo de as pessoas desgostarem de Harry, a convivência com os alunos do curso de extensão e com os leitores que participaram de um clube do livro de Harry Potter que mediei em 2018 me forneceram algumas pistas que poderiam justificar o fato de o garoto não ser um personagem tão benquisto quanto Hermione ou Rony.

As pessoas costumavam afirmar que Harry era “chato” por não dar conta de fazer nada sozinho — nem salvar o mundo bruxo nem fazer sua lição de casa, por exemplo. Além disso, o adjetivo “cabeça quente” sempre aparecia atrelado ao discurso dessas pessoas em frases como “se Harry não fosse tão cabeça quente, seu padrinho teria sobrevivido”. Até o fato de Harry ter uma predisposição natural para salvar aqueles que precisam de ajuda também parece ser um problema, de modo que era comum ouvir relatos do tipo “se Harry não tivesse bancado o herói em O Cálice de Fogo, ele teria ganhado mais pontos na segunda prova.” A impressão que fica é que Harry Potter estaria bem melhor sem o Harry Potter!

Não acredito que a série estaria melhor sem seu protagonista, até porque o Mundo Mágico criado por J.K. Rowling não existiria se não fosse pela história pessoal de Harry. Neste texto, falarei um pouquinho a respeito da construção desse protagonista tendo por base alguns pontos analíticos, como a separação da série em três blocos narrativos diferentes, com respaldo nos enredos de cada um dos sete livros, e como a construção do protagonista tem influência muito forte da novela romanesca e, principalmente, do romance de formação inglês.

O primeiro bloco narrativo de Harry Potter abarca os três primeiros volumes da série: A Pedra Filosofal, A Câmara Secreta e O Prisioneiro de Azkaban. Esses três livros compartilham algumas características estruturais mais simples se comparadas aos quatro livros seguintes: seguindo o estilo das narrativas policiais, Harry, Rony e Hermione se veem compelidos a resolver charadas e mistérios para tentar afugentar a ameaça de Voldemort à escola. Resolvido o mistério, cada um dos personagens retorna para suas casas e aguarda as aventuras que acontecerão no ano letivo seguinte.

Falando especificamente de Harry neste primeiro ponto da história, o garoto possui algumas características que parecem “ter vindo de fábrica”: ele é naturalmente corajoso, curioso, prestativo e se deixa guiar por seus instintos. No primeiro bloco narrativo da série, todas essas características do garoto são muito salientadas, tornando-se praticamente sua marca registrada. Nesse sentido, o Harry dos três primeiros livros não apresenta uma evolução tão grande enquanto personagem, porque o mínimo que se espera do Menino Que Sobreviveu é que ele possa salvar sua escola no final do dia.

Por conta disso, em A Pedra Filosofal¸ A Câmara Secreta e O Prisioneiro de Azkaban, Harry muito se assemelha aos heróis das narrativas épicas e romanescas, cujas ações são muito mais pautadas em suas habilidades inatas, como a coragem, a força e a bravura do que, necessariamente, por habilidades que são adquiridas conforme o indivíduo ganha experiência. A semelhança com esses personagens é tanta que Harry é designado para a casa de Grifinória, que acolhe os alunos destemidos e leais e que tem como símbolo um cavaleiro medieval, um grande símbolo de heroísmo.

Nos estudos sobre a novela romanesca, Northrop Frye (1976) destaca alguns temas que são recorrentes nesse tipo de narrativa. Saliento aqui a busca do personagem por sua verdadeira identidade:

O tema da reestruturação da memória é, naturalmente, um elemento de reconhecimento cênico, já que a ação normalmente retorna ao início da história e a interpreta de forma verdadeira. O elemento narrativo favorito da reestruturação da memória é o que chamo de talismã de reconhecimento, um emblema ou objeto, uma marca de nascença no corpo, um símbolo colocado junto ao personagem quando criança, que simboliza sua verdadeira identidade.

(Frye 1976, p. 145, tradução nossa)

Harry cresceu acreditando que seus pais haviam morrido em um acidente de carro, o mesmo acidente que deixou em sua testa uma misteriosa cicatriz em forma de raio. Essa cicatriz sempre foi a única coisa que o garoto gostava em sua aparência, que era objeto de desdém por seus tios detestáveis. Além de possuir essa marca de nascença não usual, Harry possuía habilidades completamente inexplicáveis, que não cabiam dentro do mundo em que ele estava inserido.

Rúbeo Hagrid, o amável meio gigante guarda-caças de Hogwarts, é o primeiro personagem que explica ao garoto o motivo de sua cicatriz existir. Ao descobrir que é um bruxo, que sua cicatriz foi produzida por um vilão desumano que assassinou seus pais e que ele, Harry, havia conseguido sobreviver à maldição do vilão com apenas um ano de idade, o garoto entra em estado de negação. Ainda que levasse uma vida infeliz com seus tios horrorosos, Harry acreditava que ele era “só Harry”, afirmação que mostra como o personagem não se considerava nada especial.

Arte de Jim Kay

Harry era o mais extraordinário dos garotos vivendo dentro do mais ordinário dos mundos, a sociedade trouxa. E, mesmo dentro do mundo bruxo, completamente extraordinário aos olhos dos personagens trouxas, Harry era um menino que se destacava por ter conseguido derrotar Voldemort com tão pouca idade. E a narrativa dos três primeiros livros se dedica a nos mostrar como esse personagem é realmente tudo isso que se espera dele: sendo um bruxo muito jovem, ainda criança, Harry consegue salvar a pedra filosofal, os amigos trouxas e mestiços que estavam sendo atacados por um basilisco e seu padrinho por conseguir produzir um feitiço muito avançado para um bruxo de sua idade.

Além disso, as narrativas de A Pedra Filosofal, A Câmara Secreta e O Prisioneiro de Azkaban atuam, também, como restauradoras da memória. São narrativas focadas no passado de Harry, já que ele vai descobrindo mais a respeito de sua história e da história de seus pais nos corredores da escola. Assim como seu pai, Harry é um exímio apanhador no jogo de quadribol, o que é motivo de muito orgulho para ele. Da mesma forma que Tiago Potter, ele recebe punições por tentar fazer o certo de uma maneira não necessariamente aprovada legalmente. Assim como sua mãe, ele não hesita em ajudar aqueles que mais precisam. Ao entender melhor sobre sua ascendência, Harry descobre o porquê de ele ter essas características inatas que o aproximam tanto das de um herói: sendo filho de Tiago e Lílian Potter, bruxos atuantes no movimento anti-Voldemort, não havia outro jeito de o garoto ser diferente.

A própria estruturação do primeiro bloco narrativo favorece para que Harry tenha sua memória restaurada e para que ele mostre essas suas habilidades inatas, já que a narrativa é linear e focada apenas na resolução do problema colocado no início de cada história. É fácil que Harry seja o herói que salva o dia quando a ameaça é focada em terceiros. Mas o que acontece quando Harry precisa lutar para salvar a própria vida?

Esse questionamento ronda a estruturação do segundo bloco narrativo, que é composto apenas pelo livro O Cálice de Fogo. Um livro visivelmente maior que os demais, com quase três vezes a quantidade de páginas, sua estrutura enquanto narrativa deixa de ser tão simplista: há, ainda, um mistério a ser resolvido, na medida em que Harry deve tentar descobrir quem o colocou para participar de um torneio mortal para um bruxo de sua idade. Mas esse mistério é parte de apenas um plano da narrativa, já que várias outras subtramas são desenvolvidas no decorrer da história.

No quarto volume da série, vemos que Harry não é construído apenas à luz do heroísmo. Ao ser obrigado a participar do Torneio Tribruxo, uma prova física que testa os conhecimentos de bruxos maiores de idade no maior estilo dos doze trabalhos executados por Hércules e que cujo prêmio é receber a glória eterna (apenas a glória eterna!), Harry precisa aprender a cuidar de si mesmo antes de tentar salvar aqueles que necessitam. Esse bloco narrativo é muito centrado no presente, no agora das ações do protagonista. Até aqui ele já teve muito contato com as histórias do passado que compõem a sua origem, mas, uma vez que isso é superado, o narrador de Harry Potter guia o leitor para aquilo que o protagonista está vivendo no momento em que a história está sendo enunciada.

O garoto presencia o retorno de Voldemort em plena forma física, testemunha o assassinato de Cedrico Diggory a mando do vilão e é obrigado a duelar contra ele por sua vida. Ao final da narrativa, Harry é desacreditado pelas autoridades bruxas que não se convencem do retorno de Voldemort. Mesmo ganhando o Torneio e levando para a casa a glória eterna, vemos um personagem totalmente amedrontado e traumatizado, o que mostra que não há nobreza o suficiente no mundo que consiga bloquear os sentimentos de tristeza, impotência e frustração.

É a partir desse ponto que temos contato com o Harry do terceiro bloco narrativo, que é composto por A Ordem da Fênix, O Enigma do Príncipe e As Relíquias da Morte. Do quinto volume em diante, o protagonista dá adeus à inocência infantil e mostra uma faceta até então desconhecida do público: irritado, orgulhoso e movido, muitas vezes, pelo ódio, o Harry de quinze anos é forçado a não receber notícias de seus amigos e padrinho, perde o apoio de Dumbledore e se encontra impotente dentro do movimento que luta contra Voldemort, que, por sinal, estava circulando livremente pela sociedade bruxa.

Se os blocos narrativos anteriores exploravam mais o lado heroico de Harry, nesse terceiro vemos o personagem mostrar plenamente todo seu lado humano, já que o acompanhamos nas escolhas certas e nas escolhas erradas que faz e como ele tem que lidar com as consequências dessas escolhas. Os três últimos volumes da série mostram como o garoto deve se preparar para seu futuro, simbolizado pela descoberta de uma profecia feita para Voldemort, que previa o seguinte:

Aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas se aproxima… nascido dos que o desafiaram três vezes, nascido ao terminar o sétimo mês… e o Lorde das Trevas o marcará como seu igual, mas ele terá um poder que o Lorde das Trevas desconhece… e um dos dois deverá morrer na mão do outro pois nenhum poderá viver enquanto o outro sobreviver… aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas nascerá quando o sétimo mês terminar…

Ao tomar consciência dos dizeres “e um dos dois deverá morrer na mão do outro pois nenhum poderá viver enquanto outro sobreviver” Harry entende — e aceita — que seu futuro deverá, sim, ser marcado por um embate mortal contra Voldemort. Para chegar até este ponto, de entender e aceitar que não há como escapar de um futuro tranquilo, Harry passou por um processo muito grande de amadurecimento, que o leva de criança curiosa e inocente a adulto ciente de seu destino. Esse processo acontece ao longo da narrativa dos sete livros e apresenta uma aproximação muito grande com o gênero do romance de formação, principalmente com o que foi escrito na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX.

Em The Way of The World (1987), Franco Moretti fala a respeito das diversas roupagens que o Bildungsroman teve na Europa ao longo dos séculos XVIII e XIX. O romance prototípico desta forma é Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe, publicado em 1795, que retrata o percurso de amadurecimento e desenvolvimento espiritual, social, psicológico e político do jovem que dá título ao livro. Moretti passa pelo trabalho de Goethe, mas não fala apenas dele. O autor aponta as diferenças existentes entre os romances publicados na Alemanha, na França, e, sobretudo, na Inglaterra. Para o caso de Harry Potter, interessa-nos especialmente a revisão que Moretti fez do último país.

Via de regra, o romance de formação retrata o período de amadurecimento de um jovem protagonista e como ele aprende a lidar com sua interioridade frente às adversidades do mundo. Moretti nos fala que essa forma literária é a forma da modernidade por excelência, porque a ideia que temos hoje sobre juventude passou a existir na sociedade europeia do século XVIII, junto da ideia de mobilidade. O romance de formação, portanto, seria o gênero da juventude e da mobilidade, retratando especificamente esse fragmento temporal da vida de seus personagens e seu enredo trata da forma como a passagem do tempo dentro de uma determinada sociedade influencia na mudança e no amadurecimento de seus personagens.

Mudança e amadurecimento, aqui, têm a ver com o fato de o indivíduo aceitar sua própria multiplicidade, no sentido de que ele não será o mesmo desde o começo até o fim da sua vida. Esse embate entre o sujeito e o tempo, segundo Moretti, é típico da modernidade, tendo em vista que essa é uma época marcada pela mobilidade, pelo deslocamento do sujeito e pela instabilidade; quanto mais instável é uma sociedade, mais ela valoriza a ideia de juventude. Mover-se socialmente, portanto, implica em descobrir e aceitar vertentes, potencialidades e traços de personalidade que não são fixos, assim como a realidade social:

O indivíduo moderno é marcado desde seu nascimento por essa heterogeneidade de ocupações, por um desequilíbrio perene dos seus investimentos simbólicos e emotivos. Para se tornar um indivíduo no sentido completo da palavra, ele deverá aprender a lidar com sua multiplicidade, e tentar distanciá-la de uma desarmonia cansativa.

(Moretti, 1987, p. 39, tradução nossa)

O mote do romance de formação é, dessa forma, mostrar como o indivíduo reage frente a essas mudanças, que são impostas tanto pela sociedade em que ele está inserido quanto por seus próprios desejos e motivações. Como o romance possui contornos muito próprios dentro das respectivas culturas em que ele está inserido, o romance de formação também irá trabalhar com questões que são próprias da sociedade em que ele foi escrito e publicado, onde Harry Potter compartilha muitas características com o romance escrito em sua Inglaterra natal à época de Dickens.

A particularidade do romance de formação na Inglaterra, segundo Moretti, é que, diferentemente daquele escrito no continente, ele preserva as escolhas que o protagonista fez na infância, mantendo o indivíduo fiel aos princípios que ele considerava certos antes de ter ido “viver no mundo real”. Esses valores, que são tão diferentes daqueles prezados pelo Bildungsroman em países da Europa continental, têm muito a ver com a conformidade social da Inglaterra daquela época, que era bastante estável se comparada à realidade dos outros países, e é por isso que o romance de formação de lá possui uma forma bastante distinta da produzida em outros países.

Esse é um ponto de contato entre Harry Potter e os romances escritos dois séculos antes. A todo momento, na série, é aludida a ideia de que são as escolhas dos personagens que mostram a eles seu caráter e de como é importante que essas escolhas sejam preservadas. Em A Câmara Secreta, Dumbledore enuncia: “São nossas escolhas, Harry, que mostram quem realmente somos, mais do que nossas habilidades”, prenunciando como o tema de ser fiel aos próprios princípios será um tópico que, volta e meia, voltará à tona na concepção de Harry enquanto personagem.

Arte de Mary GrandPré

Essas escolhas geram consequências, sejam elas más ou não. Aliás, “ser bom” e “ser mau” também é um produto das escolhas: em A Ordem da Fênix, livro em que o lado humano de Harry mais se sobressai, a discussão de que todos temos luz e trevas dentro de nós, importando apenas o lado que escolhemos para agir enquanto seres humanos, aparece a todo momento. Não obstante, Dumbledore, a cada encontro que tem com Harry, fala que a maior diferença que o garoto tem em relação a Voldemort é que tanto um quanto outro escolheram um lado para agir: Harry, carregado pelo amor de seus falecidos pais, escolheu agir para proteger aqueles que ele igualmente ama, e Voldemort, um ser humano que é incapaz de amar, não poderia ter escolhido outro caminho que não fosse o da maldade e da opressão.

Harry nunca nem pensou em escolher um lado que não fosse o de ficar contra o vilão, afinal de contas uma vida junto de sua família lhe havia sido negada por causa de Voldemort. Ele sempre rechaçou amizades poderosas e interesseiras, como a de Draco Malfoy, a favor dos amigos altruístas e bons, que é o caso de Rony e Hermione, além de ter escolhido pertencer à Grifinória, a casa dos alunos bravos e corajosos, em detrimento da casa de Sonserina, que é comumente associada aos bruxos das trevas. No fim das contas, Harry escolhe se sacrificar para salvar seu mundo e seus amigos, porque essa seria a única forma de aniquilar Voldemort. A todo momento o garoto está sendo fiel aos seus princípios, que guiaram suas decisões desde o primeiro volume da série, ao mesmo tempo em que ele passa por transformações e mudanças em seu jeito de pensar e agir.

Moretti aponta, ainda, mais um tópico bastante interessante sobre o protagonista do Bildungsroman inglês: o de que ele é uma pessoa comum, que permite com que o leitor se identifique mais com suas questões do que, por exemplo, com as questões de um herói mítico. Segundo o autor:

Sua função típica (a do personagem do romance de formação inglês) é a de tornar seu mundo ‘reconhecível’ por todo e qualquer leitor. Quanto mais o herói for ‘qualquer um’, com um nome do tipo ‘Tom Jones’, mais facilmente ocorrerá o processo de identificação.

(Moretti, 1987, p. 89, tradução nossa)

Conforme já discutimos, Harry possui um lado que muito dialoga com a tradição desses heróis, justamente por apresentar características de personalidade e habilidade que já “vêm de fábrica”, como ser naturalmente corajoso e curioso e ter um talento sem precedentes para executar feitos de defesa contra artes das trevas.

Mas talvez o grande mérito da série de J.K. Rowling seja o de mostrar que os anos de aprendizado de Harry em Hogwarts vão muito além dessas características que lhe são naturais: ele, assim como qualquer pessoa, sente dor, amor, raiva, angústia, impotência e orgulho ferido… características que estão bastante próximas dos homens comuns, mesmo que o protagonista do livro converse bastante com os heróis míticos e que a série esteja inserida em um universo fantástico.

A despeito de seus grandes feitos no mundo bruxo, Harry Potter ainda é Harry Potter — um menino com um nome extremamente comum e filho de uma mãe bruxa nascida trouxa. Diferentemente de Lorde Voldemort, que até troca seu nome mundano demais, Tom Riddle, em favor de um título de nobreza, ele abraça todos os seus níveis de humanidade, desde seu próprio nome até a iminência da morte, e isso parece fazer toda a diferença para que Harry seja considerado, dentro dos limites da narrativa, um grande bruxo. Durante os sete anos que compõem a história da série, ele tem que aprender a lidar com todas essas questões, além de ter de aprender (e aceitar) que sua maior função no mundo da magia é derrotar Voldemort. Esse aprendizado é o que marca a construção de Harry enquanto personagem.

No livro Por uma literatura sem adjetivos (2012), Andruetto fala muito sobre o ofício da escrita como forma de o autor retratar questões que são próprias dos homens. Estas questões, segundo a autora, acabaram gerando formas literárias, tais como o romance e o romance de formação. Sobre este último, ela afirma:

Por isso, a permanência do romance de formação, aquela estrutura narrativa nascida no marco do romantismo alemão, na qual um personagem se constrói a si mesmo durante o trânsito. O herói começa a se delinear diante de nós a partir de uma carência. Como no início dos tempos, deverá sortear provas. Não três, não sete, mas centenas de pequenas provas até chegar a esse centro precioso e ilusório que é o encontro de cada um consigo. Precário, provisório centro da vida. Quem é esse que vem conosco e chega agora, ao final do romance? Esse que no início era uma criança, um mocinho? É um homem. Como cada um de nós. Um homem singular e, ao mesmo tempo, um homem como todos. Singela verdade, eternamente repetida. 

(Andruetto, 2012, pp. 18 – 19)

Harry é a representação, nos nossos tempos, desse homem singular que é um homem como todos. Ele tem a marca da singularidade, que é sua cicatriz, ao mesmo tempo em que é tão ordinário quanto qualquer um de nós, possuindo um percurso formativo bastante próximo dos nossos.

Retomando a generalização com a qual iniciei o texto, acredito que as pessoas acham Harry um personagem “chato” justamente por ser humano demais, ser comum demais e reconhecível demais, mesmo que ele apresente um lado heroico de certo destaque. Partindo de outra generalização, parece-me mais interessante gostar de um personagem que possui poucas falhas morais, como é o caso de Hermione, ou de um personagem extremamente poderoso e versado em magia, como é o caso de Dumbledore. Não sei se um dia Harry irá alcançar um nível de popularidade como os outros personagens da série e também não sei se ele precisa de tanta aprovação externa. Mas acredito que é importante tentarmos ler e entender suas particularidades de composição, porque elas estão bem mais próximas de nossas próprias vivências e formações do que talvez possamos imaginar.


Obras citadas
ANDRUETTO, Maria Teresa. Por uma literatura sem adjetivos. São Paulo: Pulo do Gato, 2012.
FRYE, Northrop. The secular scripture: a study of the structure of romance. Massachussetts: Harvard University Press, 1976.
MORETTI, Franco. The way of the world: The bildungsroman in European culture. London: Verso, 1987.


Este texto é derivado da dissertação de mestrado “Leitores e leituras de Harry Potter”, disponível para download por meio deste link.


Beatriz Masson é Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo, com a dissertação “Leitores e leituras de Harry Potter”. Foi a idealizadora e principal ministrante do curso de difusão “Harry Potter: Caminhos Interpretativos” nos anos de 2018 e 2019.


4 thoughts on “Em defesa de Harry Potter

  1. Excelente texto! Parabéns! Lembro que quando eu era adolescente um professor me perguntou: Com qual personagem de Harry Potter vc se identifica e eu respondi sem pensar:Harry! Por mais que eu admire a inteligência e sagacidade da Hermione eu me identifico com a complexidade da personalidade do Harry e sempre gostei dele. Eu não admiro personagens perfeitinhos demais porque são completamente fora da realidade. Gosto de personagens complexos que apresentam as diversas facetas da personalidade humana. Isso é enriquecedor e aproxima a ficção da realidade. O ser humano não é formado só de virtudes. Aceitar os defeitos também faz parte do processo de moldar o caráter. Somos luz e trevas! Quem desconhece essa dualidade está fadado a viver na ignorância. Por isso sempre defenderei o Harry. Ele é um protagonista extremamente humano e talvez seja por isso que muitos antipatizam com ele.

  2. Beatriz, adorei seu texto. Confesso que nunca tive paciência para ler HP, embora seja professor de EFII – e que isso passe por entender o universo literário dos meninos. Sempre achei “perda de tempo”, pois deveria focar nos clássicos. Mas você me convenceu a ler o bruxinho e espero também refletir contigo acerca dessa perspectiva associada entre sua história e o romance de formação. Muito obrigado!

    1. Oi, Rodrigo! Que alegria em ler seu comentário! Fico feliz em ter te ajudado, de alguma forma, a refletir um pouquinho a respeito dessa obra que é tão querida e popular entre crianças, jovens e adultos. Acredito que toda leitura é válida: um livro sempre vai nos aproximar de uma realidade (fictícia ou não) diferente da nossa, e isso é muito importante para que a gente possa entender o ponto de vista do outro. Obrigada pelo feedback!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s