Existe um tipo de literatura melhor que outro?

Por Beatriz Masson

Essa é uma pergunta que ronda minha vida de pesquisadora desde que decidi iniciar meus estudos sobre Harry Potter, há sete anos. Naquela época, até então, nunca havia parado para pensar que as pessoas poderiam considerar certos livros melhores do que outros. Fui praticamente obrigada a voltar meu olhar para essa questão porque várias vezes ouvi frases como “não dá para estudar Harry Potter na faculdade! ”, e eu precisava entender o motivo de as pessoas acharem a série, que era composta pelos livros da minha vida, tão ruim assim.

O caminho de tentar entender esses motivos foi bastante tortuoso. Durante meu percurso de aprendiz de pesquisadora, ouvi que Harry Potter era ruim porque “vendia demais”, porque “sua autora virou popstar”, porque “tentaram fazer alguma coisa como O Senhor dos Anéis, mas não funcionou” e porque “livro para crianças não possuía profundidade”. O que eu depreendi disso? Bom, primeiro eu interpretei que a tal da literatura de qualidade devia ser aquela em que os livros ficavam encalhados nas estantes de livrarias, porque se um livro vendia demais, ele era automaticamente ruim.

Harry Potter Paperback Boxed Set, Books 1-7 by J. K. Rowling, Mary ...

A segunda impressão que depreendi era a de que um bom livro, um bom livro de verdade, deveria apresentar uma estética inédita, nunca antes vista na história da literatura. Se algum autor do passado servisse de inspiração para um novo escritor, automaticamente o livro deste novo escritor era ruim. A terceira e última conclusão que cheguei depois de ouvir esse tipo de comentário era a de que só literatura escrita por e para adultos era a literatura com “L” maiúsculo, já que adultos eram indivíduos completos e tinham um maior conhecimento da vida. Livros escritos para crianças eram, então, automaticamente ruins.

Claro que abusei da ironia nos parágrafos acima, mas todas essas conclusões foram norteadoras para eu tentar entender, de fato, porque as pessoas costumavam achar que alguns livros eram melhores do que outros. O curioso é que a história não acontecia somente com Harry Potter, mas praticamente com todos os livros de fantasia, com todos os livros com forte apelo do universo feminino, como O Diário da Princesa ou Crepúsculo, com romances policiais novos e antigos e com livros de terror e suspense. E, não sendo o suficiente, a diferenciação entre uma literatura “maior” e “menor” acontecia dentro do escopo desses livros “renegados”: um exemplo bastante claro disso é o eterno embate travado entre os leitores de J.R.R Tolkien e os de George R.R. Martin acerca de suas obras favoritas.

A pergunta que me fiz, depois disso tudo, foi a seguinte: o que seria, então, literatura? Para minha sorte, encontrei respaldo teórico para tentar responder a esta pergunta no livro Teoria da Literatura: Uma Introdução, de Terry Eagleton, onde o próprio autor reflete a respeito da conceituação de literatura no ocidente ao longo dos séculos. Ele nos mostra que essa definição sempre oscilou bastante: enquadrar a literatura sob o rótulo “escrita imaginativa” não é suficiente, porque, por algum tempo, ela servia para designar textos como ensaios e sermões, que possuíam fins bastante práticos. Estabelecer que a literatura eram “textos organizados com uma linguagem peculiar” também não parecia dar conta da complexidade da pergunta, porque a linguagem, sozinha, não é só o que sustenta uma narrativa ou um poema.

Eagleton afirma que essas duas categorias não dão conta de responder à pergunta porque, caso dessem, não existiria a concepção generalizada da “má literatura”, que é atrelada aos julgamentos de valor. Segundo o autor:

“Os julgamentos de valor parecem ter, sem dúvida, muita relação com o que se considera literatura, e com o que não se considera — não necessariamente no sentido de que o estilo tem de ser “belo” para ser literário, mas sim de um que tem de ser do tipo considerado belo; ele pode ser um exemplo menor de um modo geralmente considerado como valioso.” (1983, pp. 15–16)

Nesse sentido, entende-se que não podemos classificar os escritos literários “bons” como eternos e imutáveis justamente porque os juízos de valor mudam ao longo do tempo. Um exemplo bastante claro dessa afirmação é a forma com o qual a obra de Charles Dickens (séc. XIX) foi tratada com o passar dos anos: durante seu período de publicação, Dickens era considerado um “autor menor” porque vendia demais, porque sua obra foi amplamente adaptada para o teatro e porque ele tinha um extenso público infantil. O Dickens que conhecemos hoje, renomado da forma que é, só ganhou essa titulação — e, automaticamente, essa valoração — em meados do século XX, quando as universidades se dignaram a estudar sua produção.

“eu interpretei que a tal da literatura de qualidade devia ser aquela em que os livros ficavam encalhados nas estantes de livrarias, porque se um livro vendia demais, ele era automaticamente ruim.”

E é por isso que Eagleton afirma que “‘valor’ é um termo transitivo: significa tudo aquilo que é considerado como valioso por certas pessoas em situações específicas, de acordo com critérios específicos à luz de determinados objetivos.” (1983, p. 17). No limite, o que podemos entender dessa afirmação é que o valor dado à “boa” e à “má” literatura tem raízes históricas e sociais bem fortes.

O autor nos mostra que é difícil mapearmos a “essência da literatura”, justamente por ela ser extremamente moldável. E esse molde é construído à luz da época em que cada texto literário foi escrito, para dentro da necessidade de cada criação literária. É por isso que Dom Casmurro não é lido e interpretado hoje da mesma forma que era lido e interpretado há alguns séculos atrás. A Ilíada, então, nem se fala. Sendo criada por homens, e tendo eles passado por mudanças drásticas de valores no correr da história, devemos considerar a maneira como a literatura acompanha essas mudanças e tentar entendê-la à luz de seu tempo de produção.

É por conta disso que muito se perde em discussões como “O Senhor dos Anéis é melhor que Harry Potter? ”. Normalmente essas discussões não levam em consideração o contexto de criação e produção de cada autor, que, no caso explicitado, é separado por quase cinco décadas. Não se espera que a literatura produzida no século XXI seja igual a produzida no século XX justamente porque os valores históricos e sociais são outros, e, portanto, as produções são diferentes.

E isso significa que uma determinada obra é melhor que a outra? A minha mais sincera resposta é: não. Isso não significa nada além de que “as obras são diferentes porque foram escritas em épocas diferentes”, sem uma denotação qualitativa de valor. O que cabe a mim, enquanto professora e pesquisadora, é tentar entender esses contextos e ver qual foi a influência deles na forma com o qual cada autor se dedicou a produzir sua obra. Eu acho que nós perdemos grandes possibilidades de conhecermos novos e ótimos textos se insistirmos em ficarmos presos na caixinha dos livros que integram a “boa literatura”.

Costumo dizer que nosso discurso é, ainda, muito impregnado por aquilo que chamo de “escada do sucesso literário”. Em escolas e universidades, é comum ouvirmos que está tudo bem você adentrar no mundo mágico da literatura por um livro como Harry Potter. Ele é o primeiro degrau da escada. Mas espera-se que Harry Potter te leve para um segundo degrau, de uma literatura de fantasia “mais rebuscada”, como Alice, por exemplo. Contudo, ficar nesse segundo degrau por muito tempo é problemático… o ideal é que você, leitor maduro e experiente, consiga alcançar o último degrau da escada do sucesso lendo um livro como Em Busca do Tempo Perdido. Se você não conseguiu chegar lá, me desculpe, você não pode entrar no clube restrito de leitores maduros e experientes.

Ferdinand Hodler: The Reader, 1885. de 2019 | Pinturas clássicas ...
Ferdinand Hodler

Vejam que essa metáfora ilustra muito bem o distanciamento entre um leitor e outro, puramente pautado por uma questão qualitativa entre a “boa” e a “má” literatura. Assim como eu acredito que não há uma literatura melhor que a outra, não acho que há um leitor melhor que outro. Existem leitores diferentes, com gostos diferentes, que “conversam” melhor com um determinado tipo de texto. Entender essas diferenças, além de favorecer uma aproximação maior entre nosso próprio mundo e o mundo do outro, significa respeitar a individualidade desse outro, o que, no limite, deveria ser a base de toda e qualquer relação social.

Muitas reflexões podem ser retiradas da pergunta que intitula esse texto. Aqui, apresentei brevemente algumas delas, mas sei que podemos (e devemos!) aprofundar muito mais essa discussão. Como conclusão, afirmo que é importante que a gente tente desverticalizar tanto os textos literários quanto as relações construídas em torno deles, porque temos muito a ganhar se nos propormos a conhecer a “má” literatura. Mas acho importante ressaltar: conhecer e respeitar esse repertório deve se sobressair ao gosto pessoal. Ninguém é obrigado a gostar de determinado tipo de livro. Mas todo mundo deveria se propor a, pelo menos, tentar entender por que esse livro faz tanto sentido para o gosto do outro.


Obra citada

EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. São Paulo: Martins Fontes, 1983.


Esse texto é derivado do artigo A Massa na Literatura: A Recepção Crítica de Harry Potter (Revista Estação Literária, v. 13, UEL), que foi escrito em co-autoria com a Profª Drª Patrícia Nakagome, da UnB. O artigo pode ser acessado por este link: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/estacaoliteraria/article/view/27103


Beatriz Masson é mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo, com a dissertação “Leitores e leituras de Harry Potter”.

2 thoughts on “Existe um tipo de literatura melhor que outro?

  1. Em primeiro lugar gostaria de parabenizá-la pelo texto.
    1- Eu gostei muito dos critérios que foram utilizados para a pesquisa, já que são frases e pontos para expor diferenças de gosto e interpretação que se escuta no dia a dia.
    2-Concordo que cada obra deva ser analisada de acordo com seu período sócio histórico e os valores e costumes de cada período, muitas vezes isso é feito de uma forma a desmerecer a outra obra, mas acho que também é feito por um ponto positivo. Tem pessoas que escrevem textos criando um paralelo entre duas obra de período histórico diferentes, eu acho isso fantástico pois expande a leitura e compreensão, eu mesmo escrevi: A Arte da Guerra e a Batalha das Lágrimas Inumeráveis: erros e acertos analisando na perspectiva de Sun Tzu, também faço o mesmo com mangás que as pessoas também tentem a ver com uma perspectiva infantilizada de obra para crianças.
    3-Há alguns anos atras eu também tinha preconceitos como esse, acho que faz 5 anos que eu comecei a trocar o estilo literário sempre e desde então eu pude conhecer muito sobre outros estilos e escritores, e sempre recomendo isso para as pessoas quando mais sairmos do lugar mais perceptivas diferentes e conhecimento podemos adquirir eu lia literatura clássica, poesia,investigativo e psicologia e filosofia. Hoje eu leio livros inclusive : astrobiologia,física, romance, ficção científica, jornalismo,moda, poemas haikai pq até em poesia somos muito ocidentalizados, e estou começando a ler sobre Ciências pretendo ler, Origem das Espécies de Darwin. Claro! continuo lendo os estilos antigos.
    4- Já anotei o livro que a senhora citou, Teoria da Literatura: Uma Introdução
    Ler seu texto me deu uma ideia sobre o que escrever.

    1. Que bom saber que te ajudei de alguma forma, Patrick! E que legal saber também que você foi mudando sua percepção sobre a literatura ao longo do tempo 🙂

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